Eu Nunca_ O que voce faria se d - J

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Josy Stoque & Mila Wander Edição Digital 2016

Capa: Mila Wander Imagem: Geoff Goldswain Direito de Imagem concedido por Shutterstock.com 2016 Diagramação: Josy Stoque Copyright © 2016 Josy Stoque & Mila Wander Todos os direitos reservados. É proibido o armazenamento ou a reprodução de qualquer parte desta obra, qualquer que seja a forma utilizada — tangível ou intangível —, inclusive distribuir gratuitamente e de maneira remunerada sem o consentimento escrito das autoras.

Índice Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14

Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Capítulo 29 Capítulo 30 Capítulo 31

Capítulo 32 Capítulo 33 Capítulo 34 Capítulo 35 Capítulo 36 Capítulo 37 Capítulo 38 Capítulo 39 Capítulo 40 Capítulo 41 Capítulo 42 Capítulo 43 Capítulo 44 Epílogo Agradecimentos Biografias

Capítulo 1

Joseph

Itaú de Minas, Sudoeste de Minas Gerais Uma chuva torrencial está caindo lá fora e não faço ideia de que tipo de pessoa frequenta uma papelaria em um dia como este. Eu devia estar na minha cama, entre os lençóis macios, bebendo uma xícara grande de chocolate quente e mastigando os pães de queijo que a minha mãe certamente preparou. Dias de chuva, definitivamente, são impróprios para acordar cedo e ir trabalhar. Devia ser proibido fazer outra coisa que não seja prolongar o sono por mais umas cinco horas, no mínimo. Encaro as poças de água da chuva que se acumulam na calçada em frente ao estabelecimento. Solto um suspiro e tento visualizar uma manhã ensolarada. Apesar de gostar

muito de chuva, entendo que ela não é favorável para um estabelecimento comercial. A papelaria não vai nada bem e eu preciso alcançar a minha meta se quero permanecer no emprego. No entanto, já são quase dez da manhã e ninguém pisou com os pés sujos de lama na cerâmica que custo a deixar branca. Eu a limparia com gosto se significasse uma venda, umazinha que fosse. Como se escutasse os meus pensamentos, uma pessoa, toda coberta com uma capa de chuva preta, adentra a papelaria e, em menos de um segundo, consegue deixar o chão em uma coloração marrom que logo me dá nos nervos. Observo o possível cliente. Acompanho sua dificuldade de se livrar da capa, até que percebo que se trata de uma linda mulher. Da minha linda mulher. Bom, pelo menos ela será um dia. — Laurene, o que faz aqui? — pergunto e saio de trás do balcão para ajudá-la a equilibrar a capa de chuva em um aparador modesto, grudado na parede. Seus cabelos longos e loiros permanecem intactos. Laurene sempre parece ter saído de uma revista, não importa a circunstância.

— Papai não vem hoje — diz sorrindo, analisandome com seus olhos verdes naturalmente brilhantes, embora eles estejam opacos por causa do tempo frio. — Pediu que eu viesse verificar se você estava dando conta de tudo sozinho. Abro os braços para que ela perceba que não há nada para dar conta, sozinho ou acompanhado. Ser funcionário do pai de sua noiva tem suas vantagens e desvantagens. Laurene é um pouco mandona — às vezes acho que ela pensa que eu também sou seu funcionário —, mas graças a ela tenho um emprego, além de certas regalias. — A cidade está um deserto — comento. Laurene faz questão de se aproximar um pouco, exigindo um gesto de carinho. Não gosto de beijá-la durante o expediente, mas acabo me inclinando e atendendo ao seu pedido. O beijo é rápido e estalado. — Não apareceu ninguém. — Isso é ótimo! Vem comigo. — Ela segura a minha mão e me arrasta para os fundos da papelaria. Eu me deixo levar porque fico sem entender nada. — O que está fazendo? Não posso deixar o balcão sozi...

— Preciso te mostrar um trem, vem aqui. Atravessamos algumas prateleiras e estantes cheias de toda qualidade de papel, fita adesiva, itens para escritório e muita, muita cartolina. Tento puxar a minha mão a fim de me livrar de Laurene, mas ela insiste e abre a porta de serviço. Meu estranhamento se intensifica. Ela fecha a porta atrás de nós e a tranca como se lá fora existisse um monstro prestes a nos arruinar. — O que está acontecendo? — Tento buscar alguma explicação lógica. Procuro pelo interruptor e acendo a única lâmpada do quartinho de serviço. Vassouras, esfregões e inúmeros itens de limpeza dividem espaço conosco em um lugar que não deve ter mais que três metros quadrados. — Uai... O que houve? — Você não me escapa, Joseph — murmura em um tom esquisito enquanto me olha dos pés à cabeça. Fico confuso e assim permaneço até ela me empurrar contra uma parede. — De hoje não passa... Laurene se estica e consegue me roubar um beijo excessivamente molhado. O exagero se evidencia quando seu corpo choca contra o meu e ela começa a esfregar

seus seios fartos em meu peitoral. A camisa verde que uso como uniforme se amassa em segundos. Olho para ela, ainda tentando compreender que tipo de ataque é este, mas Laurene não me dá tempo e volta a me agarrar. Seus braços quase me enforcam em um abraço ensandecido, e tenho meus cabelos assanhados por seus dedos afoitos. Meus óculos de grau ficam tortos no meu rosto. — Ei! — tento afastá-la lentamente, mas minha noiva está disposta a continuar fazendo papel de maníaca. — O que pensa que... — Ah, cala a boca, Joseph! — Ela me solta em um instante, mas, no outro, já segura a barra da minha camisa e a força para cima. Travo meus braços para impedi-la. — Você enlouqueceu? — ofego involuntariamente. Sinto meu rosto esquentar devido à vergonha por finalmente ter compreendido o que ela tanto quer com essa investida precisa. Sinto também que sou um idiota por ter demorado tanto a notar. — Laurene, pare com isso! Afasto-a com mais força. Ela finalmente cede e dá um passo para trás. — Droga, Joseph! Você sempre estraga tudo! —

reclama com um timbre grosseiro, áspero. Arrumo a minha camisa e tento desamassá-la, mas percebo que é impraticável. Devolvo meus óculos para o lugar correto. — Eu não aguento mais! — Laurene, o que custa esperar um pouco? — falo com a minha voz mais suave. Sempre a utilizo quando o assunto entre nós é este. De fato, eu odeio falar sobre isto. Laurene não percebe a minha cara de pimentão? — Custa muito caro! — grita a plenos pulmões, quase estourando os meus tímpanos. — Porra, Joseph, quando vai perceber que eu quero dar a minha boceta e não aguento esperar nem mais um segundo? Pisco os olhos com mais frequência do que é aceito como normal. Não acredito que ela falou “porra” e “boceta” em uma só frase. É demais para o meu cérebro absorver. Fico embasbacado, sem conseguir encontrar palavras para traduzir o meu espanto. Laurene me analisa com ar decepcionado, esperando pela resposta que o meu corpo não consegue lhe dar. — Já chega! Cansei — sussurra de um jeito triste. — Foram dez anos: seis de namoro e quatro de noivado. São

dez anos, Joseph! Dez anos e eu nunca sequer vi o seu pau. Nem mesmo sei se ele fica duro, pronto para enfiar e dar uma gozada deliciosa. — Pelo amor de Deus, pare de falar essas coisas! — desespero-me, atingindo o auge da vergonha. — O que deu em você? Nós já conversamos sobre isso, esqueceu? Escolhemos esperar. — Eu me arrependo amargamente por ter concordado com essa decisão idiota! — rosna como um animal selvagem prestes a atacar. Laurene está muito estressada e eu sei, pela sua expressão, que este papo não nos levará a rumos positivos. — É incrível como sua mãe te convence a fazer tudo o que ela quer. — Quando foi que o assunto chegou à minha mãe? — enfureço-me. Não admito que a Laurene, e nem ninguém, fale de mamãe nesse tom estúpido. — Isso é sobre você e sua loucura repentina, sô! — Loucura repentina? Loucura repentina? — Seus olhos se tornam duas bolas enormes e agressivas, que quase saltam das órbitas. — Eu estou completamente louca há muito tempo! Quer saber, Joseph? Essa

palhaçada termina aqui e agora! Laurene destranca a porta com raiva e me deixa sozinho no quartinho. Inspiro profundamente e a sigo, sem conseguir medir o tamanho do estrago que ela fez ao chamar o nosso longo e abençoado relacionamento de palhaçada. — Eu não vou cair em pecado, Laurene! — berro enquanto percorro o caminho de volta ao balcão. Minha noiva (ou ex?) já está tentando vestir a capa de chuva, com lágrimas nos olhos. Sua emoção me trava totalmente. — Querida, pare com isso. Aguente um pouco mais, por favor. Em breve, seremos casados e poderemos nos amar sem culpa. — Uai, Joseph! Esperar por quanto tempo mais? — pergunta com a voz esganiçada. — Nossa casa está quase pronta e... — Quase pronta? Aquela espelunca só tem um punhado de tijolo de pé e você não tem mais dinheiro para o material. Nossa merda de casa nunca ficará pronta! Engulo em seco e tento não me sentir profundamente ferido pelas suas palavras cruéis. Eu não tinha comprado

um terreno grande à toa. Quero levantar nossa casa, mas com o meu salário pequeno, preciso ter paciência para dar cada passo por vez. Laurene sabe disso, sabe o quanto luto todo mês e trabalho, sem cansar, para construir o nosso ninho. Ou será que ela nunca soube? — Faço o possível por nós, sô — me explico. Ela termina de se vestir e ergue a cabeça para me mostrar um olhar sofrido. — Não faça mais nada, por favor! Acabou. Prendo os meus lábios com força. Ela não pode ter dito isso. É mentira. Laurene me ama, sempre me amou desde o colegial. Nosso relacionamento é baseado em muito amor e fé em Cristo. — Você está me deixando por causa de sexo? É isso? — Semicerro meus olhos em uma expressão irritada e confusa ao mesmo tempo. Ah, e muito envergonhada também. Essa tal palavra nunca sai direito da minha boca. Soa patética. — Não, Joseph. Estou te deixando porque cansei dessa mentira — proferiu com muita seriedade. — Que mentira? — pergunto, temeroso. Do que

Laurene está falando? — Eu não sou mais virgem — diz pausadamente, como se cada sílaba fosse uma faca enfiada em meu peito. — Desculpa. Não... Não consegui resistir. Eu queria ter te entregado a minha virgindade, mas... você nunca quis. Novamente, sou calado pela total surpresa, e de maneira negativa. Abro a boca na esperança de desabafar a mágoa que se instalou em meu coração, mas apenas solto alguns balbucios indefinidos. Gaguejo um xingamento qualquer, ininteligível até mesmo para mim. Eu não posso ter guardado, durante vinte e seis anos, a minha virgindade para uma mulher que não fez o mesmo por nós. Não posso! — O que... disse? – consigo questionar com muito esforço. — Eu transei com um cara — Laurene continua, e sinto que na verdade se diverte com o meu espanto. — Foi muito gostoso. Ele me tratou bem demais da conta. — Abro a boca de novo, mas não faço nada além de encarála com os olhos esbugalhados. — Adeus, Joseph. Não consigo lhe responder a tempo, por isso ela

resolve ir embora. Eu me coloco de novo diante do balcão, o movimento é tão rotineiro que tento me ater à normalidade para fugir dos pensamentos horríveis que não param de invadir a minha mente. Ignoro a vontade de cair no choro, prendendo meus dentes com força. No instante seguinte, a primeira lágrima simplesmente cai. Ergo a mão e a enxugo. Eu só posso estar no meio de um pesadelo apavorante. Laurene sempre foi a mulher da minha vida, minha futura esposa, a pessoa que me acompanharia pelo resto dos meus dias. Eu queria envelhecer ao seu lado. Fiz de tudo para atingir este objetivo. Dei a ela o meu coração, minha fidelidade, honestidade e respeito. Fizemos uma escolha importante, juntos, e eu me mantive fiel a essa decisão desde então. Sempre fui um homem de palavra, trabalhador, honesto. Um ser humano que sabe a diferença entre o certo e o errado. O que há de tão errado em ser certo? Passo tanto tempo sendo assombrado pelas piores ideias que quase não percebo que a chuva cessou, pelo menos temporariamente. Olho o relógio na parede e

constato que já é hora do almoço. Embora eu tenha certeza de que não conseguirei comer nada, preciso pagar umas contas importantes na lotérica, uma delas é a prestação das sacas de cimento que eu tinha recentemente encomendado para subir mais algumas paredes da casa onde eu pretendia morar com Laurene. Fecho a papelaria e saio pelas ruas de Itaú de Minas sem saber que rumo seguir. Bom, eu sei que vou à lotérica, mas não é desse tipo de rumo que eu estou falando. Todas as minhas escolhas se colocam em uma balança e começo a medi-las e a descartá-las uma a uma, percebendo que nada sobrará para mim se eu não tiver Laurene comigo. Entro na lotérica, localizada a três quarteirões da papelaria, com uma certeza: minha vida tem que mudar, do contrário não conseguirei vivê-la em paz.

Capítulo 2

Pauline

Itaú de Minas, uma cidadezinha do interior de Minas Gerais Chuva! Isso só pode ser um bom sinal. Não entendo quem não gosta. Eu amo! Parece que o tempo para quando está chuvoso, tudo fica desacelerado e posso ver de verdade o que acontece a minha volta. Sou da terra da garoa, estou acostumada a ver o céu nublado e a receber o orvalho — ou gotas torrenciais — no cabelo rebelde. Chapinha? Para quê? Meus cabelos precisam ser tão livres quanto eu! Soltos, bagunçados, espetados para todos os lados, ao sabor do clima. Não gosto de ter pressa, mas em São Paulo, a capital dos apressadinhos, era impossível. Se eu não acelerasse,

perdia a condução e chegava atrasada ao trabalho, o que era uma rotina cansativa. Gosto de calma para observar, de vez em quando, e refletir sobre tudo o que estou vendo. Decidir me mudar para Itaú de Minas, uma cidade mil vezes menor que minha terra natal — sem nenhum exagero —, não foi difícil. Eu precisava de mudança e, quando uma oportunidade se apresenta, basta colocá-la na balança junto com meu momento atual, então fica fácil chegar à melhor decisão. Bruno, meu ex-namorido bissexual, havia deixado nossa casa há quinze dias para viver uma paixão com nosso amigo gay, assumidíssimo. Como é que eu, Pauline de Freitas Dias, uma mulher liberal, que acredita em liberdade completa, poderia lhe negar a felicidade ou julgá-lo por seus sentimentos? Quem é que escolhe por quem vai se apaixonar? Nossa relação acabou bem e continuamos amigos, é claro, mas eu estava em um daqueles momentos em que devia seguir em frente. Como acredito que nada acontece por acaso, naquele mesmo dia, meu chefe me apresentou uma proposta irrecusável para assumir o Departamento

Pessoal da filial da empresa em uma cidadezinha mineira. Ele me falou com um pouco de receio, como se eu fosse rir da cara dele e sequer pensar na proposta de deixar a metrópole onde nasci para me enfiar em um cantinho esquecido do mundo. Mal sabia ele que aquela oportunidade era tudo de que eu precisava! Na maior empolgação, aceitei o cargo e cuidei da transferência com um carinho enorme. A vida é uma mãe coruja que adora me mimar. Cá estou, na terrinha do “uai, sô”, em meu primeiro dia efetivo na empresa. A mudança veio no fim de semana e, quando cheguei, já estava tudo pronto na minha nova casa. O escritório administrativo da Votorantim fica no centro de Itaú de Minas, por isso largo meu carro estacionado em frente ao moderno prédio da empresa — chega a ser pecado dirigir em um município tão pequeno, mas como estava chovendo forte e eu não queria chegar ensopada na filial, optei pelo automóvel ao sair de casa pela manhã. Caminho apenas algumas quadras até a lotérica que Milena, minha nova assistente, me disse que é a casa de

jogos mais próxima. Quero tentar a sorte! A Hiper-Sena está acumulada em nada mais, nada menos que trezentos milhões de reais e aposto meu rim que este prêmio já é meu! Não foi à toa que o assunto entrou em nossa conversa durante o cafezinho. Sou uma garota de probabilidade e sei que as chances não são boas — uma em cinquenta milhões! —, mas basta que exista para que eu acredite. Se eu fizesse um bolão, minhas chances aumentariam muito, mas dividir o prêmio com uma galera que nem conheço direito não parece o mais sensato a fazer. Afinal, o que eles fariam com tanta grana? Isso diz muito sobre uma pessoa, e eu sei exatamente o que vou fazer. Tem fila na lotérica e somente dois caixas disponíveis. Parece que todos os itauenses decidiram fazer o mesmo que eu no horário de almoço. — Bom dia! — cumprimento o senhor a minha frente, que me responde, educado. Ficamos todos bem próximos na pequena casa lotérica, mas a chuva que despencava do céu lá fora deu uma trégua. Passo as mãos nos cabelos molhados para dar

uma ajeitada neles e dou uma cotovelada em alguém atrás de mim. — Ai! — A pessoa geme e me viro para olhar. — Desculpe — me apresso em dizer, olhando bem para a cara do moço. Ele arruma os óculos no rosto, me fazendo notar seus olhos vermelhos e inchados. Coitado, esteve chorando? Por quê? — Tudo bem — responde com a voz rouca e baixa, evitando me encarar. Ele não parece nada bem, na verdade. Por que as pessoas não são verdadeiras e dizem o que realmente estão sentindo? Não gosto de ver ninguém sofrendo, me dá um dó! Fomos feitos para sorrir e chorar só é bom se for de alegria. — Veio jogar também? — puxo papo, sorrindo e tentando tirar a expressão desolada de seu rosto bonito e sério demais. — O prêmio pode mudar uma vida! — Não acredito em sorte — rebate com um típico sotaque mineiro, puxando o “r” e exagerando na velocidade da pronúncia de cada sílaba. Só não começo a

rir por causa de seu jeito meio frio ao me responder. Seus óculos escorregam para a ponta do nariz quando baixa o olhar outra vez. Meu, ele não sabe que é falta de educação conversar com os outros sem olhar nos olhos? Do que tanto se esconde? Garoto estranho! Observo enquanto empurra a armação de volta para seu lugar com o dedo indicador, em um gesto rotineiro. Noto um crucifico na ponta de uma corrente de prata em seu pescoço. Religioso. Por que a surpresa, Pauline? — Mas acredita que existe alguém dirigindo sua vida — afirmo o óbvio. — Alguém, não. Deus! — Fervoroso o rapaz! — Ou quantos nomes Ele tiver. Para mim, Ele se chama Destino. — O rapaz apenas ergue a sobrancelha, em clara desaprovação. — Foi o Destino que me guiou até essa lotérica e me fez esbarrar em você. — Estendo a mão para frente, sempre com meu sorriso inseparável. — Prazer em conhecê-lo, sou Pauline. O jovem fica espantado com meu gesto. Não mordo, não! Por fim, aceita o cumprimento, apertando minha mão

de leve. — Joseph — se apresenta sem sorrir. — Interessante. Alguém já te chamou de José? — Não. — Estranha minha pergunta, vejo por sua cara. — Ah! As pessoas confundem o meu nome o tempo todo. Às vezes é irritante, mas eu realmente gosto de ser diferente. A fila anda e o silêncio paira entre nós, já que Joseph não faz a menor questão de interagir comigo. Noto que segura uma penca de contas. Ele realmente precisa de dinheiro. Faço outra abordagem: — O que você faria se ganhasse trezentos milhões de reais? Seus olhos brilham por trás das lentes dos óculos, de maneira encantadora. Afinal, existe um sonhador escondido ali. — Terminaria minha casa... — O sorriso espontâneo que ilumina seu rosto some em uma fração de segundo. Nem imagino por que, mas sua oscilação de humor me afeta. O que está deixando este jovem tão tristonho?

Desconcertado, ele se cala de novo. — É muita grana, Joseph, você pode ter a casa que quiser. — Confiro seus dedos quando minha ficha cai. Vejo uma aliança dourada na mão direita. — Para quando é o casório? Adoro casamentos! Nunca fiz questão de ter um tradicional, com véu e grinalda, essas coisas não combinam comigo, mas amo ir às festas dos outros. As pessoas estão tão felizes que emanam alegria pelos poros — ignoro completamente os palhaços que vão apenas para falar mal dos noivos pelas costas... Gente infeliz, é o que acho! Concentro-me na música, comida, bebida e dança. São motivos mais do que suficientes para eu curtir. — O quê? — O cara fica passado. Em que planeta ele está, caramba? — Como sabe... — Faço um gesto de cabeça para sua mão, que aperta com força a papelada, e ele se interrompe. — Ah... Hum... Bem... Não sei. Tem alguma coisa errada, ninguém fica tão tenso quando descobrem que ficou noivo, ou eu estou enganada? O gesto de empurrar os óculos se repete e seus olhos se tornam ainda mais evasivos, verificando por sobre minha

cabeça quantas pessoas ainda faltam para ele ser atendido. Acho que ele quer se livrar de mim rápido, mas não desisto. — Acabei de receber uma promoção — continuo falando como se ele estivesse superinteressado. — Mas se eu ficasse milionária, da noite para o dia, ia viajar pelo Brasil e conhecer os lugares mais inóspitos do nosso país! Ele solta um risinho estranho, porém logo se cala, ciente de que fez besteira. O que eu disse de tão engraçado que o fez desamarrar a carranca por um instante? Pelo menos ele está ouvindo, é o que importa. A fila anda mais um pouco e eu me empolgo. Meus planos tomam forma enquanto falo. — Você sabia que existe um monte de quase três mil metros de altitude e quinze quilômetros de comprimento em Roraima? — Suas sobrancelhas se erguem e os óculos acompanham o movimento. — Eu quero subir, é uma longa caminhada, que leva de sete a dez dias, mas vou ver e registrar belezas exóticas que não existem em outro lugar. São únicas! — Fico sonhando acordada, vislumbrando as imagens que eu pesquisei na Internet do Monte Roraima,

na fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana. — Imagina gritar seu nome naquela imensidão toda e ouvi-lo se propagar no espaço até desaparecer? Mas você sabe que, mesmo que não possa mais escutar, o som ainda está lá, se distanciando com a brisa e tocando qualquer ser vivo que cruze seu caminho. — Faço uma pausa, redescobrindo minha própria sede pela vida, que achei que estivesse aplacada. — É o mais perto do eterno que um momento consegue chegar. Olho para ele, sorrindo, e o encontro vidrado nas minhas palavras, apesar de não participar ativamente da conversa. Seu olhar sobre mim é de pura curiosidade, então continuo tagarelando. Ao mesmo tempo em que desabafo minha necessidade patológica de falar pelos cotovelos, ainda o distraio de seus próprios problemas. Quem sabe Joseph encontra uma solução depois desse papo? — Tem um poço no Maranhão com uma lagoa de água azul translúcida. Imagina nadar pelada ali, dentro de um paredão natural? Joseph entra em uma crise de tosse ferrenha e eu o

ajudo, dando palmadas em suas costas até passar. Quando ele ergue a cabeça novamente, seu rosto pálido está vermelho feito um camarão e os olhos lacrimejaram de tanto tossir. Fico preocupada, será que ele está doente? Talvez tenha tomado muita chuva e se resfriou. — Você está bem? — pergunto, ainda segurando seu ombro. — A fila... — responde com a voz arranhada. — O quê? — Não faço ideia do que ele quer dizer. Raspa a garganta para limpá-la. — A fila andou, Pauline. Fico contente por ele ter dito meu nome. Espero ter feito um segundo amigo na cidade. Dou uns passos adiante, permitindo que algumas pessoas saiam da rua para se proteger sob o teto da lotérica lotada. Está até ficando abafado por aqui, é muito calor humano e eu adoro. Acho que por isso sempre amei São Paulo. Aglomeração é comigo mesmo. Não que eu não curta privacidade e solidão de vez em quando, mas não sempre. Gosto de pessoas, gosto muito, em todos os sentidos. — Joseph, já teve curiosidade de conhecer a

primeira cidade brasileira onde o sol nasce? — Retomo nossa conversa de onde paramos, animada com a perspectiva de ganhar o prêmio milionário e realizar cada um desses sonhos. Ele balança a cabeça negativamente, sem expressar palavra. Parece um pouco receoso, não sei dizer com certeza. — O lugar se chama Ponta do Seixas e é o primeiro local do continente americano a ver o sol nascente, todos os dias. Não seria demais poder pegar um avião e chegar lá a tempo de assistir o próximo amanhecer? — Não espero que responda. Embalada pela imaginação, me lembro de mais um destino do roteiro fantástico que estou criando no meu notebook. — Ah, seria maravilhoso! Aí eu comeria frutos do mar típicos da Paraíba antes de subir na aeronave outra vez e viajar para Goiás, só para ver o pôr do sol na Chapada dos Veadeiros. Olhar o entardecer do Vale da Lua deve ser como ver o sol de fora da Terra. Ele ri comigo e quase dou pulinhos de alegria. Acho que eu teria pulado se não fosse o grito das atendentes que, ao mesmo tempo, chamam os dois próximos da fila, ou seja, eu e Joseph. Que coincidência! Não, não existem

coincidências. É Ele, o Destino. Dou uma piscadinha cúmplice para meu mais novo amigo mineirinho antes de me dirigir ao caixa mais distante, deixando o outro para ele. — Boa tarde — cumprimento antes que a séria funcionária o faça de maneira mecânica. — Quero uma Hiper-Sena, por favor. Ouço a outra perguntar a Joseph se ele quer comprar um bolão. Contenho uma gargalhada. — Hoje não, obrigado — ele responde, todo certinho. Recebo minha cartela e minha atenção se prende nela. Sorrio para a mulher do outro lado do vidro blindado e começo a falar sozinha, como é minha mania. — Hum... vamos lá, quais números devo jogar? — Bato a ponta oposta da caneta no balcão. Ouço algumas reclamações vindas da fila, mas não ligo. Gosto de fazer a minha fézinha na hora, afinal, a coisa toda tem que ser aleatória pra poder dar certo. — Já sei o primeiro! A diferença entre as idades de meus pais. — Meu pai tem 57 anos e minha mãe, 53. Faço

a conta mentalmente e marco o 4 na folha de aposta. Paro e penso um pouco mais, talvez seja legal colocar um número alto, na casa dos cinquenta. — O segundo vai ser a idade de um dos dois — espio a balconista, sorrindo. Escolho a da minha mãe, minha melhor amiga e confidente, portando, assinalo o 53. Distraidamente, espio Joseph sendo atendido pelo outra caixa e tento pensar em mais coisas que posso usar. Uma nova ideia me acomete. — Agora, a somatória do dia e do mês em que eu nasci. — 27 de março, portanto, 27 mais 3. Pinto o quadradinho do número 30. Em seguida, reflito sobre uma data importante pra mim, além do meu aniversário. — Ah! A idade em que perdi a virgindade! Escuto um raspar de garganta e percebo que tem alguém ouvindo minhas contas, mas não sei quem é. Estou concentrada no jogo. Ignoro tudo e circulo o 16. — Namoros? — pergunto a mim mesma, recordando minhas tantas paixões. Não, somente Bruno eu levei a sério. Então, assinalo o 1. Como uma coisa leva a outra, o próximo se escolheu: — E, por último, quantos filhos

quero ter. Ah, essa é fácil! Ser filha única é muito chato! Quero ter logo uns três que é para nenhum deles reclamar de não ter amigos para brincar! Confiro os seis números: 01, 03, 04, 16, 30, 53. Estou satisfeita com as escolhas do Destino. Que a sorte esteja do meu lado! Entrego o bilhete para a atendente, com um sorriso de orelha a orelha, pois não consigo me conter. — Pronto! Cruzando os dedos! Pago a aposta mínima — estou mesmo acreditando! — e saio da lotérica com meu comprovante, não antes de notar que a funcionária do caixa de Joseph foi rápida com suas muitas contas. Ele vem logo atrás de mim, para minha total felicidade. Paro na calçada e espero que se aproxime, sob o telhado que pouco me protege da garoa que retornou, mas eu não ligo de me molhar mais. — Você vai para onde agora, Joseph? — Para a papelaria, a três quarteirões daqui. Segue reto a vida toda... — Aponta a direção, que é exatamente a oposta da minha. Que pena! Mais uma vez, seguro o riso por causa de seu sotaque

marcante e diferente. — Ah! Legal! E eu vou para o escritório da Votorantim. — Estendo a mão em um cumprimento, infeliz por não poder conversar mais com ele e conhecê-lo melhor, mas, como moramos em uma cidade minúscula, tenho certeza de que nos esbarraremos de novo. — Então, tchau, a gente se vê qualquer hora dessas. — Tchau — responde apressado, apertando muito pouco minha mão. — Boa sorte com o jogo. Vai que você ganha, sô... — Claro que vou ganhar! Você vai ver. — Vou ficar aqui, tentando escutar o nome que você vai gritar do tal monte na Roraima. Um pensamento maluco se apossa de mim e eu o revelo sem freio, mais pensando alto do que qualquer outra coisa. Às vezes minha boca consegue ser maior que a minha aspiração à liberdade. — Bem que você podia vir comigo! — Sinto meus olhos brilharem com a ideia de ter companhia para minhas peripécias. Joseph deixa os ombros caírem. Por um instante, vejo

em seus olhos um pouco da mesma empolgação que eu tenho, mas ela vai embora muito depressa. — Creio que não, mas obrigado pelo convite. Fico parada, olhando-o se virar e se curvar para frente como se carregasse toneladas nas costas, em um andar longo e ágil. Suspiro, incapaz de deixar escapar o sentimento ruim que me atormenta ao enxergar tanta tristeza em um rapaz tão jovem. Mas o que eu posso fazer? Dou de ombros, giro no meu próprio eixo e volto para meu trabalho, sorrindo e me deliciando com a abençoada chuva. Ela é um sinal de boa sorte.

Capítulo 3

Joseph

Em Itaú, mas pensando que talvez eu devesse gritar naquele monte...

O expediente termina e eu abro o caixa apenas para encarar, mais uma vez, a nota de dez reais que resume as vendas do dia. Ou melhor, a venda do dia, no singular: uma resma de quatrocentas folhas de papel ofício. Suspiro alto enquanto guardo a nota em um envelope e reorganizo o que já está organizado desde que peguei no batente, às oito da manhã. Fecho a papelaria e abro o guarda-chuva, irritado porque o tempo chuvoso não para de deixar os meus óculos embaçados. Caminho na direção da primeira parada de ônibus,

desviando das poças, procurando o dinheiro que eu tinha separado para o transporte. Vasculho o bolso da calça jeans e me surpreendo ao encontrar um bilhete lotérico. Sorrio sem qualquer motivo aparente. Eu estou destroçado, ainda descrente sobre o que a Laurene me disse, arrasado por ter notado que o meu futuro será um grande porcaria e tentado a procurá-la a fim de me ajoelhar aos seus pés e implorar para que não me deixe. Obviamente, eu não faria isso. Não faz o meu estilo e, mesmo se fizesse, tenho consciência de que o menos errado nesta história toda sou eu. A vida é mesmo engraçada. Talvez eu estivesse rindo de mim mesmo, da desgraça que me fez, por um momento, rever os meus princípios, ou talvez estivesse rindo da maluca da casa lotérica. Certamente a tal de Pauline não é itauense, pode-se perceber pelo seu sotaque e pelo modo como balança o corpo. Ela parece estar levando um choque a cada movimento, como se nenhuma posição fosse agradável o bastante para que permanecesse quieta. Além de que nenhum mineiro que se preza conversa usando palavras como “inóspitas”. Recapitulo sua

tagarelice dentro da minha mente enquanto prossigo com a caminhada, desta vez meio sem saber para onde estou indo, já que passo pelo ponto de ônibus e não paro. Os lugares que Pauline mencionou nesta tarde saltam à minha vista como se eu já tivesse ido a cada um deles. Mas é claro que nunca fui. Jamais saí de Minas Gerais. Minha viagem mais longa foi até a capital, Belo Horizonte, que fica a cerca de trezentos e setenta quilômetros daqui, atrás de uns exames que o meu pai precisou fazer. O que conheço do mundo se resume ao que vejo no jornal da cidade. Pauline foi capaz de ativar uma curiosidade que nem eu sabia que tinha. Sinto meu rosto ficar vermelho ao pensar na maluca nadando pelada em um lago, por mais escondido que seja. É impossível não imaginar uma coisa dessas. Por mais que eu seja virgem, tenho imaginação fértil. Só tento não me levar pelos desejos da carne. As pessoas costumam desprezar o ato sexual e cometer barbaridades com seus próprios corpos. Não sou desses e pretendo nunca ser. Enquanto Pauline falava sobre o monte na Roraima, eu quis, de verdade, viver aquela aventura e ter a

liberdade de gritar qualquer nome que fosse, até que o mundo inteiro pudesse ouvir. Talvez eu tenha sentido isso devido ao meu recente rompimento, já que a vontade de gritar é quase ensurdecedora. Meu coração lateja alto, enviando comandos ao meu cérebro para que ele nunca se esqueça da mágoa. Engulo em seco e, pela centésima vez desde que Laurene me deixou, procuro conter as lágrimas. O que eu faria se ganhasse trezentos milhões de reais? Penso nas respostas que eu devia ter dado à Pauline. Não quis comentar sobre a casa, pois obviamente ela não faz mais sentido, porém a resposta saiu da minha boca como se tivesse programada. Queria ter dito ao poço de inquietude em forma de mulher que eu torraria tudo comprando motos. Adoro motos, mas nunca tive uma. Também sonho em concluir os meus estudos, já que tranquei a faculdade de Serviço Social que eu cursava no município de Passos, vizinho a Itaú de Minas. Desejo dar uma vida melhor a minha mãe — embora ela não reclame de nada — e, claro, também quero realizar muitas doações. Nunca me passou pela cabeça fazer viagens. Minhas raízes estão em Itaú, amo este lugar. Tenho tudo de

que preciso neste valioso pedaço de terra e minério de ferro. Uma força invisível me fez andar reto até parar diante da casa lotérica. Está vazia a esta hora, o expediente quase encerrado. Percebo uma funcionária recolhendo alguns cartazes dispostos na parede. Já outra, chacoalha um rodo e espanta a sujeira do chão. Uma das balconistas consegue me ver. — Precisa de alguma coisa, sô? Estamos encerrando — fala em voz alta para que eu possa escutar do lado de fora. Olho para o bilhete em minha mão. Com a outra, seguro o cabo do guarda-chuva com mais força enquanto raciocino. Não costumo acreditar na sorte. Acredito no Criador, na Sua benevolência e misericórdia. Acredito que tudo na vida tem um propósito. O dinheiro é o mal do mundo. Não me vejo usufruindo de uma grana preta. Simplesmente não preciso. Mas a imagem de Pauline gritando no monte não sai da minha cabeça. Eu quero gritar no maldito monte. Quero gritar bem alto, por mais que eu não saiba o quê, muito menos por que tem de ser

lá, já que posso gritar em qualquer lugar, a qualquer momento, inclusive aqui, agora. — Ainda estão aceitando jogo da Hiper-Sena? — As palavras saem da minha boca como se não fosse eu a pronunciá-las. — Até as dezoito e quinze. Faltam cinco minutos, precisa ser rápido. — A balconista gesticula para que eu me aproxime. Fecho o guarda-chuva e invado a casa lotérica. Mostro o meu bilhete e ela me entrega uma caneta. Paro diante dos números. — Tem que ser rápido, moço — enfatiza. — O sorteio é amanhã, o sistema do Brasil inteiro vai encerrar. Tiro os óculos e limpo a lente na minha camisa para logo em seguida colocá-los novamente. Não sei quais números jogar. A voz de Pauline me alcança como se ela estivesse falando ao meu ouvido. Escutei a lógica de seu jogo mais cedo, achando superengraçada, e talvez por isso eu tenha pegado um bilhete sem preenchê-lo. Decido usar a mesma lógica. Minha memória é muito boa, portanto não tenho dificuldade alguma para me recordar. Tiro a diferença de idade dos meus pais. Minha

coroa completou 49 anos, já meu velho tem 53. Assinalo o número 4 sem pensar duas vezes. Lembro que Pauline escolheu uma das idades de seu pais, aleatoriamente, e acabo escolhendo a do meu pai. Quero muito chegar aos 53 como ele chegou, duro na queda. Logo em seguida, somo a data e o mês do meu aniversário. Nasci no dia 20 de outubro, por isso acabo somando 20 mais 10. Marco o número 30. — Faltam três minutos, moço — a funcionária da lotérica me avisa. — Só um instante, estou acabando... — murmuro, concentrado no meu raciocínio. O próximo número me faz ficar roxo de tanta vergonha. Fico curioso para saber o número que Pauline marcou, mesmo que não seja da minha conta a idade em que ela perdeu a virgindade. Nem acredito que falou isso com tanta naturalidade, e em voz alta! Como ainda sou virgem, adapto a lógica de Pauline e marco a idade em que dei meu primeiro beijo. Assinalo o número 16 a contragosto, afinal, meu primeiro beijo pertence à Laurene, dado no começo do Ensino Médio.

Meu coração salta e perco o fôlego, tamanho o meu desespero ao lembrar que a perdi do pior jeito que alguém pode perder um grande amor. Como é difícil passar por uma decepção! Tenho certeza absoluta de que jamais sofri de um modo tão intenso quanto este. Com a respiração presa, volto ao jogo e marco o número 1, referente à quantidade de namoros que tive em minha vida. Não deixo de me autointitular um grande idiota. Eu devia ter beijado outras garotas, pelo menos isso. Talvez a pancada doesse menos agora. Sempre pensei nos filhos que eu poderia ter com Laurene, portanto é fácil marcar o último número: 3. Dois meninos e uma menina. Tenho uma irmã mais velha que se cansou da cidade — sobretudo da marcação cerrada da nossa mãe — e mora atualmente em Passos. Eu queria apenas uma menina porque sei o quanto mulheres dão trabalho. Concluo o meu jogo e o entrego à balconista. Ela sistematiza os meus números no último minuto, depois me devolve o bilhete, desta vez selado e devidamente pago. Observo a combinação: 04, 53, 30, 16, 01, 03. Só de

olhar o jogo, percebo que de modo algum tenho chance de levar o prêmio. Aqueles números, no final das contas, não me dizem nada. — Nó! Acho que você foi o último jogador da rodada! — A funcionária sorri. — Boa sorte! — Obrigado. — Assinto e vou embora sem olhar para trás. A experiência de jogar pela primeira vez foi engraçada. Prometo guardar o bilhete como recordação deste dia incomum. Pego o ônibus e chego à minha casa a tempo para o jantar. Moro em uma construção de classe média um pouco distante do centro de Itaú de Minas. Meu pai chega do serviço dois minutos depois, ele trabalha em uma fábrica de cimento muito conhecida na região. Minha mãe não trabalha fora, por isso o jantar já está pronto. Decido não comentar sobre a Hiper-Sena. Dona Ana, minha mãe, detesta essa coisa de jogo. Meu tio Jailton perdeu tudo para a jogatina não faz muito tempo. No entanto, preciso avisar aos meus pais sobre o rompimento. — Laurene e eu terminados — falo de uma vez, sem

rodeios. Meus pais largam os talheres e me observam. Dona Ana é a primeira a esboçar reação. — Não acredito! — Leva uma mão à boca. Tenho certeza de que amanhã a cidade inteira saberá a novidade, ou pelo menos o grupo da igreja. Eu não me importo. — Por quê? O que aconteceu? — Uai... — meu pai não costuma tecer muitos comentários sobre o meu namoro. — Decidimos que não... Hum... Não somos compatíveis. — Compatíveis? Que conversa feia é essa, meu filho? — A mãe quase derruba uma xícara de tanto nervosismo. Continuo impassível, mantendo-me distante de propósito. — Não deu certo. Só isso. — Como não? Vocês namoram há dez anos! Oh, meu Deus, você desonrou a moça? — Não desonrei ninguém, mãe — rosno, bem chateado. Antes eu tivesse a desonrado em vez de Laurene ter me traído com outro cara. — É hora de seguir outro caminho — digo a mim mesmo para me convencer. É cada

vez mais óbvio que eu preciso trocar de rumo e tentar outra coisa. — Vamos mudar de assunto, fazendo favor? Não quero mais falar sobre isso. — Mas, meu filho, não foi apenas uma briga boba? — Não, mãe. Vamos... Mude de assunto — imploro. Dona Ana permanece contrariada, mas resolve, enfim, falar sobre outra coisa. Sei que ela me encherá o saco durante muito tempo ainda, mas me alegro por não ser nesta noite. Fico por dentro das novidades da cidade, das fofocas que ela sempre conta e do andamento do trabalho do meu pai. Eu me limito a lhes dizer que só tive uma venda e que a chuva atrapalhou o movimento na papelaria. Depois do jantar, pego o guarda-chuva e passo na casa de Laurene, localizada no fim da rua. Não, não pretendo me ajoelhar aos pés dela e implorar para que volte pra mim. Em vez disso, entrego o envelope com o dinheiro do caixa ao Seu Nico, meu ex-sogro, embora ele ainda não saiba que é ex, conforme noto em nossa curta conversa. Não me demoro dando explicações para o chefe. Sou sucinto, não ouso perguntar pela minha ex-

noiva e ele não estranha meu afastamento. Costumo dormir cedo em dias de semana, não que isso me faça acordar com menos sono às cinco da manhã, portanto antes das nove da noite já estou deitado. Evito ao máximo o sofrimento. A cidade costuma ser calma, porém fica mais ainda quando está chovendo. Meus pais assistem televisão até um pouco mais tarde, mas eu não gosto muito de TV e sempre fico de fora. Pego no sono ouvindo os pingos de chuva baterem na telha e provocarem um barulhão. Sonho com os meus braços abertos e um horizonte incrível diante dos meus pés. Dentro do sonho, grito alto um nome que não consigo ouvir, e este grito chega aos ouvidos de quem quero. Procuro por um rosto conhecido e o meu inconsciente materializa a maluca da casa lotérica. Pauline está do jeito como eu me lembro: cabelos escuros arrepiados, corpo esguio e se movendo conforme sua inquietude. E então experimento a sensação de vivenciar um instante realmente eterno, mesmo que dentro de meus próprios devaneios. A verdade é que nada é eterno, nem mesmo o amor, quanto mais um estranho momento.

A sexta-feira amanhece como todas as outras, o que muda de fato é a tristeza que resolve habitar no meu peito temporariamente. Está nublado, sem chuva, e venço a dificuldade que é levantar da cama e encarar mais um dia monótono de trabalho. Não que eu não goste de monotonia, é só que ela somada à tristeza chega muito perto do deprimente. Seu Nico me ajuda a tornar o expediente melhor por causa de sua costumeira alegria. Eu me animo por não ter que passar este tempo sozinho, trancafiado na papelaria. Os clientes voltam por causa da melhora do clima e eu quase consigo me convencer de que tudo está bem, na mais perfeita ordem. Na hora do almoço, vou ao pequeno restaurante, selfservice sem balança, que fica perto do trabalho, e logo noto um burburinho diferente entre os frequentadores. Vários deles estão em volta da pequena televisão do estabelecimento, rindo e soltando piadas que não consigo entender. Coloco o meu almoço no prato e escuto alguém falando sobre pessoas sortudas e como é importante haver milionários em Itaú de Minas. Uma pulga se instala atrás da minha orelha. Chego ao balcão para pagar pela minha

refeição e pergunto a um funcionário: — Sabe dizer o que aconteceu? Ele anota o pedido em uma ficha e me dá o troco. — Você não soube? Todo mundo está comentando! — Hum... Não soube. — Saiu no Jornal do Dia. Já tem um monte de repórter na cidade. — Algum caminhão tombou na estrada? — pergunto, pois quase sempre isso acontece. É um dos episódios mais comentados quando ocorre. E também, claro, os shows de sertanejo que comove a cidade toda. Mas é claro que eu nunca fui a nenhum. — Não, sô! O prêmio acumulado da Hiper-Sena saiu pela manhã e dois itauenses ganharam sozinhos! — Os olhos do homem brilham e meu coração se agita. — Tem gente dizendo que eles jogaram na lotérica ali de baixo. Tem uma multidão lá, querendo ver os sortudos. Cento e cinquenta milhões pra cada um, já pensou? — Nuss! É muito dinheiro — comento, mas a verdade é que não presto mais atenção em muita coisa. Uma possibilidade brilha na minha cabeça e me

surpreendo com a minha capacidade de me iludir. — Obrigado pela informação. Escolho uma mesa vazia e almoço de um jeito mecânico, quase sem mastigar o alimento. As pessoas continuam falando sobre este assunto. Um casal termina sua refeição e deixa livre uma mesa perto da televisão. Curioso por demais, resolvo trocar de lugar e permaneço atento à telinha. Segundo uma repórter, que grava ao vivo direto da entrada da cidade, o prêmio acumulado foi ganho por apenas duas pessoas no Brasil inteiro, que jogaram a mesma combinação numeral, dois casos raríssimos em um só jogo. Os itauenses estão nervosos e muito curiosos, loucos para conferir os rostos dos vencedores. Engulo em seco e saco a minha carteira com cautela quando a repórter avisa que vai repetir os números sorteados: 04, 16, 53, 01, 30, 03. Minha primeira certeza é a de que não consegui escutar direito. A mulher na TV não repete e eu me ergo no sobressalto. Deixo o almoço pela metade sobre a mesa e saio do restaurante quase correndo. Sigo até a lotérica

como se minha vida dependesse disso — e depende! —, mal podendo acreditar no meu próprio comportamento. Mas uma coisa é não precisar de muito dinheiro, a outra é ganhar muito dinheiro e não querê-lo. Não sou um desmiolado. Se tirei a sorte grande, preciso saber e quero o que é meu de direito. Por um instante, penso em Pauline. Faço uma promessa rápida e maluca: se eu ganhei mesmo este prêmio, levarei a doida da lotérica até o tal monte na Roraima, ou não me chamo Joseph Ayres. Tem um punhado de gente ao redor da casa lotérica, de modo que é quase impossível adentrá-la. Desisto em um muxoxo, e me pergunto onde mais posso conferir os números sorteados. Observo melhor a rua movimentada pelos curiosos e me deparo com um cartaz grande sobre a placa da lotérica. Nele, leio os números: 04, 16, 53, 01, 30, 03. Minhas pernas bambeiam e a visão fica meio turva. Ainda não acredito no que meus olhos veem. Tiro os óculos e limpo as lentes no tecido grosso do meu casaco. Recoloco-os sobre o meu nariz, conferindo, mais uma vez, os tais números que, há algumas horas, nada me diziam. Agora, eles me dizem muita coisa.

Dizem, principalmente, que eu sou o cara mais sortudo do Brasil! Prendo um grito de felicidade e quase me sinto implodir. Preciso de cautela, as pessoas não podem descobrir que sou o vencedor. Não me vejo chamando este tipo de atenção para mim. Guardo o bilhete no bolso, temeroso por perdê-lo, e enfrento os curiosos. Passo por eles com pressa até chegar ao balcão. Olho a funcionária de um jeito significativo. Ela me reconhece do dia anterior. Tento fazer algum sinal para lhe dizer que venci, mas que não quero alardes. A mulher não entende direito e pisca os olhos para mim. Faço uma careta estranha e pisco de volta. Ela abre um sorriso enorme, apontando para uma porta ao lado do balcão. Tento me distanciar da aglomeração e ser discreto. Ando suavemente até a tal porta e a abro como quem não quer nada. Fecho-a atrás de mim e solto um longo suspiro, satisfeito por não ter chamado atenção. Giro em meus calcanhares e percebo que estou em uma sala pequena, composta por uma mesa, dois sofás médios e alguns armários. O lugar está abafado e fede a mofo. Solto o

primeiro espirro, pois sou alérgico a este cheiro horrível. — Joseph? — escuto alguém me chamar no canto oposto da sala. — O que faz aqui? Ergo o olhar e a encontro. A maluca da lotérica. Tento sorrir, porém acabo soltando mais um espirro. Ela se aproxima e me ajuda a sentar em um dos sofás. Continuo espirrando como um louco, usando o meu casaco para tampar boca e nariz. Depois de um tempo, ganho uma trégua. — Sou alérgico a mofo — falo com a voz anasalada e Pauline sorri. Sinto meus olhos lacrimejando. — Não posso sair daqui agora, mas você precisa, vai te fazer mal sentir esse cheiro. Ei, tenho uma coisa pra te dizer! Eu ganhei a Hiper-Sena! Não é legal? — Espirro mais uma vez, de um jeito estranho, pois juntou com a absoluta surpresa. Não pode ser possível. Eu estou sonhando, com toda certeza. — Vou poder realizar tudo o que te falei ontem! Não te disse? Hein? Hein? Eu ganhei! Uhuuuul! — Pauline se levanta do sofá e começa a pular como um canguru. Ela faz acrobacias, depois dança e volta a pular. Seus gestos são mais aleatórios do que os

números sorteados. Solto uma fungada e a observo. — Não pode ser, Pauline — comento e fungo de novo. — Você lembra meu nome! — Ela fica muito contente, mais ainda. Começa a remexer a cintura, rebolando sensualmente. — Lembro... — murmuro, reparando um pouco demais no movimento de seus quadris finos. — Mas, não... pode ser. — Claro que pode! Olha! — Ela me mostra seu próprio bilhete, mas não permite que eu o segure. Vejo alguns números, o suficiente para entender que ela também venceu. Engulo um palavrão. — Isso é... — Espirro de novo. — Incrível! Inimaginável! Doido demais da conta! Que trem maluco é esse, sô? Pauline gargalha alto, acho que ri de mim, mas para assim que pego o meu bilhete do bolso e o entrego para que confira e saiba o que está acontecendo. A mulher verifica os números, depois me olha embasbacada.

— Você é o outro vencedor? — berra, apontando o dedo pra mim. — Não pode ser! — Eu falei que não podia ser! — Não acredito que copiou os meus números! — Agora ela aponta o dedo como se me culpasse por algo que eu desconheço. — Me pediram para ficar aqui, esperando o pessoal do banco chegar. Vou dizer a eles que você é um copiador! — Não copiei! Juro por Deus e pela Santíssima Igreja! Foi uma grande, enorme e gigantesca coincidência! — explico-me com ar desesperado. Ela deixa os ombros caírem e ergue uma sobrancelha. — Você é religioso — continua apontando na minha direção. — Sabe que está pecando se mentir e jurar por Deus. — Claro que sei, uai, mas é verdade. Você precisa acreditar em mim! — Eu me levanto do sofá e me aproximo dela, a fim de manter contato visual e lhe passar confiança. Vejo sua decepção se transformar e um sorriso bonito estampar seus lábios rosados. Sinto vontade de gargalhar

como nunca antes, mas me seguro. — A GENTE GANHOU! — Pauline berra e me abraça em um pulo. — A gente ganhou, Joseph! — Ela começa a pular em cima de mim, ainda me abraçando. Meus óculos saem do lugar e tenho seu corpo todo roçando no meu com agitação. Tento afastá-la, mas Pauline tem uma força incomum para mulheres de seu tamanho. — “Vamos fugir deste lugar, baby... Vamos fugir!” — Ela começa a cantar gritando, e eu não contenho minha vontade de rir. — “Pra onde haja um tobogã onde a gente escorregue!” — Ela se separa de mim o suficiente para me olhar nos olhos. Sou envolvido pelo seu cheiro e hálito quente. — Ei, Joseph, sabia que em Fortaleza tem um dos maiores tobogãs do mundo? Ai, meu Deus, eu quero escorregar nele! Fica no Beach Park! — Eu... Não sabia que... — Quero viver essa música inteira! — berra, animada. — Inclusive a parte dos corpos nus! — Pauline, eu... — Uso um pouco mais de força para desgrudá-la de mim, morto de vergonha. Estou contendo uma ereção e isso não é boa notícia. Este esfrega-esfrega

de corpos não ajuda a minha virgindade. Seus olhos abrem e ela percebe que precisa se afastar. Aleluia! — Ai, me desculpa! — Dá um tapa na própria testa. — Você tem noiva e eu falando de corpos nus. Desculpa, Joseph. Não quero que pense que sou desrespeitosa. — Eu não tenho mais noi... — Cadê sua aliança? — berra, interrompendo-me, e ergue a minha mão direita para conferir de perto. — Cadê? Estava aqui ainda ontem! Eu não a imaginei! — A gente terminou — murmuro. Sinto uma dor aguda no coração. Será que Laurene voltaria comigo se soubesse que sou milionário? Não. Ela não é esse tipo de mulher. Ou será que estou, mais uma vez, enganado? — Tadinho, gente... Não fica assim, não. — Pauline faz beicinho e eu acho seu rosto particularmente belo neste instante. — A vida é linda. Você é rico! Eu sou rica! Vai chover mulher na nossa horta, rapaz! — Nossa horta? — Fico confuso por ela se incluir na frase. — Sim! Adoro mulheres, elas são lindas. Gosto de

transar com elas às vezes, mas prefiro homens. Os dois juntos, então, que delícia! — Ela se abana, mordendo o lábio. Perco a fala e solto mais um espirro. Dou graças a Deus por ter espirrado, do contrário não saberia o que lhe responder. Devo estar parecendo um tomate aos olhos de Pauline. Meu rosto está quente, meus olhos estão irritados e nunca senti tanta vergonha na vida. Tenho vontade de enfiar a minha cabeça em um buraco, qualquer um. — Você não parece ter vivido muitas aventuras — comenta, olhando-me de cima a baixo. Seu sorriso é malicioso, mas ao mesmo tempo isso não me parece ruim. — Não, eu... sou discreto. — Percebi — fala baixo e manso, para depois apertar os olhos e praticamente gritar: — Ah, estou tão feliz! Tão, tão feliz! Ela se enrosca no meu pescoço novamente e eu me sinto fraco para afastá-la. Desisto de tentar mantê-la longe. Talvez, se ficar bem quieto, ela finalmente perceba que eu só falto morrer de vergonha com sua aproximação descarada.

Pauline me olha de perto e sorri amplamente. — A gente precisa comemorar — decide, com a voz séria. — É uma necessidade física. Vamos encher a cara depois que abrirmos nossa conta gorda. Vem comigo, por favor, Joseph? — Eu preciso trabalhar e... — Tento arranjar alguma desculpa. — Alô?! Trabalhar? — Gargalha alto. — Pra quê? Você não precisa trabalhar nunca mais! Eu já liguei pro chefe e pedi as contas sem dar explicação! Observo seu rosto e percebo que ela tem razão. Eu não preciso sequer voltar à papelaria hoje. Sou um homem livre. Livre do meu ex-sogro, de esbarrar na traidora, de ter que retornar para uma vidinha medíocre e triste. Sorrio de volta para ela, finalmente sentindo um pouco da felicidade que a atinge. Pauline segura minha nuca e encosta nossas bocas em um selinho barulhento, pegando-me no susto. Afasta nossos lábios tão depressa quanto os uniu. — É hoje! Vamos bebemorar! — grita alto, como se eu não estivesse bem diante dela.

Eu só me pergunto se sobreviverei a esta mulher ou se morrerei antes de colocar as mãos na grana.

Capítulo 4

Pauline

Ainda em Itaú, mas doida para viajar pelo Brasil inteiro Recomeçar em uma cidade nova, numa quinta-feira, é um estímulo para adiantar o fim de semana. Amo as quintas à noite! Para minha sorte, está havendo uma festa, com vários shows de duplas sertanejas em Itaú de Minas. Vim para o lugar certo. O universo está conspirando a meu favor. Só falta ganhar na Hiper-Sena, o que não demora a acontecer. Amanhã é o grande dia! Faço Milena me acompanhar na noitada, que eu ia querer mesmo se a chuva não tivesse dado uma trégua, e cantamos juntas o melhor sertanejo universitário do momento. Saímos do lugar alegres — leia-se: bêbadas! — quase ao amanhecer. Estou com fome e decido passar em

um carrinho de lanche para me empanturrar com um x-tudo e coca-cola. Se estivesse em São Paulo, iria à feira me refestelar com pastel e veria o sol nascer na companhia de meus amigos de farra. — Ah, Pauline, como me faz falta ter uma companhia para sair! — desabafa minha única amiga na cidade. — Ué, você é nova, garota! Não namora, não? Xi, falei tanto que me esqueci de perguntar se ela tinha alguém. Como sou distraída! — Que nada, sô. Meus namoros não dão certo. Não sei fazer esse trem decolar! Caio na risada. Fico imaginando um trem voando como um avião, basta incluir asas nele. Milena não entende meu rompante e me preocupo que esteja pensando que eu estou rindo dela. Tomo um gole da minha bebida gelada para molhar a garganta que se irrita de tanto rir. — Desculpe, não estou zoando com a sua cara, não. Sinto muito por seus namoros. Acho que estamos no mesmo barco. Eu até tentei juntar meus trapos com um cara, mas não durou. — Dou de ombros. — A gente era muiiiiiiiiiiiiito bons juntos!

Sorrio maliciosamente, me lembrando das peripécias que Bruno e eu fazíamos na cama. Ah! Que saudades! — Vocês tinham química? — me pergunta Milena, toda curiosa. — Sim, sim, muita! — Uai, por que acabou, então? — A gente mantinha uma relação bem liberal, sabe? Eu tenho um amigo gay que adorava participar de nossas festinhas a três. Meu ex, o Bruno, é bissexual, e eu amava vê-lo com outro homem. — Eu me debruço para cochichar em seu ouvido. — Não tem nada mais sexy, nem mesmo duas mulheres se pegando têm tanto ardor. — Afasto-me e concluo o relato em voz alta: — Pois bem, ele se apaixonou pelo Thiago e vice-versa. — Ah, que droga, Pauline. Que trem chato! Dou uma mordida no meu lanche gorduroso. — Não se preocupe — respondo com a boca cheia. — Estou feliz por eles terem encontrado o amor um no outro. A vida é assim mesmo. Eu ainda vou achar outra paixão, tão ou mais avassaladora do que a que tivemos. A comida e a Coca aplacam um pouco minha

bebedeira. Milena prefere continuar tomando cerveja em vez de encher o bucho. Quero ver essa mulher trabalhar hoje, mais tarde. Não vou pegar leve porque viramos amigas, ainda sou sua chefe. Mas, aqui na rua, não me preocupo com isso. Espero que ela seja profissional no escritório. Não me meto no que faz fora dele, isso é problema dela. Milena me acompanha até em casa porque ainda não sei andar nessa cidadezinha. Quando chegamos, convido-a para entrar e ela aceita, para minha total surpresa. Não que eu tivesse feito o convite apenas por educação, só achei que recusaria pelo avançado da hora. Vou entrando e tirando a roupa, sem pudor algum, ficando nua, pois não sou fã de lingerie. Ofereço mais uma cerveja da minha geladeira, que ela aceita. Caminha em minha direção para pegar a garrafa com um olhar vidrado, mordendo o lábio. Conheço bem essa encarada. Quando Milena se aproxima e me toca, agarrando o vidro frio, eu não vacilo. Tomo sua boca na minha, envolvendo sua cintura fina e enchendo minhas mãos pequenas com suas carnes macias. Ela retribui o beijo,

usando a língua e me enchendo de tesão. Que boca boa de beijar! Empurro-a contra o balcão, onde Milena escora a garrafa, entregando-me seu pescoço para mordiscar. Enfio a mão sob sua blusa e pego seus seios livres. Ela não está usando sutiã. Seus peitos são macios e grandes, mal cabem nas minhas palmas, e os mamilos estão duros e pontudos. Que gostosa! Arranco a roupa dela com certa urgência e sinto os respingos de cerveja nos meus pés descalços quando ela vira a garrafa no balcão, na pressa de atender minha vontade. A gente ri, porque estarmos juntas é diversão pura. Capturo os bicos de seus peitões na boca, ansiosa para sentir mais de sua pele lisinha e jovem. Adoro garotas de vinte anos, elas têm desejo e curiosidade, que eu estou muito disposta a saciar. Enfio os dedos entre suas pernas, buscando mais de seu corpo delicioso. Ela está escorregadia, tão excitada quanto eu com nossa pegação. Que vontade de chupá-la até ouvi-la gozar e depois fodê-la loucamente usando meu pênis com cinta! Não costumo ficar só na vontade, por isso, eu a levo para a cama, onde me deito sobre ela.

Terminamos gozando uma na boca da outra, ruidosamente. Quando me levanto para pegar a cinta no armário, Milena se ergue também, indo até a cozinha e pegando suas roupas. Já acabou? Brocho instantaneamente. Eu me jogo na cama, pensando em usar meu vibrador, que fica no criado-mudo ao lado da cabeceira, para terminar o serviço. Ainda estou megaexcitada. Transar com mulher dá nisso, só me atiça e não me satisfaz completamente. Fica faltando um belo exemplar de pau para meter em mim até eu não aguentar mais. É, acho que vou ter que optar pelo consolo, não vai ter jeito de descansar um pouco sem aplacar esse fogo. A moça volta para o quarto, cabisbaixa, evitando meus olhos. Ah, não! — Não sei que trem deu em mim, Pauline, isso não vai se repetir, eu juro! — Seu olhar suplicante encontra o meu. — Por favor, não comenta sobre isso com ninguém. — Deixa de besteira, Milena, a gente fez o que estava a fim, não me arrependo de nada. — Sou sincera. — Se você não estivesse de mi-mi-mi, eu ia te comer gostoso agora.

Ela engole em seco, sedenta por mais. Posso ver o desejo dilatando suas pupilas. — É que já são quase sete horas e a gente entra no trabalho às oito — se justifica. Ah, mudou de ideia, é? Imagino diversas formas de convencê-la a ficar, no entanto, não vou tentar seduzi-la. Andamos lado a lado até a porta da frente, onde paro para me despedir. — Me diga uma coisa... Por que não quer que ninguém saiba sobre o que houve? Milena faz um muxoxo estranho antes de me responder. — Todo mundo acha que sou hétero. Fico revoltada com o mundo por ser tão preconceituoso! — Meu, a gente nasceu livre, Milena, e cada um tem o direito de viver do jeito que quiser. — Pego em seus ombros e a encaro fundo nos olhos duvidosos. — Faça algo por si mesma: se assuma. Sua vida vai mudar para melhor. A gente se despede com um beijo cheio de promessas

para uma nova rodada mais tarde, afinal, já é sexta. Ai, meu Deus, que horas que era o sorteio mesmo? Não vou dormir nada hoje. Dane-se! Viver é muito mais interessante. Ainda mais se eu tiver milhões de reais ao meu dispor. Esqueço a porcaria do sexo mal acabado e trato de passar um café fresquinho para começar o dia. Quer dizer, continuar. Adoro café e, às vezes, preciso dele, principalmente quando emendo a noite com a manhã, mas como sou muito agitada, evito tomar, porque fico tão acelerada que parece que vou ter uma taquicardia. Ligo o notebook e a televisão, correndo até a cozinha para ver se a minha bebida matinal está pronta. Nem me preocupo em me vestir, ainda estou suada e melada, vou precisar de um banho para sair de casa. Para quê colocar roupas outra vez? Trago a xícara para a sala, sento-me no sofá e faço uma pesquisa na Internet sobre o resultado da Hiper-Sena. Descubro que o sorteio será transmitido ao vivo, em um canal aberto, às oito horas em ponto. Sintonizo-o com o controle remoto e aguardo que o jornal matinal, chatíssimo, acabe para eu descobrir se a sorte está do meu lado.

Enquanto espero e bebo meu café, é inevitável pensar no rapaz que conheci na fila da lotérica. Joseph é bonitinho. Mesmo que tenha tentado se esconder de mim atrás de seus óculos, que lhe dão um ar culto e certinho, pude ver o reflexo de seus olhos. Sou fascinada por este órgão sensitivo. Cara, não tem nada mais intenso e verdadeiro do que conversar com uma pessoa olho no olho. Cria-se uma ligação, um entendimento sem igual com o outro. Sua timidez me deixa triste, mas ao mesmo tempo se apresenta como um desafio. Também me mostra que eu talvez possa ajudá-lo a superar suas limitações. A primeira coisa que eu faria com meu prêmio seria dar alguma coisa a ele, algo que realmente queira muito, como por exemplo, a tal casa que mencionou. Não tem nada mais bonito do que realizar o sonho de alguém. Faria isso por aquele estranho, por quem criei uma afeição imediata. Gosto de pessoas sinceras e que possuem paixão pela vida. Eu vi essa chama nele no momento em que se abriu comigo, mesmo que em seguida tenha ficado constrangido com o rumo de nossa conversa.

Não sei bem defini-lo ainda. Preciso de mais tempo ao seu lado para nomear a impressão boa que tenho dele. Pela forma que nos conhecemos e reagimos um ao outro, percebi que somos completos opostos. E eu adoro as diversidades. Conviver com pessoas é como estar em uma eterna escola, aprendendo coisas da vida que somente as experiências pessoais dos outros podem nos ensinar. O fato de termos esbarrado me garante mais uma vez que a mão do Destino está nos guiando por um caminho que não faço ideia de onde vai dar, mas estou muito disposta a descobrir. Curiosidade, ansiedade pelo desconhecido e uma excitação crescente me tomam no instante em que decido. Vou vê-lo de novo, assim que souber o rumo do meu próprio futuro. Essa cidade é minúscula, com certeza consigo encontrar facilmente um Joseph que trabalha em uma papelaria no centro. A voz do apresentador na TV me traz de volta dos devaneios, exatamente no instante em que o sorteio vai começar. Cruzo os dedos, as pernas, os braços, tudo que puder me ajudar a ter sorte. Faço pedidos ao universo, promessas de usar bem o dinheiro, aproveitando cada

centavo em uma vida feliz e realizada. Pego o bilhete e uma caneta para conferir o resultado conforme as bolinhas nos globos rodopiam antes de parar. Um número fica preso no dispositivo de seleção aleatória e rola por uma rampa que lembra um tobogã em miniatura, fazendo eu me recordar da música do Skank e sorrir feito a menina espoleta que sempre vai existir em mim. A auxiliar, uma mulher muito bonita, pega a bola, confere o número e mostra para a banca inspetora; em seguida, o revela ao Brasil inteiro no momento em que o vira para câmera, que dá um close. Meu coração erra uma batida. Acertei o primeiro número sorteado! A voz do apresentador me faz morder o lábio em expectativa. — Zero quatro. — A diferença entre as idades dos meus pais. Os globos, que lembram gaiolas, voltam a girar e eles partem para o segundo, onde o próximo número é selecionado. Inclino a cabeça para frente, ansiosa, os olhos presos na bolinha que é cuspida e pega pela moça. Paro de respirar quando é mostrada para a lente. — Um, seis: dezesseis. — A idade em que perdi a

virgindade! Eu me lembro como se tivesse acontecido hoje. Grande semana aquela em Buenos Aires! Outra bolinha é selecionada e eu já anseio desesperadamente pelo número que vai parar na mão da assistente. Meus olhos mal piscam e a tela se preenche com a idade de minha mãe. Não acredito! — Cinco, três: cinquenta três! O sorteio continua e a próxima bola me faz levantar do sofá. Acertei uma quadra! Mesmo que eu não ganhe o prêmio máximo, já tenho direito a alguma grana. O número 1 me faz pensar em Bruno e Thiago. Será que também jogaram? Se bem os conheço, a resposta é sim. Estou vidrada nos globos girando enquanto torço por uma quina. O dinheiro que vai entrar é melhor do que a quadra. A bolinha desliza no bocal, caindo em um recipiente de metal e a auxiliar de palco exibe o número 30, a somatória do dia e do mês do meu aniversário. Cinco números acertados! Quase amasso a cartela, apesar de nem precisar conferi-la para saber exatamente cada número assinalado nela. Eles representam fragmentos

importantes e inesquecíveis da minha vida. O último número parece demorar uma eternidade para ser anunciado, minha ansiedade nas alturas, explodindo meu cérebro com uma forte injeção de adrenalina. Não consigo ficar parada. Meu peito infla ao sabor da minha respiração acelerada e ruidosa. E então minha sorte é completada, quase me fazendo desfalecer de alegria. — Zero três! — O apresentador diz com sua voz mecânica e a assistente exibe a bolinha para lente. Ela não para de sorrir e nem eu. Tenho até vontade de beijá-la! — Eu gaaaaaaanheiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Grito feito uma louca, dando pulos no meio da sala, já me sentindo milionária. Tenho vontade de sair correndo pela rua, nua em pelo como estou, anunciando para os quatro ventos que sou a nova rica do pedaço. Rica! Muito, muito rica! Abro meu arquivo no notebook com a lista dos lugares que eu pretendo conhecer, organizados por ordem de importância. Um presente que me dou depois de fazer

um intercâmbio no Canadá e um mochilão pela Europa. Está na hora de desbravar todas as belezas ocultas e quase desconhecidas do meu Brasil. Sem parar de olhar o itinerário, pego meu celular e faço a primeira de várias ligações que preciso para resolver os próximos passos de minha nova vida. — Por favor, gostaria de falar com o senhor Edivaldo, aqui é Pauline, a gerente de RH. — Após alguns instantes de espera, a voz do meu chefe se manifesta na linha. — Bom dia para o senhor também. Eu me demito, muito obrigada pela oportunidade. — Antes que ele possa responder alguma coisa, emendo: — Se o senhor aceita uma sugestão, acredito que Milena está apta para ocupar o cargo. Tenha um bom dia. Fiz minha primeira boa ação graças ao prêmio de trezentos milhões de reais que vou receber na minha conta. Tenho vontade de urrar, excitada com as possibilidades. Ligo para meu pai, para minha mãe, para o Bruno, para todos que se importam comigo! Conto sobre o prêmio, os planos de viajar imediatamente e digo que os manterei informados sobre meu destino. Todos ficam

felizes e me desejam uma boa e inesquecível viagem. Eles sabem que sou uma mulher do mundo, louca por viver, e se isso me faz bem, vão me apoiar em todas as minhas escolhas. É por isso que eu os amo, não poderia deixar de ter o mesmo sentimento que eles têm por mim. A segunda coisa a fazer é ir atrás de receber meu rico dinheirinho. Sem ele, não poderei começar minha grande aventura. Não consigo nem pensar em coisas banais como comer, tomar banho e me vestir, mas me obrigo a fazer cada uma dessas atividades corriqueiras só para conter o surto de empolgação que me faria sair em disparada sem nem ao menos cobrir o corpo. A excitação está tão a mil que precisa ser aplacada antes que eu saia de casa. No chuveiro, brinco comigo mesma, me tocando e estimulando, exatamente nos pontos mais sensíveis, que conheço bem, e finalizo alcançando o tão ansiado orgasmo com a ajuda de meu velho e bom consolo. É um clímax intenso e fabuloso, que tem o poder de acalmar meu corpo e me fazer relaxar um pouco sob a água morna e tranquilizante. Agora, sim, eu me visto com uma roupa casual,

deixando meus cabelos soltos e molhados, como gosto deles. Sem maquiagem ou qualquer artifício de beleza, que não tenho paciência no momento para fazer, tomo o rumo da rua. Ainda está nublado e o clima mais abafado do que deveria. Sob o céu cinza a cidade parece diferente. Tudo parece ter mudado de tom, cor, significância. Vou à lotérica com meu carro para chegar o mais depressa possível. Fico estupefata com a aglomeração na calçada em frente, tem até imprensa, mas consigo vencê-la para alcançar a balconista que fez meu jogo ontem e mostrar meu bilhete. Ela sorri para mim, amistosamente, me fazendo sinal de silêncio e me pedindo para entrar no reservado ao lado. — Parabéns! — me cumprimenta e abraço a primeira pessoa que posso ao receber as felicitações. A moça raspa a garganta e fica meio confusa, mas aceita meu gesto de pura alegria. — Muito obrigada! Estou tão feliz! — Eu imagino. — Sorri compreensivamente. — Acho que todo o Brasil queria ganhar este prêmio. Foi muita sorte sua e do outro ganhador, também morador de

Itaú. — Jura que vou ter que dividir meu prêmio? Caio na risada, ao contrário do muxoxo que talvez ela esperasse. Que prazer será poder comemorar esse feito inédito com outra pessoa. Quem sabe ganho um novo amigo, mas desta vez, milionário, tanto quanto eu! Meu coração bate forte e descompassado, chego a sentir o pulsar no meu ouvido. Mas, quando a porta se abre novamente, e Joseph entra, mal posso acreditar no Destino que o trouxe até mim. Meu terceiro passo, depois de receber o prêmio, seria procurá-lo. E cá está ele! Eu me atiro em seus braços, de tão feliz que estou. Explico a situação falando em disparada, me surpreendendo com o fato de ele ter ganhado o sorteio comigo. Depois do espanto inicial, só me resta mudar os planos e convidá-lo para viver o futuro comigo. Dois novos ricos, descobrindo juntos um Brasil quase inexplorado, principalmente pelos próprios brasileiros. Mal posso esperar para ouvi-lo dizer sim e para começar o amanhã agora mesmo. Mas antes que possamos nos decidir, o pessoal do banco chega, se

apresentando e nos cumprimentando por nossa sorte. Eles pedem para que nós os acompanhemos até a agência bancária, onde nosso gerente aguarda para nos orientar quanto ao pagamento. Somos guiados pelos fundos do estabelecimento, de modo que contornamos a multidão do lado de fora e saímos no carro do cara de terno fino e sapatos caros escondidos pelo insufilm escuro. Não contendo minha empolgação, falo sem parar, contando os detalhes da minha noite não dormida a Joseph e de como assisti ao sorteio roendo as unhas. Ele ora ri, ora ruboriza, mas se mantém praticamente calado. Seu olhar, no entanto, demonstra o quanto está maravilhado com a situação inesperada. Eu também estou, o Destino realmente nos quer juntos e eu que não vou discutir com ele. O automóvel luxuoso para no estacionamento de funcionários, de modo que entramos incógnitos no banco também. Enquanto subimos a escada para uma tal de sala vip, seguro a mão de Joseph, que está fria e úmida. Eu o olho sorridente, transmitindo a sensação maravilhosa que me invade. Adoro contato com pessoas, em qualquer

nível. Sua cara é de espanto com meu gesto espontâneo, mas não me dou por ofendida e aperto mais meus dedos ao seu redor. Ele não me recusa, apesar de parecer desconfortável. Desvia os olhos dos meus daquele jeito tímido que faz seus óculos escorregarem sem parar para a ponta do nariz. Fico o observando e, de repente, sinto uma vontade louca de abraçá-lo, beijá-lo e dizer que tudo vai ficar bem. Ele aparenta ser um menino assustado, que precisa de um pouco de carinho e atenção. Sinto uma pena enorme quando me lembro de que rompeu o noivado recentemente. Pobrezinho, ele me parece ser tão boa gente que nem imagino os motivos que fizeram sua ex-noiva largá-lo, como acho que foi o que aconteceu. Fora que é um gatinho. Não que eu seja uma pessoa fútil e superficial, que só se preocupa com beleza, pelo contrário, não ligo para a minha, muito menos para a dos outros. Ser bonito, para mim, não significa apenas ser lindo, ter um corpo perfeito ou olhos hipnotizantes. Ser belo é ter algo mais, que eu, inevitavelmente, sempre estou à procura e raramente encontro. Mas quando acho, a

pessoa se torna muito especial para mim, tanto quanto eu me empenho em ser. Fico em silêncio, absorvendo o calor de sua pele, porque falar agora quebraria todo o encanto dos sentimentos que sua presença me causa. O gerente se apresenta assim que a porta se abre. É um homem na casa dos quarenta anos, muito bem vestido, que nos recebe com um sorriso enorme e cifras praticamente desenhadas nas pupilas de seus olhos. Ele se ergue da cadeira de couro, atrás de uma mesa de reuniões que cabe pelo menos três vezes mais pessoas do que as que estão presentes no recinto, e anda em passos apressados até nos alcançar no meio do caminho. — Serei o responsável por vocês. Sejam bemvindos, meus caros ganhadores! Sentem-se, por favor. — Fazemos o que ele pede e largo a mão de Joseph para puxar minha cadeira e me acomodar diante do homem radiante. — Bem, na verdade, a coisa funciona de maneira muito simples. Preciso dos documentos pessoais de vocês para a abertura de uma conta corrente ou poupança, o que preferirem, e se ainda não forem clientes do banco. Logo

após a liberação do sistema, eu iniciarei a transação de recebimento do dinheiro em nome de vocês. O procedimento pode demorar até cinco dias úteis para ser concluído, e então vocês poderão acessar seu prêmio à vontade. Faço um cálculo matemático com a rapidez de minha mente brilhante. Sou muito boa com números, ninguém me passa a perna com facilidade. Percebo Joseph se remexendo na cadeira, se preparando para responder ao gerente, no entanto, tomo a iniciativa de negociar por nós dois. — Na verdade, a gente quer o dinheiro hoje e cartões de crédito sem limites. Ou o senhor pode esquecer a ideia de nos ter como clientes. — Pauline! — Joseph ofega tão baixinho e assustado que meu nome em sua boca parece mais um gemido do que uma exclamação. Algo dentro de mim se remexe com a associação que faço de Joseph e sexo. Nunca tive um cara como ele na minha vida e a curiosidade se soma ao excitante pensamento de tê-lo gemendo na minha cama enquanto o

faço gozar. Uso uma força de vontade enorme para tocá-lo sob a mesa de maneira não erótica, um pedido para deixar que eu resolva as coisas do meu jeito. Sempre dá certo. Continuo encarando o homem espantado na minha frente — seu sorriso deu lugar ao receio — como se minha mente não tivesse divagado por vias nada convencionais no meio de uma reunião de negócios. — Hoje é sexta-feira e não queremos passar o fim de semana sem a grana, temos importantes planos para colocar em prática. Não dá para adiá-los por mais uma semana! — Amenizo o tom de voz para não espantá-lo, afinal, a ameaça já foi feita e ficou muito clara. É pegar ou largar. O cara não vai correr o risco de perder duas contas milionárias. — Espero que o senhor compreenda e nos ajude da melhor maneira que puder. — Senhora, não depende somente de mim. A HiperSena precisa liberar a grana após a apresentação dos documentos, e tudo é feito de maneira correta e seguindo protocolos próprios impossíveis de burlar, até mesmo para a segurança dos ganhadores, no caso, dos senhores. Não desisto. Ora bolas, estou dentro de uma

instituição financeira ou não? — Acredito que o senhor pode dar um jeito, afinal, isso aqui é um banco, onde empréstimos são liberados todos os dias e o senhor sabe que temos saldo para cobrir qualquer valor que nos adiante. Sorrio de um jeito poderoso, que sempre causa impacto em quem o recebe. Esse é um daqueles gestos que dizem mais do que mil palavras. Perigoso é a melhor tradução para ele. O gerente não tem escapatória, sabe que eu estou com a razão. — Muito bem — conclui, engolindo em seco. — Vou fazer umas ligações e ver o que consigo para os senhores. Com licença. Ele vai para o fundo da sala, onde existe um ramal, e começa a conversar baixo enquanto Joseph se vira para mim com cara de susto, os olhos bem abertos atrás das lentes. — Você não precisava fazer uma cena dessas — acusa firme, uma reação que eu não esperava dele. — Não consegue esperar alguns dias? Para quê a pressa? — Como não precisava? — exaspero-me, mas tento

manter a voz baixa para não distrair nosso gerente em sua árdua tarefa. — Quanto tempo mais você quer ficar nessa cidade, debaixo do mesmo céu que cobre sua ex? Até o momento em que ela descobrir que ficou rico e quiser voltar para você? — Ele não responde, estupefato com minha ousadia. Em seguida, eu me arrependo do que disse, não queria magoá-lo, mas vejo sua expressão de dor retornar. Sua tristeza me comove. — Desculpe, Joseph, eu não devia ter dito isso. Mas eu quero começar a viver essa nova vida imediatamente e, mesmo te conhecendo ontem, acho que você também merece essa oportunidade. Esse prêmio é um presente e temos que agarrá-lo e fugir, como diz a música, lembra? Sorrio meu melhor sorriso de alegria e contentamento. A certeza de que estou certa, e de que amanhã estarei bem longe daqui, talvez a caminho do Monte Roraima, me preenche. A vida é inadiável e eu estou com pressa de me jogar nela e ser feliz, mais uma vez. A ideia de comemorar este momento com a única pessoa que entende como me sinto se fixa em mim. E nada nesse mundo, nem mesmo se uma tempestade de raios cair

sobre Itaú de Minas, vai me impedir de levar Joseph para algum lugar depois que sairmos daqui. Demora um longo tempo, mas o gerente regressa, meio sem graça, com toda a papelada necessária para nos dar um adiantamento do prêmio. Fico muito satisfeita por ter ganhado mais essa. Olho feliz da vida para meu amigo, que está maravilhado com nossa vitória, ainda que tenhamos passado a tarde trancados em uma sala, refrescada com ar-condicionado, e sendo mimados com biscoitos e bebidas à vontade. Vida de rei e rainha. Posso muito bem me acostumar com isso. — Os cartões ficarão prontos até o fim do expediente, se não se importarem de aguardar... Fico feliz em atendê-los no que precisarem. — Não nos importamos, obrigada! — Agradeço pegando mais comida. De repente, fiquei faminta. É claro que a gente lê cada linha e discute cada cláusula, concordando com tudo. Receberemos de adiantamento trinta por cento do valor total do prêmio, ou seja, quarenta e cinco milhões cada. Caraca, é muita grana! Pra quê voo comercial? Vamos alugar um jatinho! E

teremos que pagar uma pequena taxa pelo adiantamento, o que é aceitável e praticável pelas instituições financeiras. Por fim, antes das dezoito horas, estamos saindo do banco, literalmente muito mais ricos do que nunca fomos! Agarro o braço de Joseph, animada por dividir essa sorte com ele. Nada é longe em Itaú de Minas, então logo chegamos até meu carro, que está parado perto da lotérica, totalmente vazia agora. Eu me viro para ele, ansiosa para ouvi-lo dizer que sim, que vai curtir essa e todas as outras noites comigo. Opa, e dias também! — Vamos, Joseph, por favor, por favor, por favor! Hoje é o dia da virada da nossa vida, a gente precisa comemorar de alguma forma, independente de qualquer coisa! Ele abaixa o olhar de novo, empurrando a armação dos óculos em direção da testa. — Eu não sei, Pauline, minha mãe está me esperando para o jantar. Vou tentar tocar seu coração de outra maneira. Tenho para mim que ele vai amolecer. — Você vai me deixar sozinha com esse monte de

dinheiro para gastar à vontade? Você tem amigos e familiares aqui, mas eu não tenho ninguém com quem dividir minha felicidade. Ele abre a boca para responder e trava, desistindo de continuar. Vejo seus olhos inteligentes e pensativos pesando os prós e os contras de atender meu pedido. Faço figa pelas costas, torcendo para que ele me atenda. Se funcionou com a Hiper-Sena, vai funcionar com Joseph. Ele prensa os lábios um no outro, sem saber o que me dizer e fico reparando no quanto eles são bonitos e bem desenhados. Como foi que não percebi essa boca antes, mesmo depois de lhe dar um selinho? Affe, como sou distraída! Mordo os lábios, cheia de ansiedade, quase perdendo a paciência com sua falta de resposta. — Está bem, mas só um pouquinho, para comemorar. Incapaz de me conter, jogo os braços em volta do seu pescoço e lhe lasco um beijo nem um pouco inocente. Consciente desta vez, agarro seu lábio inferior com meus dentes, só para senti-lo melhor. Ele não reage, então eu o largo, sorrindo, sabendo que o peguei desprevenido e o matei de vergonha. Sua cor não nega. Dou a volta no

carro, levando-o até o banco do passageiro, e o empurro gentilmente para dentro. Enquanto volto para o lado do motorista, fico pensando em qual modelo novo eu gostaria de comprar. Sou louca pelos esportivos, tipo dos filmes Velozes e Furiosos. Como ainda está cedo para o início dos shows da noite, levo-o para um barzinho que vi ali no centro, para um esquenta. Espero deixá-lo bebinho e irresponsável, esse negócio de ser certinho o tempo todo é brochante. Vou salvá-lo de si mesmo. No bar, eu o guio de novo pelo braço até uma mesa bem posicionada. O garçom vem anotar nossos pedidos e eu peço por nós. — Duas tequilas, por favor. — E uma água com gás — acrescenta Joseph. — Boa, água é bom para não ficar bêbado, bem pensado, Joseph. — Elogio só para agradar. Que mané água! Eu quero mais é álcool. Estou virada e ainda deve ter cerveja circulando no meu sangue. Basta mais um gole para voltar com força total. — Não, não — diz apressado. — Eu não bebo. — Puta que pariu! — espanto-me geral.

— Que é isso, uma moça falando palavrão, sô? — Você não pode brindar com água. — Ignoro totalmente seu julgamento. Tenho uma carta na manga e posso jogá-la a qualquer instante nos próximos segundos. Ele dá de ombros, como se não fizesse a menor diferença. É agora! — Cara, quantos anos você tem? Doze? — Gargalho loucamente. Joseph faz careta e demora a responder. Fico rindo porque minha intenção é mexer mesmo com os brios dele. Ele fica lindinho todo ruborizado. — É uma escolha que fiz, Pauline. Prefiro não ingerir nada que me tire a razão. Gosto de ter lucidez para tomar minhas decisões e não ser influenciado por algo químico no meu sangue. Ele me espia por sobre os óculos, como se me desafiasse. Adoro um desafio! E se eu não fizer esse garoto beber álcool hoje, não me chamo Pauline de Freitas Dias! — Pois vamos fazer o seguinte. — Bato na mesa com a palma aberta, no meu estilo surtada de ser. Ele chega a

dar um pulo de susto. Eu rio. Como esse rapaz me diverte! — Se você virar essa tequila, eu juro que te deixo em paz e você poderá correr para mamãe. — O que você está insinuando? — Franze o cenho em uma careta de bravo. Ui! Ergo as mãos na defensiva, com a maior cara de palhaça. — Nada não, baby! — enfatizo a palavra em inglês, chamando-o de bebê. Espero que ele capte minha intenção, mas como é perspicaz, acredito que vá. Antes que ele possa reagir, a bebida chega. Um copo é naturalmente depositado na minha frente e o outro na dele, inclusive a garrafa de água borbulhante. Affe, nada a ver! Não deixo de sorrir, encarando-o divertida. Chego a apoiar o queixo na mão, aguardando sua decisão. Joseph fica visivelmente constrangido, indeciso e ruborizado, mas acredito que seja de raiva pelo que eu disse sobre sua idade. — Só uma? Pro brinde? — questiona, desconfiado. — Se quiser beber mais, aí é com você. — Balanço a cabeça, enfatizando.

Joseph estala a língua, impacientando-se, mas finalmente cede ao meu desejo. Ensino o ritual para beber tequila sem causar náuseas, ainda mais em novatos como ele. Tenho muita coisa para mostrar para esse menino. A gente pega os copinhos, ergue, e eu faço o brinde. — Ao nosso futuro de ouro. — Faço analogia à bebida e ao prêmio. Ele tilinta o copo com o meu, faz uma cara engraçada e vira todo o líquido do vidro na boca, de uma só vez, para meu total espanto. Normalmente quem nunca bebeu não consegue. Fico olhando, sem sorver a minha dose, aguardando o momento em que a bebida mexicana assente em seu estômago e ele perceba que não foi água que engoliu, mas fogo puro.

Capítulo 5

Joseph

Em algum lugar “inóspito” de Itaú de Minas Pauline bebe mais uma dose de tequila e grita alto, erguendo as mãos para os ares como se estivesse descendo de uma montanha-russa enorme. Acabo sentindo a mesma sensação de alegria. Não que eu já tenha descido em uma montanha-russa, mas, usando a lógica — se é que posso neste momento —, acredito que dê este frio na barriga. Desvio meus olhos dela na vã tentativa de não achá-la tão atraente. Não sei o que dá em mim. A única dose de tequila que tomei na vida me tornou um homem diferente, de alguma forma que desconheço. — Você devia beber mais disto! — Pauline berra, sem inibição, e metade do bar a encara e ri. Tenho certeza

de que a cidade toda já sabe que estou em um bar com uma desconhecida, e temo que a notícia chegue até meus pais antes que eu os avise que fui praticamente atacado por essa desmiolada. — É bom pra cacete! Amo tequila! — Aquela dose foi suficiente para nunca mais desejar colocar esse trem na boca de novo. — falo muito mais baixo que ela. — Minha barriga ainda está queimando. Como consegue tomar tantas doses? — Costume, é claro. — Pisca na minha direção e meus olhos se demoram nos seus. Não é culpa minha, ela que insiste em ficar me olhando desse jeito esquisito que me deixa sem ter ideia do que fazer. — Bom, como eu estava dizendo, ele me deixou mesmo e agora está feliz com o Thiago. Faço uma careta porque não acredito que um cara possa deixar alguém como a Pauline para ficar com outro cara. Eu só tinha visto história parecida nas novelas que minha mãe teima em assistir. Nunca pensei que pudesse ser fato real. Menos ainda todo o lance de casamento aberto e sexo a três. Isso me causa calafrios e vertigem. — Não sei, não, você me parece meio triste agora

— comento, reparando melhor em suas expressões. Pauline está sorrindo amplamente, como em todos os momentos em que reparei em seu rosto, mas é diferente desta vez. — Essa separação deve ter doído, mas você faz parecer que foi a melhor coisa do mundo. — Mas foi! Olha só, o Bruno está feliz e eu estou milionária! — Shhhh! — Pego suas mãos e quase surto quando percebo alguns clientes nos olhando com mais atenção. — Seja discreta, pelo amor do Santo Cristo! Pauline me larga e finge me ignorar. Revira os olhos e acena para que o garçom lhe traga nova dose. Já estou em minha terceira garrafa de água com gás. Ela deve estar no décimo copo de tequila, vai saber. — Faça tudo, Joseph, mas nunca me diga que escondo meus sentimentos — fala após virar a dose, lambendo o sal e o limão que lhe melam a boca. — Sou uma porta aberta, um livro de consulta imediata, uma mulher sem segredos, sem rodeios, sem pudor e com muita alegria! Sua autodescrição me deixa vidrado, mas ao mesmo

tempo muito assustado. Desvio os olhos novamente e observo a minha água. Não sei o que dizer a respeito. Sempre me considerei um livro fechado, às vezes nem eu consigo me consultar direito. Jamais pensei que uma pessoa pudesse ser diferente. Até com a Laurene eu não conseguia me abrir, mesmo depois de dez anos de relacionamento. Minha timidez e discrição me permitem ser um cara sério, educado e que faz as coisas certas acima de tudo. Nunca procurei conhecer ninguém a fundo, pois considero invasão de privacidade, por isso não permito que alguém tente me desvendar. — Tudo bem... — murmuro, e uma dúvida me acomete. — Mas então você não amava esse tal de Bruno, certo? — Claro que o amava, oras! — Desculpe, Pauline, mas não faz sentido! Ela ri de mim e eu me sinto um idiota. — Eu amo todo mundo, Joseph! Ainda não entendeu? — Sua voz desafina drasticamente. Pauline ri alto de alguma piada que não entendo, até segurar a barriga. Fico a observando por falta de opção. — Amo a

vida e as pessoas. Eu me apaixono fácil e desapego fácil também, porque não consigo perder tempo sendo infeliz ou desejando infelicidade aos outros! Reflito sobre suas palavras como se estivesse diante de um livro de Filosofia. Tiro a única conclusão que um cara como eu pode fazer: estou diante de um ser iluminado pelo bom Deus, mesmo que, a princípio, não pareça. — Nó... Deve ser incrível viver assim, sô. Você é muito especial, Pauline — solto sem encará-la, morto de vergonha e ciente do meu rosto corado. Ela segura minha mão por sobre a mesa e a aperta. Tento evitar encontrar seus olhos, mas acaba acontecendo. Pauline sorri. Penso em alguma coisa interessante para lhe contar, talvez algo referente à minha vida, mas meu celular vibra dentro do meu bolso mais uma vez. Decido que é a hora certa para parar de fugir dos meus problemas. Saco o aparelho e encaro a tela. Suspiro profundamente. — Quem está te ligando? — Pauline pergunta, muito curiosa. Tenho quase certeza de que esta informação não lhe

interessa, mas não deixo de responder: — É o meu sogro. Bom, meu ex-sogro. — Dou de ombros. — E o que ele quer contigo? Ai, será que descobriu sobre a Hiper-Sena? A ideia me deixa estarrecido. O celular ainda vibra em minhas mãos. — Ele é o meu chefe. Deve estar se perguntando onde me meti a tarde toda. — Chefe? — Pauline grita e, em um gesto impensável, toma o aparelho de minhas mãos. Antes que eu possa reclamar, atende e é direta: — Oi. Joseph não pode falar agora, mas me pediu para dizer que não vai mais voltar para... — me procura com os olhos, buscando resposta. — Papelaria — murmuro, tão surpreso quanto nunca fiquei. — Para papelaria. Desculpe, mas ele vai seguir novos horizontes, agora. — Ela faz uma pausa curta. — Meu nome é Pauline, sou amiga dele. — Outra pausa. — Estamos bebendo, não dá pra ir aí.

— Pauline, é melhor que eu... — tento, mas ela ergue uma mão e me impede de prosseguir. — Laurene? Iiiiih... Não sei. — Ela me olha e pergunta baixinho: — Laurene é sua ex-noiva? Aquiesço, engolindo em seco. Meu coração quase sai pela boca. Pauline volta sua atenção para o celular. — Não, senhor, Laurene é carta fora do baralho. Eles terminaram ontem, pelo que sei. — Uma pausa longa é feita, e quase não me contenho de angústia. — Olha aqui, meu senhor, foi sua filha quem terminou com ele. Agora, Joseph é um homem livre. Espero que nem ela e nem o senhor o importunem mais. Passar bem! Pauline desliga na mesma hora em que o garçom coloca mais uma dose de tequila diante dela. Eu me sinto tão fora de mim que me inclino e pego o copo pequeno como se me pertencesse. Viro a segunda dose da noite — e da vida —, sentindo tudo queimar dentro de mim. Este trem é ruim pra burro, mas pelo menos faz com que eu me sinta menos eu. É só o que quero, deixar de ser o Joseph, nem que seja por um segundo. Pauline vibra, batendo palmas e assobiando alto, como um moleque.

— Assim que eu gosto de ver! — Ela ergue a mão, sugerindo um cumprimento, e bato minha palma contra a dela em um gesto sem sentido. — Adeus, noiva destruidora de corações, adeus, chefe-sogro! Seja bemvinda, tequila! Traz outra, garçom! — Pauline... — ofego, meio envergonhado e meio tonto. — O que diacho ele te falou? — Ah, não importa! — Gesticulou na minha direção. — Você nem precisa ir lá pedir as contas. — Mas... Ele mora no fim da rua. Não é como se eu pudesse me livrar dele, assim, tão fácil. — Deposito minha cabeça em uma das minhas mãos e a olho, angustiado. Pauline realmente não se importa. — Essa história toda vai chegar à minha mãe ainda hoje. Ela me olha por um longo tempo. — Sabe o que eu acho? Precisamos fugir o mais rápido possível. — Achei que já estivéssemos fugindo... — Claro que não! — Ela gargalha como se eu tivesse dito a maior besteira. — Estou falando de uma fuga de verdade. Você bem sabe que o meu plano é dar o

fora daqui assim que amanhecer. Vem comigo, Joseph. Pisco várias vezes para ter certeza de que não estou vendo ou ouvindo coisas. Pauline me chamou pra fugir com ela? Para onde? Sua proposta era para uma viagem, para uma loucura ou para um encontro? Ou os três juntos? Só a ideia de deixar Itaú de Minas me dá nos nervos. Eu não posso ganhar na Hiper-Sena e ir embora como se não tivesse família, ainda mais na companhia de uma louca como ela. Sequer tive tempo — ou coragem — de contar aos meus pais que nossos problemas com as dívidas acabaram. — Eu... Eu não posso. — Por favor, por favorzinho! — Junta as mãos como em uma oração e me oferece um rosto pidão, com direito a biquinho. — Preciso te mostrar o Brasil e todas as coisas boas desta terra abençoada por Deus e bonita por natureza! Sabe aqueles lugares que te falei? Vamos começar nossa aventura! — Pauline, eu não po... — Partiremos amanhã mesmo! — define aos gritos. — Não leve nada além do cartão de crédito.

Observo sua empolgação por tanto tempo que meu cérebro dá um nó e eu já não sei definir o que é certo ou errado. Não sei, sobretudo, compreender o que é este troço estranho que me sobe pela garganta. Defino como desejo. Pura vontade. Eu quero fugir com Pauline. Esta verdade faz meu coração errar um compasso. Simplesmente quero segui-la para onde quer que vá. Incrível os efeitos da tequila, não é? — Voltaremos no domingo? — pergunto, já pensando em todas as possibilidades. Eu posso conhecer uns lugares e voltar a tempo para pôr minha vida no lugar. Não seria difícil. Pauline gargalha até chorar. Fico tão constrangido que cogito beber outra dose de tequila para me sentir, outra vez, menos eu. Só que não dá tempo. Esta mulher não me deixa espaço para pensar, muito menos para pensar e agir. — Não seja bobinho, Joseph. Estou falando de uma viagem sem data para voltar. Liberdade, meu caro, liberdade! Balanço a cabeça nervosamente. Não entra na minha

mente sair por aí agindo com inconsequência. O que dizer aos meus pais? Como reagirão? Minha vida é em Itaú de Minas. Ou será que não? E se eu estiver absurdamente enganado, como estive com relação à Laurene? — Não sei, Pauline. — Suspiro. — Realmente não sei. — Juro que não vai se arrepender. — Sorri maliciosamente. Passa a língua pelos lábios e observa algum ponto do meu rosto. Acho que a minha boca, mas não tenho certeza. — Não vejo a hora de fugir contigo. — Eu não entendo! — confesso em meio a uma onda de incredulidade. — Não entendo o que uma mulher como você quer com um cara como eu. Juro que aceito fugir se me fizer entender por que quer fugir logo comigo. Ela continua sorrindo, desta vez se sentindo desafiada. Suas mãos tomam as minhas e sinto seu corpo se aproximando. Sua cadeira se encosta a minha e ficamos mais perto um do outro. Mesmo que tente, não consigo deixar de observá-la. — Vou te dizer o que eu quero... — Pauline fala com uma voz estranha, mas que faz alguns pelos dos meus

braços se eriçarem. Fico sem entender a reação do meu corpo. — Quero cometer loucuras, viver novas aventuras, conhecer tudo o que puder. Seria muito fácil passar por isso com um cara igual a mim, mas não seria nadinha surpreendente. Eu quero aprender contigo e quero que aprenda comigo. Não sei o quê, mas quero. — Suas mãos apertam as minhas com mais força. Seu rosto se aproxima mais. — Quero fazer muito sexo contigo. Ter nossos corpos suando, te marcar com mordidas eloquentes, te dar beijos malucos e ouvir você chamando o meu nome durante um orgasmo. Quero seu pau dentro de mim, depois sua boca na minha boceta... Quero gozar bem gostoso enquanto rebolo em você. Ah, que delícia! — Revira os olhos e sorri. Minha boca abre. Meu coração acelera. Meus olhos se arregalam. O que eu tenho entre as pernas fica bem duro, tenho certeza. Pauline me olha e acabo fazendo a única coisa que me resta fazer: levanto, viro as costas e saio do bar sem olhar para trás, para os lados ou para frente. Rezo para que ninguém veja o volume estampado em minhas calças jeans e minha cara queimando de

vergonha. Cruzo uma rua, duas, três e paro. Encosto meu tronco em um muro e finalmente tento respirar. Passo alguns minutos tentando me livrar da excitação, até que percebo Pauline se aproximando aos tropeços. Minha boa educação não me permite deixá-la deste modo. Corro até ela e a amparo em meus braços, temendo que uma recaída aconteça abaixo do meu umbigo. Pauline se deixa levar, afinal, está muito bêbada. — Desculpe, eu te assustei — murmura com a voz embargada. Seus olhos estão meio vidrados, sem foco. — A verdade é apavorante, às vezes, mas não deixa de ser verdade. — Shhh, Pauline. Chega. Eu... entendo que talvez se sinta sexualmente atraída por mim, mas é que eu não sou um cara muito normal. — Sério? — Faz uma careta engraçada. — Nem percebi! — Ri de um jeito lindo, que me faz acompanhála. — Vou te levar pra casa — decido. — Você precisa descansar, o dia foi longo. — Vai ou não vai fugir comigo?

Não sei o que responder. Fugir com a Pauline significa perder minha virgindade — ela mesma deixou claro! —, e eu não faço ideia se vou dar conta de satisfazer uma mulher tão confiante como ela. Vou parecer um otário, um Zé Roela. Que vergonha! Além do mais, com certeza não vamos nos casar, portanto como vou entregar minha virtude a uma mulher que eu sei que jamais será minha? Pauline não pertence a ninguém além de a si mesma. Não acho a ideia ruim, mas não é compatível com o que sempre sonhei pra mim. Eu quero uma família, ela quer se divertir. — Ah! — Pauline grita, do nada, empurrando-me contra o muro. — Você é gay? É isso? Tinha uma noiva só de fachada? Ah, não acredito! De novo, não, por favor! Diga que gosta de boceta! Fico extremamente estarrecido. Pauline é tão intensa. — Eu não sou gay... Calma. É só que... — Penso em contar sobre minha virgindade, mas descarto a ideia no mesmo instante. Ela certamente riria de mim. — Vamos, diga que gosta de boceta!

— Pauline, eu... — Diga! — Mas é que... — DIGA QUE GOSTA DE BOCETA! AGORA! — EU GOSTO DE BOCETA, PORRA! — grito alto, e três pessoas que passam pela rua me olham de um jeito estranho. Quero enfiar o meu rosto no chão de tanta vergonha que sinto. Pauline me olha, muito séria, e eu a encaro de volta porque não acho nenhuma saída. Estou encurralado entre ela e o muro. — Você é tão imprevisível... — murmura e simplesmente me ataca. Sua boca está na minha, seus braços estão em meu pescoço e as mãos assanham meus cabelos. Tenho seu corpo quente contra o meu e seus lábios macios chamando, pedindo, implorando por um beijo. No entanto, não reajo. Simplesmente não consigo. Este é o terceiro beijo que ela me dá e eu ainda não tenho coragem de devolvê-lo. Percebendo minha distância, Pauline se afasta. — Vem comigo? — Seus olhos me encaram sob as luzes dos postes. — Vem, Joseph. Seguro seu rosto com as duas mãos. Preciso ser

menos babaca. — Eu vou. — Jura? — Sorri. — Juro. — Não sei quem falou isso, só descobri um segundo depois que fui eu. Ela me dá um selinho rápido e puxa minha mão, guiando-me pela rua pouco movimentada. Eu me deixo levar. — Para onde vamos? — pergunto, porém morrendo de medo de saber a resposta. — Fugir, oras! Acorda, Joseph, onde esteve um segundo atrás? — Ela para e deposita as mãos ao redor da cintura fina. — Você jurou que fugiria comigo! Já desistiu? — Não é isso, só não achei que fôssemos fugir agora — explico-me. — Tem momento melhor pra fazer alguma coisa importante? Eu adoro o agora! — Seus olhos brilham e ela volta a me puxar pela mão. Sinto como se houvesse um conjunto de nós impossíveis de desatar dentro da minha cabeça.

— Pauline... Não posso fugir agora. Eu nem contei aos meus pais sobre a Hiper-Sena. Preciso chegar à minha casa o quanto antes, eles devem estar preocupados comigo. Nós paramos assim que atravessamos mais uma rua. — Você não tinha mandado uma mensagem de texto pra sua mamãezinha? — Ela faz biquinho e aperta minhas bochechas como se eu fosse uma criança. Ignoro seu gesto e tento não me sentir um trouxa. — Você não conhece minha mãe, ela não se contenta com uma mensagem de texto. — Dou de ombros. — Fala sério, Joseph! Você precisa sair de debaixo da saia dela, é urgente. — Abro a boca para argumentar, mas Pauline prossegue: — Quem sua mãe pensa que você é? Um virgenzinho indefeso? — Fico desconcertado, mas ela não percebe. Quero sumir do mundo. — Não estou achando o meu carro. — Acho que ele estava há oito quarteirões daqui. — Aponto para trás, percebendo que eu também perdi um pouco do meu senso de direção. Ainda não consigo parar de pensar sobre o “virgenzinho indefeso”.

— Oito? — Ela olha para os dois lados da rua e parece não reconhecer absolutamente nada. — Xi... Acho que me perdi. — Começa a gargalhar. — Sou a única pessoa que se perde em uma cidadezinha como esta! — Onde você mora? Prende os lábios, segurando os cabelos com as duas mãos. Vejo seu desespero e me sinto angustiado. Percebo que Pauline não sabe responder à minha pergunta. — Não consigo me lembrar... — murmura de uma maneira trôpega. Pauline tenta dar mais alguns passos e quase cai de cara no chão. Amparo sua queda no último instante. — E agora, Joseph? Não posso fugir sem meu carro. Ah, já sei! Tem concessionária em Itaú? Solto um suspiro, tentando organizar as ideias. Pauline nunca conseguirá comprar um carro tão rápido e a esta hora da noite, muito menos bêbada. — Vamos fazer o seguinte... Vou te levar à minha casa, você descansa e amanhã procuramos seu carro. Não estamos muito longe. Pauline concorda, utilizando o meu corpo para apoiar o seu. Na metade do caminho, ela retira os saltos e

segue descalça. Percebo que tive uma péssima ideia quando a observo com cuidado. Seus cabelos estão desgrenhados, ela está fedendo a álcool, com os pés sujos e a roupa decotada demais. Não posso apresentá-la aos meus pais deste jeito. Eles a julgariam muito, sobretudo a mamãe. E assim que Pauline abrisse a boca, pronto, a merda seria jogada no ventilador. Resolvo entrar pelo jardim, dar a volta na casa e usar a porta dos fundos. Peço para Pauline não emitir qualquer som, mas ela está tão bêbada que acho que não ouve. Seu corpo está todo apoiado no meu, portanto é difícil carregá-la ao redor da casa. Pego as chaves e abro a porta com o maior cuidado do mundo. Sei que a esta hora meus pais estão diante da TV, e sorrio quando escuto os ruídos da novela. Atravesso a cozinha, segurando Pauline como posso, cruzo o corredor e finalmente entro em meu quarto. A doida percebe a existência de uma cama e se joga nela. Solta um murmúrio e cai em um sono profundo. Respiro aliviado. Tranco o meu quarto, deixando-a lá dentro, e faço o percurso de volta para os fundos. Dou outra volta na casa

e finalmente destranco a porta da frente. Sou recebido pelo meu pai e pela minha mãe, que se mostram preocupados comigo no mesmo instante. — Onde você se meteu, filho? — Minha mãe é, de longe, a mais mandona. — Estava com uns amigos do antigo colégio — invento. — É aniversário de um deles. Jamais menti para os meus pais, logo, eles nunca desconfiaram de mim. — Ah... — Você soube que dois itauenses ganharam na Hiper-Sena? — meu pai pergunta. Eu me sento no sofá individual e os encaro. É a hora da verdade. Preciso contar que eu estou milionário. Tento sorrir, afinal, é uma boa notícia, mesmo que meu coração não se sinta muito à vontade. — Eu soube. Por falar nisso... — Tenho pena desses vencedores! — ralha mamãe. — Deus me livre! Faço uma careta. — Uai... Por que, mãe?

— Pra quê tanto dinheiro? — Revira os olhos. — Valha-me Deus! Ninguém deveria acumular tanto, é pecado. Graças aos céus nossa família não precisa desse dinheiro sujo. Somos felizes deste modo. — É verdade, amor — meu pai fala e beija o topo da testa da minha mãe. Eles são muito carinhosos um com o outro, sempre foram. — Dinheiro demais só traz angústia e infelicidade. — E muito pecado. — Mamãe suspira e se enrosca no meu pai. — Amo a minha vida do jeito que ela é, Deus nos deu tudo de que precisamos. — Sim, querida. Fico os analisando durante alguns segundos, com o corpo todo travado. O assunto é trocado com facilidade, mas não consigo acompanhar. Ainda penso nos milhões que estão na minha conta, na Pauline, no meu juramento, na minha vontade absurda de ir embora, de tentar encontrar o que eu nem sei que procuro em outro horizonte. A realidade é que nunca imaginei que eu quisesse mais do que já tenho. Mas eu quero. Eu não amo a minha vida do jeito que está. Não tenho mais emprego,

noiva ou expectativa. Só tenho um juramento, o desejo de gritar alto no Monte Roraima, de conhecer o maior tobogã do mundo... E por aí vai. A lista só aumenta. Não posso negar. No entanto, meus pais são felizes e escolheram viver desta forma. Não quero estragar a felicidade deles só para buscar a minha. Não é justo. — Estou pensando em fazer uma viagem — falo de uma vez, e ganho suas atenções de imediato. Por hora, desisto de contar sobre o dinheiro. — Acho que vou visitar Marina em Passos, ficar com ela alguns dias. Depois, sigo para Belo Horizonte. Minha mãe franze o cenho. Eu nunca visitei a minha irmã em Passos. — Por quê, uai? Que ideia é essa, filho? E o trabalho? — Bom, eu... Pedi demissão. — Você se demitiu? — meu pai quase grita. — Ficou louco, Joseph? Seu Nico te deu uma boa oportunidade! — Eu sei, pai, mas não quero ser atendente de uma

papelaria pelo resto da vida. — O meu velho faz uma expressão diferente, e então percebo que ele me entende, apesar de tudo. — Que trem deu em você? — Mamãe praticamente chora. — Vontade de mudar. — Ergo-me do sofá. — Tenho umas economias guardadas. Parto amanhã. — Amanhã? Que história é essa? Claro que você não vai viajar assim, às pressas. Parece que está fugindo, sô! — Minha mãe se levanta também. — Sei que a Laurene te... — Isso não tem nada a ver com Laurene — resmungo sem saber se estou sendo sincero. — Sou adulto, sei me virar. — Pelo menos eu acho que sim. — Bom, estou decidido. Não vou mudar de ideia. Viro as costas e ando na direção do meu quarto. Eu sei que ficar é pior. — Eu não admito que... — mamãe começa, mas o meu pai intercede. — Deixe-o, querida. Joseph precisa disso. Vamos apoiá-lo.

— Apoiá-lo? Enlouqueceu? Não fico para ouvir a discussão dos dois. Geralmente, quando ganho apoio do meu pai, ele consegue convencer a mamãe. De qualquer forma, eles entenderam que eu não busco consentimento de ninguém. Destranco a porta do quarto e entro rápido, temendo que meus pais vejam Pauline. Ela continua deitada na minha cama, porém com um detalhe: está completamente nua, dormindo profundamente. — Meu Pai Amado... — arfo, encostando a cabeça na madeira da porta. Fecho os olhos, mas não adianta: meu membro já está duro. Minha virgindade e Pauline parecem não conseguir conviver em um mesmo lugar. Estou irremediavelmente perdido entre as duas. — Pauline... — Eu me aproximo dela e chacoalho seus ombros. Tento não visualizar mais do que o seu rosto, porém é impossível. — Pauline, você precisa se vestir... — Joseph... — arqueja e me puxa para si, como se eu fosse um dos travesseiros. Meu corpo tomba sobre a cama de solteiro.

— Minha Santa Teresinha... — Meu nome é Pauline — ela comenta em um sussurro, sem abrir os olhos. — Eu sei. — Por que me chamou de Teresinha? Prendo um riso. — Vai dormir, maluca. — Eu estou dormindo, não está vendo? — Estou, estou. Pauline se enrosca no meu pescoço e apoia o corpo nu sobre mim. Sua perna se ergue e é depositada sobre minha virilha rígida. Tento me afastar, mas a cama é muito pequena para nós dois. Decidido a dormir em um colchonete no chão, procuro me levantar, mas Pauline me impede. — Fica comigo. Foge comigo. Observo seu rosto sereno por uns instantes, engolindo a seco a ideia de dormir com ela a noite toda. Mas não sei o que tem nessa mulher que amolece meu coração. Eu devo ser um completo idiota por não conseguir lhe dizer não. Respondo um “é claro” para que

ela me deixe levantar. Viro-me de costas para que não possa ver minha ereção. Depois, tiro meus sapatos, minha camisa, meus óculos e volto a deitar. Trago seu corpo para mim, tentando não me achar esquisito, agindo de forma antinatural. Eu não devia estar com ela sozinho no quarto. Ela não devia estar nua, roçando sua pele em mim. Não é direito. Meu rosto se esquenta de vergonha, que se mescla à excitação. Não importa, porque essa explosão de sentimentos é nova e eu estou envolvido até o pescoço nessa aventura maluca que foi conhecer Pauline. — Vamos fugir, baby — murmuro, imitando suas palavras, e me sinto tão louco quanto realizado. Será que é assim que as pessoas como Pauline se sentem?

Capítulo 6

Pauline

Em um lugar “proibido” de Itaú de Minas Não existe nada que seja proibido pra mim. Tudo é experiência, como diria meu pai. Ele não queria que eu fosse uma dessas meninas ingênuas, fáceis de ludibriar, imaturas emocionais e que tem medo de arriscar. Até mesmo as tentações do mundo, que são, em sua maioria, condenáveis, nos ensinam alguma coisa. Só que isso me isola entre os liberais, uma comunidade relativamente pequena se fizermos um comparativo com o total da população do planeta. Não gosto de ser uma porcentagem mínima, uma minoria. Acho que pessoas como eu deviam ser maioria, mas, enfim, como eu posso mudar isso se não me misturar à parcela tradicional? Foi essa oportunidade

que eu vi quando esbarrei em Joseph uma vez atrás da outra. Desperto devagar, respirando fundo, e meu primeiro pensamento é ele, meu novo parceiro de aventura. Afinal, que graça essa viagem teria se eu a fizesse sozinha? Não que eu seja uma dessas pessoas dependentes, que não sabem apreciar a solidão como se deve, longe disso, mas uma viagem com tantas belezas para se ver, no mínimo, é preciso um amigo para compartilhar. Coisas boas a gente não deve viver só, seria egoísmo. Por que as pessoas procuram as outras somente quando estão no perrengue, em dificuldades ou deprimidos? E as alegrias? Por que não dividi-las antes? Eu me espreguiço sorrindo, me lembrando da cara de Joseph quando praticamente exigi que fugisse comigo. Rolo o corpo relaxado e descansado, como sempre. Não sou uma pessoa tensa, nem preocupada. Quando eu durmo, recupero todas as minhas energias para a próxima rodada. O colchão onde estou é macio e quente, muito quente, aliás. Eu estranho de imediato, acho que não estou na minha cama, não tenho nenhuma sensação de

reconhecimento. Mas é normal eu me sentir assim depois de uma bebedeira. Como uma mania constante, nunca termino a noite na minha casa, ou mesmo desacompanhada. É neste momento que tomo consciência de algo duro cutucando minha bunda. — Hum... Que gostoso — sussurro, me sentindo excitada com a ereção matinal de alguém. É grande e grossa, parece ocupar toda a área do meu traseiro. Esfrego-me nela, estimulando-nos. O cara atrás de mim se remexe, murmurando também, mas de maneira ininteligível. Acho que está curtindo, porque sua mão vem parar em volta de mim, repousando sobre o meu seio despido e apertando-o. — Pauline — fala com uma voz cheia de ar, daquele tipo ultrassexy que molha calcinhas. Só que levo um susto da porra ao reconhecê-la. — Joseph! — quase grito. Que horas a gente transou? Não me recordo de que fomos para cama juntos. Merda, eu não devia ter virado tantas tequilas, essa experiência eu queria estar consciente para viver. Ele deve ser muito gostoso pela amostra que

estou sentindo aqui por trás. Ah, que se dane, não vou me recriminar por comemorar o fato de que estou milionária! MI-LI-O-NÁ-RIA! É a primeira vez que eu fico rica, sexo a gente pode fazer agora mesmo para eu guardar essa recordação na minha memória. Meu sobressalto faz com que se afaste, rolando para longe de mim e caindo no chão com um estrondo alto. Ouço seu “ai” em seguida e me preocupo. Giro-me até a beirada, sentido uma névoa embaçar um pouco minha mente. Parece que ainda tem álcool no meu cérebro. Olho para ele, vestido só de cueca, uma belezinha de se apreciar. — Você está bem? Se machucou? Joseph acaricia as costas, na altura da bacia, com uma careta engraçadíssima. Tenho vontade de me jogar em cima dele e descobrir se o que tivemos de madrugada foi tão bom quanto eu espero, mas minha bexiga resolve perturbar. Preciso ir ao banheiro antes de pensar em ter um orgasmo. — Estou bem. Por que você gritou? Não gosto de ser acordado desse jeito.

— Desculpe, é que eu me espantei quando percebi que estava na cama com você. — Não se lembra do que aconteceu? — pergunta sem corar. Será que eu me enganei com Joseph e por trás do menino tímido de óculos existe um homem que sabe encarar com maturidade nosso sexo casual? Oba! Acabei de ganhar na loteria de novo! Fico doida para experimentar outra vez, mas cem por cento consciente. Vou aproveitar muito esse delicinha, que fica ainda mais sensual sem a armação no rosto. — Não tudo, mas você me conta daqui a pouco, preciso fazer xixi urgente. Eu me levanto da cama e noto que estou completamente nua. Não é para menos se a gente se enroscou durante a noite, mas também não gosto de dormir com muita roupa. Na verdade, odeio me vestir demais. Inverno é uma chatice, com aquele monte de blusa sobre outra, meia, calça e botas. Tudo muito complicado para pôr e para tirar. Joseph vira o rosto e me estica uma camisa de botões

frontais, que eu visto sem questionar. Estou com muita pressa. Ele abre a porta, ainda sem olhar para mim, estava passada a chave, então me lembro que ele não mora sozinho. — Primeira porta à direita — indica o caminho. Avanço pelo corredor, apressada, e ouço a madeira encostar novamente atrás de mim. Eu me tranco no banheiro e alivio minha bexiga. Faço higiene bucal antes de voltar, me sentindo bem só de jogar um pouco de água na boca seca. Passo os dedos nos cabelos bagunçados, para baixar um pouco o volume, mando uma piscadela para mim mesma no espelho e estou pronta para mais uma trepada. Ah! Eu preciso disso antes de a gente embarcar em nossa aventura. Quando abro a porta do quarto, fico decepcionada. Joseph está totalmente vestido e pronto para o que quer que ele tenha em mente, que, pelo visto, não é sexo. Não estou com sorte. Dois dias nessa cidade e termino as noites excitada e sem um orgasmo sequer. Já dizia o ditado: sorte no jogo, azar no amor. Eu me estrepei ao ganhar na Hiper-Sena, não é possível!

Ele espia por sobre o ombro e, ao ver que retornei, volta a se concentrar em mexer nas suas coisas. O quarto dele é bem masculino quanto à cor das paredes e dos móveis, mas sem pôsteres de super-heróis ou bandas de rock. Sobre a cama há uma pintura de Jesus Cristo. Na cabeceira, um terço está pendurado. Já sobre a escrivaninha, uma imagem de Nossa Senhora se mistura aos seus objetos, como porta-canetas e eletrônicos. Não vejo videogame em parte alguma. Affe, esse garoto não vive, não? Bem que ele disse que não era normal, está explicado a que se referia. — Vamos partir agora e você me conta os detalhes no caminho? — pergunto, tirando sua camisa para me vestir com as roupas que estão jogadas pelo chão. — Hum... Sim... Quer dizer, não sei. Paro o que estou fazendo e ponho as mãos na cintura. — Joseph, você não está dando pra trás agora, não é? A gente concordou em fugir! Foi um juramento, nenhum dos dois pode desistir assim, sem mais nem menos. — Ao contrário de você, eu tenho total consciência de tudo o que falamos e fizemos ontem à noite. Eu só não

faço ideia de... — se interrompe quando se vira para mim e me vê ainda pelada. Seus olhos me medem de cima a baixo por apenas um segundo, antes de baixar a cabeça, perdido, e empurrar os óculos da ponta do nariz nervosamente, ruborizando. Que coisa, ele já não me viu nua? Ah, não, não é possível que concordei em transar no escuro! Quem ainda faz isso no século vinte e um? Abro a boca para retrucar, brava que só vendo. A timidez dele me deixa irritada e eu não gosto de me sentir assim. É mesmo uma lição de paciência estar perto de um cara que é tão meu oposto. Deve ter algum bom motivo para o Destino ter nos colocado no mesmo caminho, ainda vou encontrá-lo. A porta se abre abruptamente e ambos nos voltamos para ela, surpreendidos, para ver quem chega. — Minha Nossa Senhora! — exclama a mulher que quase entrou no quarto, mas ela a fechou, em um baque surdo, tão depressa que mal registrei sua aparência. — Meu Jesus Cristinho! — Joseph se exalta ao meu lado, catando minhas roupas emboladas pelo chão, como

se fosse jogar tudo fora. Espera aí, eu preciso sair daqui vestida, apesar de não gostar muito de tecido sobre minha pele. Posso ser presa se andar pela rua do jeito que vim ao mundo. Mas antes que eu reclame, ele chega perto, jogando as peças sobre mim sem me olhar direito, como se evitasse prestar atenção demais na minha nudez. Como pode isso? — Vista-se, vou tentar tranquilizar minha mãe. Opa, aquela é a mãe do Joseph. Ele não me falou muito sobre ela, mas acho que realmente seria mais adequado se eu estiver coberta para conhecê-la direito. Afinal, viajaremos juntos nos próximos meses e ela vai querer saber com que tipo de pessoa o filho está se envolvendo. Todas as mães são assim, menos a minha. Ela ia comigo a todo lugar para garantir que eu experimentasse tudo o que quisesse sem negligenciar minha segurança. Visto-me, apressada, para me apresentar formalmente, mas escuto gritos no corredor. — Você desonrou a moça, Joseph! Foi por isso que largou da Laurene? — Claro que não, mãe!

— Como teve coragem de trazer pecado para dentro dessa casa? — Não é nada disso que está pensando... — Não foi essa a educação que te dei, menino! Pensei que fosse um filho de Deus, que não se deixava contaminar pelas impurezas deste mundo, ainda que as tentações fossem muitas! Você não me engana mais! Ouço um estalo. A mulher bateu nele? Não acredito nisso! Saio do quarto desaforada, sedenta por justiça. Como uma mãe consegue ter um filho em tão baixa conta e ainda usar de violência para mostrar quem manda no pedaço? Não admito isso, nem se ele fosse criança e precisasse de rédea curta para ser bem educado. — Escuta aqui, senhora! — chamo a atenção dos dois. Joseph está daquele jeito submisso que me deprime, com a face vermelha, provavelmente do tapa que levou gratuitamente da própria mãe. Ainda não me conformo com isso, mesmo vendo com meus próprios olhos. — Seu filho é um santo, procura sempre fazer o que é certo e não maltrata ninguém. Nem mesmo eu, e olha que o perturbo bastante. — Sorrio, confiante, para meu novo amigo. Ele

faz caretas e gesticula para que eu pare. Contudo, não posso deixar a situação impune. Não é do meu feitio. — Eu gostaria muito de tê-la conhecido em outras circunstâncias, mas já que estamos aqui, eu sou Pauline e vou viajar com seu filho sem data para voltar. Espero que não se oponha e, se não gostar da ideia, a gente vai assim mesmo, porque ambos somos livres e adultos. A mulher tapa a boca, horrorizada, mas não demora muito para reagir: — Joseph, o que essa moça está dizendo? Vai continuar cometendo pecado? — Ah, sobre isso! — acrescento com o dedo em riste, a um passo dela. — Sim, a gente fez sexo, que não tem nada de pecaminoso, só de diversão. E ele não me desonrou, afinal, não sou mais virgem há um tempão. — A senhora arqueja, cada vez mais assombrada com minha honestidade. — Foi totalmente consensual! — Pauline, cala a boca! — Joseph grita a plenos pulmões e eu paro, olhando bem para ele, surpresa. Sua cara está vermelha feito um camarão tostado. O que foi que eu disse de mais? Ele pega minha mão, me

puxando pela casa, mas a mãe dele nos segue. — Isso é inadmissível, Joseph! Largue já essa vida mundana e peça perdão ao divino. Deixa essa pecadora ir embora e venha comigo à igreja, meu filho! Ele para tão abruptamente que ricocheteio em seu peito, onde me segura firme. — Pauline não é nada disso! — me defende de maneira tão fofa que fico tentada a beijá-lo. Xi, nem do beijo dele me recordo. Devo ter mesmo exagerado na tequila. — Ela tem o coração muito mais puro do que a senhora, que só vê maldade nas pessoas e é incapaz de ter um pouco de fé na humanidade! Laçando minha cintura, me guia para fora da casa, onde ganhamos a rua, rumo a... Sei lá, pouco me importa. Se eu estiver com ele, pode ser qualquer lugar! — Mandou bem, garoto! — elogio, saltitando ao seu lado pela calçada, de mãos dadas com ele. — Às vezes é preciso lutar pela própria independência! Joseph suspira, murchando um pouco. — Eu não queria que fosse assim. Amo meus pais e tenho orgulho da educação que me deram, mas minha mãe

é muito difícil de lidar pela maior parte do tempo. Eu tento não decepcioná-la, fazendo escolhas corretas, que nunca parecem boas o bastante para ela. Acho que cansei de tentar. Faço-o parar quando chegamos à esquina e o encaro nos olhos lacrimosos. — Você não precisa agradar sua mãe, Joseph. Caramba, nem Jesus agradou a todos! — Essa frase é muito clichê, mas cabe aqui. Normalmente eu não a usaria, de jeito nenhum, porque religião, política e futebol simplesmente não se discute, e eu sou a favor de paz e amor, muito amor! — Ser feliz exige um pouco de egoísmo, de buscar o que te faz bem. Você não é ela e precisa encontrar seu próprio caminho, nem que seja aos tropeços, mas esses serão seus tombos e seus aprendizados. Sua mãe se preocupa porque já viveu as próprias experiências e conhece os percalços. Ela não quer que você sofra, mesmo sendo inevitável. Não fique bravo ou tente ser perfeito, apenas compreenda que a vida é feita de tentativas e erros, acertos e dúvidas, momentos felizes e pessoas especiais.

Inesperadamente, Joseph se inclina sobre mim, tocando meus lábios com os seus em um beijo suave e inseguro, como se não tivesse certeza de que deveria fazer isso, ainda que assim desejasse. Eu me sinto meio tonta com a experiência de beijá-lo de verdade, depois de várias tentativas de arrancar um pouco de paixão dele, que eu sei que existe ali dentro. Vejo que meus esforços foram frutíferos. Tomo as rédeas da situação, jogando meus braços ao redor de seu pescoço e fazendo nossas bocas se moverem mais profundamente, atrevendo-me a deslizar minha língua entre seus dentes. Ele corresponde, permitindo que sua própria língua encontre a minha, em uma dança que começa tímida e aos poucos vai ficando melhor e mais quente. Sinto meu corpo incendiar de desejo, como se recordasse da noite que passou grudado nele. Joseph parece se lembrar mais do que eu. Suas mãos apertam minha cintura com força, levando-me para mais perto de si, como se ainda houvesse algum espaço entre nós. Gemo dolorosamente, cheia de tesão para queimar como pólvora. Meus dedos querem mais, por isso, se

enfiam entre os fios de seus cabelos, enroscando-se ali como se fizessem parte dele. Caracoles! Que beijo bom! Sinto que Joseph reage na mesma intensidade que eu quando sua ereção cutuca minha barriga. Cadê um canto escondido pra gente resolver isso? — Que pouca vergonha é essa? Uma voz feminina faz com que a gente se solte em um estalo louco e ofegante. Sou quase jogada a um quarteirão de distância de tão rápido que Joseph se afasta. Estou meio tonta por conta da excitação acumulada que não para de aumentar. Que beijo!!! Dizem que mineiro come quieto, uai, estou vendo por quê! Ele me enganou direitinho, com sua timidez e silêncio. O cara é da ação. Já gostei! Olho na direção da pessoa para ver uma loiraça, linda e gostosa, toda trabalhada na roupa de grife e saltos altíssimos. Uau! Minha mente já imagina uma festinha a três com a desconhecida. — Laurene, eu... Hum, esse nome não me é estranho. Que esquisito, não conheço nenhuma Laurene, eu me lembraria desse nome. Joseph fica inquieto e perturbado, do mesmo jeito

quando o conheci. Estou vendo um retrocesso em sua melhora? Caramba, não sabia que ele ficava assim diante de um mulherão, não. — Não acredito no que estou vendo, Joseph. O problema não era você, era eu? A garota parece incrédula, com a boca aberta e tudo mais. Vejo sinceridade e decepção em seu rosto. Oh, coitada! Fico com uma dózinha dela e com vontade de consolá-la. Mas, ao mesmo tempo, sua pose é esnobe. Ela balança a cabeça em negativa, erguendo o nariz como se assim pudesse ficar mais alta, e põe a mão na cintura, como uma modelo de passarela, quebrando o quadril para o lado. Não faço ideia sobre o que estão falando, fiquei bem perdida. — Não é nada disso, Laurene! — Joseph passa as mãos pelos cabelos, que eu já baguncei, de maneira desolada. — Não confunda as coisas você também! — Se eu estou confusa? Pode apostar que sim! Olha para mim e olha para ela, Joseph! — Laurene aponta para mim com desdém e fico imediatamente alerta e na defensiva. Que porra está acontecendo aqui, afinal? — O

que é que você viu nela para ficar de agarramento no meio da rua? Você não é disso! Pelo menos nunca foi comigo! Espera aí! Acho que minha ficha acabou de cair, por isso eu reconheci o nome dela. É a ex-noiva do Joseph! Ah! Ele tinha dito alguma coisa de ela morar no fim da rua. Olho para os lados, tentando me lembrar da direção que tomamos. Bem, foda-se! Acho que já tenho minha resposta. Mas, vem cá, quem essa tal de Laurene pensa que é para me menosprezar só por que tem corpão e eu sou magrela? Eu consigo enlouquecer qualquer pessoa que me tocar, baby, a maior prova é eu estar virando a cabeça do seu ex-noivo bem na sua frente, sua tola! Enquanto Joseph gagueja uma resposta sem nexo, eu me coloco entre eles, encarando a bruxa má, sem medo algum. Ah, se tem uma coisa que meu pai me ensinou foi a me defender. Inclusive, sei dar uns golpes que deixam uma pessoa incapacitada por vários minutos, tempo suficiente para eu fugir e conseguir ajuda. — Ei, garota, vê se te manca! Vocês se separaram, ele não te deve mais nenhuma explicação! — Eu me aproximo perigosamente, com a ameaça estampada no

meu rosto. — Cuidado com o que diz, as palavras podem se voltar contra você. Conheço seu tipinho. Se acha porque é bonita, mas na verdade é um poço de amargura e infelicidade por dentro. — Dou uma chacoalhada em seu vestido chique, beliscando um pouco de pele. — Isso aqui é só casca, um dia murcha e apodrece. — Tire as mãos de mim, sua louca! — Laurene me dá um safanão, que joga meu braço para longe. Com sangue nos olhos, eu os estreito, fazendo minha mão voltar em sua direção como se fosse um elástico. Agarro seu braço com força, travando feito uma garra. Ela reclama, mas não amoleço. Torço-o, fazendo-a girar para aliviar a dor, o que me ajuda a imobilizá-la. Puxo seu outro punho, amarrando-os juntos atrás de suas costas com meus dedos firmes. Quanto mais se agita, tentando se libertar, mais dor lhe causa. — Não ouse se aproximar da gente de novo, ouviu bem, Laurene? — enfatizo seu nome com escárnio. — Agora é Joseph que não te quer mais na vida dele. — Ai, me solta! Socorro! Eu a empurro para frente, largando seus braços

cheios de marcas vermelhas dos meus apertões. Ela tropeça sobre os saltos altos e quase cai de cara no chão. Bem que eu gostaria de ver essa patricinha rolando pela calçada feito um cão sarnento. Pego a mão de Joseph e o puxo para bem longe dela. Não a ouço xingar, nem nada, mas parece que alguns vizinhos assistiram ao espetáculo. — Joseph, eu... — Só vamos embora daqui, por favor! — exclama, afoito. Olho para ele e o vejo todo corado. Meu Deus, está morrendo de vergonha. Aquela garota sem coração não entende que o expôs para a cidade toda! Um rapaz tão discreto e na dele não merecia passar por isso. Mas acredito que ela tenha aprendido sua lição. — “Vamos fugir, baby” — sorrio porque, como diz a música, ele vai deixar que eu o carregue para onde quer que eu vá e eu tenho uma listinha de destino nos aguardando. Joseph fica silencioso, não me conta nem o que aconteceu durante a noite, e não forço. Foram muitas emoções para um dia, coitado, um sábado que mal

começou. Eu me lembro exatamente onde deixei meu carro, mas não sei chegar lá, então ele nos guia. Não demoramos muito. Esse negócio de viver em cidade pequena tem suas vantagens. Entramos no automóvel, quietos, mas isso já começa a me causar um estranhamento. Eu não gosto de pensar em mil coisas e não poder externá-las. É pedir demais para mim. — Bem, você conhece esse estado melhor do que eu — começo a extravasar as ideias em ordem de importância. — Qual é o primeiro destino, senhor copiloto? — Passos, fica há dezessete quilômetros daqui. Minha irmã mora lá. — Ok, então. Me direcione, por favor. Enquanto dirijo, algumas ideias ficam martelando na minha cabeça. É, sim, um desafio fazer Joseph se soltar, mas a gente é tão diferente que sei que nunca entraremos de fato um no mundo do outro. Essa aventura tem que ser passageira, mas também vivida até o último segundo, sem interrupções ou encanações. Tem que ser do meu jeito, mesmo que, para ele, seja mais complicado do que para

mim. Por isso, preciso saber se ele concorda com algumas condições, para tornar essa viagem mais leve e divertida possível. — Se vamos fazer isso mesmo, Joseph — introduzo o assunto de uma vez, aproveitando que ainda estamos sozinhos —, tem algumas coisas que precisamos fazer para que seja a aventura que nunca vivemos antes. Espio rapidamente e ele me olha, curioso e preocupado ao mesmo tempo. — Nada de celular — enumero a primeira condição. — Se ficar recebendo ligação a torto e a direita, não vai aproveitar as belezas paradisíacas como se deve. — Pauso, esperando uma reação que não vem. Fico imaginando a mãe de Joseph ligando para ele de cinco em cinco minutos. Simplesmente não vai rolar. — Outra coisa importante: você não pode se negar a nada. É uma aventura para se jogar, sem medo de ser feliz. Não vai ter ninguém com quem se preocupar ou para te julgar, simplesmente não faço o tipo. Você será totalmente livre! — Dessa vez, um suspiro lhe escapa e o traduzo como alívio. Será que é disso que ele mais precisa? Paz e

liberdade? Tenho vontade de parar o carro para poder encará-lo com firmeza, mas continuo dirigindo. Agora, estamos na estrada. — Você não pode se arrepender de nada do que fizermos. Quero que faça tudo consciente e porque quer, sem medo de se arriscar. Mas não vai ter valido de nada se ficar resmungando feito um velho que a gente não devia ter feito isso ou aquilo. — Odeio gente resmungona, affe, se tem uma coisa que me tira do sério é isso. — E, por último, e não menos importante: você não pode se apaixonar por mim. Não tenho medo de me apaixonar novamente, mas essa viagem é uma fuga para mim também. Acabo de sair de um relacionamento perfeito que terminou de um jeito inesperado, não preciso de outra paixão agora. Só quero redescobrir minha liberdade sozinha. — Entendido? Silêncio. De canto de olho, vejo sua cabeça balançando positivamente. Ai, que alívio! — Não tenho mais nada a perder — diz, somente depois de um tempo. — Ah, não mesmo! Pelo contrário, você tem tudo a

ganhar! Vejo uma placa apontando a entrada da cidade vizinha a Itaú de Minas. Primeira parada, Passos. O nome do município não podia ser mais propício. Estamos dando passos para frente em nossa amizade, que vai nos levar direto para a aventura mais louca e mais desejada da minha vida.

Capítulo 7

Joseph

Estrada tediosa nas imediações de Uberaba, Minas Gerais A pele de Pauline é quente, macia e inspira a pressa que seu corpo agitado possui em me tomar por completo. Tenho sua boca na minha, a língua ávida sempre querendo mais, buscando por algo que eu nunca consigo descobrir o que é, mas quero lhe dar mesmo assim. Não penso em nada, apenas correspondo ao beijo e tento não me sentir tão despudorado. Procuro não pensar nos meus pais, no padre da igreja — que certamente me mandaria rezar uns milhões de terços por imaginar o inapropriado —, na Laurene, no cara que fui antes de sonhar acordado na beira de uma estrada desconhecida.

— Você está tão quieto... Não aguento mais, Joseph! Fala qualquer coisa, por favor! — Pauline praticamente berra, alcançando o auge da inquietude. Ignorei sua proximidade, seu cheiro e, principalmente, o modo bizarro como cantarolou as músicas que tocaram na rádio durante algumas horas. — Que trem quer que eu fale? — Suspiro alto e balanço a cabeça na tentativa de não pensar mais no beijo que trocamos no meio da rua, e que infelizmente foi interrompido pela minha ex-noiva. Também tento, junto com a lembrança, parar de reviver o sonho desavergonhado que tive com Pauline durante a noite. No entanto, parar de pensar na Pauline significa trazer Laurene de volta a minha mente, e eu não estou pronto para nenhuma das duas opções. — Eu que tenho que te dizer o que é pra você falar? — reclama, fazendo bico. — Poxa, que poço de espontaneidade você é! — Te avisei mais de mil vezes, desde que saímos de Passos, que não sou a melhor companhia para uma viagem.

Encontramos Marina, minha irmã mais velha, em sua casa, no município de Passos. Ela amou a ideia da viagem e amou mais ainda Pauline. Marina se cansou das regras e ordens dos nossos pais há alguns anos, o que a fez mudar para a cidade vizinha e conseguir a tão sonhada independência. Abri o jogo sobre o prêmio da Hiper-Sena e sobre o fato de eu não conseguir pensar em mais nada além de realizar essa aventura. Ela quase surtou com a notícia, por isso nos demoramos demais na visita. Fiz questão de lhe deixar uma boa quantia. Gosto da minha irmã, principalmente porque posso contar com ela para guardar segredos. Marina prometeu não contar nada para os nossos pais, mas me aconselhou a abrir o jogo assim que retornasse. É o que pretendo fazer. Por hora, só preciso espairecer e reencontrar o meu caminho. — Deixa de drama, Joseph, sei muito bem que este não é o seu normal. Nem tente me enganar. — Pauline desvia seu olhar da estrada e me observa por alguns segundos. Quase morro do coração toda vez ela faz isso, pois geralmente o veículo sai da faixa original sem que perceba.

— Como sabe? Nem nos conhecemos direito. Olha a pista! — Aponto para frente. — Sei perfeitamente que, apesar de tudo, você é um homem agradável. Não é esse poço de amargura, suspiros e resmungos. — Pauline pisa mais fundo depois de uma curva. As estradas de Minas Gerais me dão nos nervos. Tenho consciência de que não aguento mais ver montanhas passando por nós. — Admita que está pensando naquela oxigenada. — Não estou pensando na Laurene. Estou pensando em você. — Conta outra! — desdenha. — Está pensando nela, sim. Aposto como está se martirizando, se perguntando onde foi que errou e lamentando o término. Que deprimente! Laurene não merece que nenhum neurônio seu, unzinho sequer — gesticula com os dedos —, se preocupe com ela. Solto mais um suspiro, decidindo não responder nada. Estou cansado e não vejo a hora de fazer mais uma pausa. Olho o meu relógio de pulso. — Você sabe que não vai dar pra chegarmos a tempo,

não é? — comento. Confiro no GPS a nossa localização. Estamos pertinho de Uberaba, mas já são quase uma hora da tarde. — Nunca chegaremos à Chapada dos Veadeiros antes do pôr do sol. Pauline quer porque quer ver o sol se pondo neste lugar, que fica em Goiás. É o primeiro item em seu itinerário. Eu estou muito curioso, mas minha curiosidade diminui a cada quilômetro que me vejo longe de casa e perto demais dela. Nunca me senti deste jeito, como se estivesse prestes a avançar em alguém. Me sinto estranho, claustrofóbico e envergonhado por ter que esconder, constantemente, uma ereção. — Eu sei... — ela se dá por vencida e deixa os ombros caírem. — A gente podia se hospedar em algum lugar por lá e ver o sol se pondo amanhã. O que acha? Só de pensar em passar mais oito horas controlando uma parte do meu corpo que eu achei, durante anos, estar adormecida, fico perturbado. Faço um trajeto, usando o dedo indicador, na tela do GPS. Eu preciso de uma solução rápida. — Podemos parar em Brasília — indico, percebendo

que só teria duas horas a menos que o previsto no percurso dentro daquele carro, mas qualquer minuto é um grande alívio. — Não conheço a capital do país. Podíamos nos hospedar em algum lugar, comprar roupas, já que não trouxemos nenhuma, e completar a viagem amanhã. — Boa ideia! — Pauline vibra, tirando as mãos do volante para erguê-las em uma comemoração. Um caminhão atrás de nós buzina alto e ela grita de susto, voltando a conduzir o carro como se deve. Demora um pouco a se recuperar, porém sua empolgação não morre. — Brasília nos trará mil possibilidades! Conheço a cidade inteira, quero ir ao shopping e comprar tudo que eu sempre quis. Depois, jantar em um restaurante chique, desses que os políticos vão. Ai, que ideia perfeita! — Seus olhos voltam a brilhar, e por uns instantes me sinto menos infeliz. — É isso — sussurro, aprumo meu corpo no banco do carona e suspiro novamente. Pauline faz algumas curvas e logo diminui a velocidade do carro. Vejo um posto de gasolina adiante e

pressuponho que ela vai parar para abastecer, no entanto, me admiro quando estaciona no acostamento largo, localizado na beira da pista. — O que é que houve? Foi o pneu? — pergunto por impulso, preocupado e já aliviado porque o posto não fica muito longe. — Se o seu nome agora for pneu, sim, o problema é o pneu! — ela resmunga e aponta para mim. Tenho certeza de que nunca a vi com essa expressão indignada. É incrível como fica ainda mais bonita. Embora sua beleza seja simples, a ponto de quase passar despercebida, toda vez que a olho, tenho consciência dela. — Vamos conversar sério, aqui e agora! Pauline simplesmente se move, retirando o cinto de segurança com certa pressa e se desenganchando do banco do piloto. Sua perna comprida passa por mim, trazendo seu corpo ágil e flexível. Eu não acredito no que estou vendo assim que ela para com as pernas ao meu redor, sentada no meu quadril. Os braços se apoiam no encosto do banco atrás de mim, e no instante seguinte tenho seu rosto muito próximo do meu. Prendo a respiração, é o que

me resta fazer. — Vamos, fale — ordena, encarando-me com os olhos semicerrados. — Fa... Falar o... quê? — Engulo em seco. Busco olhar para algum lugar que não seja seus olhos, mas é muito difícil com ela tão perto. Sinto meu rosto fervendo. Quero que saia de cima de mim, mas, por outro lado, não quero. — Sobre esses suspiros. Você parece infeliz, Joseph. — Ela pega o meu queixo e me obriga a erguer o rosto. Volto a encará-la. — Como alguém que acabou de ganhar na Hiper-Sena pode estar tão desanimado? — Não estou desanimado... — murmuro baixo, sem conseguir pensar direito. Só tenho consciência do ponto entre as minhas pernas se animando consideravelmente. — Poxa, não mente pra mim. — Vejo decepção em seus olhos, e logo me julgo um completo imbecil. — Pensei que fôssemos amigos. Vai ser difícil prosseguir se você não confiar em mim e ficar se escondendo. Reflito sobre o que falou por alguns segundos. — Olha, Pauline... Eu vou ficar bem e me tornar uma

companhia melhor. Prometo. Eu jurei que fugiria e estou aqui, não estou? Confie em mim também. — Eu confio, mas não quero te ver assim! — Chacoalha o corpo ao meu redor. O gesto é involuntário, proveniente de sua incapacidade de ficar quieta, mas meu coração dá um solavanco e minhas entranhas reclamam. Não é possível que ela não esteja sentindo minha mais recente ereção. — Não quero te ver sofrendo pela Laurene, nem por seus pais. Você é milionário agora! Acho que sua ficha não caiu ainda. Percebe que o mundo inteiro está ao seu dispor? Você pode ter tudo o que sempre quis! — Este é o problema, Pauline — rebato em uma onda de insatisfação. — Posso ter tudo o que sempre quis, mas não me sobrou nada para querer de verdade. — Percebo que ela se entristece com minhas palavras. Resolvo explicar melhor a real situação. — Passei anos juntando dinheiro para me casar com Laurene. Comprei um terreno grande e tentei pôr uma casa de pé, tudo para receber a família que sonhava em construir com ela. Meu objetivo de vida sempre foi este: ser um bom filho, um bom marido

e, posteriormente, um bom pai. Ela fica com a boca aberta por um tempo, sem nada conseguir responder. Não sei o que se passa pela sua cabeça, mas a minha entra em uma espécie de névoa que me impede de raciocinar com clareza. Ainda não acredito que consegui ser tão sincero e direto com alguém, principalmente com uma mulher que está com o órgão genital tão perto do meu. — Mas agora tudo mudou — ela fala, por fim, e sorri abertamente. — Pode continuar mantendo os seus sonhos, eles não morreram, só foram adiados. Pense apenas em ser o Joseph, o homem curioso que deseja ser livre, depois você pensa em ser tudo isso aí que enumerou. Desta vez, sou eu que perco a fala. Pauline parece ter a capacidade de dizer as coisas certas no momento certo, por mais incrível que possa parecer. Ela é doida, agitada e intensa demais, porém sabe ser uma amiga de verdade, dessas que te apoiam e te fazem erguer a cabeça. Essa compreensão me deixa contente, pois tenho certeza de que é possível cultivarmos uma amizade sincera, que nos fará bem durante a louca viagem.

Ela olha para todos os lados da pista antes de me encarar de novo. — Acho que dá tempo pra uma rapidinha. — Seus quadris começam a fazer um movimento bastante sensual sobre mim. Meu cérebro trava. Ela se inclina na direção do meu pescoço e lambe a extensão que vai do meu ombro esquerdo até a orelha. — Uma o quê? — Minha pele se arrepia numa velocidade tão grande que chego a sentir uma dor aguda. Não sou respondido. Pauline continua rebolando, me atiçando, e passando a língua em partes do meu corpo que eu nem sabia que podiam dar tanto calor. Para ser sincero, nunca pensei que receber “linguadas” pudesse ser outra coisa além de nojento. Mas aqui estou eu, sendo lambuzado pela saliva dela e quase morrendo por dentro. As mãos dela assanham meus cabelos, e me vejo totalmente sem reação. — Pauline... — murmuro, tentando explicar que eu não sei o que diacho é uma rapidinha e muito menos o que fazer com minhas mãos. Seguro sua cintura porque me parece a área mais neutra para pegar sem me sentir um

invasor. — Não faz isso, sô. Ela endireita a coluna, afastando-se um pouco. — Vai ser divertido. — Sorri. — Nunca fez sexo no carro? É uma delícia, vai ver. — Não, eu... nunca fiz. Nunca fiz sexo nenhum. — Relaxa, ninguém vai nos ver, o vidro é fumê. — Ela rebola com mais rapidez. Seus braços se movimentam e Pauline se livra da própria blusa. Tento não encarar o formato de seus seios amparados por um sutiã preto quase transparente. — Chama meu nome de novo, vai? Eu adoro! É tão excitante. Meu corpo encolhe devido à vergonha, e me sinto murchando. Não suporto a ideia de perder minha virgindade na beira de uma estrada qualquer, e, pelo que entendi, seria uma experiência “rápida”. Eu me considero um estúpido por pensar na possibilidade de ter minha primeira vez, depois de vinte e seis anos de castidade, com uma mulher que obviamente só quer ser minha amiga. Também quero apenas a sua amizade, por isso não é nada direito deixar que algo tão íntimo aconteça entre nós.

— Pauline... — Afasto seu corpo com força comedida. Não é minha intenção chamar seu nome, como me pediu, eu só queria chamar mesmo sua atenção para que não rebolasse mais em mim. Mas ela revira os olhos e passa a alisar o meu peitoral como se eu lhe pertencesse desde sempre. — Que delícia! Sua voz é tão sexy... Ela leva as mãos para trás e desprende o sutiã, que voa para o banco do piloto. Olho para baixo a fim de não vê-la despida, mas acabo notando demais suas pernas abertas em uma calça apertada e reajo mal. Eu estava ficando mole, mas meu membro desiste e volta a endurecer. Solto um grunhido de angústia, excitação e verdadeiro pavor. Pauline tira minhas mãos de sua cintura e as deposita em seus seios. Não sei o que fazer com eles. Meus dedos congelam instantaneamente, de modo que só consigo registrar a consistência macia que eles têm. Olho para ela quase gritando por socorro. Mas Pauline está de olhos fechados, concentrada em rebolar e me enlouquecer. — Quero te provar de novo, Joseph — geme baixo,

com a voz arranhada. — Quero seu pau todo dentro de mim, como fizemos durante a madrugada. Pauline volta a se inclinar na minha direção. Sua mão segue um trajeto desconhecido, meio distante de mim, e logo percebo por que: ela gira a alavanca localizada ao lado do banco e consegue reclinar o assento até me deixar praticamente deitado. Levo um susto tão grande que pulo, mas ela parece não reparar no meu desespero. Começo a suar frio. — Co... Como assim? — pergunto, no auge do meu nervosismo. Sinto meus lábios tremendo e modificando as palavras. Não dá para raciocinar direito. Simplesmente não consigo. — Como assim o quê? — ela questiona com a voz sensual, depois lambe meus lábios, que mais parecem britadeiras. Arquejo involuntariamente, e sem querer aperto seus seios. Ela geme alto, o que me faz arquejar de novo e a apertar mais uma vez. Pauline está em uma espécie de possessão, uma coisa que faz seu rosto ficar estranho. — Nós... nós não fizemos nada na madrugada — falo

de uma vez. Ela abre um olho, depois o outro. — Como não? — Faz uma careta engraçada. — Você não está achando que transamos, está? — Aproveito a deixa para largá-la. Ela se senta ereta sobre meu quadril. Fico surpreso e ainda mais perturbado, pois achei que ela estivesse blefando quando disse à minha mãe que tínhamos feito sexo. Mas não, a doida realmente acreditava que havíamos caído em pecado. — Não transamos? Mas eu estava nua na sua cama! — Pauline apoia as mãos na cintura e me olha feio. — Não acredito que você não me comeu! — Você estava bêbada — tento explicar. Ela parece revoltada, o que me deixa ainda mais nervoso. Tudo com Pauline é tão esquisito! Se eu a tivesse molestado, aí sim, ela podia ficar indignada desse jeito. — Praticamente se jogou na minha cama. — Mas você estava quase nu também! E esfregou esse seu pauzão em mim!

Quero enfiar minha cara no chão. Não dá pra crer que ela mencionou o comprimento do meu órgão genital de uma maneira tão descarada. E eu nem acho que seja tão grande assim, ela está exagerando, só pode. — Bom... — Desvio meus olhos, desconcertado. — Desculpa. Ela me encara por alguns segundos, depois começa a gargalhar alto. — É por isso que estou com essa vontade incontrolável de dar! — berra, ainda gargalhando. — Não acredito que fez isso, Joseph, só você mesmo! — Uai, mas eu não fiz nada! — defendo-me. Minhas mãos estão tremendo, ainda sobre seus seios. Simplesmente não consigo tirá-las de lá, uma força invisível me faz ter medo até de respirar. — Por isso mesmo! — Revira os olhos e solta o ar dos pulmões, impaciente. — Quer saber? É melhor a gente transar com calma em Brasília. Nossa primeira vez precisa ter mais glamour, não é? Pauline inclina seu corpo sobre mim novamente e me presenteia com um beijo molhado, porém rápido. Crio

coragem não sei de onde para afastar minhas mãos, repousando-as nas laterais do meu corpo. Espero que ela se vista, com uma expressão não tão feliz, e depois me olhe atentamente. Não faço ideia do que dizer. Não sei se estou pronto para transar com ela em Uberaba, em Brasília ou em qualquer lugar do mundo. Nós somos amigos, ou pelo menos estamos tentando ser. Que tipo de amizade louca é a que ela propõe? Estou confuso e sem qualquer manual de instrução para me ajudar a entender onde eu me meti. — Não é, Joseph? — insiste, sua sobrancelha erguendo levemente. — Não é o quê? — Evito encará-la por pura vergonha. Ainda estou muito excitado, controlando uma vontade absurda de agarrá-la para fazer sei lá o quê. Nem acredito que este sou eu. — Vamos terminar o que começamos em Brasília, não é? Preciso de uma confirmação, odeio me frustrar. — Balança a cabeça, espalhando seus cachos indefinidos, e sorri. — Se eu dormir sem um orgasmo de novo posso sofrer uma implosão involuntária.

Por alguns instantes, lembro-me do sonho maluco que tive com ela e tenho a nítida visão de seu corpo nu se contorcendo de prazer enquanto geme alto, quase gritando, sob meu corpo suado. Arfo, consciente de que minha ereção vibra com a lembrança. Ela sorri porque certamente consegue sentir o que acontece comigo. Abro a porta do carona, decidido a acabar com essa situação constrangedora. A vontade de voltar pra casa me domina, mas então me recordo que essa é a pior das minhas opções. — Minha vez de dirigir — defino e a faço descer do veículo. Pauline deixa um ruído esquisito de irritação atravessar a sua garganta. — Não dá pra acreditar que você não vai se render ao desejo, que eu sei que sente por mim, por causa da Laurene. — Eu saio do carro também, aprumando o assento até deixá-lo em sua posição original. Nossos cabelos se assanham mais a cada carro que passa pela pista em alta velocidade. — Sabe as condições? Uma delas é que você deveria se permitir. Vai ficar se lamentando e deixando de se divertir? Ela não merece

tanto. Eu me viro em sua direção e a observo. Ela se cala. — Desculpa, Joseph — adianta-se antes que eu descubra o que lhe dizer. — Estou forçando a barra. Você está sofrendo e eu tenho que respeitar seu momento. Aquiesço, mas não sem me sentir mal. Um trem esquisito faz meu coração palpitar e a minha mente ter a certeza de que estou fazendo alguma coisa muito errada. De qualquer forma, decido que a melhor solução é acalmá-la também. Pauline está agitada demais, ansiosa, inquieta e querendo abraçar o mundo inteiro com um só braço. Se seremos amigos, é meu dever protegê-la sempre que possível, mesmo que signifique protegê-la de sua própria personalidade estabanada. — Deixa acontecer, Pauline — falo e me aproximo dela, criando um pouco de coragem. Toco seus cabelos, tentando colocar uma mexa para trás de sua orelha. — Pra quê essa pressa, sô? Desacelera um tantinho. Temos todo tempo do mundo. O sorriso que me oferece é límpido, deixa-me um pouco mais tranquilo. Achei que ela fosse ficar com raiva

de mim. Inclino a cabeça brevemente e lhe dou um beijo na testa. — Vamos, temos muito chão pela frente! — digo e me afasto, pronto para dar a volta no carro. — Espera aí, você dirige mesmo? — Apoia as mãos na cintura. — Este tempo todo e não me contou que rolaria revezamento? — Você não perguntou. — Ela faz uma careta brava. Começo a rir e ela ri junto, meio surpresa, talvez, com minha mudança de humor. — Vamos ver se essa sua carroça aguenta velocidade. Alcanço a porta do lado do piloto a tempo de escutar suas reclamações sobre o modo como me referi ao seu carro. Ela se acomoda, ainda tagarelando sobre eu ser um mal-agradecido. Giro a chave e passo a primeira marcha. Pauline vai ver só o que é chegar a Brasília em grande estilo. O carro dela não é tão ruim assim, percebo quando estou a 110 km/h, e aumentando. O veículo tem bom torque, ganhando rapidamente velocidade a cada mudança de marcha, é estável nas curvas e não perde força nas subidas. O motor ronca um pouco acima dos quatro mil

giros por segundo, mas parece bem amaciado. — Sabe, aquela sua frase me lembrou a música do Legião Urbana! — comenta, mexendo no pen drive que está ligado no aparelho de som do carro. Ela pula algumas músicas, vasculha pastas e finalmente acha a que procura. — “Temos todo tempo do mundo, nosso suor sagrado...” — cantarola. — Conhece? — Tempo perdido, o nome. Conheço, sim, mas você não vai me fazer cantar! — Aumento o volume quase no máximo e piso fundo. Pauline grita, começa a se remexer e ri alto. Pensei que ela fosse se assustar com a velocidade, mas a doida não está nem aí. Não sei por que não me admiro. É assim que a nossa viagem começa a realmente ficar divertida. Adoro dirigir, amo velocidade, embora prefira motos a carros. Sou um cara prudente, só acelero se tiver certeza de que está tudo bem. Costumo me concentrar com facilidade e obedeço todas as regras de trânsito, incluindo as de velocidade. As seis horas que percorreríamos até Brasília viram apenas cinco. Paramos somente uma vez para mastigar qualquer coisa e usarmos o banheiro, nada

além disso. Pauline vibra quando visualiza a placa indicando a capital do Brasil. Alguns minutos se passam e temos um vislumbre de toda a cidade projetada, organizada e limpa. O sol está quase se pondo totalmente e as luzes começam a se acenderem, causando-me encantamento. — Sabe pra onde vamos? — pergunto, maravilhado. Nunca vi tantos carros em uma mesma via em toda minha vida. — Precisamos de roupas, itens de higiene e de um lugar pra ficar. — A gente podia escolher a cobertura do hotel mais fodão da cidade. Só pra ostentar. — Ela pisca o olho na minha direção e ri. Tento rir, mas não consigo. A verdade é que me sinto incomodado. Pauline percebe no mesmo instante. — O que foi? — Sei lá. Não acho correto torrarmos a grana só porque podemos. A gente pode ficar em um hotel comum, com certo conforto. — Eu concordo contigo, Joseph, mas que tal se a gente extravasasse nesta viagem? — propõe seriamente. — Não vou ficar gastando o dinheiro à toa, até porque

quero que ele renda, mas também não me atrai a ideia de ter limites agora. Eu preciso disso, compreende? Sua voz soa tão séria que eu realmente levo suas necessidades a sério. Meu cérebro calcula uma solução imediata. Eu me sentiria mal pelo resto da vida se gastasse sem propósito, mesmo que apenas durante uma viagem, na qual as coisas costumam ser mais caras: transporte, comida, hospedagem... — Vamos fazer o seguinte. — Paro em um sinal fechado e a olho. Pauline está introspectiva. — Toda vez que fizermos uma coisa realmente extravagante, vamos reverter a mesma quantia em doações. — Hum... Cinquenta por cento — rebate. — Oitenta — murmuro. — Sessenta. — Setenta. — Sessenta e cinco por cento e não se fala mais nisso. — Ela coloca a mão pra frente, eu também, e nós nos cumprimentamos. — Não é que eu não queira doar, está em meus planos, é só que eu acho que vou falir se fizer isso. — Gargalha sozinha.

— Então, se controle, uai. — Dou de ombros. — E aí? Cobertura? — Seu sorriso é malicioso e os olhos, brilhantes. O sinal abre e eu preciso continuar a dirigir. Pensa rápido, Joseph. — Cobertura — defino. — Vou anotar cada gasto, mocinha. — Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! — Pauline grita e aponta como uma louca para algo além da janela do veículo. — Olha aquilo! — O quê? — Procuro o alvo de seu surto e meus olhos param em uma concessionária enorme e brilhante, exibindo modelos de tirar o fôlego. Têm carros de todas as cores e marcas, uma máquina mais feroz que a outra. Não existe coisa igual em Itaú. — Uau! — Assobio. — Vamos? Ah, diz que vamos, por favor! Vire à esquerda! — grita, quase atropelando o volante com seu corpo agitado. — Você é louca? Esses importados custam uma fortuna! — rebato, mas meu reflexo me faz virar à esquerda. Meu coração acelera de expectativa, mas

também de um sentimento estranho, novo. Algo que não sei definir se é bom ou ruim. — Nós temos uma fortuna, esqueceu? Ai, meu Deus, vou ter um conversível! VOU TER UM PUTA DE UM CONVERSÍVEL! — Pauline, você é doida! — Balanço a cabeça, mas não é ela que nos leva até o estacionamento elegante da concessionária, sou eu. Um cara que não sabe o que está fazendo, mas faz mesmo assim, porque é interessante e diferente. — Bom... Pelo menos faremos muitas casas de abrigo felizes. — Muitas! Já pensou? — Pauline tira o cinto, seu corpo está quicando de tanta empolgação. — Vamos, Joseph, vamos fazer a boa ação do dia! Ela pula em cima de mim e me dá um beijo sem sentido, quase arrancando meus óculos. Afasta-se tão depressa quanto se aproximou e desce do carro, deixandome tonto, esbaforido, emocionado e superdisposto a cair em todas as tentações possíveis. Como Pauline consegue me modificar tanto em questão de minutos? Eu não faço a menor ideia.

Capítulo 8

Pauline

Brasília, Distrito Federal, a capital do mundo! Ops, quer dizer, do Brasil Brasília pode não ser a capital do mundo, mas é a do meu mundo! As melhores casas de orgias do Brasil estão aqui, e é claro que conheço a maioria. Não tem melhor lugar para entender o conceito de liberdade que eu vivo. Será uma grande oportunidade para mostrar um pouco mais sobre meu estilo de vida para Joseph. Espero que ele não core muito e nem saia correndo, porque essa é uma das melhores experiências que provei. Estou maluca para mostrar tudo a ele! Entro na concessionária chiquérrima de carros importados, com o coração aos pulos. Velocidade,

conforto e status. Tenho certeza de que meus olhos brilham como diamantes. Ah! Diamantes! Eu preciso têlos também, só para saber como são. Se eu não estiver jogando dinheiro fora ou me endividando, que mal tem? Estou ansiosa para sair daqui com meu conversível e rodar pela cidade mais endinheirada do país! Somos abordados por um consultor — porque vendedor é coisa de pobre, gente rica possui consultor de ativos — que nos olha com certo descaso, como quem sugere que não temos condições de comprar nada neste lugar. Decerto ele viu meu carro do lado de fora. Eu o amo, mas considerando a potência desses motores aqui e o design aerodinâmico, o coitado parece mais uma lata velha, apesar de ser quase novo. — Senhores, estamos fechando. Sinto muito, mas terão que voltar na segunda. — Não, meu senhor, vocês estavam fechando! — rebato, confiante. Abro minha bolsinha de ombro e tiro meu fabuloso cartão dourado sem limites. Coloco na mão dele, sabendo que isso basta para garantir nosso passe livre. — Não estão mais.

Seu sorriso discreto se amplia e juro que vejo as mesmas cifras, que surgiram nos olhos do gerente do banco, também nos seus. — Senhora Pauline, peço perdão pela minha indelicadeza! — Lê meu nome no cartão. — Senhorita, por favor — exijo, sorridente feito aquelas madames falsas e fúteis. — Me desculpe, senhorita. Deixe-me compensá-los oferecendo o que temos de melhor em automóveis de luxo. Tem alguma preferência? — Sim, conversíveis BMW, Jaguar e Porsche, são meus favoritos. É claro que eu já havia pesquisado tudo sobre as marcas de conversíveis, as novidades do ano e as vendidas no Brasil, em quantidades mínimas, que somente pessoas podres de rica podem ter. Pessoas tipo Joseph e eu. Havia ficado em dúvida entre as três fábricas que citei, mas, pelas opiniões que ouvi, o Porsche seria uma boa pedida, por seu design diferenciado e pela acessibilidade de seu painel. Por serem modelos compactos, às vezes a quantidade de botões não cabem e

fica muito complicado acessar o que você precisa, porque esses automóveis são todos automáticos. Imagina errar um comando no meio da pista a trezentos por hora? Muito perigoso! Ferrari e Lamborghini são muiiiiiito caras e, pensando no dinheiro que terei que desembolsar para a caridade depois, descarto de cara. Igor, como se apresenta o vendedor, me leva para ver as preciosidades reluzentes e velozes que possui na loja. Joseph me acompanha, contrariado, vejo na cara dele o quanto não concorda com minha primeira aquisição como milionária, mesmo que tenha me trazido até aqui. Mas que coisa! Vou ignorá-lo porque estou nessa para me divertir, não para ficar discutindo com ele. Toco as latarias como se estivesse pondo as mãos em um tesouro muito valioso. Não é minha primeira vez, mas é sempre um momento mágico. Essas maravilhas me excitam igual assistir ao Vin Diesel no meio de um racha, arriscando a própria vida. Entro em todos, mas me recuso a fazer um teste drive, primeiro porque eu já pilotei belezinhas como essas antes — não eram os mesmos modelos, mas serviram de base — e, segundo, porque

estou com pressa de levar um embora. Joseph fica perguntando os preços para o consultor como se fosse meu insuportável contador. Inferno, eu pagaria um milhão de reais para ter unzinho! Ele se anima todo quando descobre que o BMW não custa nem trezentos mil. Mas não gostei muito desse modelo. O Jaguar não me chama a menor atenção, nem tenho vontade de saber quanto custa. Mas o Porsche... É a oitava maravilha do mundo! Nem acredito quando dou de cara com um 911 Carrera Cabriolet. Parece que meu peito vai ser perfurado por dentro, de tanto que meu coração o esmurra. Quando me sento no banco do motorista, então, não me importa mais nada. — Eu quero esse! — quase grito de empolgação. — Qual é o valor? — questiona o chato. Não ligo para o preço. Vou levar! — Ótima escolha, madame — Igor fala empolgado, provavelmente visualizando sua gorda comissão. — Há somente quinze unidades desse modelo no país. — Uau! Que tudo! Igor se escora na lataria para jogar a bomba: — São R$ 699 mil reais.

— O quê? — É a vez do certinho berrar. — Pauline, vamos conversar! Ele me pega pelo braço e me afasta do consultor, que fica tristonho. Eu te entendo, cara. — É três vezes mais caro que os outros, a gente combinou de ostentar na cobertura, não em um conversível! — Eu dou setenta por cento deste valor para a caridade se você parar com o piti. Eu vou comprar este carro, Joseph! — Você prometeu que não extrapolaria. — Vixi, ele parece decepcionado. Tudo bem, eu não sou fútil nem nada, mas dinheiro é para ser usado e eu pretendo ter tudo o que quiser, agora que posso. Não sei o que é limite e não vou aprender agora, ainda mais com um cartão SEM limites na bolsa. — Joseph, você escutou bem o que o vendedor disse? É um achado! Pensa! Eu serei uma das poucas pessoas do Brasil que possuem este modelo na garagem! O que me faz pensar que preciso ter uma garagem à altura deste carro... — Eu me distraio por um segundo, mas sou

trazida de volta por sua careta de incredulidade. — EU PRECISO! Por favor, não tente me manipular emocionalmente. Joseph põe as mãos na cintura, contrafeito. — Não estou tentando te manipular, mas te fazer pensar racionalmente. — Joga as mãos para o alto, se rendendo. — Mas tudo bem, o dinheiro é seu e você gasta como quiser, não vou mais me meter! Ele se afasta, aborrecido, e eu penso que Joseph vai ficar melhor assim que andar naquela máquina. Posso deixá-lo dirigir para sentir o efeito no corpo. Nunca mais ele vai querer outro tipo de carro! Volto para perto do consultor e ele me explica tudo sobre a papelada. Como é sábado, eles vão me entregar o carro no nosso hotel, apenas semana que vem, depois que o banco liberar o pagamento pelo cartão. Mas eu preciso do meu conversível hoje! Como é que vou ver o pôr do sol amanhã? Passo a próxima meia hora tentando burlar o inferno burocrático com o gerente da concessionária e do meu banco. Para que me servem milhões de reais se não para

facilitar minha vida? Depois de alguma discussão, finalmente consigo negociar um prazo razoável para botar as mãos no meu primeiro importado. Joseph se aproxima, ainda chateado, dizendo que vai pegar um táxi para adiantar o nosso check-in em um hotel enquanto eu termino a compra do automóvel. A palavra “compra” me lembra que não temos roupa nenhuma. Estamos apenas com as do corpo desde que saímos de Itaú! — Vai, querido — concordo, tentando conseguir seu perdão. — Não vou te amolar mais. Todo mundo sabe que homem odeia acompanhar mulher nas compras. — O vendedor ri da minha tentativa de amenizar o clima, mas meu parceiro de viagem não. — Relaxa um pouco na banheira... Talvez eu demore um pouquinho, preciso passar no shopping para nossos planos de mais tarde. Sorrio, me deleitando de expectativa por nossa primeira noitada de verdade juntos. — T-tá! — gagueja, os olhos presos na minha boca como que hipnotizados. Mordo o lábio por pura fascinação, querendo na verdade mordê-lo todo. — Até mais.

Ele se vai sem olhar para trás. Enquanto Joseph anda, reparo no traseiro bem desenhado que ele tem. Hum... Hoje vou dar uma pegadinha. Aonde vamos tudo é permitido, inclusive, e principalmente, tocar! — Senhorita? — me chama o consultor e me viro para ele, esquecendo temporariamente a delícia que me espera na cobertura de um hotel, em uma cama enorme de casal, com champanhe e morangos. Sim, sim, morangos. — Preciso que assine aqui, aqui e aqui. A coisa se desenrola mais rápido do que eu pensava. O que uma conta recheada não é capaz de fazer? E um pouco de persuasão também, claro! Alguns minutos depois, estou saindo da concessionária, já fechada, no meu carrinho sem graça. Não posso ser ingrata, ele me trouxe aqui. Muito obrigada, xuxu, mas nossa separação tem data para acontecer. Segunda-feira, cedinho, vou receber meu conversível no hotel. Nem preciso voltar aqui! Tento não me demorar no shopping, mas é tanta coisa linda! Meu sonho era entrar em um lugar desses com um cartão dourado. Agora, eu posso. Estou torrando cada

tostão com um guarda-roupa fabuloso para nós dois. Vou deixar Joseph um tremendo gato, vai ter uma multidão de mulheres querendo atacá-lo na boate hoje. Atencioso como poucos homens são, encontro uma mensagem dele no meu celular, contendo o endereço do hotel e o número do nosso quarto. Ai, meu Deus! Um palpitar de expectativa faz meu corpo inteiro formigar. Nosso quarto me faz pensar mais em lar do que em motel, mas aquelas paredes hão de abafar os gritos insanos dos meus orgasmos. Uma foda em grande estilo, é o que acho que merecemos, para fazer valer a pena cada segundo de espera. Saio do shopping usando sapatos, roupas caras e meu primeiro diamante. Uma pedra chamuscante em cada orelha. Eu me sinto outra pessoa, meio fora de minha própria pele, mas nada com que não possa me acostumar. Quando finalmente paro em frente ao hotel, horas depois de nossa chegada à Brasília, estou animada e ansiosa. O estabelecimento é luxuoso e me deixa de boca aberta. O valet me entrega um cartão numerado antes de manobrar o automóvel até o estacionamento, que não

preciso saber onde é. Que chique! O melhor é poder usar esses termos estrangeirados. Mas também serei obrigada pela etiqueta a dar gorjetas generosas. Fazer o quê? É a sina de gente milionária. No saguão, sou abordada pelo concierg, que imediatamente se disponibiliza a carregar minhas sacolas. Paro no balcão da recepção como se não estivesse reparando em nada. — Boa noite, tenho uma reserva em nome de Pauline de Freitas Dias — digo com o maior orgulho do mundo. Nunca meu nome soou tão importante. — Boa noite, madame. Um minuto, por gentileza. — O funcionário faz a consulta ainda sorrindo. Será que não lhe doem as bochechas? — Aqui está. Seu amigo, também hospedado conosco, reservou a cobertura para a senhorita. É um prazer recebê-los. O atendente se vira para pegar o cartão magnético e eu fico encucada. — Como assim, também? Ele não me aguarda na cobertura? — Não, senhorita. Ele escolheu nossa suíte

presidencial, no penúltimo andar. Suíte presidencial uma ova! Joseph vai subir comigo para a cobertura agora mesmo! Peço para que ligue para o quarto dele imediatamente. O recepcionista disca e fala com meu amigo traidor. Ele me passa o aparelho, meio sem graça. Deve estar com medo de irmos embora. Pego o fone e descarrego os cachorros sobre Joseph: — Que história é essa de dois quartos, hein? — Pensei que ficaríamos mais à vontade se cada um tivesse sua privacidade, Pauline. — Privacidade? A gente está junto nessa, para dividir TODOS os momentos! Por que você sempre faz o contrário do que eu espero? Ele bufa do outro lado da linha, nervosamente. — Porque eu não sou como você, ainda não percebeu? Ui, corajoso o menino! Levantou a voz para mim. Resolvo mudar de tática. — Depois não vem com sermão sobre desperdício de dinheiro! Para quê dois quartos se a gente cabe muito bem na cobertura? — Ouço sua respiração, mas nada de sua

voz. Eu o deixei sem palavras, suponho. — Desce aqui pra gente resolver isso. Devolvo o telefone para o atendente. Peço que espere um pouco antes de finalizar meu check-in, para que eu converse com meu amigo. Cinco minutos depois, ele aparece, e vou ao seu encontro para que o carinha do balcão não ouça, nos dando a privacidade que Joseph tanto faz questão de ter. Procuro manter meu tom de voz baixo. — Se você está com medo, fale agora e a gente volta para Itaú de Minas imediatamente. — Ele resfolega, surpreso demais comigo, analisando-me dentro do meu modelito chique. Ignoro seu olhar. — Não vai dar para seguir viagem se você continuar com um pé atrás. O que eu preciso fazer para não fugir mais de mim? — Não é medo, sô, é respeito. Achei que seria mais adequado ficarmos em quartos separados. — Adequado? É um ultraje! Onde já se viu viajar com uma mulher e não dormir com ela? Em que mundo a gente vive? Ele ri, achando graça de minhas palavras. Estou

falando sério, poxa! — Fala de mim, mas é você quem sempre reage de maneira estranha, mesmo quando me preocupo em preservá-la. — Me preservar? — Estou indignada! — Eu não preciso ser preservada, Joseph, eu sou do mundo, ouviu bem, e ele é todo meu! — Ele não responde, fazendo cara de quem não sabe mais o que fazer, perdidinho. Controlome. — Olha, eu entendo que você tem certos princípios enraizados, mas eles não cabem em nossa viagem, muito menos comigo! Você precisa tentar deixar essas coisas de fora, liberdade é isso! Tudo bem que você tem escolha de ficar em seu próprio quarto, mas então estamos em um impasse, porque não suporto a ideia de ficar sozinha em uma cobertura enorme, quando eu tenho companhia a um andar de distância. Não faz sentido algum pra mim! Ele me olha por trás dos óculos e penso que, da próxima vez que for ao shopping, vou arranjar lentes de contato para ele. Esses olhos expressivos precisam ser apreciados por pessoas que, como eu, adorariam enxergálos melhor. Joseph empurra a armação no rosto, naquele

tique nervoso que já reconheço. — Eu não sei como você faz isso, mas tudo bem, vamos cancelar o meu quarto. Eu me atiro em seu pescoço, feliz da vida por tê-lo convencido, mas algo dentro de mim remexe de ansiedade. Tê-lo na mesma cama de novo é a oportunidade para o “deixar acontecer” que ele propôs na estrada. Meu ventre contrai de desejo. — Eu sempre venço, Joseph, porque nunca desisto do que quero. A frase soa mais sensual do que eu pretendia, mas gosto do efeito que causa nele. Sinto o princípio de uma ereção pulsar contra minha barriga, de leve, como se despertasse ao simples comando de minha voz. Meu Deus! É hoje que eu pego nisso tudo! Eu o arrasto pelo braço até o balcão, para realizarmos os ajustes necessários, e subimos de elevador privativo até a cobertura, com o concierg junto. Joseph não acredita na quantidade de sacolas que eu juntei em tão pouco tempo no shopping. A gente chega à cobertura e fico besta. Caracoles! Que incrível! Ela consegue ser maior do que minha casa!

Deixo meu companheiro de quarto cuidar da gorjeta, porque estou muito a fim de desbravar cada recôncavo do lugar onde vou passar os próximos dias. Não consigo ficar chateada em adiar a viagem até a Chapada dos Veadeiros. Estou em um quarto que mais parece uma parte de um palácio! Vai ser incrível e a gente ainda vai ter tempo de se conhecer mais intimamente antes de prosseguir. Quando encontro o banheiro, quase morro. É gigante e tem uma banheira que cabem umas dez pessoas dentro, sem exagero. Sem poder adiar mais, tiro a roupa na maior ansiedade, enquanto deixo a torneira aberta para enchê-la. — Pauline, eu vou... Eu me viro para Joseph quando o ouço me chamar. Ele fica parado, boquiaberto, a alguns passos da porta, e não desvia os olhos do meu corpo. Ser vista nua está virando um hábito muito bom. Eu só queria que fosse recíproco. Sou a favor da igualdade de gêneros. — Sim? — pergunto sugestivamente, como se fizesse um convite sensual. — Vou pedir algo pra gente comer, está tarde e estou

com fome. Antes que eu possa dizer que podemos jantar lá embaixo antes de sairmos, Joseph parte, me deixando faminta por ele. Nunca quis tanto um homem na minha vida, muito menos demorei tanto para ter. Resolvo relaxar e aproveitar meu banho de espuma. Vou tratar minha pele com os melhores sais banhos que comprei. Ficarei perfumada, linda e irresistível. Porque hoje, ah, hoje, vou sair da seca com ou sem Joseph! Porém, prefiro que seja com ele. Nunca me preocupei em ficar bem arrumada, apresentável estava bom. Mas por causa de Joseph, troco de roupa mil vezes, tentando encontrar o modelo certo para atiçá-lo, mas sem perder minha personalidade ou ser óbvia demais. Lembro do estilo de Laurene e me sinto mal. Não quero ficar parecida com ela, aí sim estaria encarnando uma personagem e não é esse meu objetivo. Quero agradar nossos gostos, meu e dele. Casual chique, acho que é a resposta certa. Opto por um vestido justo verde, um pouco acima dos joelhos, que cava um decote discreto no meu busto e marca bem minha

cintura, salientando naturalmente meu quadril. Sexy sem ser vulgar. Consegui fazer uma escova poderosa, como de salão, e uma maquiagem leve que estou acostumada a usar quando vou para balada. Não gosto de me borrocar de maquiagem, prefiro sair de cara limpa, não faço o tipo mascarada. Decido não tirar meus diamantes das orelhas. Encontro Joseph se empanturrando com porcarias na sala de estar, assistindo o canal de notícias. Não tinha coisa mais chata para ele ver, não? Vira-se para mim, com a boca cheia de salgadinho. Paralisa no meio da mastigação, forçando a garganta para engolir tudo a seco. Percebo que confere meu visual, por isso dou uma voltinha para que possa ver o material completo. — Uau! — exclama com a garganta arranhada. — Você está bonita, Pauline. Aonde vai? — Eu não, seu bobo, nós vamos! — Bato palmas, animada. — Escolhi um look sensacional para você, vem comigo! Eu o puxo pela mão e ele me acompanha aos tropeços. — Nus... Você não se cansa nunca?

— Às vezes, mas aí penso que não viver é perder um tempo valioso e irrecuperável. A gente para diante da única cama do quarto, onde estendi as roupas. — Que tal? — Ele faz uma careta. — Não parece muito comigo. — Vai ficar gatíssimo, veste logo! — Fica esperando sabe Deus o quê, indeciso. — Vamos, Joseph! A noite não nos espera para começar. — O que quer dizer com isso? Não vou ficar pelado na sua frente. Aonde diacho você quer me levar? — Como se eu nunca tivesse te visto de cueca antes. Larga de timidez, homem! Então, é uma boate — resumo, sem acrescentar a palavra “swing”. Joseph esfrega a nuca, desconfortável. — Não sei se vai ser legal, eu nunca estive em uma antes. Aposto que nessa, então, muito menos. Reviro os olhos. — É só me acompanhar, Joseph, você não precisa fazer nada que não tiver vontade.

— Como assim? — Nada! Apenas se vista e vamos logo! Lembre-se de que você prometeu se permitir. — Olha, Pauline, sobre isso, eu estava pensando que seria mais justo se fosse uma via de mão dupla. — Minha vez de ficar de boca aberta. O que ele está sugerindo? — Se eu vou me aventurar por suas atividades liberais, digamos assim, você também devia conhecer o meu lado, se a ideia é experimentar. Não faz sentido? Ergue as sobrancelhas, ansioso por minha resposta. Sua lógica é inquestionável. É claro que ele tem razão e eu não devia ter medo. Na verdade, não tenho, só não quero me entediar. Resolvo lhe dar uma chance de me mostrar um pouco de seu mundo. É o mínimo que posso fazer por ele. — Tudo bem, hoje você vai para balada comigo e amanhã você me leva aonde quiser. Seu sorriso de menino contente me contagia. Meu, que gracinha! — Obrigado, Pauline, por ser tão razoável! Eu sabia que você ia aceitar.

— Não sou de recusar nada, Joseph. — Exatamente! E eu contava com isso. — Bem, vou começar a mudança agora mesmo, me ajustando a você. — Ando até a porta e a puxo para ser fechada, mas antes, acrescento: — Se vista, te espero na sala. Quando ele me encontra, vestido com um paletó sem gravata, e com camiseta xadrez por baixo, muito mauricinho para ele, mas com cara de garoto rico, eu me derreto toda. Assovio, demonstrando minha aprovação. Ainda sei medir o tamanho de um homem só com o olhar. Coube certinho. — Uau! Vai arrasar! Agora, vamos de uma vez! Pegamos um táxi na frente do hotel, pois vou beber e quero que o Joseph beba também, embora ele nem desconfie dessa minha vontade. Dou o endereço da boate para o motorista e partimos em silêncio. Contenho minha ansiedade, porque agora falta pouco. Procuro por sua mão no banco, apertando-a enquanto vislumbro os prédios gigantescos e as ruas de cinco vias, além da noite, lançando beleza e cores distintas ao tom cinza costumeiro.

Por ser planejada, Brasília possui muita arborização, e boa parte da arquitetura é assinada por Oscar Niemeyer. Na entrada, temos um problema: não possuímos reserva. No entanto, os cartões dourados, mais uma vez, nos salvam. Não nos tratam apenas como clientes Vips, nos tratam como a nobreza. Somos direcionados a um camarote exclusivo, o que acho bom, já que Joseph estremece todo ao perceber o clima sensual, as referências sexuais e os vários pole dance espalhados pela pista de dança. — Pauline, o quê...? — questiona assim que ficamos sozinhos no cubículo aberto. Coloco um dedo em seus lábios, calando-o. — Apenas se solte e me acompanhe. A bebida que pedi é trazida na mesma hora em que Anitta começa a cantar “Bang”. Chega de me segurar! Sorvo o conteúdo da garrafa ao mesmo tempo em que começo uma dança louca ao redor de Joseph, como se ele fosse meu poste particular. Esfrego meu corpo todo no dele, as mãos, o busto, a bunda, as costas, a barriga. Meu Deus, estou esquentando depressa! O ambiente

favorece, basta entrar e curtir. Vislumbro alguns casais se agarrando na pista adiante e fico acesa de tesão. Eles ainda não estão nus, mas vão ficar em breve e, somente em saber disso, já fico daquele jeito. Canto, provocando mesmo, na maior caruda: — Vem na maldade, com vontade, chega, encosta em mim. Hoje eu quero e você sabe que eu gosto assim... Joseph não reclama, mantendo-se aberto, mas também não participa. Parece mesmo um poste de tão parado. Eu me lembro da coreografia e dou tapinhas no meu próprio traseiro, que mantenho virado para ele enquanto canto. Ergo-me e o encaro, mirando meu dedo em seu rosto. — Bang, (bang), dei meu tiro certo em você, deixa que eu faço acontecer. Tem que ser assim pra me acompanhar, pra chegar. Então vem, não sou de fazer muita pressão, mas não vou ficar na tua mão. Se você quiser não pode vacilar, demorar... Desço até o chão, de costas para ele, e subo devagar, rebolando e alisando seu corpo, que uso de apoio. Giro em meu próprio eixo, jogando meus braços em volta do

seu pescoço e mexo meu quadril de forma sensual, para frente e para trás. Tudo isso com seus olhos presos nos meus. Ele se deixa levar, finalmente, pousando suas mãos com firmeza na minha cintura, e eu exulto. — E, pra te dominar, virar tua cabeça, eu vou continuar te provocando... E, pra escandalizar, dar a volta por cima, não vou parar até te ver pirando... O refrão repete e eu deixo a porra da letra para lá. Agarro esse moço de uma vez, porque não consigo mais ficar tanto tempo longe dele. O beijo, misturado ao álcool na minha língua, ganha uma sensação explosiva. Perco o controle, puxando-o contra a parede onde me choco. Sou espremida por seu peso ao cambalear para frente. Ai, que delícia! Permito que minhas mãos vasculhem este corpo que está ao meu dispor. Escorrego pelo peitoral, enfiando-me por dentro do paletó só para senti-lo mais. Ouço-o ofegar na minha boca. Isso me empolga e, mesmo que ele não me alise de volta, estou queimando de desejo por mais. Deslizo as mãos para suas costas, até repousarem em seu traseiro gostoso, e dou um apertão. Ele se afasta, no susto,

interrompendo nosso beijo maluco e me deixando abandonada contra a parede, querendo desesperadamente continuar com a brincadeira. — Acho que preciso de água — dispara, sem fôlego. — Estou morrendo de sede! Em vez de chamar o garçom, ele parte para o bar, numa pressa louca. Acho que, se pudesse, ele pulava no meu conversível e corria feito um piloto de fórmula 1, acima de trezentos por hora. Depois diz que não foge de mim. Só não fico chateada porque o DJ anuncia o primeiro show da noite. Já não era sem tempo! O gogoboy, com seu corpo esculpido em músculos, sobe no palco e a gritaria começa, ganhando totalmente minha atenção. Nem percebo quando Joseph volta, estou ansiosa pelo momento de participar. E ele chega cedo. Salto para a pista de dança, me postando o mais perto que posso do homem. Estico a mão para tocar sua coxa grossa. Ai, meu Deus! Ele sorri para mim e estende os dedos, agarrando os meus! Uhuuuul! Estou autorizada a subir. Apoio meus braços na beirada do palco e impulsiono meu corpo para cima. Ele me puxa para uma dança

sensual, entrelaçando nossas pernas e remexemos juntos nossos quadris. Sigo em seu ritmo, permitindo que comande. Seus dedos acariciam meu pescoço e jogo a cabeça para trás. Eles deslizam entre meus seios e me deitam em seu braço forte. Não fecho os olhos e vislumbro um boquiaberto Joseph, que me observa chocado, sem acreditar no que estou fazendo. Quando percebe que eu o olho, ele empurra os óculos, vira o rosto para o outro lado e bebe sua água. Eu faço o dançarino perder as roupas assim que me ergue novamente. É para ficar nu que ele está aqui. Mais mulheres sobem no palco, me ajudando a despi-lo, tocando, vasculhando, mordendo-o. A cueca também some e fico maravilhada com o exemplar de pênis que caiu na minha mão. Meu, que saudade que estou de um pau de verdade! Pego nele com gosto, sentindo a textura, a dureza de sua excitação e a maciez da pele. A música muda, convidando os casais para a orgia. Estou com a boca seca, precisando de álcool, ainda nem fiquei tontinha. Volto saltitando para o camarote, onde Joseph está sentado, todo largado na poltrona. Chego

junto, de posse de minha garrafa de bebida meio quente, abraçando-o por trás e beijando seu pescoço. — O que está achando? — pergunto alto devido ao som gritante. — Não sei ainda, estou tentando processar tudo — confessa, me fazendo rir. — Você precisa de álcool! — sugiro o óbvio. Quem fica são em um lugar desses? — Não, mas você precisa maneirar, não quero ter que carregá-la de volta ao hotel. — Ei, posso ir com minhas próprias pernas, mesmo bêbada! — reclamo. — Eu vi como ficou da outra vez. Por favor, não extrapole! Cacete de palavra chata que ele não cansa de repetir! Afasto-me e abano a mão, ignorando mesmo. Não vou me controlar por causa dele. Termino a cerveja em um gole só porque já está quente demais para continuar enrolando. Peço outra, quer dizer, peço logo um balde com meia dúzia de uma vez. Vou dar um sentido novo ao verbo “extrapolar”!

Enquanto Joseph finge que está assistindo TV, eu fico olhando a pegação geral, bebendo. Ai, que vontade de me jogar nos braços da galera, como aqueles cantores de rock fazem nos shows! Mas não seria justo com Joseph, seria? Mordo o lábio, pensando. Vir a uma casa de swing e não dar é inadmissível! Eu podia escolher um dos carinhas e levá-lo a um reservado. Estou mesmo precisando de um pau. Um não, porque sou gulosa, quero dois de uma vez! Decidindo por mim, Joseph levanta, dizendo que vai buscar mais água e eu resolvo segui-lo com a desculpa de lhe fazer companhia. Mas ele enfrenta a fila sozinho e fico para trás. Eu me misturo aos corpos quentes na pista, remexendo-me em busca daquele que tornará o trio perfeito. Sou cercada por homens e mulheres que gostam do que veem em mim. Eu me deleito com os toques ousados que recebo, não importa de quem são. Como sou o centro da roda, tenho o poder de escolha. Por isso, toco naqueles que quero provar um pouco mais para me decidir. Dois homens me chamam a atenção, não por sua beleza, mas por sua ousadia e cara de safadeza, de quem estão doidos para ir um pouco mais longe. Fico

entre eles, em um sanduíche maravilhoso, sendo acariciada de todos os modos. Gemo, sorrio, me contorço, dançando e tentando retribuir ao máximo. De repente, uma mão forte agarra meu pulso e queimo de tesão. Ah, sim, por favor, me pega com força! Sou puxada com brutalidade, batendo contra um peitoral. Os braços me envolvem de maneira firme. Abro os olhos para ver quem ganhou, porque depois dessa pegada, meu bem, temos um vencedor. Para minha total surpresa, é Joseph. Uau! Deve ter ficado louquinho ao me ver com os caras. — Joseph — digo com a voz cheia de ar, sem fôlego com sua reação. — Venha comigo! — Soa mais como uma ordem, então fico em alerta. — Para onde? Um reservado? — Ficou maluca? — explode, com seu sotaque que me deixa louca. — Não vamos a reservado nenhum! E eu não vou deixar você ficar se esfregando nesse monte de cara que nem conhece! Caio na gargalhada. É sério, meu Deus?

— Hello? Você sabe onde nós estamos, Joseph? É isso que as pessoas fazem em um lugar como este: transam com desconhecidos! — Você está bêbada, eu não vou deixar você fazer... Isso... Nesse estado. Tenta me arrastar outra vez, mas eu não deixo. — Me solta, Joseph! Eu já transei estando muito pior! Com meu puxão, ele perde o equilíbrio e cai em cima de mim, me sufocando contra o balcão. — Não comigo por perto! — insiste, sem se mexer, como se quisesse usar seu corpo para me deter. — Não quando você tem um amigo em quem pode confiar para cuidar de você. Que intensidade! Essas palavras fazem meu coração palpitar forte e minha vagina melar de desejo por este homem. Eu quero tanto, tanto encontrar algum alívio hoje! — Mas eu preciso gozar, Joseph! — extravaso minha frustração em um lamento. Ele se desconcerta todo, tentando procurar um buraco onde enfiar a cara. Pego o queixo dele e o faço me encarar novamente, segurando o

mais forte que posso para não deixá-lo escapar de jeito nenhum. — Por favor! Eu nunca precisei implorar por sexo em toda a minha vida. Ele passa uma mão na nuca, sem me responder. — O que você quer que eu faça, Pauline? — pergunta, nervoso. Pego seu punho e o levo para o meio das minhas pernas. Ele abre bem os olhos e a boca, daquele jeito deliciosamente confuso, salientando sua carinha de certinho. Eu quero ter um homem como ele no meio das minhas pernas, mas, se precisamos ir devagar, que o início seja pelo menos em sua mão. — Me toque, Joseph. — Meu Deus, você não está com calcinha! — espanta-se. — Cala a boca e bate logo uma pra mim. Prometo que te recompenso. Eu o beijo para fazê-lo ficar quieto, enquanto tento enfiar a outra mão dentro de sua calça. Ao passar a palma, sinto a ereção enorme se destacar e fico doida para sentir a pele, mas seus dedos agarram meu pulso de novo,

daquele jeito rude que me faz delirar. Sua boca afasta da minha, sem fôlego. — Não que... Não precisa se preocupar comigo. Eu estou bem. — Mas eu não, Joseph, me dá um orgasmo inesquecível! Ele volta a grudar seus lábios nos meus, apertando com demasiada força a mão contra minha vagina. Vou ter que orientá-lo? Será que nem isso ele fez na vida? Travo seu braço, parando o beijo. — Você nunca fez... — começo a perguntar, mas me interrompe. — Não, eu... nunca fiz isso. — Também, com esse pauzão, quem se contentaria com um dedo? Só eu mesmo para ser compreensiva. Ele sorri sem graça, dando de ombros, o que causa uma pequena fricção lá embaixo. — Menos pressão e mais movimentos circulares, assim. — Faço seu braço se mexer do jeito que quero. Abro a boca em um “o” quando a sensação maravilhosa

causa aquela comichão nas minhas entranhas. — Isso, assim... — gemo, incapaz de falar normalmente. — Agora, mantenha o ritmo e não pare de jeito nenhum. — Faz como indico, pegando o jeito da coisa. Deixo ele se acostumar, enquanto eu esquento, queimo, excito sob seu controle. Isso é muito melhor do que me masturbar. Fala sério! — Ah, que delícia, Joseph, que tesão. Aumenta um pouquinho o ritmo agora. Ah, isso, desse jeito mesmo! — Solto um gemido, jogando a cabeça para trás, agarrada em seu pescoço. — Não para, continua, ah! — Solto um grunhido quando o êxtase chega, perdendo a razão. Como não dou nenhuma ordem, ele persiste, me fazendo chegar a outro clímax poderoso, que sai em forma de grito. Sua boca prensa a minha, não sei se para me fazer ficar quieta, e perco a capacidade de respirar. Correspondo feito uma louca, grata demais por ele ter atendido ao meu pedido. Suas mãos vão parar no meu rosto e sinto o cheiro de sexo que seus dedos exalam. Eu me separo dele e os lambo lentamente, limpando-os com minha língua. Joseph, e uma multidão ao nosso redor, gemem. Puta merda, a boate toda assistiu à nossa pegada

insana! Sorrio, mais do que satisfeita com a experiência, que foi um sucesso absoluto. Se minha viagem com ele for sempre assim, uma surpresa atrás da outra, não vou querer voltar para casa nunca!

Capítulo 9

Joseph

Brasília, Distrito Federal Abro os olhos devagar, sentindo um calor gostoso proporcionado por alguém que me abraça de um jeito estabanado. A surpresa me domina quando percebo que ainda estou no sofá, local que escolhi para dormir depois que reboquei Pauline para cama. No entanto, pelo visto, ela não tinha ficado por lá. Não sei o que sentir com relação a isso. É até covardia ter um leito tão grande quanto o da cobertura inabitado, por mais que o sofá seja maior e muito mais confortável que minha velha cama de solteiro. Esfrego os olhos, sem conseguir enxergar muita coisa devido à ausência dos óculos. Não me lembro bem onde

os coloquei, mas estou com preguiça de procurá-los. Sei que está cedo porque sou de acordar com o cantar do galo, nem preciso conferir relógio algum. Não ouso me afastar de Pauline por algum tempo, até que a ideia de sua proximidade começa a me deixar assustado. Eu me lembro, como se estivesse acontecendo agora, do nosso momento doido na boate, se é que aquilo era mesmo uma boate, mais me pareceu um ambiente luxurioso feito pro povo todo fazer sexo descompromissado. Nunca pensei que um dia fosse pisar num lugar como aquele. Observo a minha companheira de viagem dormindo calmamente, vestida com uma camisola finíssima e transparente, um trem que mal lhe cobre direito. Não tenho como evitar os pensamentos pecaminosos, que logo me fazem ter uma ereção. Começo a me acostumar a ficar deste jeito perto dela, e isso não pode ser boa coisa. Lembrar de sua consistência macia e lambuzada em meus dedos não ajuda nem um pouco. Ainda não acredito que fui tão longe, mas prometi a mim mesmo não pensar demais no assunto, caso contrário poderia ter um acesso de vergonha que me levaria de volta pra casa. E, bom, eu

não posso voltar pra casa agora. Não enquanto não descobrir qual é o novo sentido da minha vida. Sempre achei que eu fosse beijar apenas uma mulher, e costumava sentir orgulho da minha total fidelidade à Laurene, por isso ainda me surpreendo quando Pauline e eu encostamos nossos lábios. A sensação é nova toda vez. Neste instante, porém, sinto uma espécie de liberdade maluca para beijar, suavemente, sua boca rosada. Toco seu quadril, por cima da camisola, e travo. Estou sendo muito indiscreto. Só porque Pauline se permite certas liberdades, não significa que devo achar que tenho o direito de tocá-la quando quiser. Ela não me pertence. Preciso me lembrar disso constantemente. Novas recordações surgem e me julgo muito esquisito. Não está certo o que fizemos. Tudo bem que era o que ela queria, e quase tinha implorado para ter, mas aonde chegaríamos deste modo? Eu não posso seguir adiante como se nosso relacionamento não fosse só amizade. Mas é, e sempre será. É assim que nós dois queremos, é o nosso combinado. Não quero usá-la e, principalmente, não quero me sentir mal por achar que a

usei, mesmo que ela não sinta culpa alguma. Não fui educado a agir deste modo. Por outro lado, se eu fosse seguir minha educação à risca, a esta hora estaria em casa, remoendo o término do noivado com Laurene e dando ouvidos às ideias da minha mãe. Eu me vejo em uma grande encruzilhada, sem saber que direção seguir. Bocejo e me espreguiço, meio zonzo por causa dos pensamentos confusos. Pauline sente a minha inquietação e acorda de repente, sentando-se. Olha para todos os lados, creio que tentando descobrir como chegou aqui. Depois sorri, erguendo as mãos e se espreguiçando. — Ah! Bom dia, Joseph! — Sua saudação já é animada logo pela manhã. Sorrio porque, apesar de toda a perturbação mental, seu jeito positivo de viver me faz um bem danado. — Bom dia! Como se sente? — Estou com uma puta ressaca, mas vou ficar bem. Você me trouxe? — Ela se levanta do sofá e começa a esticar braços e pernas, num exercício de alongamento bem desengonçado. — Não me lembro de como voltamos ao hotel.

— Claro que trouxe. — Arfo e reviro os olhos. Como alguém pode achar graça em beber deste jeito? Deus me livre. — O que vamos fazer hoje, já faz ideia? Só recebo meu lindo conversível amanhã, temos o dia todo livre! — Dá um monte de pulos, como um canguru, percorrendo toda a extensão da sala enorme e bem decorada da cobertura. — Estou doida por um café. Quer pedir serviço de quarto ou descemos pro restaurante? — Café? — Ergo uma sobrancelha. — Você devia tomar um chá de camomila ou um suco de maracujá bem forte, sô. Pauline me olha feio, ofendida. — Nem tente me desacelerar, queridinho. — Nem se eu quisesse. Depois do conversível, então, vai ser impossível. Ela pega uma almofada, que repousa sobre uma das poltronas enormes da sala, e a atira em mim. Bloqueio seu ataque com as duas mãos contra o rosto, meio perdido por não conseguir ver direito, e começo a rir sozinho. — Aposto como você está louco pra sentir o motor!

— Culpado! — Ergo os meus braços em rendição. Ela ri e eu me sinto mais leve. A ereção é controlada e percebo que é seguro levantar do sofá. — Vou pedir serviço de quarto. Coloque uma roupa discreta, tem um lugar que eu quero muito ir. — Quem disse que comprei roupa discreta? — Ela apoia as mãos na cintura e me observa de um jeito meio malicioso. Faço o possível para não desviar o rosto, não corar e não imaginar que há a possibilidade de ela ainda estar sem calcinha. Não tenho tempo de lhe responder, e sei que só consigo continuar a observando porque, no fim das contas, não vejo muita coisa mesmo. — Tô brincando, comprei de tudo um pouco pra gente. Vamos tomar um banho bem delicioso? Pauline se aproxima como uma gata. Agradeço por tudo estar embaçado, do contrário seria constrangedor ter que tentar disfarçar mais uma das trezentas milhões de ereções que ela me causa. Bem que eu estou precisando de um banho bem frio — congelante, se possível —, mas, se fosse com ela, eu não esfriaria nem se colocassem pedras de gelo no encanamento.

— Pode ir na frente... — Minha voz quase não sai, por isso forço a garganta para clareá-la. — Vou... Vou... Hum, vou ligar para o serviço de quarto. Dou as costas e saio da sala, seguindo na direção de um hall gigantesco que ampara uma mesinha onde repousa um telefone moderno. Pego o aparelho e disco o número indicado em uma cartilha explicativa. Antes de ser atendido, sinto mãos me abraçando por trás e dentes sendo cravados nas minhas costas. A mordida é forte, mas capaz de me deixar em maus lençóis de novo. Não aguento mais ficar duro deste jeito. — Obrigada pelo orgasmo de ontem. — Ouço a voz de Pauline, carregada de sensualidade, e guardo o telefone de volta no gancho antes que o deixe cair. — Foi mesmo inesquecível! Amei seus dedos e vou querer gozar mais neles assim que você deixar acontecer de novo. Ela me larga sem me dar tempo para uma resposta, não que eu tenha alguma. Faz questão de passar por mim rebolando, atravessar o quarto se livrando da única peça que lhe cobre e deixar a porta do banheiro escancarada. Fico com a visão de sua retaguarda grudada na minha

cabeça como massa de polvilho. Eu guardava a esperança de que ela tivesse se esquecido do tal orgasmo, mas não tenho esta sorte. Penso nas palavras “gozar”, “dedos” e “de novo”, que ela usou na mesma frase, e queimo de pura vergonha. Faço o pedido do café da manhã logo, perguntando se tem pão de queijo. Simplesmente não consigo ficar tanto tempo sem o meu alimento favorito. O hotel não tem a especiaria tipicamente mineira, mas eu reclamo, mesmo não gostando de agir desta forma, e sou atendido. Não sei onde conseguiram, mas o pão de queijo chega fresquinho junto com o monte de comida que trazem em um carrinho e arrumam com maestria sobre a mesa. Depois que Pauline sai do banheiro, enrolada em uma toalha pequena, entro, tranco a porta — nada de surpresas! — e me delicio com uma chuveirada rápida. Não quero me atrasar. Visto uma das roupas que ela escolhe pra mim, um “look”, usando suas palavras, para homens ricos. Não curto muito os modelos, mas gosto de me sentir cuidado pela minha nova amiga, por isso não reclamo. Mando uma mensagem para minha mãe, avisando

que estou bem, e torno a desligar o meu celular. Nós tomamos o desjejum e saímos despreocupadamente pelas ruas de Brasília. Ligo o GPS e Pauline descobre o nosso ponto de chegada assim que o configuro. — Você vai me levar pra rezar? Não acredito! — Começa a gargalhar, mas depois para e cruza os braços na frente de seu corpo, meio emburrada. — Vai me chamar de pecadora agora? — Deixa disso, Pauline. — Manobro o carro e olho pelo retrovisor, concentrado na pista. — A Catedral de Nossa Senhora Aparecida é praticamente um ponto turístico. — Vamos “turistar” numa igreja? — Não, sô. Vamos assistir à missa das nove enquanto conhecemos mais uma obra de Niemeyer — falo, mas logo em seguida percebo que posso estar cometendo uma injustiça. — Você crê em Deus, Pauline? — Claro que creio — responde, e me sinto aliviado. Não que eu não fosse respeitar caso me dissesse que era ateia, é só que ela poderá me entender melhor se acreditar no mesmo Deus que eu. — Mas o meu pensamento é

diferente com relação a Ele. — Pode me explicar melhor? — Fico muito curioso. Eu me interesso bastante pela opinião dela. — Eu te explico quando chegarmos à Chapada dos Veadeiros. Assim, entenderá o que tenho para dizer sobre isso. — Tudo bem. Não precisa prestar atenção na missa, mas eu preciso fazer isso. Consegue me compreender? — Ela aquiesce, embora eu saiba que não está muito satisfeita. — Nossa vida mudou muito rápido, Pauline. Tenho que me conectar com minhas crenças para seguir nossa viagem com sabedoria. O dinheiro que ganhamos precisa ter um propósito dentro de meus princípios. Eu ainda nem agradeci por tê-lo recebido! — Não precisa se explicar, Joseph. Você atende às minhas necessidades, mesmo não concordando com elas. Que tipo de amiga eu seria se não fizesse o mesmo? Sem querer, minha mão sai do câmbio e segura a dela, repousada sobre sua coxa. É um movimento involuntário que me deixa meio envergonhado, porém Pauline segura meus dedos e me faz ficar mais tranquilo

com o toque que trocamos. — Obrigado — murmuro. — Não tem de quê, lindinho! A Catedral de Brasília foi o primeiro monumento a ser construído na cidade. Trata-se de uma área circular com setenta metros de diâmetro, e tem dezesseis colunas de concreto ao seu redor, dando à construção um ar moderno e bem diferente. Fico emocionado quando adentro o local de mãos dadas com Pauline. A parte interior é ainda mais impressionante, apesar de simplista. Sentamos em um dos bancos de madeira, que estão enfileirados, e reparamos na movimentação intensa, talvez por ser domingo e faltar apenas cinco minutos para começar a missa da manhã. — É incrível! — Pauline ofega. — Que lugar impressionante! Fico contente porque ela gosta da catedral. Assisto à missa com muita atenção, percebendo que Pauline se perde mais de uma vez, mas não me abalo. Sei que ela faz muito por mim só por entrar aqui. Depois da cerimônia, em que peço perdão a Deus pelos meus pecados e

agradeço por tudo o que tenho recebido, tiramos algumas fotos usando o celular dela e resolvemos voltar para o hotel. Estou disposto a passar o dia inteiro dormindo, comendo, lendo qualquer coisa e assistindo televisão. Pauline, por sua vez, diz que quer fazer mais compras antes de seguirmos viagem, e sai sozinha. Não tenho saco para compras. Se depender de mim, o dinheiro que tenho mal será usado. Não que eu seja pão duro, mas é que vivi a minha vida toda com um mísero salário mínimo e mesmo assim nunca me faltou nada. Se nunca precisei de mais que isso antes, então do que diacho preciso para continuar vivendo, além daquilo que já tenho? Só me preocupo em não deixar Pauline pagar tudo nessa viagem, por isso faço questão de bancar nossa estadia onde quer que a loucura dela nos leve. Pego no sono em alguma hora desconhecida da tarde, desta vez na cama mesmo, depois de ter passado horas maravilhosas de puro tédio, sem ironia, e só acordo porque sou chacoalhado por ela. — Joseph? Joseph, acorda! Me ajuda a organizar as

compras! Pauline consegue realizar a proeza de ocupar cada cantinho da cobertura com uma sacola diferente. Fico espantado com sua capacidade de gastar dinheiro, mas tudo bem, tento compreender que ela é uma mulher cheia de necessidades, e que por acaso acaba de ganhar na loteria. Qualquer pessoa normal faria isso, não? Mais uma prova de que eu não devo bater bem da cabeça. — Comprei TUDO que eu sempre quis e que vamos precisar! — ela fala animadamente, dando pulos e batendo palmas enquanto revira as sacolas, organizando os produtos nas malas enormes que trouxe para acomodar tanta coisa. — Esse é o melhor dia da minha vida, Joseph! Abro uma sacola, que jaz sobre uma das poltronas, e o destino resolve tirar uma com a minha cara assim que percebo que se trata de produtos eróticos. Um membro de borracha do tamanho de um extintor de incêndio salta para fora, e o deixo cair no chão porque me recuso a pegar nisto. — Essa belezinha aí entra na categoria de coisas que eu sempre quis, fique tranquilo! — ela se explica, mas

quase engasga com a própria risada. Tenho consciência de que estou queimando de vergonha, e também de curiosidade, porque simplesmente não acredito que um trem desses possa caber em um ser humano. Ajudo com as sacolas, percebendo que Pauline comprou muitas roupas, sapatos e demais produtos para mim também. Eu me sinto sinceramente surpreso com seu cuidado para comigo, e agradeço bastante pela sua gentileza. Mantenho distância de suas roupas íntimas e demais itens constrangedores. Não aguento mais corar como um pimentão na frente dela, por menos que eu tenha culpa quanto a isso. Decidimos jantar no restaurante do hotel. Pauline está cansada por causa do dia exaustivo, sua bateria finalmente se esgotou. Se eu soubesse que era assim que ela desacelerava, teria deixado que fizesse compras mais cedo. Conversamos sobre algumas amenidades, mas percebo o clima ficando meio esquisito entre nós durante a janta, talvez porque Pauline resolve falar menos que o normal e eu não sei o que dizer diante de seu silêncio incomum. Subimos calados pelo elevador luxuoso e

privativo da cobertura. Eu só quero que ela fale alguma coisa, mesmo que me deixe morto de vergonha ou com mais uma ereção para lidar. Pauline se tranca no banheiro para trocar de roupa, a primeira vez que faz isso, depois rasteja pela cama e se aninha entre os lençóis. Eu não estou com nem um pingo de sono, portanto me sento na poltrona enorme ao lado da cama, ligo uma luminária embutida e pego um dos poucos livros de romance que ela comprou. Sinto que está me observando. Tento disfarçar e fingir que não percebo, mas não me aguento e pergunto se a luz a está incomodando. — Está tudo bem. É que sou ruim pra dormir logo, mesmo estando com sono. — Faço uma careta, pois não me lembro de ela ter dado trabalho para dormir nos últimos dois dias. Só depois compreendo que ela tinha bebido e apagado. Era a primeira vez que eu a via sóbria a essa hora da noite. — Deixe-me te observar? — C-Claro. Aconteceu alguma coisa? — Tenho uma surpresa pra te mostrar amanhã, estou nervosa porque não sei se vai curtir ou se vai achar que sou doida demais. — Ela começa a rir. — Mas, enfim,

está feito! Não fique bravo comigo. Meu coração acelera porque tenho certeza de que a maluca fez besteira. Vindo dela, não duvido de nada. A curiosidade quase explode dentro do meu peito, mas me controlo e fico disposto a esperar para ver, já me preparando para o pior. — Relaxa, sô. Não precisa desembestar. — Ela ri novamente, mas desta vez sei que é por causa do meu sotaque. Pauline dorme depois de algum tempo me olhando atentamente. Não gosto de me sentir exposto ou de ser o centro das atenções, mas o livro ganha a minha curiosidade e tento não me sentir esquisito com a situação. Durmo no sofá, um pouco tarde, e, para minha total surpresa, Pauline está de novo em meus braços quando acordo. Levo um susto e me levanto depressa, seguindo para o banheiro. Saio de lá semipronto para recebermos o conversível que ela comprou e para seguir viagem. Vejo-a já desperta, mas ainda deitada no sofá, toda preguiçosa. — Bom dia! — Boceja alto, despreocupada. — Quando vai finalmente dormir na cama comigo? Não

adianta fugir, Joseph. Dou de ombros. Busco alguma resposta legal para dar, mas não encontro nada. Desde que nos conhecemos penso em mil maneiras de dizer a Pauline que sou virgem, que no fundo tenho medo de seguir adiante, que não me sinto seguro ou mesmo pronto para tê-la tão perto. Mas a minha imaginação sempre soa patética, imagina a realidade? Eu começaria a gaguejar, com toda certeza do mundo, ela riria de mim pelo resto da vida e eu não sei se continuaríamos amigos. Por este motivo apenas me afasto, até que ela resolve mudar de assunto. — Vou ligar pra concessionária. Eles garantiram que entregariam o Porsche aqui no hotel logo pela manhã. — Saltita do sofá e desfila sua camisola fina até o celular, repousado em um móvel elegante. — Ai, não vejo a hora de pisar fundo no meu lindo conversível! Fico impressionado com a maneira como Pauline se comporta pela manhã. Nem parece que esteve dormindo recentemente. No entanto, fico feliz que o silêncio a abandonou e ela voltou a ser a mesma matraca de sempre. — Vamos a Veadeiros em carros separados? — Ela

me olha como se eu tivesse ficado maluco apenas em pensar nesta possibilidade. — Claro que não, Joseph! Que ideia é essa? Você vai comigo! — Uai... Já pensou onde vai deixar o seu carro antigo? — pergunto, sabendo que estamos diante de um pequeno problema. — Sobre isso... — Ela prende os lábios e faz uma cara engraçada, exibindo um sorriso malicioso. — Espere e verás! Fico com uma pulga instalada atrás da minha orelha, mas esqueço tudo quando um recepcionista liga avisando que o nosso “entregador” chegou. Pauline não consegue controlar o próprio corpo de tanta empolgação. Ela pula, dança, me abraça e fala gritando, acho que porque sequer consegue se ouvir direito. O Porsche está estacionado na frente do hotel, chamando a total atenção dos transeuntes e dos demais clientes. O funcionário da concessionária traz mais um monte de papel, que leio atentamente, já que Pauline mal consegue assinar o documento de tanto que treme.

A máquina é de uma coloração prateada viva, parece que foi feita de inox. Os bancos marrom-avermelhados dão todo o charme ao modelo, os pneus aro vinte são fantásticos, os faróis arredondados inspiram luxo e o que Pauline mais queria está lá: a capota aberta. Depois de assinados os documentos, a louca grita e corre até sua mais nova aquisição. Ela não abre a porta, apenas pula no lado do piloto e ergue os braços para gritar mais uma vez. As pessoas começam a se aglomerar na frente do hotel. Algumas sacam seus celulares e começam a fotografar e a filmar a cena. Minha Nossa Senhora, Pauline não é nada discreta. Que desgrama! Para completar, só falta ela gritar pelos ares que ganhou na loteria. — Eu sou rica! — ela berra no mesmo instante em que penso. — Sou milionária! Uhuuul! EU TENHO UM CONVERSÍVEL! CHUPA, MUNDO! Corro até o Porsche, abro a porta e entro. Um monte de celulares é apontado na minha direção também. Meu rosto se esquenta no mesmo instante. Só Deus sabe onde essas imagens vão parar. Ainda bem que não uso nenhuma

rede social, do contrário estaria quase pedindo para morrer. — Nos tire daqui, Pauline, agora! — rosno baixo, em tom de ordem. Ela nem pensa em me desobedecer, talvez porque está louca para sentir o motor, que ruge quando ela o liga. O pessoal se afasta assim que Pauline arranca com tudo, fazendo as rodas apitarem por causa do atrito com o asfalto. A velocidade que alcançamos em uma via menos movimentada é absurda. Em questão de segundos, estamos, de fato, voando sobre a pista. Não vejo a hora de pegar a estrada. Sinto uma nova necessidade se enraizar dentro de mim: quero sentir o vento nos meus cabelos e testar os limites do conversível. Quem sabe ganho uma maneira de testar os meus também? — Isso é bom demais da conta! — grito, ousando erguer as mãos. Pauline me responde com uma gargalhada. Ela se enrosca com os comandos automáticos do veículo, se adaptando ao câmbio automatizado e as teclas no painel, por isso acaba diminuindo a velocidade. Percorremos

alguns bairros e entramos em ruas desconhecidas. Não sei para onde Pauline está nos levando, mas não paro para perguntar. Estacionamos em uma rua tranquila, com casas enormes uma ao lado da outra. Parece-me um bairro nobre. Pauline procura alguma coisa dentro da bolsa e pega um objeto que, a princípio, não entendo o que é. Depois, fico estupefato. É a chave eletrônica que abre o portão de uma das casas. — O que... Como fez... Pauline, você...? — Não me decido sobre o que lhe perguntar primeiro. O portão grande se abre e uma casa modesta, porém muito bonita, surge. Entramos e paramos em uma garagem espaçosa, que dá acesso ao imóvel de um jeito moderno. — Onde estamos? — Finalmente consigo formular uma pergunta. — Na nossa casa! — ela sorri amplamente. Seus olhos estão brilhando muito. — Nossa... casa? — Passo as mãos nos meus cabelos, olhando dos dois lados. — É alugada, mas já é alguma coisa. Está toda mobiliada, é linda por dentro! Fiquei apaixonada por ela assim que botei o olho!

— Você alugou uma casa? — Encaro-a, ainda sem acreditar no que fez. — Sim, ontem. Meu lindo e maravilhoso cartão de crédito acelerou tudo. — Gargalha, alisando o volante do Porsche. — O dono ficou satisfeitíssimo! Já paguei cinco meses. — Cinco meses? — Arquejo, minha voz quase não sai. Vejo tudo embaçado, acho que devido aos batimentos do meu coração, que se aceleram muito rapidamente. Não me vejo passando todo este período longe de casa. Quanto tempo durará esta loucura? Nunca parei para pensar. — Cinco meses, Pauline? Ela dá de ombros. — Eu não sei, só achei melhor prevenir. Não se assuste, nem fique bravo. Vai ser incrível! Brasília pode ser nosso ponto de retorno. É perfeito! Um lugar para ficar bem no centro do Brasil vem a calhar! — Ela quica no banco, mal se contendo. — Aqui tem segurança, conforto e tranquilidade. É o nosso lar nessa nova vida! Não consigo rebater sua ideia, mas também duvido muito de que um dia eu chamarei esta casa de lar. Estou

confuso e ainda muito surpreso. Em vez de discutir, aceito conhecer a casa, comprovando o que Pauline falou sobre ela: é de muito bom gosto. Entramos no quarto modesto, mas com uma cama enorme, e ela puxa minhas mãos com força, jogando-me sobre o colchão grosso. Seu corpo esguio para por sobre o meu, e a observo, sentindo-me perdido. — E então, o que achou? — Olho sua boca e me lembro de que não trocamos um beijo sequer desde a boate. Tudo bem, é melhor assim. — Adorei... — murmuro, meio sério. Ela ri como uma garotinha. — Ótimo! Vamos pegar nossas coisas no hotel e partir para Veadeiros. Não podemos perder o pôr do sol por nada neste mundo! — Pauline tenta sair de cima, mas minhas mãos seguram sua cintura com força. Ela trava, surpresa com minha atitude, e me observa, seu olhar já indicando malícia. Eu não sei o que fazer. Também não sei o que quero ao mantê-la sobre mim. Pauline espera pacientemente, sem se mover, sem se abalar. Aquele seu olhar atento e

profundo retorna. A força que coloco em meus dedos se amplia involuntariamente, e a expressão dela se torna ainda mais perigosa. Giro nossos corpos em um gesto brusco, quase grosseiro, fazendo nossas posições serem trocadas. Ponho meu corpo por sobre o seu, pego seus cabelos e... os solto. Eu me levanto tão depressa que fico ofegante, se bem que não compreendo se já estava sem fôlego antes ou depois de me levantar, deixando Pauline jogada na cama. — Vamos! — chamo, e atravesso a porta do quarto sem olhar para trás. A viagem até a Chapada era para durar duas horas, mas o conversível faz o percurso em uma hora e dez minutos. Pauline consegue dominar bem o veículo, apesar da parafernália eletrônica. Peço para dirigir um tantinho mais de mil vezes, mas ela diz que a volta é toda minha. Não dá para conter a ansiedade. Eu quero fazer este trajeto em quarenta minutos, sei que posso. A paisagem que passa por nós é insuportavelmente encantadora. A sensação de liberdade corre pelas minhas veias; o clima, o vento, o horizonte, a companhia, julgo

cada detalhe da viagem perfeito em sua maneira de ser. Meu humor está bom, embora eu tenha ficado um tempo introspectivo depois de deixar Pauline no quarto da casa alugada. Ela não teceu qualquer comentário a respeito, o que me fez estranhar, já que ela sempre comenta a respeito de tudo. Chegamos a Alto Paraíso, município que abrange a Chapada, bem na hora do almoço. Escolhemos a pousada que oferece maior segurança para o Porsche, de longe a mais cara do pedaço. O carro está com um seguro provisório, mas Pauline correrá atrás de algo melhor assim que tiver tempo. Almoçamos no restaurante da própria pousada enquanto mobilizamos alguns funcionários para que nos deem informações sobre a melhor forma de ver o tão bem falado pôr-do-sol. Pauline já sabe de muitos detalhes do passeio, afinal, suas pesquisas não foram em vão, mas quer ter certeza para que nada dê errado. Ela decide fazer a trilha pela propriedade privada que inclui o Vale da Lua. Simplesmente não sei o que me espera, por isso deixo todas as decisões para ela,

ajudando somente no que consigo compreender. Deixamos o Porsche na pousada e seguimos em um carro de passeio disponibilizado por um guia, especialmente preparado para este tipo de aventura. Conseguimos chegar a tempo de nos juntar a um pequeno grupo que percorrerá a trilha entre enormes pedras de granito misteriosas, que mais parecem crateras lunares, por isso o nome. Fico sabendo que um rio chamado São Miguel percorre essas pedras e deixa rastros de piscinas naturais. Estou excitado para começar e não me decepciono a cada metro vencido. Pauline não anda, ela saltita durante a primeira meia hora. Fico maravilhado com a beleza das rochas, da água cristalina do rio, das pequenas cachoeiras e do horizonte ao nosso dispor. O grupo resolve parar para nadar em uma das piscinas naturais depois de quase uma hora de caminhada. Pauline ama a ideia e não pensa duas vezes antes de tirar suas roupas, jogá-las em qualquer canto, exibir um biquíni florido que combina com ela e entrar na água, toda maravilhada. Paro e sento em uma das pedras, observando-a. — Você não vem, não? — ela grita, jogando água

cristalina para os ares. Não tenho como dizer que não estou usando roupas de banho por baixo da bermuda e da camisa de manga longa, feita de um material térmico, comprados por ela. — Estou bem aqui! Divirta-se! Ela faz cara feia, mas logo começa a mergulhar e se esquece da minha existência. Eu me limito a observar cada movimento que faz. Pauline baila como se uma música sempre tocasse ao redor de si. É engraçado, mas começo a achar o seu jeito muito bonito. Aproveito a oportunidade e faço várias orações enquanto estou diante de uma natureza tão espetacular. Este tipo de lugar é perfeito para uma conexão com Deus. Pauline reclama quando o grupo decide continuar a jornada, mas logo se empolga porque sabe que o pôr do sol está chegando, ou seja, o tão esperado momento. Ainda caminhamos mais meia hora até que alcançamos o lugar ideal para assistirmos ao espetáculo que só a natureza divina pode nos oferecer. Nós nos sentamos um ao lado do outro no alto de uma pedra enorme. Simplesmente esperamos. Estamos acompanhando o sol

minguar aos poucos, o céu ficar cada vez mais alaranjado e as pedras escurecendo por causa da quase ausência de luz. Não falamos nada. Apenas sinto a presença da minha companheira de viagem pertinho, pois nossos ombros estão colados como se fôssemos um só. O astro-rei não para de descer mais e mais, aumentando o contraste da cena, redesenhando as sombras e me enchendo de expectativa. Fico sem fôlego diante de tamanha maravilha. — Está vendo isso, Joseph? — Pauline murmura a pergunta. Fala tão baixo que eu quase não a ouço. — Estou... É lindo. É emocionante, você tinha razão. Olho um pouco para ela e percebo lágrimas rolando em sua face. Não faço alardes, pois não quero desconcertá-la. Mesmo assim, não consigo não me sentir transtornado. Prendo os lábios, tentando descobrir o que dizer em um momento tão especial pra gente. Afinal, quem diria que um encontro na lotérica fosse gerar uma série de acontecimentos que nos trariam até aqui? Resolvo que nenhuma palavra cabe entre nós e o pôr do sol mais incrível que já acompanhei na vida. Apenas a

abraço lateralmente, trazendo-a para mais perto de mim. Afundo meu queixo em seus cachos e continuo olhando o horizonte. Percebo que ela treme um pouco e sacoleja por conta de alguns soluços contidos. Sei que ela chora de emoção, de felicidade, e por isso tento continuar tranquilo e não me desesperar. — Este é o meu Deus, Joseph — sussurra com a voz embargada. — Deus é a natureza, é o sol que se põe... São as pessoas, as rochas. O amor, a amizade, as boas energias. O sexo. O meu Deus é tudo que existe. — Solta um suspiro longo. — Deus sou eu também. — Ela se ergue e me olha sem medo de me revelar sua emoção. — E é você. — Sorrio, emocionado. — É o seu sorriso. Antes que o mundo pare e eu nunca mais possa ter coragem de tomar qualquer iniciativa, toco seu rosto e a beijo como jamais pensei que fosse beijá-la um dia. Não é um beijo que busca o sexo, não tem pressa ou afobação, nem mesmo fico envergonhado. É um beijo carinhoso, que inspira confidencialidade, um gesto quase amigável. Compreendo o que Pauline tanto chama de liberdade ao ter acesso a esses lábios deliciosos sem me sentir culpado

ou temeroso. Tenho apenas ela, minha amiga Pauline, uma mulher sensível e sem preconceitos. Eu gosto dela, por menos sentido que faça. Nós nos afastamos devagarzinho. O sol está quase desaparecido no horizonte laranja. — Vamos... — ela diz baixinho. — Vamos logo, Joseph. — Pra onde? — Ainda estou tocando seu rosto. — Ver o sol nascer. Não podemos perder tempo. Vamos! — Pauline se levanta rápido e me puxa, apoiandome e me ajudando a levantar também. — É sério? Naquele lugar da Paraíba que você mencionou na lotérica? — Claro que é sério. — Pisca um olho. — Isso mesmo! Ponta do Seixas, aqui vamos nós! Pauline puxa a minha mão e eu não tenho outra opção a não ser desejar amargamente acompanhar o mesmo sol, que acabei de ver se pondo como se fosse a última vez, renascendo em mais um lugar perdido do mundo. E que assim seja para todas as coisas boas que existem. Renascer é a palavra.

Capítulo 10

Pauline

Acima das nuvens entre Brasília, Distrito Federal, e João Pessoa, Paraíba — Eu nunca tinha dirigido um conversível antes! — fala Joseph em uma empolgação que me faz sorrir amplamente. É claro que não! Adoro vê-lo entrar no clima, pilotando mais rápido que eu, em uma estrada desconhecida na região central do Brasil. Voltamos a Brasília em tempo recorde, me dá até inveja de sua desenvoltura ao volante. Estou feliz por ele estar se soltando voluntariamente. Bastou eu descobrir o que ele curtia. Consigo fazê-lo soltar palavrões inúmeras vezes

enquanto a gente canta “Não Uso Sapato” com Charlie Brown. O vento e o ronco do motor disputam conosco quem faz mais barulho. Gritamos com força para as montanhas ao nosso redor, como um hino. Tudo bem que eu não odeio gente chique, mas convenhamos que estamos bem longe de ser tão superficiais, mesmo que eu ceda a alguns caprichos, como ter alugado esse jatinho particular para voarmos até João Pessoa com mais conforto. — Muito menos viajado espremido em um carro por quase dez horas só para ver um pôr do sol que dura cinco minutos! — Ele solta uma risada tão gostosa que me contagia. Amo nos ver trocando as posições. A adrenalina o faz falar sem pausas desde que entramos no avião. Não que eu esteja cansada ou cabisbaixa, mas meu reencontro com Deus sobre aquela pedra cinzenta foi tão fabuloso que me faz querer conservar a sensação por mais tempo. Eu já fiz muitas coisas loucas, mas é a primeira vez que dedico tempo, energia e dinheiro em me reconectar comigo mesma, com minha essência e divindade interior. Acho que, no fim, a saída de Bruno de casa me fez

repensar alguns aspectos que deixei de lado por muito tempo. Curtir a vida também é aproveitar tudo o que temos de melhor ao nosso dispor. — Aquele pôr do sol valeu cada segundo! — digo intensamente, com um sorriso contido. Ainda sinto o calor de seu corpo aquecendo o meu, sua boca umedecendo meus lábios e me abençoando em um momento glorioso. Não sei por que o Destino quis que eu fosse até a Chapada dos Veadeiros para presenciar as belezas do lugar, mas sei que não saí de lá apenas com aquela imagem presa na minha retina. Há algo mais pulsando dentro de mim e desejando se repetir, basta eu estar no instante certo outra vez, o segundo perfeito para ativar essa sensação maravilhosa e indescritível. Por aquele sentimento, eu repetiria a viagem trezentas milhões de vezes e gastaria cada centavo do meu prêmio. — Eu nunca tinha subido em um avião também. Esse trem não vai cair, não, né, Pauline? Agora entendi! Joseph está falando pelos cotovelos para esquecer que estamos viajando pelas nuvens do céu brasileiro e não com os pés firmes no chão.

— De jeito nenhum! — rebato com firmeza e confiança. — Sabe quais são as chances de nos envolvermos em um acidente aéreo? — Seus dedos apertam os braços da poltrona larga e confortável, que está na minha frente, do outro lado de uma mesa fixa. Ele balança a cabeça negativamente e engole em seco. Está com medo, judiação! — Uma em quase seis mil! — explico, buscando na memória minha fixação por estatísticas. Ele arregala os olhos, espantado. — De carro, a gente correria muito mais risco. Acidentes de trânsito são o terceiro motivo que mais mata pessoas no mundo. — Nem quero saber quais são os dois primeiros! — exalta-se, evitando a janela. A vista não traz mesmo muita coisa para ver na escuridão sem fim, ainda mais se sobrevoarmos uma área coberta por nuvens e de vegetação extensa. Porém, chegar a uma metrópole voando baixo, e assistir às luzinhas infinitas se aproximando, é uma das belezas mais espetaculares de admirar. — Mas este jatinho não vai cair. Sabe por que eu

tenho certeza disso? — Seus olhos me encaram por trás dos óculos, em uma ansiedade que me deixa morrendo de vontade de tomá-lo nos braços e abraçá-lo até que se acalme. — Porque a gente tem muita sorte. Seu sorriso não chega aos olhos. Droga, acho que minha mania com números não o tranquilizou. Comigo teria funcionado. Joseph estremece quando o avião sofre uma ligeira oscilação, bem longe de uma turbulência. Bato no braço da poltrona, decidida, erguendo-me em um salto. — Sabe do que você precisa? — Agacho em frente ao frigobar, ouvindo-o arquejar de susto com meu rompante. Abro a porta e pego duas garrafinhas de destilado. — Álcool! — Eu não bebo, Pauline, você já sabe. — Hoje você vai beber. São três horas de viagem até a Paraíba, Joseph, não vou aguentar te ver com essa cara de apavorado. — Estendo uma garrafinha em sua direção. — Faça isso por nós dois, por favor. — Não estou apavorado! — retruca, bravinho. Balança negativamente a cabeça, se recusando a sequer tocar no vidrinho. — Eu nunca fiquei bêbado, não gosto

de ver pessoas neste estado e gosto menos ainda do cheiro. Não sei como você consegue, sô! — Cala a boca e toma logo isso, Joseph. Eu te garanto que em cinco minutos você vai se sentir melhor. — Não! — Cruza os braços no peito e vira a cara para o lado, feito um moleque birrento. Estreito os olhos, sem acreditar. Tenho vontade de lhe segurar a cabeça, abrir sua boca na marra e enfiar a bebida goela abaixo, como uma mãe faria com um filho que se recusa a tomar o remédio. Deixo as garrafas na mesinha, pensando nas palavras certas que o convencerão a aceitar minha oferta. Vou fazer esse garoto tomar o primeiro porre de sua vida! — Sabe quantos “eu nunca” você me disse desde que te conheci? — Dá de ombros, como se não tivesse a menor importância. — Mais do que eu gostaria, Joseph! Se a ideia é ter experiências novas, você devia se permitir, não é? — Continua me ignorando. Eu me sento na frente dele, irritada com sua criancice. — Quer saber de uma coisa? Vamos jogar. Foi assim que começamos essa aventura, é assim que vamos saber mais sobre o

outro. Finalmente seu olhar confuso e curioso encontra o meu. Sabia que isso despertaria sua atenção para minha intenção de fazê-lo se divertir sem neuras. — O que quer dizer? Como é que vamos nos conhecer direito se estivermos bêbados? Acho que será bem pior porque não vai ter ninguém são para cuidar de quem estiver passando mal. Sorrio maliciosamente. Meu queridinho, a bebida entra e a verdade sai. Todo mundo sabe disso, mas não digo em voz alta para não assustá-lo. — Vou ser justa com você, oras. Conhece o jogo do “Eu Nunca”? — Responde com a cabeça e não me espanto por ele não ter ideia do que estou falando. Joseph tem quase a minha idade e não viveu nem um terço do que eu vivi. — Um dos dois fala algo que nunca fez e, se o outro já tiver feito, vira a bebida. Topa? — Não sei, não... — diz, desconfiado. — Vai, Joseph, vamos acabar com esse tédio! Você começa. Assim, eu sou a primeira a beber... ou não — digo, girando a cabeça como se dançasse, animada e

ansiosa pelo início da brincadeira. Eu o desafio a me embebedar e vejo um brilho novo cintilar em seus olhos. Ele vai tentar, eu sei que já aceitou antes mesmo de se lançar para frente, empolgado repentinamente, com um sorriso maravilhoso no rosto bonito. Seus lábios ganham toda a minha atenção e fico desejando senti-los de novo nos meus. — Tá legal! — Esfrega as mãos com uma careta divertida e enigmática, enquanto escolhe sua primeira jogada. Eu me sinto vitoriosa só por ter lhe arrancado, ainda que à força, disposição para colaborar comigo. Estou me corroendo de ansiedade e curiosidade por saber mais desse gatinho, com quem me joguei na estrada, conhecendo pouco mais do que seu nome. — Eu nunca fiz uma tatuagem! — solta, recostandose na poltrona na maior tranquilidade do mundo. Abro a boca para dizer alguma coisa, mas paro no meio do caminho. Uma luz de compreensão se lança sobre mim ao entender o que ele está fazendo. — Não vale, Joseph, você não pode sabotar o jogo,

não é assim que funciona. — O que quer dizer? — Faz uma pergunta retórica, sem se abalar. — Eu não tenho tattoo e nem você. Para mim, está muito claro: ninguém bebe! Tenho que rir de sua lógica questionável. — Primeiro: o jogo não tem graça se disser algo que sabe a resposta. Você já me viu nua! — Estou na maior desvantagem. Preciso fazer alguma coisa a meu favor. Parece que Joseph está evitando ficar pelado de propósito. Nem no Vale da Lua ele quis nadar. Será que é tão tímido que não usa roupa de banho? — Segundo: se eu não tiver feito também, você que tem que beber. — Uai! Você não tinha dito isso. — Estou dizendo agora. Mas... — Abro um amplo sorriso, vislumbrando minha próxima cartada. — Se quiser, posso lançar um desafio, então você escolhe um dos dois. — Hum... E como vou saber quem ganha? — Evidente, meu caro: quem estiver menos bêbado! — Está bem, então, vou anotar as doses pra gente somar no final.

Se é que alguém vai estar consciente no fim para fazer a apuração. O objetivo é se divertir sem limites, mas como ele é todo certinho e aceitou jogar pelo desafio, então concordo com suas condições. Eu lhe dou um bloco de papel e uma caneta que sempre carrego na bolsa — estou preparada para qualquer situação, nunca sei do que vou precisar quando saio de casa — e já sei o que lhe pedir para fazer. — Manda o desafio para eu decidir — solicita. Estou doida para puni-lo por ter sido engraçadinho. — Vou pegar leve com você: beba — aponto para a mini-garrafa que jaz sobre o MDF — ou tire uma peça de roupa. Joseph ergue as sobrancelhas, surpreso. Ele devia me conhecer melhor nos poucos dias que estamos juntos, é claro que em algum momento eu ia jogar pesado. Fico esperando, recostando-me na poltrona calmamente, imitando-o, mas completamente inquieta por dentro e maluca para virar minha primeira dose. Chego a sentir a garganta seca de desejo por álcool. Ele suspira pesadamente e escolhe. Sem dizer

palavra, apenas tira a camiseta. Hum... Acabo de aprender algo sobre ele. Joseph prefere ficar nu a ingerir bebida alcoólica. Interessante. Mesmo sendo para frente como sou, eu teria escolhido a garrafa, porque estando bêbada, naturalmente, vou querer ficar peladona. Mordo o lábio e dou uma boa conferida em seu peitoral, que eu já toquei, mas ainda não tinha visto direito. É durinho, apesar de magro, e agora posso ver os músculos definidos que senti com as mãos. Muito calor! Não o imagino frequentando uma academia regularmente, mas consigo entender porque um cara como ele vai. Preocupação com a saúde. Não que eu negligencie meu corpo a ponto de evitar médicos. Claro que não! Mas esse negócio de malhar e correr não é para mim. Não consigo me ver em cima de uma esteira que não sai do canto, correndo para lugar nenhum, presa em uma sala enorme e fechada. Prefiro fazer trilha ao ar livre, subir montanhas, caminhar pela rua sob as estrelas. Deixo para transar em locais fechados, seria minha musculação, mas se for a céu aberto também, eu não me importo nadinha. Imagino sua pele coberta por uma tatuagem e fico

curiosa. — Que tipo de tattoo você faria, Joseph? — Não sei, mas acho que seria algo discreto. E você, por que não tem uma? — Nunca vivi nada que valesse a pena ser eternizado. — Reflito um pouco, esperando um comentário qualquer que ele não faz, então continuo falando: — Veja bem, sou uma pessoa que vive o momento, então, cada novo instante substitui o anterior. Se eu fosse registrar tudo isso, não teria pele suficiente e seria obrigada a tatuar os outros. — Joseph ri deliciosamente e eu o acompanho. — Se eu fizer uma tatuagem, será algo especial, incrível, único, inesquecível e, principalmente, insubstituível. A gente se olha intensamente até que suas bochechas coram e ele desvia o olhar do meu. Que pena, eu estava gostando da nossa encarada. Resolvo ser totalmente honesta, esperando que a recíproca seja verdadeira: — Também porque tenho verdadeiro pavor de agulhas. Se eu for mesmo enfrentar esse pânico, tenho que ter certeza de que não me arrependerei depois.

— Você, com medo de se arrepender? — Gargalha, entre a surpresa e a incredulidade. — Nunca pensei que um dia ouviria isso sair de sua boca, Pauline! Fico tão fascinada por seu riso espontâneo e raro que não me importo com o que diz. — Pois é. Para tudo existe uma exceção. Não tenho a intenção, mas acabo trazendo sua seriedade de volta. Acho que minha frase, jogada sem reflexão alguma, o faz pensar sobre si mesmo. E isso me leva a buscar na minha mente alguma coisa que eu não tenha feito. Têm tantas na minha lista de desejados! — Sua vez — diz sem interesse, me estimulando a voltar ao jogo. — Eu nunca recebi flores. É uma bobagem, um gesto pequeno e sem importância, mas eu não experimentei a sensação de ser paparicada como qualquer mulher espera. Não sei por que está na minha listinha, talvez porque eu tenha visto tanta coisa diferente que um pouco de normalidade me faz falta. — Eu também não! — Joseph parece aliviado por não ter que beber nem tirar outra peça de roupa.

Sem esperar mais, simplesmente entorno todo o conteúdo da garrafinha em um gole só, sentindo minha garganta queimar com a vodca pura. Ah! Como eu precisava disso! É forte, saboroso e fará efeito logo, logo. Sinto um início de deprê querer se manifestar mediante o pensamento sobre ser normal, algo que evidentemente não sou e nunca serei. Não dá para nascer de novo, não é mesmo? Mas eu amo ser eu, então, por que essa sensação agora? A bebida me aquece por dentro e apaga de vez o sentimento depressivo. — Uai, seu ex-marido nunca te deu flores de presente? Até eu já mandei vários buquês pra Lau... — Ele se interrompe e tento salvá-lo do constrangimento. — Não, Joseph, a gente não tinha um relacionamento como o de vocês. O nosso era baseado em sexo e não em romantismo. — Talvez tenha sido por isso que ele me deixou, cogito. — Entendo — fala simplesmente, sem acrescentar mais nada sobre o assunto e fico ansiosa em mudar de assunto. Espio a janela, esperando que diga alguma coisa que me distraia ou procurando por algo que tire nossos ex

do pensamento. — Eu nunca vi o mar. Eu me viro para ele, os olhos brilhando. Tomo a outra garrafa que deixei na mesa, em um grande gole, antes de surtar. — Ai, meu Deus, Joseph! — Levanto-me, incapaz de conter minha empolgação. Sabe aquela alegria que dá quando pode realizar o desejo de alguém que você gosta? É assim que me sinto agora. Eu me jogo sobre ele, que ampara meu corpo com os braços ágeis. — Estamos a caminho de um dos litorais mais incríveis do Brasil! — Saltito em seu colo, agarrada ao seu pescoço, morrendo de vontade de acelerar a viagem. — Depois do amanhecer, você vai estrear o calção de banho que comprei. Ah! Nem sei o que estou fazendo, mas faço mesmo assim, porque essa é a verdadeira eu. Inclino minha cabeça contra a dele, e minha boca toca a sua, com vontade, desejo e tesão. Então me sinto dona de mim de novo, sem aquela... coisa esquisita de agora a pouco. Largo-o, ergome e vou até a geladeira, pensando na minha próxima jogada. Retorno com mais duas garrafinhas, decidida.

— Eu nunca fui beijada debaixo da chuva e, caraca, eu AMO chuva! — Para minha total maravilha, Joseph pega uma garrafa, dando de ombros, e a entorna. — Pelo amor de Deus, me conta tudo! — imploro, encurvando-me para frente, praticamente subindo na mesa entre nós. Preciso saber sobre o beijo na chuva que ele já deu. — Adoro ouvir histórias! Mas Joseph engasga, tossindo feito um louco, e quase bota toda a bebida para fora. Dou tapas em suas costas, me recusando a buscar água. Não vou amenizar os efeitos do álcool em seu corpo agora que, finalmente, optou por beber. Acho que Joseph ficou entre a bermuda e a minigarrafa, sua vergonha pesando de novo na decisão. Mal sabia ele que estava tomando destilado puro, com teor alcoólico de quarenta por cento em apenas duzentos mililitros. — Que diacho é isso, Pauline? — reclama, com a voz arranhada. — Colocaram o combustível do jatinho dentro dessas garrafas? Solto uma sonora gargalhada. — Não, seu bobinho, é vodca importada, uma das

melhores que existem. — É horrível! — Faz careta, esfregando a língua no céu da boca. — Para de enrolar e me conta logo sobre seu beijo na chuva! — Não foi nada de mais! — rebate. Poxa vida, quero saber como foi. Porque ele beija bem para caramba e deve ter tido ótimas experiências. — Laurene e eu sempre fomos vizinhos, então a gente ia para escola juntos, caminhando mesmo. Mas naquele dia estava chovendo, então achamos melhor esperar o ônibus em vez de voltar para casa a pé e... Bem... Ela me beijou. Foi nosso primeiro beijo. Fim. — ELA TE BEIJOU? — Explodo em convulsões de risos. — Não acredito que você não tomou a iniciativa, Joseph. Pelo visto, sempre foi tímido. — Muito — admite, sem graça. — Esse beijo foi o início do nosso namoro. — Ajeita os óculos naquele tique irritante, evitando me encarar. — Espera aí! — Ergo as mãos para frente, como se pedisse para alguém parar, quando minha ficha cai. — Se

você foi fiel a ela nesses dez anos, como suponho que sim, isso quer dizer que eu sou a segunda mulher que você beija? Ele deve ter nascido sabendo fazer a coisa ou a loiraça foi uma boa professora. — É — solta depressa, corando de vergonha. Coitadinho! Será que ela também foi a única mulher que ele teve na cama? Pelo visto, sim. Ai, meu Deus, não acredito que vou ter uma primeira vez com um cara inexperiente. Chega a ser engraçada a ideia. Fico perdida nela, olhando fixamente para ele, que demonstra estar cada vez mais desconcertado. Mas, de repente, Joseph me olha, falando tão rápido que quase não entendo, com seu sotaque de Minas. — Eu nunca usei drogas ilícitas. Óbvio que não, queridinho. Depois dessa, acredito até em Papai Noel! Suspirando, pego a nova garrafinha e derramo o conteúdo na boca, me sentindo bem. Minha língua já se acostumou com o gosto depois dos primeiros goles, e agora aprecia a sensação de amortecimento e leveza da embriaguez. Uhuuul! Estou ficando tontinha! — Já provei de tudo um pouco — admito, enfadada.

— Meu primeiro baseado foi enrolado pela minha mãe. — Você está me zoando, não é? — De maneira alguma. Meu pai conseguiu a droga e minha mãe me ensinou a fumar. Minha adolescência foi muito boa. Eu tenho os melhores pais do mundo! Sou, com muito orgulho, a garotinha do papai, mas não do tipo princesa. Paulão foi um pai coruja, sim, mas ele me permitiu vivenciar tudo, ainda que sob seus olhos protetores, antes que me deixasse seguir meu próprio caminho. Ele confia plenamente que sou capaz de tomar decisões acertadas exatamente por causa das experiências sem restrições que me proporcionou, a fim de que eu me tornasse a mulher madura e preparada para o mundo que hoje sou. A relação liberal e honesta dele com minha mãe sempre foi meu referencial. — A minha foi cheia de proibições — admite, cabisbaixo. — Não sou a favor do uso de drogas, vai que eu provo e descubro que sou dependente químico, mas tentei fumar um cigarro uma vez. — Tentou? — Estranho. Eu não sei por que ainda me surpreendo com o que diz.

— Quase morri sem ar na primeira tragada e meu estômago revirou. Vomitei todo o jantar, e naquela noite minha mãe tinha feito minha comida favorita. Foi uma experiência traumatizante. — Qual é seu prato predileto? — me interesso imediatamente. Não tenho bons dotes culinários, mas sempre posso comprar. Tenho um cartão de crédito fabulosamente sem limites. — Feijão-tropeiro. E o seu? — Adoro, que delícia, Joseph, finalmente alguma coisa em comum entre a gente. — Dou uma risadona alta, batendo palmas. — Respondendo à sua pergunta, gosto muito de Virado a Paulista, um prato tipicamente paulistano, com tudo que tem de melhor em gordura: ovo frito, bisteca de porco e linguiça, que acompanha arroz, tutu de feijão e couve refogada. Vou fazer para você provar, porque esse prato é um dos poucos que sei preparar direito. Ele sorri para mim, cúmplice, parecendo mais soltinho do que antes. Ainda bem! — Me diz, Pauline, você perdeu mesmo a virgindade

com dezesseis anos? Não foi muito nova? — Como você sabe disso? Eu não te contei. — Nem precisava, eu acompanhei seu jogo, lembra? Deduzi por eliminação. Ah, na lotérica! Ele realmente estava prestando atenção no que eu dizia. Como o objetivo é fortalecer essa amizade, abro logo o bico e conto como foi: — Meu pai, conhecido pelos amigos como Paulão, em vez de me dar uma festa com pompa e glamour, como qualquer menina de dezesseis anos gostaria, me pagou uma viagem para a Argentina, a minha primeira para fora do país. Foi uma oportunidade para melhorar meu espanhol, que eu cursava paralelamente com o inglês. Claro que minha mãe me acompanhou, ainda não era tempo de eu viajar sozinha, mas nunca fui uma adolescente que tivesse vergonha dos pais, pelo contrário, eu adorava tê-los por perto. — Foi lá que aconteceu? — questiona, curioso, atento às minhas palavras. — Sim. Fomos a uma boate muito badalada em Buenos Aires. Depois de muitos amassos na pista de

dança com um cara chamado Alonzo, fui acompanhada ao hotel, onde tivemos privacidade. Consciente de que eu era virgem, ele me deu o maior chá de língua da minha vida, a ponto de me arrancar o primeiro orgasmo. Na verdade, todas as minhas primeiras vezes foram com ele. Com sua paciência única, ele me tirou as virgindades, me ensinando, na prática, a arte do sexo. Joseph raspa a garganta quando termino, inclinandose de volta na poltrona e fingindo que perdeu o interesse no meu relato. — E você? — Jogo a batata quente de volta para ele. — Ah, não, eu marquei no jogo o meu primeiro beijo. — Por quê? Fica vermelho feito uma pimenta e, cara, tenho vontade de mordê-lo e me sentir queimar. Distraída com a excitação que acende dentro de mim, eu me levanto e dou a volta na mesa com lentidão, quebrando meu quadril nas poucas passadas. Ele me observa atentamente, surpreso com meu movimento em sua direção. Sento em seu colo com as pernas ao redor do seu quadril, esfregando-me um pouco para me encaixar em suas formas deliciosas. A

certeza de que ele nunca transou com mais de uma mulher, finalmente, me faz entender seu constante embaraço. — Quero mostrar a você, durante nossa viagem, tudo que aprendi, Joseph. — Aliso seu peito nu e mordo meu próprio lábio. — Não vamos ver somente as maravilhas da natureza, mas também tudo que podemos fazer com nossos corpos... juntos. Sinto um calorzinho gostoso me aquecer e agarro seus cabelos com força, trazendo sua boca para minha. Ai, meu Deus, que tesão louco! Começo a rebolar insanamente, sentindo-o crescer devagar entre minhas pernas. Preciso de tudo isso dentro de mim. Não aguento mais ficar tanto tempo excitada com um homem desses para me saciar ao meu alcance. A gente solta vários arquejos, perdendo o fôlego com a intensidade do beijo. Um raspar de garganta chama a nossa atenção e Joseph se desprende de mim, levantando-se de uma vez, e eu escorrego para o chão, atrapalhada com seu movimento apressado. Desorientada, percebo que tem outra pessoa no compartimento privado do jatinho. É o co-piloto. — Desculpe interromper os senhores, mas é

importante e achei que podia vir aqui falar pessoalmente em vez de usar o microfone. Peço perdão pela indiscrição, da próxima vez baterei à porta antes ou me anunciarei pelos autos-falantes. Ergo-me, incomodada com tanta desculpa. — Fale de uma vez, senhor Oliver. — Sim, madame, ainda falta uma hora de viagem, mas pode haver um pouco de turbulência perto da nossa reta final. Não há porque se preocuparem, mas achei por bem avisá-los. Se me dão licença, voltarei para a cabine. Joseph tira os óculos, esfregando os olhos, um pouco trêmulo, provavelmente com a bomba que o co-piloto deixou antes de se retirar tão depressa quanto chegou. Ele encara a mesinha, onde uma garrafa ainda está cheia, mas a ignora, voltando-se ao frigobar. Abre a porta, enche a mão com todas que consegue segurar, abre as tampas, uma por uma, e sorve três delas, antes de parar, limpar a boca e matar a última. Ele quer entrar em coma alcoólico? Vou ao seu encontro, preocupada. Eu entendo de pânico, mas não imaginava que ele tivesse com avião, mesmo depois de ter demonstrado certo receio. A gente

sempre fica com pé atrás diante do desconhecido — pelo menos pessoas normais, e principalmente ele que pouco viu dessa vida —, mas pânico é algo enraizado, descontrolado, paralisante. É bem diferente de um medinho bobo. Joseph ainda é tão fechado. Sei tão pouco sobre ele! Tiro as garrafinhas de sua mão, que as aperta com força, e o obrigo a sentar em sua poltrona. Como fazer esse homem relaxar, santo Cristo? — Calma, querido, vai ficar tudo bem, o piloto é experiente. — Joseph não me encara de volta. Olha fixamente para baixo, me deixando perturbada. Fico ajoelhada aos seus pés, observando-o, com medo de que apague de repente. Tenho a ideia de continuar o jogo, aproveitando o clima anterior à interrupção. Quem sabe assim ele se distrai e esquece, momentaneamente, o que foi dito por aquele cara sem o menor tato? — Ei, Joseph, vamos continuar jogando. Agora, é a minha vez. — Consigo fazê-lo erguer o olhar para mim. Suas pupilas estão dilatadas. Vixi, o álcool já está fazendo

efeito. Melhor ainda, ele não vai estar em condições de pensar. — Eu nunca fiz sexo há mais de mil pés do chão. — Minha olhada para ele sugere uma solução rápida para meu pequeno problema. Ele abre a boca para responder, mas se move muito devagar. Sua voz sai pastosa. — Eu também não. — Para me deixar em ponto de bala e continuar a brincadeira, pego a mini-garrafa, que está sozinha sobre a mesa, e começo a sorvê-la, doida para atacá-lo. Quer maior distração do que transar? Não conheço! — Eu nunca fiz sexo. Cuspo a bebida que está na minha boca para os ares, limpando o queixo com o dorso da mão. — O quê? Seus olhos me procuram, como se não me enxergassem direito. Ah, claro, ele tirou os óculos. — Eu sou virgem, Pauline.

Capítulo 11

Joseph

Sobrevoando o céu nordestino Observo Pauline. Ela me olha fixamente, com os lábios entreabertos e os olhos curiosos traduzindo o mais puro estarrecimento. Não consigo fazer outra coisa além de me sentir o homem mais panaca do Universo. Espero pela sua risada infinita, na esperança de que ela me surpreenda em vez de decepcionar, mas acabo escutando a tal gargalhada que me preocupava, depois de alguns minutos de puro silêncio. Pauline explode, mal conseguindo se controlar. Ela ainda está agachada em meus joelhos, e deposita a cabeça neles enquanto não consegue parar de rir. Não sei mais o que é pior: seu deboche ou seus ataques sempre precisos.

O mundo começa a girar. Resolvo colocar meus óculos novamente, mas de nada adianta. Sinto meu espírito querendo sair do meu corpo, porém estou tão magoado que ignoro a sensação incomum. Minha vontade é de pedir para que o piloto deixe Pauline em João Pessoa e depois siga para Minas, lugar de onde eu nunca deveria ter saído. Decidido a fazer exatamente isso, tento me erguer da cadeira, no entanto acontecem duas coisas: Pauline não permite meus movimentos e minhas pernas não obedecem direito ao comando do meu cérebro. — Como eu sou jumenta! — Ela estapeia a própria testa, rindo como uma doida. — Mas é claro! É óbvio, meu Deus! Puta que pariu! Não dá pra acreditar! Encara-me novamente, desta vez já chorando de tanto que ri. O avião começa a chacoalhar, mas não me importo. Estou decepcionado com ela, e este sentimento me faz perder o medo, a vergonha e tudo o que me torna o Joseph que sempre fui. Abro a boca para tentar gritar, mas nada sai. Preciso deixar de ser esse otário tímido que perde o foco constantemente e age como um moleque. A decepção passa a ter outro alvo: eu mesmo. Se Pauline ri de mim, a

culpa é minha, não dela. — Eu nunca me senti tão idiota quanto agora! — ela praticamente berra, tentando enxugar as lágrimas que melam seu rosto. — Nem eu — respondo, então ela para e volta a me analisar. Estou sério, introspectivo e bastante tonto, como se vivenciasse um sonho esquisito. Pauline se ergue, ficando de pé, com seus olhos ainda sobre os meus. — Desculpa, Joseph, mas eu nunca peguei um virgem. Puta merda! — Dá alguns passos para trás. Seu afastamento me faz ter uma cadeia de pensamentos assustadora. Ela está se afastando porque sou virgem? Deixei de ser interessante? Não sou mais o alvo de seu desejo? Perco o ar de tão indignado que fico. Não esperava este tipo de comportamento vindo dela. O que há de tão errado em ser virgem? O que a preocupa tanto depois de tomar conhecimento? Raciocino e chego à uma conclusão depressa demais: Pauline cultua a liberdade plena, ou seja, não se submete à compromissos e deve detestar se envolver demais com alguém, por isso pediu para não me

apaixonar. Deve achar que vou ficar caidinho por ela caso tire minha virgindade. Fecho os olhos com força, contendo a vontade de esmurrar a mesa. Pauline podia ter razão se eu ainda estivesse com Laurene. Eu estava me guardando para vivenciar um momento especial com a mulher da minha vida. Mas eu não tenho mais mulher, nem pretendo ter pelos próximos anos, portanto a minha virgindade perdeu a motivação desde que fui enxotado. E só agora percebo que não tenho por que continuar me mantendo assim. Ah, não. Quase esqueci que essa luxúria toda é pecado. Balanço a cabeça em negativa. Álcool não presta pra nada, não consigo pensar! — Tudo bem, sô — murmuro, inquieto. Resolvo trazer o assunto de volta à mente quando estiver sóbrio, por hora só quero pisar em chão firme. — Senta, Pauline, o trem está balançando. — Quem está balançada sou eu! Que tesão dos infernos! — Ela se atira contra mim, sentando-se no meu colo com as pernas abertas. Assanha meus cabelos e arranha meu peitoral, beliscando a pele exposta. Minha

cabeça dá um giro e meu coração vai junto. — Você vai ver o que é turbulência de verdade, Joseph! Vou estrear esse seu pintão rapidinho. — Sua mão desce sem aviso e ela aperta o meio das minhas pernas. Arregalo os olhos, surpreso. Pego sua mão para que não me toque, mas ela me afasta e continua a me atiçar. Seus dedos percorrem toda a extensão por cima da bermuda que uso. Sua coluna arqueia e ela puxa o cabelo da minha nuca com a outra mão, sem perder o ritmo. Sua pressa evidente me deixa agitado e nervoso, mas ao mesmo tempo estou relaxado por causa dos efeitos da vodca. Penso que não sou capaz, mas me surpreendo ao perceber que estou ficando muito, mas muito duro. — Quero ser a primeira boceta que você come — ela geme escandalosamente, contorcendo-se. Pauline me solta e abraça meu pescoço só para ganhar apoio e começar a realmente cavalgar, fazendo o ponto entre suas pernas se chocar com força contra mim. Gemo involuntariamente. Meu peito sobe e desce, estou sem fôlego e tão excitado quanto creio que nunca fiquei. — Quero ser a primeira felizarda a sentir esse pau bem fundo, ah! Quero gozar

com você dentro de mim, e quero que exploda com minha boceta ao seu redor. Eu nunca ouvi tanta putaria em toda minha existência, no entanto, o álcool me impede de corar, embora a vergonha esteja presente, posso senti-la. Nem tanto, mas posso. Pauline não tem a menor vergonha de usar tais palavras, e unidas elas me deixam tão desconcertado quanto excitado. Tenho consciência de que posso entrar no clímax ao menor dos toques. Se ela quicar um pouco mais, eu gozo. Faz tempo que não tenho qualquer alívio, já que evito me tocar — sempre me sinto um pecador toda vez que me masturbo —, por isso tenho muitas dores incômodas, como agora. A ideia de ter um orgasmo antes de pensar em penetrá-la me deixa perturbado. A decepção que ela sentirá vai ser enorme. Não posso permitir que aconteça. Sempre sonhei com uma boa primeira vez, não com essa coisa louca, trôpega e desavergonhada. O momento precisa ser bom pelo menos para uma das partes, mas nunca conseguirei oferecer o sexo perfeito que Pauline demonstra querer e, se não for bom pra ela, certamente

ficará longe de ser pra mim. — Pauline... — Seguro sua cintura e a afasto. Ela está tão compenetrada em me tocar que não percebe o meu desespero. — Pauline, não. Não faça isso, por favor. Eu tento me levantar e levá-la junto. Com muito custo, ficamos em pé, de frente um para o outro. O avião balança e me sento novamente, meio temeroso. Pauline não perde tempo e torna a se abaixar entre os meus joelhos. Encara-me com intensidade, respirando alto, exalando calor e luxúria. — Você deve estar nervoso... — sussurra, e sua mão indecente é colocada entre minhas pernas de novo. Estremeço de leve, involuntariamente. Ela me alisa devagar desta vez, explorando o volume alto que não vê a hora de ganhar liberdade, mas não é hoje que pretendo lhe dar permissão. — Perdoe a minha falta de tato, Joseph. Vamos mais devagar. Quero que aproveite cada etapa e sinta o maior prazer possível. — Pauline... — gemo seu nome quando me aperta com um pouco mais de força. Olho seu rosto malicioso, observo suas mãos trabalhando e finalmente coro. Não

tenho como não me envergonhar. Acho que a bebida está indo embora porque estou suando devido ao calor intenso. — Não... Seu dedo indicador é pressionado contra os meus lábios. Ela pede o meu silêncio absoluto. A mesma mão escorre suavemente, passando pelo pescoço, peitoral, abdômen, umbigo e finalmente chega ao lugar que tento controlar em vão. Pauline me aperta mais uma vez. — Eu sei que você quer — fala baixo, a voz carregada de ar. — Não tenha medo. Vai ficar tudo bem. Prendo os lábios com tanta força que sinto dor. Seus dedos se juntam para trabalhar no único botão da minha bermuda. Meu ventre se contorce, levando estímulos deliciosos de serem sentidos para cada pedaço de mim. Não há parte alguma que não quer que Pauline continue o que está fazendo. Contudo, meu nervosismo aumenta depois que ela desce o zíper e põe uma mão por dentro, tocando-me, desta vez, por cima da cueca. Ela está muito perto. Suas mãos são quentes, muito quentes. — Pauline... — Ofego e gemo, tudo ao mesmo tempo. — Eu sei, é gostoso. Sinta tudo, Joseph.

— Estou sentindo... — O que está sentindo? Me diz. — Ela nunca usou uma voz tão doce perto de mim. — Suas mãos são quentes. E ágeis. — Isso é bom ou ruim? — pergunta em um sussurro. — É bom demais pra ser verdade... — respondo mais baixo ainda. Ela sorri sem maldade, apenas mostrando que está contente por ter a oportunidade de fazer isso. Penso que a estou usando, por isso começo a me sentir mal. Não está direito. Eu devia lhe tocar antes, sei lá, proporcionar seu prazer. Fazer alguma coisa além de afundar no assento e esperar. É por este motivo que, novamente, tento me erguer, mas ela me impede com veemência. — Feche os olhos, Joseph — implora, encarando-me seriamente. Eu a obedeço porque não suporto vê-la assim. Não sei o que me espera. Entreabro os meus lábios a fim de respirar melhor, só o nariz não dá conta da quantidade de ar que necessito. — Relaxe. A primeira coisa em que penso, de olhos fechados, é na minha mãe. Ela ficaria horrorizada se soubesse de uma

coisa dessas. E Laurene? Minha Nossa Senhora, ela nunca me tocou assim. Jamais permiti, por mais que ela quisesse e pedisse. Vou ter que rezar muito para ser perdoado por sentir essa coisa maluca que me faz ter vontade de aumentar meus pecados. Mas, tudo bem, eu rezo agora mesmo se isso fizer Pauline não parar. E ela não para. Sinto seus dedos rodearem minha cintura até se enroscarem nas camadas de tecido que me cobrem. Meus braços estão trêmulos, com certeza, bem como as pernas. Ela tenta me despir de uma vez, mas seguro suas mãos em um impulso. O nervosismo vira desespero total. — Joseph... — Pauline choraminga, percebo urgência em sua voz. — Deixe-me te ver... — Abro os olhos. Ela está tão desesperada quanto eu. — Confia em mim. Talvez por compreender que confio nela, ou porque não aguento mais me controlar, ergo meus quadris, dandolhe acesso livre. Pauline sorri e puxa minhas roupas até abaixo dos meus joelhos, deixando-me exposto em segundos. Sinto meu rosto arder ao visualizar meu próprio membro pulsando, sedento, pronto para qualquer coisa que ela quiser fazer com ele. Ela o observa atentamente,

os lábios presos e a respiração ofegante, estimulando-o. Espero pelo seu toque, por qualquer coisa que tire essa dor enraizada de mim, mas Pauline se demora. — Puta merda... É lindo — fala, e seu hálito quente me faz estremecer. Estou quase puxando seus cabelos e a fazendo me engolir de uma vez por todas. Preciso de um alívio. Não adianta pensar, jamais recuarei antes de um orgasmo poderoso. — Que pauzão mais perfeito, Joseph. — Sinto sua mão me envolver e solto um gemido que parte das profundezas das minhas entranhas. Ela me olha, boquiaberta. — Não creio que serei a primeira a se deliciar com essa perfeição. — Eu me encho de um orgulho nunca antes experimentado. A sensação de seu toque diretamente na pele é espetacular, e melhora quando começa a fazer um movimento suave de vai e vem. Minhas pernas bambeiam, o quadril trabalha involuntariamente para frente e para trás, buscando mais satisfação. Nunca imaginei que eu fosse capaz de sair do controle desse jeito. Mas é assim que estou, descontrolado, desajuizado, louco para ir até o fim e além.

— Eu vou te chupar todinho... — Pauline coloca a língua para fora e encosta à minha ponta inchada. Solto um grunhido e me contorço. Não acredito na sensação que me toma. Isso é muito mais que prazer. Afasta-se e murmura: — Vou sentir o seu sabor. Quero te ver derretendo na minha boca, Joseph. Sem que eu espere ou me prepare, ela me segura forte e impulsiona seu corpo até ser possível me abocanhar profundamente. Solto um arquejo desesperado. Fecho os olhos com força por não suportar acompanhar o nível do meu desejo atingindo um limite nunca alcançado. Ela retrocede uma vez, lentamente, deixando rastros de saudade profunda onde não me toca mais. Abro os olhos a tempo de acompanhar sua língua me lambendo de cima a baixo, como um picolé. A primeira coisa que vem à minha cabeça, pela primeira vez na vida, é um palavrão, que deixo escapar sem querer. Pauline ri e acaba me estimulando mais sem que se dê conta. Suas mãos exploram toda a região de um jeito experiente. Deixo-me levar como um menino indefeso, só me restando sentir cada estímulo com resignação. Ela

volta a me abocanhar fundo, mas desta vez acelera o movimento e me suga forte, provocando um barulho que seria desconcertante se não fosse tão excitante. Meu corpo reage de um jeito incomum, desconhecido por mim, que me causa estranhamento, mas ao mesmo tempo soa muito natural. Os cachos dela escorrem pelos lados, e os junto em minhas mãos para que não atrapalhem sua perfeita desenvoltura. Tenho consciência de que não vou demorar nada para atingir o clímax, mas faço o possível e o impossível para adiar o momento. Recebo lambidas frenéticas, sugadas que me fazem pirar e gemer alto, toques precisos. Ela sabe exatamente o que oferecer e qual ritmo seguir. Seu rosto está concentrado no que está fazendo. Ela me encara vez ou outra, disparando mais luxúria a cada olhar fatal que me entrega sem pudor. Sinto que estou alcançando o paraíso, o oásis no meio de um deserto tortuoso, e só consigo agradecer por vivenciar experiência tão reveladora. — Pauline... — imploro usando seu nome, mas ela não para ou me dá uma trégua. O movimento de sua boca se torna intenso, exato. Como ela consegue ser tão perfeita

nisto? — Eu vou... Não consigo terminar a frase. Pauline se afasta um pouco e continua usando apenas as mãos, sem perder o ritmo. Vejo um sorriso límpido se ampliar e me sinto realizado, mais do que já estava. — Goze na minha boca, Joseph. Vou te beber até o último gole — pede suavemente, em tom de súplica, e não me dá tempo para uma resposta. Pauline volta a me abocanhar com rigidez, escorrendo seus lábios ao meu redor e me fazendo sentir o fundo de sua garganta. Vejo estrelas, literalmente, pois olho pela janela por um segundo e consigo ver algumas luzes brilhando ao longe, e, embora não sejam estrelas de verdade, mas sim lâmpadas que compõem alguma cidade perdida, sinto-me flutuando até alcançá-las. — Eu vou... Pauline... — tento avisar em um berro rouco, um arquejo contido. Então, acontece. Meu corpo explode em mil pedaços indistintos. Contorço-me por inteiro, e gemo seu nome repetidas vezes enquanto a preencho com o líquido do meu prazer. Sua boca me recebe bem, sem desviar nem hesitar. Sinto meu próprio

gozo espalhando e depois acompanho quando ela o engole de uma só vez. Ofegante, solto mais um palavrão. Ela começa a rir, provavelmente do palavrão, antes mesmo de terminar de me beber. Olha-me profundamente, massageando-me como se me tranquilizasse antes de estar pronta para me soltar. Estou arrasado, exausto e muito, muito satisfeito. Expiro todo o ar dos meus pulmões, em uma onda de alívio por finalmente ter me permitido uma trégua com relação às minhas necessidades. Afundo no assento, tentando controlar meus batimentos cardíacos, ainda a observando com atenção. — Sei que essas coisas não se perguntam, mas... curtiu? — questiona e me solta devagar, como quem não quer se despedir de verdade. Já estou mole de novo, haja vista a pressão intensa do meu êxtase. Nunca tive um tão inacreditável. Aliás, depois deste, percebo que mal tive um que se preze de verdade. — Você sabe que sim — respondo, sério. Ela ergue uma sobrancelha. Antes que eu me arrependa ou comece a corar, devolvo a minha bermuda para o lugar de origem, e ela me ajuda pacientemente. Visto também a minha

camisa. — Desculpe, Pauline. — Pelo quê? — Ergue os ombros, confusa. — Eu não sei, só me desculpe! — Balanço a cabeça para não começar a gaguejar. Uma dúvida me acomete. Penso sobre ela mil vezes antes de comentar qualquer coisa, e tenho certeza de que isso só acontece porque ainda me sinto tonto por causa do álcool. — Você está... Hum... molhada? Pauline se ergue e me puxa para o lado, empurrandome até a parte do banco onde fica a mesa. Depois, sentase sobre ela, bem na minha frente, e abre as pernas até onde consegue. Seu vestido escorre para os lados. Ela apoia o cotovelo atrás de si, esparramando-se como se fizesse parte do meu jantar. Prendo os lábios e mal acredito que posso ficar duro de novo. Mas sinto que posso. — Confira você mesmo — propõe, finalmente erguendo o vestido. E, como minha imaginação previa, ela está sem calcinha. Estava sem ela o tempo inteiro. Não consigo me mexer, viro estátua diante da visão exata de seu corpo, por isso ela pega a minha mão e a leva até seu

ponto mais sensível. Eu já a tinha tocado na boate, mas ver enquanto toco faz com que ganhe outro sentido. Meus dedos se lambuzam de imediato. — E então? — Você está muito molhada — digo o óbvio. Ela tira os meus dedos de lá e me faz levá-los até a minha boca. Eu os lambo timidamente, envergonhado por causa de seu olhar sempre acompanhando minhas reações. Sentir seu sabor não me faz muito bem. Sinto o controle escorrendo pelos meus dedos de novo. — Senhores, nosso pouso foi autorizado — uma voz repentina e meio metálica ressoa nos alto-falantes, assustando-nos. — O tempo em João Pessoa está bom. Pousaremos em cinco minutos. Por favor, coloquem seus cintos de segurança. Pauline solta um palavrão e fecha as pernas, sentando-se ereta na mesa. Eu não sei o que poderia acontecer caso o comandante não tivesse interferido em nosso momento. Ajudo Pauline a descer da mesa. Ela se senta na poltrona à minha frente e sorri como se nada tivesse acontecido. — Pronto para ver o mar?

Dou de ombros. Eu não sei direito o que pensar sobre a maioria das coisas da vida. — Pronto. — Aquiesço mesmo assim. Porque, no fundo, não interessa se estou pronto. Com Pauline, sou praticamente obrigado a estar.

Capítulo 12

Pauline

João Pessoa, Paraíba Queria ter percebido antes que eu estava diante de um virgem, mas quem — Santo Cristo da castidade — ainda é virgem aos vinte e seis anos, em pleno século vinte e um? Ainda mais um HOMEM! Não sou machista nem sexista, contudo — PUTA QUE PARIU! — essa possibilidade nunca me passaria pela cabeça se Joseph não tivesse me dito com todas as letras. Busquei todo tipo de justificativa para sua relutância, menos a verdadeira. Isso prova para mim, mais uma vez, que a gente nunca conhece uma pessoa totalmente se ela não permitir. Depois do susto inicial, não pude acreditar na minha própria cegueira. Estava na minha cara o tempo todo! Eu

me gabando de ser experiente e não sacando o óbvio! Deus me fez muito distraída, não tenho noção. Ri muito de mim mesma porque era o que me restava fazer. Que burra, meu! Aos poucos, meu corpo foi tomando consciência da oportunidade e eu percebi que transar com o Joseph seria a melhor experiência da minha vida. ÚNICA! Fui tomada por um tesão do caralho, e o álcool borbulhando no meu sangue me fez ferver mais. Eu me lembrei da minha primeira vez, de como foi especial e inesquecível, e me obriguei a dar isso a ele. Só que eu não queria ter parado no boquete. Queria ter lhe dado todas as primeiras vezes de sua vida! Excitada do jeito que ainda estou, eu lhe daria TUDO antes do amanhecer. Em vez disso, no entanto, aquele co-piloto cretino de uma figa — que teve coragem de nos interromper duas vezes! — ajudou o piloto a pousar o jatinho no Aeroporto Internacional Presidente Castro Pinto — olha a ironia! — e fui obrigada a me recompor e desembarcar com minha mochila. Ainda bem que não estou usando calcinha, porque senão ela estaria encharcada e me incomodando muito

agora, enquanto pegamos um táxi direto para a pequena faixa de areia conhecida como Ponta do Seixas. Se não corrermos, vamos perder o despontar do sol e nem o melhor sexo vai fazer eu me atrasar para este espetáculo. Eu sei que tem amanhecer todo dia, mas se não o vir hoje não terá a menor graça. Já estamos aqui mesmo, depois a gente dorme e transa. Joseph também não vai a lugar nenhum sem mim, nem que eu precise amarrá-lo à cama. AI, MEU DEUS! Minha mente instigada o visualiza preso por técnicas complexas de bondage, que eu conheço bem, e totalmente ao dispor de minha vontade. Parece que meu parceiro de viagem perdeu a língua de tão quieto que está. Depois de soltar um monte de palavrões — agindo muito diferente de si mesmo — e confirmar que estava pronto para mais uma aventura na natureza exuberante do Brasil, Joseph não falou mais nada. Nenhuma palavrinha sequer. Tenho até medo de entrar em sua mente e descobrir o caos que deve estar por lá. Ele viveu duas décadas e meia acreditando que o mundo era limitado por concepções rígidas e ditatoriais, e agora descobriu que não existem barreiras para o desejo.

Está assustado e acuado diante da liberdade conquistada. Se fosse eu, estaria perdidinha, sem saber o que provar primeiro! Mas preciso me lembrar, constantemente, que Joseph não é como eu, ele não é ninguém além de si mesmo. Somos muito diferentes. Isso me fascina e ao mesmo tempo me chateia, porque cada vez eu o quero mais perto, mais dentro da minha vida, porém não posso exigir tanto dele. Meu novo amigo não faz parte do meu mundo e nunca fará, não importa o quanto se permita experimentar. Nenhuma pessoa muda sua própria essência, apenas a camufla por um tempo, se for preciso, principalmente em um momento de dor. Um dia, chegará aquele em que Joseph vai superar e me dizer adeus. Para sempre. Uma sensação esquisita nasce no meu peito e, automaticamente, estico a mão até encontrar a sua. Um alívio estranho me assusta. Eu hein, que coisa besta, onde mais ele estaria? A menos que fosse abduzido ou se transformado em um holograma, Joseph ainda está sentado ao meu lado, a certa distância, olhando a paisagem pela janela que também não consigo ignorar, apesar de minha

mente estar em completo alvoroço. Estou olhando sem ver de verdade. Ele não reage ao meu toque de forma alguma, como se estivesse ausente do mundo. O automóvel para. O taxista cobra um valor irrisório pela corrida e saltamos. Penso, ansiosa, que o que vamos ver aqui não tem preço. Confiro o relógio de pulso enquanto caminhamos pela via pavimentada até a areia. São pouco mais de quatro da manhã, chegamos a tempo. Quando pisamos nela, avisto um aglomerado de gente na pontinha mais afastada — que não é muito longe —, já aguardando o astro-rei despertar. Sinto um arrepio transpassar minha coluna quando a brisa fria da madrugada me alcança. Dou alguns passos, mas estaco ao sentir falta de Joseph. Ele estava aqui agora, onde foi que...? Cacete, o mar! Eu me viro para os lados à sua procura e o encontro parado diante da imensidão, que se mescla com o horizonte e se perde completamente. O amanhecer já desponta em luz. Seus pés pararam antes da maré, como se temessem tocar a água que dança em um convite para o mergulho. Fico atrás dele, sorrindo para seu

deslumbramento mudo. — Tira os sapatos, Joseph, e se joga! — sugiro, sorrindo, largando a mochila sobre a areia, tirando meus próprios calçados e o abraçando pelas costas. — Mas... o sol já vai nascer e... — Ele vai vir ao nosso encontro no mar! — Puxo a mochila pendurada em seu ombro e o apresso. — Venha logo antes que ele chegue! Espero que se livre dos sapatos e dos óculos, meio desajeitado, já que não o largo, sentindo meu corpo formigar de anseio pelas ondas. Corro, olhando para ele, rindo e saltitando ao mesmo tempo, sentindo a pressão da água que respinga em nossas roupas. Perseguindo-me, aquele sorriso de menino se desenha em seus lábios e quase tropeço ao me distrair com sua beleza genuína. Quando o nível da água do mar chega à metade de minha altura, solto sua mão e mergulho de cabeça, submergindo, sem saber se ele me imita. Volto à superfície, rindo e jogando água para cima. Esfrego o rosto para limpá-lo do sal e ajeito a cabeleira encharcada. Localizo Joseph bem ao meu lado, inteirinho

ensopado, com as roupas grudadas em suas formas masculinas e viris. Mordo o lábio com o pensamento libidinoso, mas sinto um frio desgraçado e bato os dentes. Eu me encolho, pensando em afundar de novo, deixando apenas a cabeça para fora. No entanto, ele passa os braços ao redor dos meus ombros, aquecendo-me com o calor do seu corpo. — Obrigada. — Sorrio para meu cavalheiro. Eu nunca tive um por perto. Joseph esfrega a palma no meu braço, descendo os pelos eriçados. — Não tem de quê, Pauline. O vento é bem frio a essa hora da manhã e o mar está gelado! — Imagino que demore um pouco para esquentar tudo isso de água! Joseph solta uma gargalhada deliciosa, que combina com o cenário, com o momento e com ele. Esse é o parceiro de viagem que eu preciso ter, o cara que não vacila diante do que mais almeja. — E então, o que achou do seu primeiro mergulho? — pergunto, curiosa sobre suas impressões. Eu nem

lembro o que senti na minha primeira vez diante do mar, faz séculos! Joseph lambe os lábios, chamando minha atenção para eles. — Mais salgado do que eu imaginava! Minha vez de dar uma risada estrondosa. O silêncio impera porque a primeira curva do sol surge na linha quase invisível e me calo, sem fôlego. Saímos do mar calmamente. Joseph se apressa em ajeitar os óculos de volta ao rosto. A coloração alaranjada toma conta do céu. Uma trilha se desenha no reflexo da água até nos alcançar, conforme a imensa estrela sobe, fulgurante. Seu calor toca meu rosto ainda úmido. Como nascido das profundezas da Terra, lá está ele, uma massa redonda e perfeita, inalcançável, mas onipresente. Seu fogo sagrado chamusca o azul límpido, queimando a si mesmo enquanto proporciona vida a tudo que alcança. Eu me sinto purificada pela chama da manhã. A sensação é tão maravilhosamente boa que penso em não perdê-la jamais. Para isso, eu teria que começar a correr agora, a fim de chegar à próxima cidade onde ele vai

aparecer assim, de mansinho, mas glorioso em todo seu esplendor. Eu fui abençoada por Deus. Murmuro um agradecimento ao Infinito e me viro para Joseph, que me olha com tanta intensidade que penso ver dois sóis no lugar de suas pupilas, por trás das lentes secas. — Como você consegue ser tantas coisas... opostas... ao mesmo tempo, Pauline? Seus dedos deslizam por minha bochecha, enxugando as gotas que a molharam e percebo que estive chorando. Inclino a cabeça para o lado, verdadeiramente confusa com sua pergunta, ainda envolta em uma névoa de comoção. — O que quer dizer, Joseph? — Há uma hora, você era pura luxúria, a encarnação dos meus pecados, mas... agora... Nem tenho palavras para descrever a sensação sublime de estar com você aqui, nesse lugar... — Olha em volta, como se fosse a primeira vez que visse o restante da praia, mas logo se volta para mim. — Você se tornou um anjo... Deslizo meus dedos por seu lábio inferior, sondando um beijo.

— Quero ser tudo o que você precisa, Joseph... Eu me estico para alcançar sua boca e me agarro a ela, sedenta por mais. Suas palmas alisam meus braços com força, subindo por meus ombros e os apertando antes de me empurrar para longe, distante demais para eu continuar sentindo seus lábios gostosos. — Não, por favor, Pauline. Eu preciso que você pare com isso! A intensidade em seu tom de voz me assusta e dou um passo para trás, quase caindo de bunda no oceano. Surpreendendo-me, no entanto, ele me segura, evitando mais um desastre do cataclismo da natureza no qual me tornei, um tornado destruidor de virgens indefesos. Ah! Qual é? Ele queria! Pau duro não me engana, não engana NINGUÉM! Não foi como se eu tivesse abusado de uma criança — DEUS ME LIVRE! — ou estuprado alguém! Foi? Claro que não! Eu me separo de maneira estabanada, mas eficiente, tentando pisar firme na areia fofa, para bem longe dele. Quem ele pensa que é para me recusar? Quem? Meu coração se aperta e a raiva insana me dá uma vontade

absurda de abrir o maior berreiro da vida. Porra! Nunca alguém me disse tantos “não”, “pare”, “por favor”. Estou morrendo de vontade de esganá-lo! Alcanço minhas coisas, pego tudo, pingando e com frio, e continuo meu caminho rumo a algum lugar onde ele não esteja. Porém, Joseph me intercepta, bloqueando meus passos apressados com seu corpo delici... Ah, vá se foder, pensamento obsceno do inferno! Sabe, sou como qualquer pessoa, tenho um diabo e um anjo sussurrando nas minhas orelhas, tentando ganhar minha simpatia, mas eu sou tão, tão, tão livre que gosto dos dois. Tem hora que eu quero dar ouvidos ao demônio que habita em mim; em outra, simplesmente busco a paz do ser celestial que aguarda meu retorno das profundezas, pacientemente. — Espere, Pauline, desculpe se a ofendi. Eu me expressei mal! — Tento dar a volta por ele, mas sou bloqueada outra vez. Suspiro, chateada. — Por favor, me deixe explicar direito, não quero perder sua amizade. — Olho bem para a cara de pau dele, tentando fuzilá-lo com os olhos. Infelizmente, não dá certo. Joseph esfrega os cabelos bagunçados, de maneira desolada. — Tudo isso é

muito novo pra mim, estou perdido e não consigo me achar! — Eu juro que não te entendo, Joseph! — extravaso toda minha frustração em palavras. — Primeiro você me beija, aceita viajar comigo pelo Brasil, fica todo excitado comigo, mas depois que lhe dou um orgasmo decente, me rejeita? — Bato as palmas com força na minha face, esticando a pele para baixo, em puro desespero. — Santo Cristo! Você precisa decidir o que quer. Agora! — Aqui, não — sentencia firme, corando vigorosamente. — COMO NÃO? — Ponho as mãos na cintura, despeitada. — Pare de gritar, por favor! — Em apenas duas frases, ele conseguiu repetir todas as palavras que mais me irritam nessa vida. — Estou querendo dizer para gente ir a algum lugar mais... privado... e conversarmos melhor. Seus olhos vasculham ao nosso redor e então percebo que toda aquela aglomeração, que estava na ponta da praia, agora está a nossa volta, assistindo à nossa discussão de camarote. Esse povo não tem mais o que

fazer? Agarro o punho dele, arrastando-o até uma pedra mais isolada, próxima à vegetação que cria uma cerca natural. A gente se senta, de frente para o mar, e olha fixamente para lá em silêncio. Ele, pensando; eu, morrendo de ódio... e também de vontade de chorar. — Pauline, você já teve um sonho roubado e se sentiu sem rumo, sem saber por onde recomeçar? Abro a boca para dizer um retumbante “não” quando me dou conta da dor contida em sua voz. Já falamos sobre isso antes e lhe garanti que não perdeu nada, só adiou. Mas se ele está retomando esse assunto, uma coisa é certa: Joseph ainda pensa em Laurene e no noivado que ele não queria ter interrompido. Sinto uma coisa ruim me corroer as entranhas, algo tão maldoso que tento a todo custo fazer desaparecer, mas não pareço dona de mim mesma nesse momento. Eu me perdi em algum instante entre o nascer do sol e os lábios dele. Encaro-o com dor no coração. Seus olhos estão cheios de água, assim como os meus. Sinto a retina queimar e embaçar na medida em que as lágrimas se apoderam do diminuto espaço. Não posso comparar a

perda dele com a minha, não é a mesma coisa. Bruno nunca foi meu sonho. A gente nunca construiu nada juntos, nem vislumbrou o futuro. Apenas vivemos o presente como se deve: intensamente. — Sinto muito — digo com a voz embargada. — Você não tem culpa, Pauline, está tentando me ajudar desde então. Eu que tenho sido muito ingrato, abusando de sua paciência e boa vontade para comigo. — Gentilmente, Joseph enxuga o meu rosto e eu aproveito para fazer o mesmo com o dele, porque não sei mais o que dizer para confortá-lo. Estou em frangalhos! — Por isso que... O que houve no jatinho não pode se repetir. Você não tem obrigação alguma de se oferecer para mim só porque eu nunca tive uma mulher antes. Essa foi a minha escolha. — Mas eu te desejo, Joseph, como homem e como amigo. Não tem nada a ver com obrigação ou orgulho. Você me enche de tesão e, quanto mais eu descubro a seu respeito, mais eu te quero. Ele engole em seco, desviando os olhos dos meus, enrubescendo lindamente.

— Ainda não compreendo como as duas coisas podem andar juntas, Pauline, sinceramente. Não estou querendo dizer que fazer sexo implica em se apaixonar, não acredito que uma coisa leve a outra, só não consigo pensar em ter uma mulher apenas para satisfazer os desejos da carne. É pecado... — Abro a boca para retrucar, mas ele continua: — e egoísmo. Não quero estabelecer nossa amizade nesses termos, me parece muito errado. Mas também não quero perder sua simpatia, se um dia você se encher de minhas recusas e resolver que não dá mais pra gente continuar nessa juntos. Toco seu ombro, fazendo-o me encarar. — Ei, isso não vai acontecer nunca, Joseph, porque eu acredito que as duas coisas podem andar muito bem juntas. Sabe por que eu tive minha primeira vez com o Alonzo, mesmo não sendo meu namorado e sabendo que provavelmente nunca mais o veria? — Balança a cabeça negativamente, daquele jeito perdidinho que me faz querer tomá-lo nos braços. — Porque eu fui sincera com ele quanto a minha situação e ele demonstrou total respeito por minha virgindade. Ele me tratou tão bem, sem forçar

nada, que eu percebi que podia confiar nele o bastante para perdê-la sem medo ou culpa. Eu era liberal, mas somente uma menina. Precisava confiar pessoa que fosse me tocar intimamente. cansada com o misto de sentimentos que me peito. — Pensei que você confiasse em aceitou a viagem e tudo mais.

na primeira — Suspiro, arrebentam o mim, afinal,

— Eu confio, uai! — rebate depressa. — Só não queria que minha primeira vez fosse daquele jeito, sabe, ambos bêbados, seminus, na frente de um estranho, eu... Não sou assim, Pauline, não sou como você. Simplesmente não consigo ser tão... solto. — Suas palavras não soam como uma acusação, o que me deixa muito feliz. Acho que, no fim, existe mais compreensão entre nós do que imaginávamos. — Nem sei se fui eu ou meu... Hum... Uma parte sugestiva do meu corpo que aceitou aquilo que você fez. Rio alto de sua conclusão, mas ele não me acompanha, apesar de sorrir com leveza e com os olhos. Eles dizem mais do que palavras e eu sei que ainda não acabou.

— Conviver contigo está me fazendo enxergar o mundo complexo que existe além do que conheço, sem a cortina de preconceito que eu tinha. Estou sendo bombardeado por tanta informação e intensidade que mal consigo encontrar meus próprios pensamentos, devido à rapidez com que as coisas acontecem. É muito para minha cabeça, você entende? — Entendi, sim, você quer que eu desacelere um pouco. — Vai ser difícil, viu? Já estou vendo, não será assim tão fácil ter o que quero desse homem, mas isso o torna cada vez mais interessante, um desafio que eu quero vencer. — Posso fazer isso por você se continuar se permitindo e abolir a palavra “não” de seu vocabulário. Seus lábios se esticam, amplificando seu sorriso maravilhoso e encantador. — Isso não vai acontecer, sô — responde, salientando a palavra proibida e me arrancando uma gargalhada. Como ficar irritada por mais tempo com essa coisinha linda? — Falando sério, Pauline, não me entenda mal, por favor, quero que você compreenda que preciso de um tempo para me soltar. Já aceitei que minha

virgindade não tem mais importância alguma. Ainda assim... — Ainda assim — interrompo, animada e entrando no clima descontraído —, você espera que seja especial quando acontecer. — Levanto-me, limpando a bunda de areia. — Eu entendo disso, Joseph. Pode não parecer, mas tenho a alma naturalmente sensível. Ele me acompanha nos movimentos, aceitando a deixa para irmos embora. — Você tem uma das almas mais lindas que eu conheci. Foi isso que me convenceu a viajar com você. — Séérrrrrrrrrriooooooooooo? — surto loucamente, ao ouvi-lo dizer algo tão... tão... tão fofo, meu Deus! Nunca ninguém disse uma coisa tão linda para mim! Mais lágrimas escorrem e nem tento mais contê-las. Ele as seca, desta vez, com um gostoso e inocente beijo, que aceito agradecida e com a respiração suspensa. — Muito. Agora, me deixa escolher o próximo destino? — Faz cara de cachorro abandonado. — Estamos no nordeste, Pauline. Eu preciso conhecer Pernambuco! — É claro que pode! Quer dizer, deve! — quase

grito, na maior empolgação, me sentindo mais Pauline de novo. A gente pega a mão um do outro e ruma para um destino fora do meu itinerário, mas que está na lista de desejados do meu melhor amigo, pelo menos neste momento. E eu simplesmente não posso lhe negar nada que me peça com essa carinha de anjo. Meu anjo.

Capítulo 13

Joseph

Recife, Pernambuco Ainda não sei se essa vida corrida demais me agrada ou me cansa. Estou exausto, sem dormir, porém com a sensação de dever cumprido. Consegui ver o pôr do sol e o amanhecer mais bonitos do país. Eu me sinto abençoado. Além do mais, qualquer coisa vale a pena quando se está diante do mar, percebi isso assim que fomos apresentados. Ver pela televisão, ou em revistas, não é a mesma coisa de jeito nenhum. É uma pena saber que muita gente que mora pertinho do litoral nem liga para a vasta imensidão azul. Se eu morasse em alguma cidade litorânea, faria questão de admirar o oceano todos os dias, sempre que eu pudesse.

Fizemos o desjejum em João Pessoa, numa das várias pousadas na beira-mar, deliciando-nos com especiarias da região. Pauline não quer perder tempo, pois seu itinerário é extenso e ela deseja aproveitar tudo que puder. Fiquei meio pensativo com suas palavras, pois me deu a impressão de que ela tem pressa. E, se ela tem pressa, significa que a nossa viagem vai acabar mais cedo. Será que ela realmente está gostando? Será que ficou chateada comigo? Acompanhei sua reação ao ver o nascer do sol e tive certeza de que a viagem está sendo tão importante pra ela quanto pra mim, mas nada com Pauline é previsível. Fico espantado quando age com sensibilidade, talvez mais do que quando se comporta como uma maluca. Deve ser porque estou me acostumando. Eu me sinto aliviado depois da nossa conversa diante do mar. Pelo menos tenho certeza de que agora não passarei mais por situações constrangedoras, nem mesmo terei que me defender o tempo todo de seus ataques sempre precisos. Por outro lado, não faço ideia de quando ela vai querer me beijar de novo, talvez nunca mais. Pauline não tem a obrigação de me conquistar, de me

convencer e muito menos de se frear para acompanhar o meu ritmo. Em outras palavras, ela é livre para ter quem quiser, na hora que quiser, e eu não tenho nada a ver com suas escolhas. Não é como se minha virgindade precisasse ser tirada por ela. Espero que tenha entendido que, como seu companheiro de viagem, estou aqui principalmente para respeitar o seu jeito doidinho de ser. Será bem mais fácil conviver com ela sabendo que não tentará me atacar a qualquer instante. No entanto, vai ser difícil pra burro esquecer a sensação da sua boca me tomando. Ainda posso sentir sua língua percorrendo o meu membro. Recordo cada detalhe do que aconteceu no jatinho sem parar, como um filme que não me canso de assistir. Claro que considero naturais esses meus lapsos. Ela despertou um lado meu que estava adormecido, guardado a sete chaves. Querendo ou não, jamais serei o mesmo depois de ter provado esta experiência. Se eu quero passar por ela de novo? Não sei responder. Acho que não suportaria ter de lidar com a confusão mental que me provoca. Conseguimos alugar o mesmo jatinho até chegarmos à

Recife, capital de Pernambuco. O voo não dura nem meia hora de tão perto que as duas cidades ficam. Pauline dorme durante esses minutos, mas não consigo pregar o olho devido aos pensamentos frenéticos que me acometem — e também porque decido que odeio a ideia de estar nas alturas. Eu me sinto desprotegido, sem controle, como se fosse cair a qualquer instante. Um frio horrível instalado na minha barriga não me permite relaxar. Estou suando em bicas quando finalmente pousamos. A melhor parte da viagem de avião com certeza é a aterrissagem, pelo menos sei que do chão não passo. Pauline só desperta quando é hora de descer. Que inveja que sinto dela! — Já decidiu onde vamos dormir? — Ela boceja e se levanta da poltrona, morrendo de preguiça, quase rastejando. — Porque eu preciso de muitas horas de sono antes de ouvir o primeiro “oxente”. — Boceja mais uma vez e, um segundo depois, eu também vou junto. Esse trem é contagioso! — Um dia vi uma reportagem sobre Porto de Galinhas, uma das praias mais bonitas de Pernambuco —

explico, pegando nossas mochilas modestas que contém itens de higiene e duas ou três mudas de roupas, nada mais do que isso. — Fica a uns quarenta minutos de Recife, no máximo. O lugar é paradisíaco, e o que não faltam são hotéis cheios de opções de lazer. O que acha? — Eu vou pra qualquer lugar que tiver cama, meu camarada! — Nós rimos enquanto deixamos o jatinho para trás, rumo às dependências do Aeroporto dos Guararapes. Tento resolver as coisas rapidamente porque sinto pena da Pauline e do sono que está sentindo. Ela mal consegue se manter de olhos abertos. Alugo um carro para termos mais liberdade de locomoção, até porque fico sabendo que o centro de Porto fica meio distante dos hotéis. Pegamos a estrada, que está tranquila talvez por ainda ser cedo, e tomo o maior cuidado do mundo para não me enrolar com o GPS. Peço para que Pauline escolha, pela Internet de seu celular, um hotel que lhe agrade. Estou tão concentrado na estrada que não percebo o quanto ela fica silenciosa ao meu lado, até que escuto uma respiração alta e compassada, indicando que minha companheira de viagem

caiu em um sono profundo. Seu celular terminou amparado entre suas pernas, como se tivesse sido jogado de qualquer jeito depois que ela não aguentou mais ficar acordada. Pego a via que indica o centro de Porto de Galinhas e começo a visualizar placas e mais placas que sinalizam a localização dos variados hotéis da região. Sigo mais devagar, tentando escolher um lugar legal apenas pelo que vejo nas placas. A maior e mais bonita se destaca depois de alguns minutos, e logo prossigo pelo caminho indicado por ela. Deve ser mágico ficar em um hotel na frente do mar de um dos litorais mais bonitos do Brasil. Fico logo ansioso para escolher um quarto com uma varanda voltada para o oceano, tenho certeza de que posso ficar horas olhando para ele sem pensar em nada e, ao mesmo tempo, pensando em tudo. Deixo Pauline no carro e acerto tudo sozinho. Peço o maior, melhor e mais bem localizado quarto que o hotel oferece. Só pela recepção, sei que a diária é caríssima, mas dinheiro deixou de ser problema desde que uma maluca decidiu conversar comigo no meio de uma

lotérica. É terça-feira e a estação está em baixa, por isso consigo encontrar um quarto vago dentro das minhas solicitações. Depois de pegar a chave, volto para o carro e tento acordar a dorminhoca. Ela se contorce e geme, reclamando comigo, mas por fim consegue se levantar. O manobrista cuida de estacionar o carro e sigo com a Pauline até o quarto indicado. Ela mal olha o lugar, praticamente corre para a cama imensa e se joga. Um segundo depois, já está dormindo. Largo nossas mochilas em cima de um móvel bonito e vou até a tão desejada varanda. Quase tenho um trem ao ver tanta beleza bem diante de mim, parece pintura. Fico maravilhado, até mesmo emocionado, com a natureza que Deus nos oferece. O mar, em sua quantidade imensurável de água salgada, está calmo, os raios solares o deixam ainda mais brilhante. A areia é branquinha, contrastando com o azul do céu, que está sem nuvens. Ainda posso ver parte da entrada do hotel, rodeada por coqueiros, e piscinas imensas. Algumas pessoas, provavelmente clientes do hotel, estão deitadas em boias com formato de colchão, sobre a superfície das piscinas; outras estão

descansando em espreguiçadeiras. Se o paraíso não for aqui, então desconheço onde mais poderia ser. Fico com uma vontade absurda de correr pela praia, mas sei que meu corpo precisa de um descanso, caso contrário é capaz de eu ter mesmo um trem. Fecho a porta da varanda e também as cortinas, deixando o quarto meio escuro. Ligo o ar-condicionado, pois o calor que faz lá fora está de matar. Resolvo tomar um banho e vestir algo mais confortável: escolho uma bermuda simples e uma camiseta que ainda estão com etiqueta. Deito no sofá, que não é tão espaçoso assim, mas me cabe perfeitamente, e fico olhando para o teto. Uma coisa ruim invade o meu peito e me deixa sem ar. Passo alguns minutos tentando descobrir o que é, até que percebo estar sofrendo pela Laurene. Eu me recordo de cada etapa do nosso relacionamento e não acredito que estou tão longe de casa, tão longe dela. Ainda não sei por que tudo deu tão errado entre nós. Sexo não é a base de nenhum relacionamento. Prova disso é a própria Pauline, que terminou com o ex-marido por falta de laços além da cama. Sendo assim, a ausência de sexo não justifica a

traição. Afinal, nós tínhamos todo o resto. Éramos amigos, companheiros, confidentes. Laurene jogou fora toda uma vida de respeito. A dor se transforma em raiva muito depressa. É difícil descobrir que você valorizou tanto alguém que nunca mereceu. Eu preciso virar essa página da minha vida, e depressa. Até porque nada mais é igual ao que era antes, nem mesmo eu. Preciso reencontrar o meu lugar, redefinir os meus conceitos e finalmente compreender o que quero para mim, daqui em diante. De uma coisa tenho certeza: não quero voltar pra Itaú de Minas sem responder às minhas perguntas. Sei que as respostas estarão em algum lugar escondido do país, seja ele qual for. Tenho fé de que em algum momento a vida fará mais sentido pra mim. Reviro no sofá mais vezes do que posso calcular. Estou perturbado pelos pensamentos e também pelos acontecimentos recentes. Sinto um frio terrível, uma sensação de abandono que não consigo compreender. Pego um lençol em cima da cama, onde Pauline dorme — ela não se moveu desde que se deitou lá —, e tento

resolver o meu problema ao voltar para o sofá e me cobrir. Não adianta de nada. Ainda me sinto mal, como se uma coisa muito, mas muito importante me faltasse. Tento, de todas as maneiras possíveis, pregar o olho e, mesmo sabendo que estou morrendo de sono, não consigo dormir. Desisto de insistir e me levanto. Olho para os lados, tentando descobrir o que fazer. Paro assim que observo Pauline adormecida, deitada de lado e com uma das pernas erguida. Meu corpo vai sozinho até a cama, como se minhas vontades não me pertencessem mais. Eu me deito, sem ter tempo de me sentir culpado ou despudorado, e me enrosco por trás dela, puxando sua cabeça até lhe amparar em meus braços. Pauline geme, mas não reclama da minha aproximação. Deixa seu corpo girar e me abraça do jeito estabanado que combina com ela. Eu nos cubro com um dos lençóis. Meus olhos estão ardendo de tanto sono, mas sinto uma necessidade horrível de nos deixar confortáveis. — Joseph... — ela murmura, sonolenta, depois que volto a ampará-la em mim. Seu braço circula o meu pescoço. Olho para ela e é com muita surpresa que

percebo que está de olhos abertos. Finalmente, sou tomado pela vergonha por causa do que fiz. — D-Desculpe, eu... — tento me explicar, mas só gaguejo. Faço meu corpo sair da zona de conforto e procuro me afastar, mas Pauline me impede, depositando suavemente uma mão em meu peitoral. — Fica — pede em um sussurro. Volto a encará-la. Seus olhos estão quase se fechando de novo, percebo que faz um esforço absurdo para conferir a minha resposta. Eu me aprumo no colchão, decidido, e a puxo de volta para mim. — Eu fico — respondo, depois tudo fica silencioso. Não consigo acompanhar mais nada, pois simplesmente caio em um sono profundo e muito bem-vindo. Abro os olhos de repente, sentindo um calor insuportável tomando o meu corpo inteiro. Fico confuso por alguns instantes até notar que Pauline está sobre mim, com as pernas abertas ao meu redor e o nariz colado ao meu. Visualizo um sorriso malicioso enquanto ela se movimenta devagar, em uma dança sensual que faz nossos sexos se esfregarem com lentidão. Eu a sinto quente e

úmida, pois ainda está de vestido e sei que não há nada por baixo dele. Não faço qualquer esforço para perceber que estou insuportavelmente excitado. A dor com a qual estou acostumado retorna e me tira o fôlego. — Pauline... — gemo, segurando a sua cintura. Eu não tenho forças para tirá-la dali, me vejo à mercê de suas vontades e, percebendo que não sou capaz de recuar, sinto-me desesperado. — O que está fazendo? — Eu te quero — murmura em um gemido rouco. — Você me quer. Vamos acabar com isso, Joseph. Seja meu esta noite. Deixe-me ser sua. Abro a boca para rebater, mas me calo porque percebo verdade em suas palavras e em seu olhar. Observo o nosso redor e percebo que estamos no quarto de hotel, em Porto de Galinhas, um pedaço do paraíso na terra. Pauline se senta ereta sobre meu quadril e agita as mãos. Retira o vestido devagar, jogando-o para longe. Fica do jeito como veio ao mundo. Uma espécie de monstro, que a princípio não reconheço, acorda dentro de mim. Não penso em mais nada, esqueço tudo o que sou e me concentro na imagem de seus seios fartos se

balançando na medida em que seu corpo se contorce. Eu preciso disso. Preciso dela. Vou tê-la, agora, sem desculpas, sem rodeios. Minha primeira reação é fazer o que quero desde que a deixei na mão em “nossa” casa alugada em Brasília. Vou terminar o que pensei em começar e não tive coragem. Giro nossos corpos em um movimento maluco, ligeiro, sem-noção, e a faço deitar com tudo na cama. Pauline ri, mas logo fica séria quando agarro seus cabelos com as duas mãos e os puxo. Meu quadril encontra um espaço incrível entre suas pernas abertas. Ela apoia os joelhos ao redor da minha cintura e se abre, dando-me livre acesso. Beijo-lhe a boca como se precisasse disso para continuar respirando. Ela ofega, geme, deixa sons estranhos escapar pela sua garganta enquanto me tem ali. Estou me permitindo o momento, ainda sem raciocinar, apenas preocupado em vencer a barreira e finalmente obedecer aos comandos do meu desejo. Estou muito duro, esfregando-me nela com ferocidade, e sei que não conseguirei ser suave, mesmo que tudo me espante e me tire de órbita. Eu a quero demais. Um dia, quem sabe, a

gente possa fazer isso devagar, mas este dia não é hoje. Pauline raspa suas unhas pelas minhas costas até me livrar da camiseta. Eu a ajudo, tropegamente, sem deixar de movimentar meu quadril de encontro ao seu corpo nu. Volto a beijá-la e quase piro ao sentir seus seios se encostando ao meu peitoral também despido. Quero mordê-los, rasgá-los, quero fazer tudo o que imaginei fazer com eles, e fingi que não, desde que a conheci. Desço meus lábios pelo seu pescoço e sugo os bicos de seus seios com força. Lambuzo-os com minha saliva enquanto os pego em cheio, usando as duas mãos. Pauline geme alto, quase grita. Temo estar lhe causando dor e me afasto um pouco, mas ela me puxa para si, insistindo. — Minha nossa, Joseph, tire logo essa bermuda e me deixe sentir esse pau! — rosna como um animal selvagem agindo pelo instinto. — Não precisa me atiçar mais, simplesmente não aguento! Me pega com força, agora! Eu me ergo e fico de joelhos no colchão. Vislumbro seu corpo pronto para me receber, porém não aguento me demorar. Não sinto a mínima vergonha ao retirar a bermuda junto com a cueca e ao me deixar livre para

consumar o nosso desejo ardente. Jogo minhas vestes para trás, pouco me importando com seu paradeiro, e volto a colocar meu corpo por sobre o dela. Se Pauline precisa de preservativos, não pergunto, e ela também não me interrompe. Miro o meu membro em sua entrada melada antes de empurrar com força, sem parar para refletir se é certo ou errado. — Puta que pariu! — ela grita, depois geme seguidas vezes enquanto encontro apoio para fazê-la me receber até o fim. Sinto seu corpo quente pulsando ao meu redor. Quase não acredito nisso. Pensei que Porto de Galinhas era um paraíso na terra, mas me enganei. Meu paraíso é aqui, dentro de Pauline. Solto um grito alto, ensurdecedor, tamanho é o nível que a minha excitação sobe. Ela me arranha com força, e eu me vingo afundando com mais brutalmente ainda, depois de retroceder pela primeira vez. Repito o movimento por tantas vezes que não ouso contar. Pauline ofega, geme, grita, contorce seu corpo e convulsiona ruidosamente. Posso sentir suas paredes pressionando meu membro até quase querer expulsá-lo.

Não faço ideia do que significa, mas desconfio que possa ser um orgasmo. Então ela desiste de me tirar de lá e se abre de novo, recebendo-me como antes. Eu me julgo viciado e apaixonado por sexo no mesmo instante. Como posso ter esperado tanto? Por que vivi sem essa sensação durante tanto tempo? É claro que minha vida NUNCA faria sentido sem isso. Como fui idiota! Meto profundamente, em uma velocidade que nem sei como consigo atingir, até perceber Pauline se contorcendo novamente e chamando o meu nome aos berros. Desta vez, não consigo me segurar e deixo a dor ir embora de uma vez por todas por meio de um clímax intenso, que faz minha cabeça girar. Preencho-a com meu gozo até a borda, sabendo que uma bela quantidade espirrou para dentro do espaço que ocupei e já quero ocupar outra vez, e de novo, e de novo. Tento controlar os meus batimentos cardíacos. Uma névoa esquisita se rompe e eu me sento rápido, ofegante, com o corpo todo suado. Olho para os lados, Pauline sumiu. Estou sozinho na cama do hotel. O ar-condicionado ainda está ligado, trabalhando arduamente, mas o sol não

mais tenta entrar pela cortina. Já anoiteceu em Porto de Galinhas. Solto um grunhido enraizado ao perceber que acabei de vivenciar o sonho mais erótico de toda minha existência. Foi tão real! Encaro o meu próprio membro, ele está duro como pedra, exibindo um volume alto por baixo da bermuda. Sinto-me frustrado, arrasado como se tivessem me jogado no chão e pisado sobre mim. Estou sentindo fortes dores em minhas bolas. Passo as mãos pelos meus cabelos, bagunçando tudo, cheio de perguntas. A primeira delas é: onde Pauline se meteu? Não há ninguém no quarto além de mim e da minha frustração. Ainda sou virgem. Mas que grande porcaria! Forço o meu corpo a se levantar e seguir para o banheiro. Preciso de um alívio rápido, urgente, e dane-se se eu me sentir esquisito depois de usar a mão. Abro a porta do toalete e vejo Pauline de pé, olhando-se no espelho. Ela usa apenas uma calcinha composta, provavelmente de algodão, e nada mais. Abre um sorriso meio tímido ao perceber que estou presente. — Boa noite, querido... — fala baixo, com a voz

meio sonolenta. Eu não consigo raciocinar, simplesmente. Um furacão de expectativas cresce dentro de mim e me vejo diminuindo a nossa distância em questão de segundos. Imprenso-a contra o lavabo usando o meu corpo. O membro duro se esfrega em sua bunda arrebitada. Agarro seus braços, inclinando-me para afundar meu rosto em seu pescoço a fim de sentir seu cheiro bom. — Uau! — ela ri de leve, meio triste. — Você está empolgado. — Pauline... Sabe aquilo que te falei em João Pessoa? — murmuro, girando seu corpo, que vem fácil. Eu agarro suas coxas e as ergo até fazê-la se sentar no móvel que ampara a pia. — Esquece toda aquela merda. Seguro seus seios com um pouco de força, sentindome esquisito, envergonhado até o último fio e muito maluco, mas me obrigo a agir assim porque não aceito o sonho que tive. Eu preciso disso. Preciso dela de fato. Quero saber se é bom mesmo. Estando errado ou não, eu me arrependendo depois ou não, pouco importa, a necessidade de aplacar tamanha curiosidade é muito mais

forte, maior até que a minha vergonha. Meu rosto ferve de timidez, posso ver no espelho à minha frente. Curvo-me para beijá-la, mas Pauline solta um gemido esquisito, que me parece ser de dor. — Uai... O que houve? — Seguro seu rosto com as duas mãos, encarando-a de muito perto. Só então percebo o quanto está pálida. — Não se sente bem? — Não... — choraminga. Segura meus ombros e os aperta como se os usasse para tentar se manter erguida. — Eu menstruei e estou morrendo de cólica! Prendo os lábios, sentindo-me mais envergonhado ainda pelo que tentei fazer cegamente. O desejo é mesmo uma coisa maligna: ele nos tira o controle, nos faz agir como verdadeiros imbecis. Mentalizo alguns palavrões direcionados a mim e à minha insensatez repentina. Espero que essa porcaria não se repita. — Já tomou algum remédio? — pergunto, verdadeiramente preocupado. Percebo que odeio ver Pauline desse jeito cabisbaixo. Não combina com ela. — Eu não trouxe, foi vacilo! O prêmio e a viagem me fizeram esquecer que estava prestes a menstruar. Trouxe

só um absorvente, vê que absurdo? Esqueci que sou mulher. — Ela ri um pouco e eu a acompanho para não deixá-la constrangida. — É por isso que eu estava tão sensível, tão “mimizenta”. Não costumo agir assim. Eu lhe dou um beijo suave na testa, totalmente esquecido da excitação anterior. — É só me dizer o que precisa e eu vou comprar pra você. — Vai comprar absorventes pra mim? — Ela me olha esquisito, em uma careta que me faz rir um pouco. — Claro, você não vai sair assim. Deite-se um pouco. — Seguro sua cintura e a faço ficar de pé novamente. — É sério, Joseph? Vai comprar absorventes, O.B. e Buscopan pra mim? — Sim, sim, o que precisar. Anote as marcas e os tamanhos que você usa em um papel. Quer sem abas ou com abas? Acho que tem caneta em um móvel, lá no quarto. Encaro Pauline e ela está boquiaberta, como se tivesse acabado de ver um fantasma.

— O que foi, sô? Quer que eu traga água? — Bruno nunca comprou absorventes pra mim. Não sei o que pensar diante de sua conclusão. Falando sério, começo a achar que esse tal ex-marido é um grande otário. Eu já comprei absorventes pra Laurene pelo menos umas trezentas vezes. Ela sempre me pedia pra passar na farmácia ao lado da papelaria, pois tinha um preço melhor. A recordação me faz ficar introspectivo, e acho que Pauline não compreende direito a minha reação. Dou de ombros e nada respondo, apenas a guio de volta para cama, onde ela se deita e solta um gemido de dor, segurando a barriga. Junto uma grande quantidade de travesseiros e os coloco embaixo de seus pés. Ela fica me olhando como se não acreditasse no que vê. — Laurene passava um tempão com os pés pra cima — eu me explico. — Ela diz que melhora as dores. Não sei se funciona, mas espero que sim. — Obrigada, Joseph. — Coço a cabeça e a observo. Faço o maior esforço do mundo para ignorar o fato de que ela está quase nua. — Você é o melhor companheiro de

viagem que alguém poderia ter. Sorrio, emocionado. — Você também. Minha resposta é baseada na mais pura sinceridade.

Capítulo 14

Pauline

Porto de Galinhas, Pernambuco Mas que porra de menstruação, meu! Que bosta que é ser mulher! Se eu fosse homem, agora o Joseph estaria me comendo feito um louco e não na rua atrás de absorventes. Que merda! Bem agora que ele resolveu tomar iniciativa. Isso não é sorte, não, é muito azar. O Destino está de sacanagem comigo! Pior que fico com muito mais fogo nesse estado, o que explica o tesão louco dentro do avião, que a bebida intensificou. O que vai ser de mim nos próximos cinco dias, meu Deus? Até lá, ele coloca caraminholas na cabeça e desiste de me pegar outra vez. Se não posso dar, pelo menos vou beber, me bronzear e curtir o mar fabuloso de Porto, é o que me resta. Não

vou deixar de me divertir por causa disso. Depois que eu tomar um remédio, e a cólica passar, será só alegria. Não vou desperdiçar a oportunidade de dançar forró na terra do “oxente”. Adoro! Acesso um guia da vida noturna de Porto de Galinhas no meu celular enquanto espero Joseph voltar com tudo que preciso para ficar prontinha para a night nordestina. Ainda bem que eu tinha um único O.B. na bolsa, para emergências. Na maioria das vezes, não ligo de ser distraída, mas dessa vez fiquei decepcionada comigo mesma. Nem sei explicar se minha frustração tem a ver com a perda da oportunidade de tirar a virgindade de Joseph, depois de ele me entregá-la de bandeja, ou pela porcaria da TPM que me deixa emocionalmente confusa, oscilando entre a alegria extrema e a choradeira sem motivo. Hormônios! Eles são mais loucos do que eu. Joseph volta logo, trazendo mais do que pedi. Nunca vi nada mais fofo. Não sei se homens comuns costumam agir assim com suas namoradas. Nunca tive um namoro normal, digamos assim, mas estou achando que posso me acostumar a ser paparicada desse jeito. Nesse pequeno

gesto, ele demonstra mais se importar comigo do que se tivesse expressado seus sentimentos em palavras. Isso é tão novo quanto espantoso para mim. Eu estava me contentando com pouco da vida ao ter somente a parte louca. Talvez esteja na hora de ter um pouco de normalidade e experimentar uma nova forma de relacionamento desconhecida por mim, e que só meu companheiro de viagem pode me proporcionar. — Como você adivinhou que eu precisava disso? — me atiro sobre a sacola cheia de chocolate, que Joseph coloca ao meu lado, tentando ignorar meus seios nus. Quando estou com dor, gosto de ficar pelada. Na verdade, qualquer motivo me leva a tirar a roupa. Ignoro a caixa de absorventes e de remédio, me deliciando com o melhor doce já produzido pelo homem. Gemo, sentindo um prazer louco, que aplaca uma ânsia que mal consegui perceber que eu tinha. Deus, como isso é bom! — Pa-a-au-li-ne... — ofega meu amigo e o encaro, para vê-lo de boca aberta, corado, e olhos arregalados, fitando minha boca lambuzada de chocolate. Ele passa as mãos pelos cabelos, descompassado,

lambendo os lábios ressequidos, forçando seu olhar a desviar a atenção para algo menos erótico. Sorrio, maliciosa, e dou uma boa conferida em seu pênis duro, que se destaca na bermuda. Coitado! Tenho vontade de lambuzá-lo inteirinho com esse chocolate e lamber até não sobrar mais nada. — Joseph, eu... — Paro ao me lembrar que ele me pediu para não forçar a barra. Suspiro, resignada. — Obrigada, você é um anjo que caiu do céu para me salvar. Seu sorriso de menino orgulhoso surge, desfazendo seu desespero. Que pena. — Disponha, sô. Não imagino o quanto deve ser difícil para vocês, mulheres, passarem por essas dores todo mês. Fico feliz por ter nascido homem! Vira-se para deixar o quarto, mas pego um travesseiro e atiro nele. — Bobo! — Rio, porque acerto em cheio sua cabeça, assustando-o. Ele se volta para mim, estreitando os olhos perigosamente, e me encolho contra a cabeceira da cama, abraçando as pernas, fingindo que estou com medo de sua

revanche. Sem tirar os olhos de mim, se inclina, agarrando com firmeza o travesseiro. Joga o braço para trás como quem mede a distância e a força, mas, em vez de jogar em mim, como espero, ele o larga, corre até a cama e pula sobre o colchão, fazendo as molas chacoalharem. Eu, com minha magreza toda, quase voo para fora da cama por causa de seu impulso doido. O movimento, no entanto, me faz cair de lado, deitada, e seu corpo me cobre pesadamente com uma rapidez impressionante. Suas mãos amarram meus punhos e suas pernas prensam as minhas. Não tenho como escapar. — Por favor, não! — imploro, rindo de montão e esperneando o pouco que posso. — Prometo ser uma boa menina! — Você nunca mais vai me acertar pelas costas, senão... senão... — ameaça com cara de mal. Ui, que lindinho! — O quê? — desafio, entrando totalmente na brincadeira. Seus olhos me fulminam com uma intensidade avassaladora. Seu rosto vai ficando vermelho feito um

pimentão e fico curiosa para saber cada pormenor de seus pensamentos. Então ele muda de expressão, repentinamente, rindo feito um maluco. Eu, hein? Acho que estou contaminando Joseph com minhas loucuras. — Senão como todo esse chocolate sozinho! Rouba a sacola e se afasta tão depressa quanto se apossou de mim. Eu me levanto como um tiro, ficando de pé sobre a cama e correndo até a beirada para alcançá-lo. — Me dá esse chocolate, Joseph! É caso de vida ou morte! Eu preciso dele! Joseph para a uma distância que não consigo pegá-lo, com meu maior desejo escondido nas costas. — Não dou! — Ergue a mão acima da cabeça e vislumbro meu remédio milagroso distante demais. — Se você conseguir roubar, é seu! — Balança, me atiçando. Descontrolada, salto para o piso, mas ele já se virou e correu pelo quarto, alcançando a varanda e parando na grade, escorado, com um sorriso bem sem vergonha. O quê? Ele está pensando que minha nudez vai me deter? Então não me conhece bem! Continuo até me atirar contra ele — Joseph toma um susto ao me amparar em seus

braços — e estender o braço em busca do meu elixir dos deuses. — Pauline, volta para dentro, você está sem...— ofega — roupa! — A culpa é sua, quem mandou me torturar desse jeito? Ele me deixa pegar o chocolate e me leva de volta para dentro, fechando a porta da varanda atrás de nós, depois de usar o próprio corpo para esconder o meu, peladão. Volto a me lambuzar com o chocolate, ignorando sua cara de bravo. — Você é maluca! — desabafa. — Agora que descobriu? Parabéns, gênio! — Argh! — grunhe e abre a porta do frigobar, tirando de lá uma garrafa de água. Entrega-a para mim. — Toma seu remédio e volta pra cama. Descanse hoje para amanhã curtirmos a cidade. Se estiver se sentindo melhor, claro. Largo tudo, dando um pulo. — Ah! Sobre isso, tenho planos pra gente cair na noite! Já descobri até para onde iremos. Ergue as sobrancelhas, surpreso.

— Hum... Sua ideia é jantar fora ou alguma loucura que eu precise saber com antecedência? Eu me atiro em seu pescoço, dando dois passos para lá, dois para cá, imitando uma dança. Inseguro, ele agarra minha cintura e me acompanha no giro, sem realmente gingar o quadril como eu faço. Joseph é duro feito uma tábua! — Vamos requebrar ao estilo nordestino. — Requebrar? Pauline, eu não sei dan... — É muito fácil, eu te ensino. — Não sei se... — Joseph, lembre-se do nosso acordo! — Sou taxativa. Ele suspira, resignado, pestanejando os cílios atrás dos óculos. — Tudo bem, eu vou, mas não garanto nada quanto a dançar. Dou um beijo em seu rosto, incapaz de me conter, mas pelo menos desviando de sua boca. — Obrigada, meu anjo. Não vai se arrepender. Termino de me automedicar, tomo um banho

quentinho e volto para cama, onde assistimos filmes na TV a cabo, comendo porcaria e dando risada. Fico muito feliz por Joseph finalmente desistir de dormir no sofá e adormecer ao meu lado, sobre o imenso colchão. Uma pena ele não ter se “arrochado” em mim. Seria quentinho e aconchegante. Adormeço sem perceber, em algum momento da noite. Acordo descansada e bem-disposta pela manhã, mas sozinha. Sigo o cheiro de comida de verdade e encontro Joseph na sala, ajeitando uma farta refeição para dois sobre a mesa. Minha barriga ronca alto. Eu me farto com um pouco de tudo até me sentir tão cheia que parece que vou explodir. Iguarias como cuscuz, tapioca, queijo de coalho e bolo de rolo me deixam bem animada depois de apreciadas pelo meu estômago. Meu companheiro de viagem parece satisfeito com minha animação matinal. — Depois de você devorar o café da manhã reforçado que mandei trazer, nem preciso perguntar como se sente hoje — diz, com aquele sorriso encantador. — Nossa, acho que exagerei, estou me sentindo uma tonelada mais pesada!

Ele solta uma gargalhada gostosa e agradável. Ouvilo tão... vivo atiça algo dentro de mim, alguma coisa muito boa. — Pode comer o quanto quiser que não vai chegar nem perto desse peso, sô! — Ainda bem, porque não posso perder todas aquelas roupas caras que comprei! Decidimos aproveitar a manhã para fazer o disputadíssimo passeio de jangada pelos recifes de corais, com direito a um mergulho nas piscinas naturais a fim de ver a vida marinha de pertinho. A cor da água é tão azul e transparente que nem precisaria nadar para enxergar o fundo. Joseph finalmente se aventura comigo nessa atração turística, se livrando da bermuda e da camiseta para estrear a sunga que lhe dei. Uau! Como ele fica gostoso nela. Depois do almoço, a gente aluga um bugue e faz um tour de ponta a ponta pelas praias. Tanta beleza reunida em um pedacinho do Brasil chega a ser injustiça. Mas estamos aqui para aproveitar, registrar e compartilhar. Por isso, fotografo tudo e conecto o celular na Internet apenas

para bombardear meus seguidores do Instagram com a natureza exuberante que estou vendo ao vivo, mas tomo um susto ao ver muitas notificações. Nunca fui popular em redes sociais. Acho que meus conhecidos prestaram atenção nas primeiras fotos que postei. Ignoro tudo para não me distrair e acabar perdendo o que está acontecendo ao meu redor. Estou ansiosa pela noitada. Depois de tanta espiritualidade, preciso me soltar um pouco. Não sou a melhor pessoa para falar em equilíbrio, mas essa aventura está me mostrando que é melhor não focar em uma coisa só. Posso estar perdendo algo tão bom e importante quanto. Hoje é o momento de me jogar na noite e aproveitar até o amanhecer. Eu me arrumo e ajudo Joseph a se vestir com um look maneiro e casual, bem litorâneo. Ele fica um gato, como sempre. Não vai dar para sair sem calcinha essa noite, o que é uma droga, mas o sutiã, com certeza, está abolido. O macacão florido e curto tem um decote acentuado nas costas, que chega ao meu cóccix. Fico fabulosamente sexy, revelando as marquinhas do biquíni que ganhei durante o

dia. Calço sandálias baixas de tiras, que amarram nos tornozelos, para aguentar a noite toda o forró pé de serra. Coloco as coordenadas no GPS do carro alugado e nos levo até o bar, empolgadíssima. Joseph está um pouco cansado por causa dos passeios, mas insisto em aproveitar nossa última noite em Pernambuco ao máximo. Ele bronzeou também, sua pele está dourada e brilhante, o que o deixa mais sensual e bonito. O lugar está lotado, inclusive o mezanino. O arrasta pé já começou, incentivado pela banda ao vivo. Gente jovem, bonita, sorridente e se agarrando para todo lado... Estou me sentindo em casa! Ganho umas encaradas, que retribuo no meu modo atirada. — Pauline, por que ninguém está sentado? — berra Joseph ao pé do meu ouvido. — Porque eles vieram para dançar e paquerar, Joseph! Pelo amor de Deus, pega uma cerveja e aproveita. Olha ali aquela morena te encarando. — Lanço o queixo na direção da dita cuja. Automaticamente, ele olha para a mulata tesuda que está a uns três metros de distância. Ela rebola

sensualmente, sem parar de olhar para meu companheiro como se ele fosse o único aqui. Joseph transforma seu bronzeado em cor de terra ao corar, envergonhado com o sorriso deslumbrante que ela lhe lança ao ser notada. Ele vira de costas para ela em uma velocidade impressionante. Dou uma grande risada, que apenas as pessoas mais próximas podem ouvir devido ao som alto. — Eu te entendo, ela é linda! — brinco com ele. — Para de olhar pra ela, Pauline! — Por quê? Se você não quiser, eu posso tentar a sorte. Arregala os olhos, espantado. Não sei por que a surpresa, já falei a ele que gosto de mulher também e essa acendeu minha vontade de me agarrar com o mesmo sexo de novo. — Mas, você... não está... naqueles dias? — Sim, mas quem aqui está falando em sexo? — Dou de ombros. — Vamos começar! Você vem comigo até o balcão ou fica me esperando aqui? — Vou com você! — enfatiza, apavorado com a perspectiva de ficar sozinho e à mercê do ataque da

boazuda. Ai, meu Deus! Ele não surtou desse jeito na boate de swing. Acho que o fato de termos um espaço reservado tenha lhe deixado mais tranquilo. Aqui estamos no meio do povo. Não tem como chegar ao bar sem esbarrar em todo mundo pelo caminho. Adoro esse clima. Já estou ficando com um calor dos infernos, não de tesão — ainda! Peço uma batida colorida e tropical. Joseph se recusa a tomar qualquer coisa alcoólica e opta por uma Coca-Cola com limão e gelo para se refrescar. — Você não devia beber isso por cima do remédio — ele me censura, gritando ao meu lado, quando vamos para um canto qualquer. — Relaxa, Joseph, não vou sofrer uma overdose — rio da piada. — Não sei por que você acha isso engraçado. É muito sério, Pauline! — Meu Deus, você resolveu pegar no meu pé, hein? Desencana! — Vislumbro a morena na multidão, como se estivesse à nossa procura. Sorrio, encontrando uma solução para fazer Joseph calar a boca e ainda me divertir

um bocado. — Vou dar um jeito nessa sua chatice agora mesmo. Me espera aqui. Sigo a direção da moça e paro na frente dela, me debruçando para ser ouvida. — Oi, gata, eu me chamo Pauline e aquele ali é o meu amigo Joseph. Gostaria de se juntar a nós? O perfume forte dela me atrai, adoro cheiro amadeirado e doce. Marca. — Sou Andrea e adoraria ficar com vocês, sim! — responde com seu sotaque nordestino que eu amo. Os olhos dela brilham e o lampejo me faz notar que possuem um tom mel raro. Muito linda, meu! A gente se cumprimenta com dois beijinhos no rosto, e a levo pela mão até um Joseph morto de vergonha. — Preciso te avisar que meu companheiro de viagem é um pouco tímido. — Deu pra notar. Achei lindinho! Consegui um reforço para meu time! Joseph olha para os lados, como se procurasse uma abertura para outra dimensão, na qual pularia sem vacilar, mesmo sem saber em que tipo de mundo cairia. Tudo para se livrar de mim e

da gostosa que lhe apresento como se não notasse seu desconforto. Converso com Andrea, contando para ela sobre os lugares que a gente já viu e os outros que pretendemos visitar. Fica difícil esconder dela o fato de sermos milionários. Eu falo tudo e Joseph me olha feio. O que tem de mais em ela saber que somos os ganhadores da HiperSena? Canso da gritaria, minha garganta está ficando seca e arranhada, mesmo molhando constantemente com bebida. Meu amigo está tão calado que chega a ser enervante. Faço-o soltar o copo, largando em uma mesa qualquer, bem próxima, e engancho nossos corpos no “rala bucho”. — O que está fazendo, Pauline? — questiona, vermelho como um tomate maduro. Trancei nossas pernas e colei nossas barrigas, fazendo os sexos ficarem bem próximos. — Dançando com você, ué, a gente veio à mais famosa casa de forró de Porto de Galinhas para ficar só olhando? Nem pensar! Vamos, me acompanhe, dois passos para cá, dois para lá, assim.

Não lhe dou tempo de retrucar, segurando firme sua mão e seu ombro. Tento conduzi-lo, mas a gente dá o primeiro passo em direção oposta e eu quase caio ao tropeçar em seu pé de apoio. Inferno, vai ser mais difícil do que eu imaginava. Faço outra tentativa, direcionandoo, sem perder a paciência e, desta vez, ele me acompanha para o lado certo. Sorrio para ele, que está com os olhos virados para baixo, fitando fixamente as passadas ritmadas. — Agora, solta esse quadril — instruo, fazendo o meu rebolar, mostrando como é que se faz. Ele trava e confunde os passos, ficando mais duro que um poste e acabando com o ritmo. Affe, não é qualquer homem que consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo mesmo. Nem dá para ficar excitada com nossa esfregação. Joseph dançando é a coisa mais brochante que eu presenciei na minha vida. — Por favor, Pauline, não sirvo pra isso, sô! Eu o largo, suspirando. — Percebi. — Volto-me para nossa nova amiga, que sorri para mim, achando muito engraçada minha dança

com Joseph. — Vem, Andrea, vamos mostrar para esse mineirim como é que se balança o esqueleto no nordeste! Pego a mão que ela me estende, me propondo a guiála, e Andrea aceita sem pestanejar, encaixando-se em mim rapidamente. Começamos devagar, um passo para frente, outro para trás. Percebo seu corpo macio totalmente solto no meu. Rebolo para os lados e ela vai comigo, sem errar um passo sequer. Solto sua mão, segurando sua cintura e fazendo-a dar um passo contrário, para depois voltar girando para meus braços. Eu me esqueço de Joseph, me perdendo na loucura que é essa mulher. Aqueço, transpiro, rio à toa. Sua saia curtinha sobe alguns centímetros por causa de seus requebrados. Andrea tem coxas grossas e bem morenas, com pelos loirinhos que eu reparo de tanto olhar. Seus seios grandes balançam sob a blusa fina, com um decote frontal escandalosamente sexy. Que mulherão! Pensei que meu parceiro ia gostar dela, assim como eu. Nós dançamos sem parar, deixando Joseph pálido e sem graça, encostado a uma pilastra, tentando nos ignorar. Muito diferente do restante dos homens no bar, que nos

secam. Combino com ela de continuarmos provocando meu amigo perdido, por isso a gente se recusa a dançar com outros caras. Aproveito nossos movimentos para começar um roçar mais profundo, deixando minhas mãos ousarem um pouco. Andrea não me afasta quando minha palma se preenche com uma de suas nádegas, ao escorregar de sua cintura fina. Nossa senhora, que bundão delicioso! Aperto com gosto, sentindo sua risada chacoalhar nossos corpos em seu ritmo. Cochicha em meu ouvido, aproximando-se do meu pescoço: — Você acha que ele vai curtir uma festinha a três? Sinto um arrepio na coluna quando ela diz a última palavra. Um tesão maluco explode em mim. Que bosta! Eu não posso! Lembro-me das palavras dele quanto a sexo e resolvo usá-las para justificar minha resposta. — Isso é novo para ele, mas a gente pode tentar roubar um beijo. — Animo-me com a ideia, fazendo-a parar de requebrar. — Vem comigo! Voltamos para perto de Joseph, que nota nossa aproximação e desencosta da parede, como se estivesse

pronto para ir embora. Deixo que pense assim. Ele fecha a conta, paga e tenta se despedir de Andrea com um aperto de mão. — Ela vai nos acompanhar até o carro, não é, maravilhosa? — Salvo a situação, dando-lhe uma piscadela. Captando minha intenção, Andrea concorda. Saímos os três de mãos dadas, eu no meio. — Vou dirigir, Pauline, você não tem condições — Joseph sentencia. — Tudo bem — concordo sem titubear e ele me olha fixamente, tentando me transmitir um “não” enorme somente através do olhar. Palavra proibida, queridinho. Agora você vai ver. Entra no meu jogo ou pede pra sair. A gente chega ao automóvel, que está meio longe por causa da lotação do point. Joseph se desprende de mim, mas eu o ignoro antes que tente se despedir friamente de Andrea de novo. Meu, a coisa vai esquentar por aqui! Dou a volta no carro, forçando-o a destravar a porta. Sento no banco do carona e ele no do motorista.

— Uai, Pauline, o que você está fazendo? Eu não o respondo, puxando a moça para meu colo. Ela se senta de frente para mim, abrindo as pernas ao meu redor, e provavelmente roçando no Joseph durante o processo. Adoro! Sinto a presença do único homem do trio em algum lugar do lado do motorista, mas minha atenção está voltada para a gostosura que se esfrega em mim enquanto eu beijo sua boca com vontade. Deixo minhas mãos acariciarem seu corpo livremente, por cima e por baixo da roupa. Andrea resfolega e ouço um grunhido ao meu lado. Estico uma mão, encontrando seu corpo másculo, tenso e duro feito uma tora. Joseph está curtindo. Sei que vou ultrapassar um limite agora, mas não estou pensando direito. Álcool e excitação me comandam e só quero que ele se divirta comigo. Largo seu pau, até porque ele segura meu pulso com força, me afastando, em um gesto tão automático que ele parece incapaz de deter, e largo a boca boa da mulher. — Agora é a vez dele, Andrea. Atendendo ao meu comando, ela se estica, laçando o pescoço de Joseph e abocanhando seus lábios de maneira

tão sedutora que fico olhando, fixamente, as línguas dançarem. Sem poder continuar apenas olhando, eu me inclino, deixando minha própria língua se enfiar no espaço entre eles. Depois de certa relutância, Joseph geme com força, apresentando-se para a brincadeira de bom grado. Vou explodir de tanto tesão, meu Deus! As mãos, loucas por mais, tocam qualquer parte dos três corpos. Eu sei exatamente quando é a Andrea ou o Joseph. As mãos dela são experientes e pequenas, enquanto as deles são inseguras e grandes. Mas esse trem tá bom demais, sô! Perco o controle, a identidade e até o sotaque de tão louca que eu fico! A mulata boazuda se divide, oferecendo-se toda para nos agradar. Em algum momento, Joseph se desprende de nós e se joga contra o banco, respirando pesado e arfando. Pudera! Também estou morrendo de falta de ar. Ligo o arcondicionado para refrescar um pouco o calor infernal que faz dentro do carro. Nossos olhares se encontram e parece que Joseph me faz um pedido silencioso. Será que eu extrapolei? Foi demais para ele? Vai brigar comigo quando voltarmos para o hotel?

— Acho melhor nós irmos, Andrea, mas foi foda demais te conhecer, menina gostosa. Dou-lhe um beijo de língua de despedida, e ela faz o mesmo com um perdido Joseph, que aceita, sem rejeitá-la. Bom menino. Ela sai quebrando o quadrilzão e fico olhando pelo retrovisor enquanto se afasta. — Misericórdia divina! O que foi isso, Pauline? Dou de ombros, pegando meu celular do porta-luvas e desejando muito ter pego o telefone da mulher. Benzadeus, que noite! — Você não falou nada contra beijos e amassos, muito menos a três — desconverso. — Mas... isso... foi tão... err...! — Foi um tesão da porra! — grito, soltando uma gargalhada. — Não tente me enganar, eu vi o quanto você estava envolvido! Ele fecha a cara, franzindo a testa. — Você prometeu não fazer mais nada do tipo. Encaro-o com firmeza dessa vez. — Eu prometi te levar a uma aventura na qual você experimentaria um mundo novo e estou cumprindo minha

parte, ao contrário de você que só fica pensando em pecado e não se solta nunca, puta que pariu! — Pauline! — Joseph! Silêncio. Ninguém vai ganhar essa guerra hoje, talvez nunca. Ele suspira, rindo igual uma besta retardada, enquanto fico tentando continuar brava, mas a verdade é que não estou nem um pouco. Apesar de extremamente excitada, não me arrependo da brincadeira. Foi muito, mas muito, divertida. — Jesus toma conta de nós, Pauline, porque não sei onde vamos parar desse jeito! — Ele dá a partida no carro, ainda rindo, e me espanto muito com sua reação. Ao mesmo tempo, também estou feliz por ele não estar surtando completamente. — Pois eu sei bem, amorzinho. — Ligo a Internet do celular por puro hábito. —Vem cá, Joseph, confessa para mim: escolhi bem, não foi? Ela faz seu tipo. Enquanto ele dirige, começo a olhar as trezentas milhões de notificações, meio no automático, sem dar importância para nenhuma.

— O que quer dizer? Que eu topei fazer isso por causa da mulher estar tão exposta que dava para saber a cor da calcinha dela? Puts, eu nem vi isso! Rio de seu comentário, mudando de aplicativo no celular. — Não, seu bobo, estou falando dos “atributos” dela. Você prefere uma mulher mais encorpada, que eu sei. — Joseph não responde e nem ri, me obrigando a olhar para ele. — Que foi? — Nada. Pare de fazer perguntas que eu não sei responder, Pauline. Ok, fico quieta e volto a atenção para o celular. Alguém me marcou em um vídeo e, em vez de partir para a próxima notificação, meu dedo escorrega na tela touchscreen e o carrega em poucos segundos. Meu rosto aparece em primeiro plano e, ao fundo, reconheço meu lindo e maravilhoso Porsche. Minha voz sai, gritando nos alto-falantes, que eu sou rica. E o fabuloso “chupa, mundo!”, que soltei espontaneamente. — O que é isso? — Joseph pergunta, curioso. Não posso acreditar, alguém me filmou e me jogou no

YouTube. Olho o número de visualizações do vídeo, postado minutos depois de nossa saída do hotel, em Brasília. Caralho! Cinco milhões de visualizações! — Puta que pariu! Eu viralizei!

Capítulo 15

Joseph Imperatriz, a caminho de Carolina, Maranhão Faço uma curva fechada com o carro alugado, imaginando como serão as belezas naturais que nos esperam no Maranhão, próximo destino do itinerário da Pauline. Estou envolto em muitas reflexões quando me assusto com mais uma risada escandalosa que ela solta sem se dar conta. Desde que descobriu que o seu vídeo com o Porsche teve mais visualizações do que o preço dele, não larga o celular por nada. Ao que tudo indica, além de milionária, Pauline agora está famosa. Estou muito preocupado, não nego. Nós não devíamos nos expor tanto. Minha preocupação é tão grande que quase me esqueço do que ela me fez passar com aquela mulher desconhecida, a tal de Andrea.

Não sei quantas pessoas preciso beijar para começar a achar que beijo não tem importância. É esquisito colocar a situação dessa maneira, mas me sinto mal por ter beijado uma terceira pessoa, uma mulher que nunca vi e nunca verei de novo. Ainda mais da maneira como aconteceu, um momento de pura luxúria, total satisfação física e nenhum envolvimento emocional. Quando estou apenas com Pauline é diferente. Mesmo que não esteja em nossos planos nos envolver além desta viagem, pelo menos sei que existe a amizade, o companheirismo. Ela não é mais uma desconhecida para mim, é alguém por quem guardo sentimentos, apesar de não saber defini-los direito, e que nunca esquecerei. Logo, não me sinto mal como no início me sentia. — Ai, meu Deus, veja isso, Joseph! — ela berra, enfiando o celular na minha cara. — Eu virei meme! — Meme? — Faço uma careta e reduzo a velocidade. Não posso arriscar nos envolver em um acidente de carro por causa de um meme, que por acaso eu nem sei o que significa. — Sim, veja! Eles congelaram uma parte do vídeo e

colocaram a frase “chupa, mundo!” em cima. — Gargalha alto mais uma vez. Visualizo uma foto da expressão mais louca que Pauline já usou na vida e não evito uma risada. Estou preocupado, mas não deixa de ter graça. — Que demais, gente! Meu Facebook já lotou! Fico em silêncio porque não tenho mais o que dizer. Durante o longo voo entre Recife e Imperatriz, em que quase tive um trem de tanto nervoso, expliquei a ela que a notícia não era boa, que a fama tem suas desvantagens e que precisávamos ter mais cautela. Pauline me ignorou, como acredito que sempre faz. Ela está se divertindo horrores com a ideia, toda empolgada. Sendo assim, não vou mais dizer a minha opinião sobre o assunto, só me resta remediar quando as coisas saírem do controle. Espero que não chegue a tanto, mas não estou com bons pressentimentos. O pior de tudo é passar tanto tempo com ela desconectada da realidade. Desde Recife não temos uma conversa — já que ela dormiu boa parte do voo e voltou para o celular assim que pousamos —, acho que só não esqueceu que eu existo porque sou o motorista da vez.

Tenho consciência de que a viagem não tem graça sem ela. Eu nunca iria a canto algum sozinho, não importando quanto tenho na minha conta bancária. Mas, enfim, não sou eu que vou ficar exigindo atenção. Como se ouvisse os meus pensamentos, escuto o barulho irritante de seu celular desligando. Ela o coloca na mochila e suspira fundo, com um sorriso amplo estampado em seus lábios. — Ai, ai... Melhor eu me desconectar um pouquinho, né? Não posso perder essa viagem. Estou louca para nadar n... — Faz uma pausa para limpar a garganta. — Nadar nas águas límpidas do Maranhão! — Aleluia! Achei que você fosse trocar a viagem por um “meme”. Ela me olha de soslaio. — Está com ciúmes, senhor Joseph? — Sua risada é deliciosa de ser ouvida. — Ciúmes? De quê? Uai... Por quê? — Não sei, senti uma ponta de recalque aí nas suas palavras. Acho que você não gosta de me ver como centro das atenções.

Dou de ombros. — Eu não gosto de nada que tenha a ver com centro e atenções, prefiro ficar pelos cantos e passar despercebido — me explico, e ela ri sozinha. — Já falei que esse trem de vídeo na Internet não é legal. Daqui a pouco todo mundo vai saber que somos milionários, Pauline. — E o que é que tem? — Você é tão experiente! — Reviro os olhos, meio impaciente com a inocência que às vezes Pauline demonstra. — Não é possível que não saiba que as pessoas não costumam ser sempre simpáticas. Podemos ser roubados, enganados, cairmos em furadas... Tem gente oportunista que vai querer se aproximar de nós só para levar vantagem. — Credo, Joseph, vira essa boca pra lá! Deus me livre! — Só estou avisando. — Ela passa um tempão me olhando, mas eu finjo que não percebo. Acho que finalmente compreendeu as raízes da minha preocupação. O dinheiro que ganhamos é muito cobiçado para que

continue agindo sem precauções. Chegamos à Carolina no fim da tarde, depois de algumas longas horas de viagem por terra. O nosso destino final é Encanto Azul, em Riachão, mas ficamos sabendo que as melhores pousadas estão por aqui e, como não dará tempo de conhecermos a atração turística ainda hoje, decidimos ficar até amanhã de manhã. Estou muito cansado por causa da estrada longa, mas Pauline, como sempre, está elétrica e resolve sair à pé pela cidade, a fim de fazer compras e ver pessoas. Permaneço no quarto da pousada, assistindo televisão e cochilando, já que não consegui dormir nada no avião. As horas se arrastam e Pauline não aparece. Sei que ela com certeza deve ter encontrado alguma coisa interessante para fazer e está distraída, mas não deixo de me preocupar. A cidade é desconhecida e ela costuma ser doida demais. Não sei em que tipo de situação ela pode se meter sozinha. Pelo que a conheço, não posso contar com seu juízo e discernimento. Pauline funciona de um jeito diferente de qualquer pessoa que eu conheço. É por este motivo que, perto das dez da noite, resolvo procurá-la

pelas ruas de Carolina. A cidade é pequena e humilde, mas muito aconchegante. Minha atenção logo é voltada para um bar mais movimentado, bem perto da pousada, onde tem música ao vivo, e imediatamente já sei onde minha nova amiga se meteu. Diferentemente de Porto de Galinhas, neste bar as pessoas estão sentadas, escutando o som enquanto bebem e conversam muito alto. Passo por algumas mesas às pressas, tentando me lembrar com que roupa Pauline saiu da pousada, assim será mais fácil localizá-la. No entanto, antes que eu tenha qualquer recordação, vejo a maluca sentada à uma das mesas, na companhia de um cara alto e loiro. Minha primeira reação é suspirar de alívio, afinal, ela está bem e inteira. Depois, fico preocupado. Não conheço o cara, obviamente, e não sei quais são suas intenções. Dou alguns passos na direção deles e estaco. Percebo que não tenho direito de atrapalhá-la em uma conquista, o que poderia acontecer caso eu aparecesse do nada. Acompanho quando ela gargalha para o homem desconhecido e ele ri junto, tocando-lhe as mãos. Não sei

o que me dá ao entender que Pauline é livre para fazer sozinha as próprias escolhas. De alguma forma, eu me sinto seu protetor e isso não é bom. Ela sabe se defender e se proteger, por isso o meu papel aqui é apenas acompanhá-la e tentar me divertir também. Alguns garçons me perguntam se preciso de uma mesa. Resolvo me sentar em uma delas, para não ficar feito um bocó em pé no meio do bar, e peço uma água com gás. Estou tão perto da mesa em que Pauline está que não sei como ela não me vê. O cara se inclina e fala alguma coisa no ouvido dela. Tenho reais vontades de tirá-lo de perto de Pauline, mas me forço a ficar quieto, apenas observando. Estou aqui somente para o caso de ela precisar de mim. Somente. Pauline o olha com malícia, exibindo uma expressão que conheço bem, e então já sei o que pretende. Eles começam a conversar e eu fico doido para escutar qualquer coisa, mas o som está alto e não consigo. Depois de alguns minutos, o cara avança para tentar beijá-la, mas Pauline desvia o rosto no mesmo instante e sorri. Meu estômago se contorce e o coração acelera.

Bebo um gole de água para tentar me acalmar. O homem insiste mais duas vezes, louco para roubar um beijo, mas Pauline não permite e eu fico me perguntando por quê. Afinal, sei reconhecer que o cara é presença e também sei que ela adora uns amassos ousados. Pauline não é de fazer joguinhos, quando ela quer é porque quer e pronto. Tomo o restante da água, sentindo-me esquisito por estar dando um de detetive. Por fim, resolvo voltar para pousada e esperá-la por lá mesmo. Chamo o garçom e peço a conta — ele mal acredita que só vou ficar na água mesmo —, disposto a dar o fora o mais rápido possível. Dou uma última olhada na Pauline e me assusto quando ela se levanta, cumprimenta o homem e sai desfilando na direção da saída do bar. Entretanto, antes que consiga se desviar de todas as mesas, nossos olhares se cruzam e ela faz uma careta engraçada. Anda até mim com um sorrisão estampado no rosto, deixandome com vontade de sumir do planeta. Que vergonha, fui pego no flagra! — Joseph? O que faz aqui? — Parece confusa, mas animada. Arrasta uma cadeira para o lado. Penso que ela

vai se sentar nela, mas Pauline ganha espaço para se aproximar e, inexplicavelmente, sentar no meu colo. — Não achei que você fosse frequentador de bares. — Olha para a garrafinha de água vazia e ri. Estou tão confuso que mal sei o que pensar. Seu corpo sobre mim está me atiçando sem fazer qualquer esforço. Os braços dela repousam ao redor dos meus ombros, fazendo nossos rostos ficarem bem perto. — Quem é o sujeito? — pergunto como quem não quer nada. Ela se inclina e observa o homem, que está olhando para nós e não gostando nada do que vê. — Se chama Rafael. Bonitão, né? — Vira-se para mim e me encara. Eu não sei onde colocar minhas mãos. Quero que ela me dê um pouco de espaço para que eu consiga raciocinar, mas acho que é pedir demais em se tratando dela. — Ele não é feio — respondo. Espero que Pauline me dê uma explicação, mas não a recebo. Ela apenas me olha e sorri, depois se inclina e me oferece um beijo de arrancar o fôlego, que correspondo por falta de opção. Não que eu não fosse escolher beijá-la caso tivesse outra.

— Vamos voltar pra pousada? Quero estar inteira amanhã! — sugere depois que se afasta um pouco, ainda sentada no meu colo, deixando-me duro e sem ar. Posso sentir o formato de seu traseiro bem em cima da minha ereção. Ela não facilita nada pra mim. — Espera um pouquinho, sô, não posso me levantar agora — confesso, sentindo meu rosto se esquentar. Ouço sua gargalhada e acabo rindo junto, mas me sentindo extremamente envergonhado. — Fica quieta, Pauline. Se você chacoalhar, não vamos sair daqui nunca. — Mas está tão bom aqui... — murmura e rebola de leve, só pra me fazer pirar ainda mais. Entro em desespero, olhando para os lados e desconfiando que todo mundo no bar já sabe que estou duro. — Eu adoro quando você cora desse jeito, sabia? — Já notei há muito tempo que você gosta de me deixar envergonhado. — É tão bonitinho! — Ela encosta nossos narizes e me arranca um selinho molhado e barulhento. — Não é nada bonitinho, é constrangedor! Pauline se levanta e se senta na cadeira ao lado,

toda descontraída. Suspiro aliviado por finalmente me ver longe da tentação. Não tão longe assim, mas pelo menos posso começar a tentar amolecer. Olho na direção do homem com quem ela estava e percebo que não tem mais ninguém na mesa em que ocupavam. — E então, já podemos ir? — ela pergunta, sorridente. — Calma. Você acha que é assim, senta no meu colo, fico duro, sai do meu colo, fico mole? — Pauline ri tanto que começa a chorar. — Não é fácil como pensa! Enquanto ela se diverte às minhas custas, pago a água com gás e me levanto ao perceber que está tudo bem. Seguimos de mãos dadas até a pousada, onde dormimos, mais uma vez, na mesma cama. Eu não me sinto mais desconfortável com a presença dela, nem acho que estou invadindo o seu espaço ao dividirmos o colchão. Não sei dizer como ou quando as coisas mudaram dentro de mim, mas percebo que não sou o mesmo, em um sentido que me agrada, apesar de me assustar às vezes. Assim que amanhece, nos arrumamos para mais uma aventura. Seguimos em uma estrada tortuosa, que quase

nos deixa atolados na areia, até Riachão. Paramos na Pousada Santa Bárbara, onde conhecemos o guia que ajuda os turistas a chegarem até Encanto Azul. Pagamos uma quantia maior que o normal para fazermos o passeio sem a companhia de grupos de excursão. Pauline quer privacidade, não sei direito por que, mas compreendo que deve ser mais relaxante realizar um passeio assim sem que outras pessoas fiquem fazendo barulho. A conexão com a natureza deve ser bem maior. Sendo assim, partimos com o guia, em seu carro 4 x 4, para realizarmos o restante do caminho de areia até a trilha, que só pode ser feita a pé. Apesar de não ser muito extensa, a trilha é bem complicada de ser feita. A descida é meio íngreme, a vegetação extensa e o sol quente demais também não ajudam. Ainda bem que passamos bastante protetor solar. Atravessamos árvores, plantas, sombras deliciosas e ouvimos o cantar de pássaros. O guia nos mostra curiosidades da região, também nos conta um pouco de sua vida e de como nós iríamos adorar o ambiente. Chegamos ao nosso destino e eu mal posso acreditar

no que vejo. Entre paredes gigantescas de rochas avermelhadas, está um lago natural maravilhoso, com a água mais límpida e no tom de azul mais perfeito que já vi. Daqui de cima, posso ver as pedrinhas que compõem o fundo do lago. Fico emocionado e abro um sorriso largo. Olho para Pauline, ela está boquiaberta, maravilhada com tamanha beleza. — Vocês podem pular daqui até o lago — aponta o guia, com um sotaque divertido. — Todo mundo adora fazer esse mergulho. Pauline grita alto, dando-nos um baita susto, e me abraça. Seu grito faz um eco interessante por causa das rochas. — Joseph! Que lindo! Olha só isso! — Ela pula e gira no próprio eixo, muito empolgada e excitada. — Nunca vi coisa mais perfeita, meu Deus! — O guia começa a rir dela, mas eu estou ficando tão acostumado que acho a sua reação bem normal. — Vamos pular, vamos! Pauline arranca a blusa, o short e o tênis, exibindo um biquíni que lhe cai magnificamente no corpo, depois

olha para os lados. Tiro a minha camisa, estou muito curioso para saber como é mergulhar de cabeça no paraíso. — Moço, o senhor poderia... Hum... Se afastar um pouco enquanto a gente fica no lago? — Pauline pergunta ao homem e percebo que aí tem coisa. Tudo bem querer privacidade, mas a presença do guia é fundamental. Vai que acontece alguma coisa com a gente? Só ele, que conhece bem a região, poderá nos ajudar. — Claro, claro! Vou ficar ali do outro lado. Quando for a hora de voltar venho chamar vocês. Qualquer coisa é só gritar! Acho que ele já está acostumado a dar privacidade aos visitantes, pois se retira depressa, deixando-nos “sozinhos” em poucos minutos. — O que pretende fazer, Pauline? — pergunto, mas morrendo de medo da resposta. Ela vai aprontar, sei que vai. — Como assim, o que pretendo fazer? Estamos no Maranhão! Não se lembra? — Do que eu devia ter lembrado? — Faço uma

expressão séria e confusa. — É aqui que vamos nadar pelados! Pauline coloca as mãos para trás e retira a parte de cima do biquíni. Seus seios ficam à mostra e eu arfo, ainda sem acreditar que caí direitinho em mais uma armadilha. Ela não hesita ao abaixar a parte de baixo e ficar nua, do jeito como veio ao mundo. Solto mais um arquejo, quase engasgando com minha própria saliva. — Vamos, Joseph! Não é pra corar, é pra tirar a roupa! Tira tudo! — berra, erguendo os braços e dançando como se estivesse no meio de uma apresentação musical naturista. Não consigo desviar os olhos dela, muito menos criar forças para me despir. Percebendo que não pretendo sair do lugar, Pauline se aproxima e praticamente arranca a minha bermuda. Depois, ajoelha-se e trabalha nos meus tênis. Eu fico de boca aberta, encarando-a petrificado. Estou só de sunga e me afasto ao perceber que ela quer tirá-la também. Faz cara feia para o meu lado. — Você prometeu — fala com a voz pidona, lembrando-me do meu louco juramento. Onde eu estava

com a cabeça quando o fiz? — O que tem de mais? Só eu vou te ver, e eu já vi tudo, esqueceu? Bom, quase tudo. Falta sua bunda. Se ela queria me deixar ainda mais vermelho, atingiu seu objetivo com sucesso. Pauline se aproxima de novo e desta vez não a afasto. Seus dedos ágeis me livram da sunga. Não consigo me decidir onde enfiar a minha cara. O olhar que me oferece depois que fico nu é malicioso, cheio de segundas intenções. Ela logo dá a volta ao redor de mim, conferindo cada detalhe do meu corpo como se eu estivesse em uma vitrine. — Que bunda redondinha, Joseph, parece de bebê! — fala alto demais. Espero pelo seu toque na minha retaguarda, porém não acontece. Ainda bem. — Pelo amor de Jesus Cristo, Pauline, vamos pular logo na água antes que eu desista! — Puxo sua mão e a levo até onde o guia indicou que era seguro pular. Pauline anda saltitando, fazendo sua pele exposta brilhar por causa do sol e de seus movimentos. — É melhor fazermos isso juntos, não sei qual é a profundidade do lago. — Certo, não largue a minha mão. — Encaro-a.

— Não vou largar. Pronta? — Olho para baixo e sinto a adrenalina fazer meu coração bater mais depressa. Estou ansioso, meio nervoso, envergonhado, mas muito disposto a me jogar desta rocha. — Não está com medo, está? — Claro que não! — Então, vamos! — Puxo-a com força. Ela solta um grito antes e depois de nossos pés deixarem a alta rocha para trás. Não sei de quantos metros estamos descendo, mas a queda é intensa. O mergulho faz nossos corpos submergirem bastante, e uso toda força que posso para nos fazer chegar à superfície o mais depressa possível. A água está em uma temperatura perfeita, nem quente e nem fria demais. Pauline berra quando finalmente emergimos, espalhando água para todos os lados. — Que delícia! Eu nunca me senti tão livre! — Nem eu! — grito também, ainda segurando sua mão e, com a outra, tentando nos levar para a borda do lago. Aqui está muito profundo, não é seguro. Pauline entende o que quero fazer e me ajuda a nos

guiar para um canto onde conseguimos colocar os pés no chão. Alcançamos uma rocha grande, que está submersa, e é lá que nos apoiamos, com a água passando um pouco da minha cintura. Vejo seu sorriso amplo refletido pelo conjunto água mais sol. Uma alegria tão intensa invade meu peito que começo a rir, do nada. — Gostou? — ela pergunta, acompanhando-me na risada. — Adorei! Aqui é lindo demais, sô. Olha essa água! Posso ver meus pés! — Verdade, eu consigo ver seu pinto, olha! — Aponta e eu paro de rir no mesmo instante, todo desconcertado. Ela gargalha diante da minha vergonha e espirra água na minha cara. Não deixo por menos. Agito os braços e a encharco em segundos, mas ela rebate e é assim que se trava uma verdadeira guerra aquática entre nós. Pauline começa a correr para fugir dos jatos que a atinge. Vou atrás dela, insistindo, até que alcança uma rocha mais elevada e o nível da água fica abaixo de suas coxas. Hesito um pouco e a observo enquanto se

locomove depressa. A pele bronzeada me chama aos berros, me faz perder a noção de tudo. Esqueço o meu nome e onde estou, só para admirá-la em plena espontaneidade. Pauline nota que travei, por isso, desvio o rosto e finjo que enjoei de continuar a brincadeira. — Olha, tem uns peixes grandes aqui! — falo, apontando para baixo e disfarçando como posso. Ela se aproxima devagar, voltando a submergir o corpo quase todo na água. Aproxima-se por trás de mim e me abraça pelos ombros, pressionando seus seios contra minhas costas. — Onde? — Você os espantou quando chegou — minto, mas, para minha sorte, realmente vejo alguns peixes adiante. — Tem mais ali... Vem, vamos devagar. Pauline não me larga e todo tempo tenho consciência de seu corpo perto demais do meu. Ando vagarosamente, com ela presa a mim, e conseguimos observar alguns peixes, mas eles fogem quando nos aproximamos demais. Seu abraço se intensifica em algum momento. Fecho os olhos e solto um suspiro, porque sei

que não falta nada pra eu começar a endurecer. — Aqui é lindo, não é? — pergunto por falta de comentário melhor. — Você é lindo — ela murmura em meu ouvido, deixando meus pelos eriçados e minha pele toda encaroçada de tão arrepiada que fica. Eu me viro para ficar de frente para ela e a encaro. Nós nos olhamos durante alguns eternos segundos, até que nossos corpos funcionam como imãs e nos grudamos com intensidade. Pauline abre as pernas ao meu redor e enfia as mãos entre os meus cabelos molhados. Eu a agarro pela cintura com força, totalmente despudorado, louco da vida ao sentir seu sexo exposto encostado ao meu. Não há nada nos separado e isso me deixa louco. Sua língua chega antes mesmo de seus lábios, e a tomo com vontade, com uma sede que promete não me deixar em paz nem tão cedo. O movimento agitado e insaciável dos nossos corpos faz a gente se mover sem nos darmos conta. Paramos apenas quando a parede de uma das rochas aparece, do nada, atrás dela, e acabo a usando para

prender Pauline contra mim. Ela solta um gemido delicioso entre os lábios afoitos. Aproveito para grunhir baixo e agarrar suas coxas com força. Subo minhas mãos, separando suas nádegas com um aperto carregado de desejo. Ela geme mais uma vez, só que bem mais alto. — Joseph... eu... — murmura, mas não permito que fale nada. Estou no meio de um instante maluco, em que não consigo raciocinar ou calcular as minhas certezas. É por isso que minha boca lhe toma novamente, sem qualquer receio. — Joseph... — Ela me empurra de leve, quase como se não quisesse fazê-lo. — Pauline, eu quero você — digo, e minha voz sai tão estranha que nem eu mesmo reconheço. Agarro as laterais do seu rosto. — Quero agora. Ela me encara, posso ver real desejo brilhando em seus olhos. — Puta merda! — choraminga, parecendo revoltada. — Eu ainda não posso! Estou usando absorvente interno, não dá pra tirar assim, vai ser uma meleca. Que bosta, meu! Eu a seguro com força contra a rocha, sem deixar

que desvie os olhos de mim. Estou um pouco decepcionado comigo mesmo, eu devia saber que ela ainda não estava pronta para isso. Percebo que nossos papéis foram invertidos. Desta vez, sou eu que estou pronto. Sei que não vou me arrepender. Pauline precisa ser a minha primeira, do contrário, enlouquecerei antes do fim da viagem. — Ei... Não faz mal, sô. — Claro que faz! Ai, que grande porcaria, não acredito nisso! — Pauline... Olha pra mim. — Ela me encara fixamente, com os lábios entreabertos e a respiração intensa. Deixo meus dedos escorrerem por sua pele até encontrar seu ponto mais sensível entre as pernas. Ela vibra e ofega. Não acredito que sou eu que estou fazendo isso, mas estou, porque é o que quero fazer. — Estou decidido — confesso baixinho. — Não importa quando ou como será, quero que seja contigo. — Ai, meu Deus, Joseph... — Você me esperou durante um tempão, não foi? Eu vou saber esperar, sô. Temos uma viagem longa pela

frente. Não vou a lugar algum longe de você. Sua boca deliciosa voa na minha direção e não me larga. Agito os dedos como ela me ensinou na boate — nunca vou me esquecer como ela gosta que eu a toque —, em uma constância que me faz pirar ao vê-la pirando também. Não paramos o beijo nem por um segundo até ela explodir, novamente, sob meus dedos. Seu gemido em pleno êxtase me deixa louco demais, por isso começo a beijá-la como se não houvesse amanhã, como se eu nunca mais fosse precisar dos meus lábios pra mais nada na vida. Pauline gira de repente, virando-se e chocando a parte da frente de seu corpo contra a rocha, empinando a bunda para mim. Meu membro duro sente todos os contornos de seu traseiro macio. Solto um gemido intenso, pois estou louco, literalmente quase explodindo por dentro. O fato de não poder ter um alívio do jeito que quero me deixa perturbado. No entanto, ela coloca uma mão para trás, alcançando o meu sexo e o mirando em sua segunda abertura. — Me come por trás, Joseph... — ela murmura e

geme ao mesmo tempo, começando a rebolar para nos fazer encaixar. — Por favor, você precisa me comer de algum jeito! Sinto sua abertura ser pressionada contra o meu membro e gemo alto, absorto nas sensações incríveis e novas. Ela ergue as mãos contra a parede, para ter apoio, e força seu corpo para trás, mas não sei se sou grande demais pra ela ou ela é pequena demais pra mim, o trem não entra. Envolvo minhas mãos por cima das suas e pressiono uma vez, quase a penetrando, para depois finalmente perceber que esse desespero todo não está certo. Não é assim que eu quero que seja. Puxo-a pela cintura, fazendo com que se desgrude da rocha. — Pauline, tenha calma — murmuro em seu ouvido, abraçando-a por trás, tentando acalmá-la. — Concorda que a gente precisa fazer isso sem pressa? Ela apenas aquiesce. Sinto seu corpo relaxar em meu abraço, perder toda a afobação que quase nos fez colocar os carros na frente dos bois. Depois de alguns minutos apenas flutuando junto com ela nessas águas transparentes, suas mãos são levadas para trás, para o meu

sexo ainda muito excitado. Pauline começa a me estimular duro, agitando-se em uma velocidade agradável, nem leve e nem rápido demais. Meu corpo inteiro se esquenta ao receber seu estímulo decidido. Ofego inúmeras vezes em seu ouvido, sentindo-a arrepiar. Contorço-me e a aperto forte, mas ela não para por nada até me fazer gozar em suas mãos. Gemo seu nome uma única vez, como se implorasse, depois solto um grunhido gutural. Ela finalmente se vira para mim, mas não consigo olhá-la porque me abraça forte, depositando seu rosto em meu ombro. — Eu nunca adorei tanto um cara com quem não transei — ela murmura, e eu sorrio de emoção. É bom saber que não é somente ela que fica tirando minhas virgindades. — Eu também te adoro, Pauline. — Beijo-lhe a testa com ternura. — Vamos, vamos pegar nossas roupas antes que o guia apareça e nos veja assim. O caminho de volta é feito com Pauline em meus braços, sempre agarrada ao meu corpo de alguma forma. Quando pegamos o carro alugado de novo, ela resolve

dirigir, e o vazio que sinto por não poder tocá-la é aterrador. Voltamos para a pousada em Carolina, pois decidimos partir para o próximo roteiro apenas no outro dia pela manhã. As coisas estão acontecendo tão rápido que mal consigo assimilar. Nem faz uma semana que ganhei na loteria, fico surpreso quando percebo que conheço Pauline há tão pouco tempo. Parecem-me séculos. Ela dorme tranquilamente ao meu lado, mas não consigo pregar o olho. Pego o meu celular só para avisar à minha mãe que estou bem. No entanto, surpreendo-me com a quantidade de mensagens que Laurene me mandou. Resolvo não ler nenhuma delas, não preciso me perturbar por causa do passado, portanto saio apagando todas sem me dar o trabalho de abrir. Depois que termino de apagar, mando uma mensagem pros meus pais, e então o celular começa a tocar ruidosamente. Sem querer acordar a Pauline, atendo rápido demais. — Alô? — Joseph? Graças a Deus! — Ouço um longo suspiro e já sei de quem se trata. Laurene. — Onde você

está? — Estou bem longe de casa agora — limito-me a responder. — O que deu em você, sô? Poxa vida... — Percebo que ela começou a chorar e me ponho em alerta. Sento-me na cama, observando a luz do pequeno abajur. — Eu sou tão desimportante pra você assim? — Laurene... Você me deixou. Ou estou enganado? — Eu só estava cansada! — choraminga alto. Imagino seu sofrimento por um instante. Meu coração fica do tamanho de uma formiga. Ouvir sua voz de novo não me faz muito bem. — Joseph, eu sempre te amei. Cometi um erro, sim, mas sempre te amei. Eu me odeio por ter te magoado tanto! Prendo os lábios para conter a vontade de chorar. Não sei o que responder, não consigo pensar com clareza. — Onde você está? Volta pra casa, por favor. Sua mãe está preocupada, eu estou preocupada! — Eu não vou voltar agora, Laurene — respondo de um jeito frio, que nada condiz com o que acontece dentro de mim. Nunca fui um homem insensível.

— Por quê? — Laurene geme em pura dor. — Você está com aquela mulher? É isso? — Não respondo. — Joseph, pense no que tivemos, pense no nosso amor. Eu sei que te feri, sei que fui uma idiota por não ter esperado, por favor, tente me entender! — Eu te entendo — falo baixo, sem mentir. Agora, eu entendo Laurene perfeitamente, sei como o desejo pode modificar as pessoas. Pauline me mostrou isso. Nós perdemos toda e qualquer razão quando estamos sedentos pela luxúria. — Eu te entendo, Laurene. — Apenas volte, Joseph. Vamos conversar direito. Balanço a cabeça freneticamente. Não importa o que aconteça, eu não quero voltar, não agora. Só posso voltar quando descobrir o que quero da minha vida. Sequer sei se desejo reatar o relacionamento com Laurene. Eu sinto falta dela, com certeza, mas... Não sei. Não sei de mais nada. Meu afastamento não é mais pela traição, é por mim e pelo que ainda tenho que aprender com o mundo. Com Pauline. — Vou pensar... — respondo simplesmente, pois não consigo dizer não e muito menos sim. — Prometo que

vou pensar, Laurene. — Pense com carinho. — Tudo bem. — Eu te amo. Nunca se esqueça disso, Joseph. Você é meu, sempre foi meu. Não mude isso agora. — Vou pensar — sussurro e desligo antes que um acidente emocional pior que este aconteça no meu coração. Expiro com força, perturbado, confuso e muito nervoso. Não sei mais o que fazer. Minhas concepções dão uma nova cambalhota. Não aguento mais tantas reviravoltas, tantos acontecimentos inacreditáveis. Queria um lugar onde eu pudesse me sentir seguro, mas sei que nenhum canto do país é bom o bastante para quem não guarda segurança em si mesmo. — Era a Laurene? — Escuto uma voz rouca ao meu lado. Mãos quentes alisam minhas costas e sobem para meus cabelos. Pauline se ajoelha na cama, ficando bem perto. — Sim. — Solto mais um suspiro. Evito encará-la. Estou apenas admirando o chão, sem de fato enxergá-lo.

— Você... quer voltar pra casa? Um silêncio horrível é feito entre nós. A resposta me foge totalmente. Dou de ombros e sinto a primeira lágrima escorrer. Desvio o rosto para que Pauline não me veja chorando. Enxugo a tal lágrima sorrateira e solto novo suspiro. — Não, Pauline. Vá dormir, é tarde. Ela se remexe no colchão e, graças a Deus, não insiste. Volto a me deitar na cama, virado para o lado oposto. Meus ombros começam a se balançar e o travesseiro molha. Só assim percebo que abri o maior berreiro, mas silenciosamente, sem alarde. Eu só queria saber quem eu sou, para onde ir e, o mais importante, onde ficar. Não sei viver sem criar raízes ou laços.

Capítulo 16

Pauline

Capital Federal do Brasil Dormir? De que jeito? Eu me encolho em uma bola na outra ponta da enorme cama, como se o quarto, o mundo e o espaço gigantesco que Joseph coloca entre nós tivessem entrado, de repente, na Era Glacial. Seu afastamento me causa estranheza, ainda mais depois da conexão que tivemos hoje no Encanto Azul, nus e naturais. Impossível ignorar que ele estava falando com Laurene ao telefone, bem ao lado, enquanto eu dormia um sono leve. Claro que o toque do celular me acordou, até porque uma de nossas regras era desligar os aparelhos durante a viagem. Não posso censurá-lo se nem eu mesma a estou cumprindo. Por isso fico quieta e amuada, me sentindo

uma amiga inútil enquanto o colchão sacoleja sob seus soluços. Achei que ele tinha conseguido se distrair e esquecer aquela mulher nos últimos dias, mas estou vendo que não. Joseph sente saudades de casa, mesmo que tenha me dito que não quer voltar. Ele pensa assim agora, mas daqui a um tempo como vai ser? Ficarei com essa incerteza pairando sobre minha cabeça enquanto ele decide se parte ou se fica? É questão de tempo, tenho certeza, principalmente agora que sua ex resolveu se arrepender do que fez. Não entendi bem toda a conversa, mas por que outro motivo ela ligaria se não fosse para reatar o noivado? Fico sem ar. Que estranho! Não consigo me imaginar seguindo viagem sem Joseph. Não faz sentido continuar sem ele. Meu amigo certinho esteve ao meu lado desde o início, ainda na fila da lotérica, logo atrás de mim, como se seu destino fosse me acompanhar. Enquanto eu jogava, ele estava no guichê ao lado. Quando fui receber o prêmio milionário, lá estava ele. A gente viu um pôr do sol magnífico, como se estivéssemos na lua, e assistiu ao

primeiro amanhecer do continente americano. Dirigimos um conversível a mais de trezentos quilômetros por hora e eu o levei para conhecer o mar. Mergulhamos com os peixes em recifes de corais e nadamos pelados em um poço natural de água translúcida. Sorrio um pouco com as lembranças, entre lágrimas, como se as imagens, que revejo contra as pálpebras cerradas, fossem um filme. Essa sensibilidade não vai passar nunca? Enxugo o rosto e deixo meu corpo mais largado na cama. Eu, hein, o que é isso, Pauline? Você não é assim. Sou a garota que não se abala facilmente, que segue em frente e deixa o resto para trás. A vida flui e me leva, nada me segura. Nem quando meu ex se foi eu me senti tão sozinha e abandonada quanto agora, mesmo que Joseph ainda esteja aqui, tão perto que basta rolar para o outro lado e me aconchegar nele. Mas eu não farei isso. Se tem uma coisa que conviver com ele me ensinou é a lhe dar espaço para respirar. Eu sei o quanto posso ser sufocante e apressada. Ele tem seu próprio ritmo e permito que absorva tudo em seu tempo. Penso nos últimos e incríveis acontecimentos. Não

esperava viralizar, nem me tornar meme na Internet. Quando vi aquele monte de curiosos ao redor do meu lindo conversível, não me importei se alguém filmasse. Um Porsche 911 Cabriolet não se vê de perto todo dia, muito menos em qualquer lugar, é compreensível que registrassem. Estou adorando meus quinze minutos de fama e quero aproveitá-los antes que acabem. Sou rica e, agora, famosa, não me falta mais nada! Em algum momento da madrugada, adormeço. Tenho um sono agitado e sem sonhos. Acordo sobressaltada várias vezes, conferindo na escuridão a silhueta imóvel de Joseph. O que tanto temo? Que ele fuja no meio da noite? Pela manhã, estou um caco, mas é preciso pegar a estrada cedo se quisermos chegar ao próximo destino do roteiro. Joseph está silencioso mais do que o normal durante o café da manhã, então ligo meu celular para conferir as novas notificações. Caramba! Além delas, me deparo com várias chamadas perdidas, de números desconhecidos, mensagens de texto e Whatsapp. Qual é a nova? Curiosa, ouço as mensagens de voz que deixaram na caixa postal. — Pauline de Freitas Dias, bom dia! Aqui é a

produtora da balada mais top de Brasília. Ficamos sabendo que os ganhadores do prêmio da Hiper-Sena estão na cidade. Parabéns! Gostaria de convidar vocês para estarem presentes na nossa festa black tie, hoje à noite. Encaminhei os convites virtuais por mensagem no Whatsapp. Ficaremos honrados se comparecerem. Aguardo sua confirmação. Beijos. Sem pensar duas vezes e nem ouvir mais nada, mudo todos os planos do dia ao retornar a ligação, garantindo nossa presença ilustre. Que chique! Joseph faz uma careta quando o aviso sobre o novo destino, resmunga que minha exposição na rede ainda vai nos causar problemas, mas não discorda da balada, e partimos logo após a refeição. Piso fundo no acelerador para alcançarmos o aeroporto mais próximo, deixando-o nervoso no banco do passageiro ao meu lado. Meu Deus, ainda preciso fazer compras, cabelo, maquiagem e unhas! O que importa é dar tempo! Depois de uma longa viagem na estrada e um voo direto e particular, voltamos a Brasília no meio da tarde. Joseph tentou dormir boa parte do trajeto, e o deixei em paz, mas, agora dentro do táxi, o silêncio é quase

intragável. — Você vai precisar me acompanhar ao shopping desta vez, Joseph, precisamos encontrar um bom terno. — Por quê? Confio em seu bom gosto, Pauline, você já acertou minhas medidas antes. Reviro os olhos. Faz tempo que seu jeitinho não me irrita, comecei a achar bonitinho. É uma característica dele que eu aprendi a gostar. — Mas você precisa provar os ternos para ver qual lhe cai melhor — insisto. — Estou muito cansado da viagem e, se você quer que eu fique acordado a noite toda na tal festa, vai ter que me deixar descansar. Seu humor não está dos melhores desde cedo, então, desencano de forçá-lo a me acompanhar. Olho para frente a tempo de ver que chegamos à rua da casa que alugamos no distrito federal. Qual não é minha surpresa ao me deparar com uma multidão, que parece estar parada bem em frente ao nosso novo endereço? Puta que pariu! Têm câmeras, vãs de transmissão ao vivo e microfones nas mãos de alguns jornalistas.

— Pauline, o que você fez? — Joseph me acusa, sem fôlego, de tão apavorado. — Não fiz nada, eu juro! Não faço ideia de como descobriram minha identidade, muito menos essa casa. Não passei o endereço pra ninguém! Joseph bufa, contrariado. Põe a mão na maçaneta da porta quando o táxi para, mas vacila. — Melhor você descer na frente, quem sabe assim não me notam? — explica-se. Caio na risada. Além de pânico de avião, também tem pavor de imprensa. Apertando sua mão, tento tranquilizá-lo. — Vai ficar tudo bem, querido, eles não mordem. Pago a corrida e salto do automóvel, toda trabalhada no básico jeans e camiseta. Preciso de um banho rápido antes de correr para o shopping, mas vou tentar dar alguma atenção à mídia primeiro. Quando me notam, correm em minha direção, em uma disputa para ver quem será o vencedor. Ouço meu nome em vários tons de vozes e a quantidade de lentes que se viram para mim é absurda. Microfones e gravadores são enfiados na minha cara e

mal consigo ouvir as perguntas, por isso, decido me revelar ao mundo. — Sim, Brasil, eu sou a nova milionária do pedaço! — Um flash quase me cega quando a máquina fotográfica registra o momento. — Estarei em uma festa black tie nesta noite, por isso, se me dão licença... Esquivo-me, tentando alcançar a entrada da casa. Consigo ver Joseph rente à parede, a passos de tartaruga, para não chamar a atenção para si. Mais perguntas chegam aos meus ouvidos, inclusive sobre o outro ganhador, mas não falo nada, sempre sorrindo para eles e avançando como uma lesma. Meu companheiro de viagem chega à porta bem antes de mim e fica desesperado quando se dá conta de que eu estou com as chaves. Em uma reação sem pensar, apenas as busco na bolsinha que carrego a tiracolo, ergo a mão e as atiro sobre o aglomerado de gente. Meu amigo pega no ar, suspirando de alívio, mas todo mundo repara no meu gesto e se volta para ele. Joseph fica prensado contra a grade do portão, como se tivesse sido gravado ali. Tento andar mais depressa, mas é difícil, os jornalistas não facilitam minha passagem.

Perguntas como: “você é o namorado dela” ou “o outro sortudo” se destacam e eu me sinto nervosa. Merda, ele vai me matar! Alguém grita o nome dele completo e estremeço. O circo está armado! Forço meu corpo contra o deles, fazendo gente gemer com cotoveladas e pisões. Depois do aperto, respiro fundo, colocando-me na frente de meu amigo tímido, que suplica ajuda somente com o olhar. — Pessoal, por favor, nos deem espaço! — peço aos berros enquanto ouço Joseph bater as chaves no portão atrás de mim. — Se querem saber mais sobre a gente, agendem uma entrevista! Não vamos falar agora! O metal range um pouco ao abrir e sinto Joseph me puxar pela mão. Ele bate a porta com força assim que passamos e gira a chave até quase quebrá-la. Passa as mãos pelos cabelos, bagunçando-os mais ainda. — Tem certeza de que vai sair com esses loucos acampados na nossa calçada? A palavra “nossa”, dita por sua boca incluindo o sotaque sexy, causa um calorzinho muito bom no meu peito.

— É claro que vou! Não perderei minha liberdade por causa da mídia. Manterei o plano e você? Sorrio, muito empolgada e pronta para me jogar nas compras. — Vou me esconder no quarto até você voltar. Solto uma gargalhada alta. Vamos para dentro, largamos as coisas pela casa, sem nos importar em deixálas em ordem. No quarto, ele se joga na cama e eu vou para o banheiro, onde tomo uma ducha rápida. Entro no quarto de toalha e me visto, apressada, com um vestido leve, fácil de tirar. Quando me viro para me despedir, vejo que Joseph esta imóvel e cobriu a cabeça com o lençol. Dou de ombros, pego as chaves do meu conversível — ai, que saudades dele! —, deixo a capota baixada, boto óculos de sol no rosto, abro o portão eletrônico com um controle e acelero, fazendo todo mundo abrir caminho para mim. Passo as horas mais loucas da minha vida no shopping. Sou tratada como celebridade pelas vendedoras, com direito a champanhe, caviar e atendimento privê. Estou nas nuvens! No salão, também

sou recebida como princesa e atendida imediatamente. Já é noite quando volto para nosso recanto nada secreto no mundo, vestindo um conjunto de saia e cropped Louis Vuitton, saltos Christian Louboutin e bolsa Chanel. Tem tanta sacola no pequeno espaço interno do carro que quase não consigo enfiar tudo. Trouxe um fabuloso Dior para usar na festa e um Armani completo para Joseph. Estou doida para vê-lo dentro dele! Antes, preciso acordá-lo, está dormindo tão lindo e gostoso que fico com peninha. Mas a gente precisa aparecer vestidos como grã-finos e famosos. Ai, que tudo! Penso em chacoalhá-lo, depois em gritar. Desisto de tudo isso e lhe dou um beijo na boca, como se eu fosse o príncipe e ele a bela adormecida. Primeiro ele sorri, depois abre os olhos e fica boquiaberto, me encarando. — Nuss, Pauline, quase não te reconheço. Você está... — confere o visual completo, porque faço questão de exibir o figurino, além do penteado e a maquiagem — de tirar o fôlego, sô! — Vai ver quando eu colocar o vestido — digo, saltitando até o guarda-roupa, no qual pendurei tudo assim

que cheguei para não amassar. — Uai, por que não vai desse jeito mesmo? Está muito linda! Fico lisonjeada com o elogio, mas não estou adequada para um black tie. — Porque a festa merece o melhor e, primeiro, quero te ver... — pego o cabide com o terno e coloco na frente do meu corpo — usando isso. Eu o ajudo a se vestir depois do banho, mesmo que sinta vergonha de ficar só de cueca na minha frente. Apenas eu consigo amarrar a gravata borboleta na gola da camisa branca. Os sapatos pretos Raphael Steffens completam o look e fico de queixo caído. Que espetáculo de homem! Ah! Eu me lembro das lentes de contato que comprei para ele, depois de sondar seu grau de miopia, e lhe ensino a usar. Parece que nunca as manuseou antes. Paro atrás dele no espelho enorme do banheiro, onde podemos nos ver de corpo inteiro, observando-o através do reflexo. — Isso incomoda, Pauline — reclama, piscando os olhos sem parar.

— Podem estar mal encaixadas. — Diferente dele, eu já usei. Coloridas, claro, porque não tenho problema de visão. — Está vendo embaçado? — Não, só me sinto estranho. Fico querendo empurrar a armação no nariz, mas não tem nada nele escorregando. Rio de seu tique nervoso. Dá pra ver que está desconfortável pra caramba. Abraço seu tórax maravilhoso, coberto por um terno preto que lhe caiu tão bem que parece ter sido feito sob medida. — Fica calmo, meu anjo, vai dar tudo certo. Você está maravilhosamente comestível nesse Armani! Joseph cora até as raízes do cabelo e lhe dou um beijo na bochecha, abaixando o zíper da minha saia e seguindo na direção do meu vestido nude. Deixo-a caída pelo caminho e arranco o cropped pela cabeça, pegando o Dior do cabide. Ele é todo trabalhado na renda florida, longo até os tornozelos, mas tem transparências no decote, que chega ao meu umbigo e à cintura, dos dois lados. Só de calcinha, mas sem sutiã, enfio a peça pelas pernas, encaixando-a em meus ombros. Procuro por Joseph, que

está bem atrás de mim, vermelho feito um camarão, mas não consegue desviar os olhos. Fito-o, sorrindo, subindo o zíper lateral, que se esconde embaixo da axila. Calço meus sapatos Prada escandalosamente altos, pego minha bolsinha de mão e peço por sua aprovação. — E então? Estou pronta ou preciso de algum retoque? Meus diamantes nunca mais saíram das minhas orelhas, tenho medo de perdê-los. — Você... está... perfeita! — Não sei se gagueja, sem ar, por conta da vergonha ou em busca da palavra certa para me definir. Fico feliz, me atiro em seus braços, lasco um beijo na sua boca, por pura alegria e hábito, e o solto de repente. — Vamos! Você dirige, cavalheiro? — incito-o a caminhar, agarrando seu braço. — Acho chiquérrimo o homem abrir e fechar a porta do carro para a dama, e conduzi-la pela festa. Faz uma careta lindíssima. Ai, meu Deus, esse homem faz uma bagunça na minha cabeça!

— Você não deveria estar tão preocupada com essas coisas, Pauline. — Por que não? Tem ideia da quantidade de gente que queria estar no nosso lugar? — Não, e não me importa, sinceramente, acho que você está perdendo o objetivo. — De jeito nenhum, Joseph! Meu plano era me divertir e se esse dinheiro me proporcionou cinco segundos de fama, vou aproveitar enquanto dura! Ele não diz mais nada, porém faz tudo o que pedi, como o rapaz doce e gentil que é. Ergue a capota do carro, assim como os vidros, ligando o ar-condicionado. Não reclamo e coloco o endereço do convite no GPS. Seguimos cantarolando a playlist que ouvimos na viagem até a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, nos lembrando das aventuras que vivemos por lá. Acho que Joseph estava cansado, por isso o mau humor de antes. Fico aliviada ao perceber que melhorou. O lugar está muito bem localizado perto do Palácio da Alvorada, só pela fachada já dá para ver a sofisticação. Precisamos entregar as chaves ao valet, que

não demonstra maiores interesses pelo meu conversível, se atentando ao seu trabalho. Meus convites digitais nos garantem a entrada, apesar de não sermos desconhecidos pela maioria. No interior, a decoração requintada lembra uma corte, cheia de lustres e muito dourado. Eu me perco no luxo, mesmo a luz estando baixa. O salão é enorme, deve caber umas mil pessoas. Parece que a dança ainda não foi liberada. Chegamos cedo. Em toda a parte tem gente, mas não esbarrarmos em ninguém. Há espaço para circular, conversar, beber e descontrair. Uma banda toca MPB no palco, mas no convite diz que a atração principal é um DJ superrequisitado. A organizadora fica sabendo que estamos presentes e vem se apresentar pessoalmente, agradecendo-nos por comparecermos. Muita gente vem falar conosco, de maneira discreta, dando-nos os parabéns pelo prêmio milionário. Joseph aceita os cumprimentos muito sem graça, como se os trezentos milhões não fossem a melhor coisa que ganhamos na vida. Volta a ficar calado e de escanteio, enquanto tagarelo sem parar com todo mundo que está

disposto a um dedo de prosa. Conheço celebridades e autoridades das mais diversas, reunidas nesse ambiente glamoroso. Champanhe e canapés são servidos por garçons em bandejas e eu não perco nada, comendo e bebendo à vontade. Hum... Tudo está com um gosto tão bom que fica difícil recusar mais, mesmo que a etiqueta exija. De repente, as luzes caem, o globo colorido é ligado e o DJ anunciado. Vou para frente do palco, porque não quero perder nada, inclusive a cara do talzinho. Ele surge, todo estiloso e despojado, combinando com sua profissão, e lindo de morrer. Grita por um microfone, incentivando a galera a aproveitar a noite e o set que escolheu. E eu morro de amores por ele. — Bruno Pacheco é o melhor! — alguém berra ao meu lado e me viro para olhar. A voz dele não me é estranha. Quase desmaio ao dar de cara com o galã da novela das nove, em carne, osso e gostosura bem diante de mim. Nem me lembro do seu nome, me faltam neurônios para processar que ele realmente está bem na minha frente,

sorrindo de um jeito capaz de molhar calcinhas. A minha com certeza está encharcada agora. Para minha surpresa, ele não se apresenta — claro! —, mas sabe quem sou. — Parabéns, garota de sorte. Já decidiu o que fazer com a fortuna que ganhou? Finjo que não estou tendo uma taquicardia e lhe respondo como se flertasse com um cara comum. — Tenho uma listinha de coisas a fazer antes de morrer. Seu sorriso é bem sacana e eleva meus batimentos cardíacos. — Beijar um ator famoso está na lista? Rio alto, nervosa e excitada, porém me incomoda um pouco que o cara seja tão tasi... tá se achando! Não gosto de gente assim, por isso jogo charme e lhe dou um fora. — Sinto desapontá-lo, mas saí da adolescência faz tempo. — Pode apostar que na minha tem beijar a mulher mais linda desta festa. Ele se inclina sobre mim, segurando-me pela cintura e rouba todo o ar a minha volta. É até pecado recusar um

homem deste, mas não quero prosseguir e, quanto mais ele força, menos vontade tenho. Não é a primeira vez que isso me acontece. Que estranho! Meu sangue ferve... de raiva! Penso em mil maneiras de dar uma lição nesse sem vergonha, que acha que pode fazer o que quiser com uma mulher só por ser rico, bonito e desejado. Tenho gana de chutar suas bolas, socar sua cara e fazê-lo desmaiar com uma chave de braço. Porém, me contenho, não posso armar um barraco na minha primeira festa. Para evitar um escândalo, sorrio, abraçando-o de maneira sensual, e sussurro em seu ouvido: — Se você não me soltar agora, vou te acusar por assédio sexual e meu dinheiro vai tornar isso verdade diante da Justiça. Seu rosto se depara com o meu por um segundo e vislumbro rapidamente uma expressão aparvalhada, que mistura medo e descrença. Aquele mesmo sorriso volta, apagando toda a impressão anterior. Seu abraço se intensifica, me causando nojo e indignação. Vou vomitar toda a comida e a bebida que devorei a noite toda na cara dele se continuar me segurando desse jeito.

— Você não ousaria... — murmura, debochando. Eu o aperto mais, sentindo seu corpo escultural contra o meu e sob meu toque. — Quer pagar para ver? Além de eu ser podre de rica, tenho muita sorte. O máximo que pode acontecer é me chamarem de milionária excêntrica. Já com você, que é uma pessoa pública... Acredito que seu empresário concorde comigo que uma acusação de assédio não é um bom marketing nas manchetes dos jornais. Sua pegada afrouxa, mas não larga. Também amoleço a pressão dos meus dedos, morrendo de vontade de sair correndo para bem longe desse gostosão. Não sei o que deu em mim, mas sou livre, inclusive para recusar um cara se eu quiser. Ele solta uma gargalhada alta como se eu tivesse contado a piada mais engraçada do mundo. — Foi um prazer te conhecer, moça do Porsche. Sorrio, amigavelmente, controlando a fera dentro de mim. — Não posso dizer o mesmo — cochicho em seu ouvido antes que se afaste. Ele me solta devagar, flertando descaradamente, e me

lança uma piscadela antes de parar de me cheirar como um cachorro. Eu sou liberal, sim, mas não sou uma prostituta. Por acaso está escrito na minha testa: fácil, é só chegar pegando que abro as pernas? Se ele ainda tentasse um bom papo e me mostrasse algo mais por trás do que todo mundo conhece, eu até podia ter dado uma chance ao cara. Mas assim, na caruda, e me tocando como se fosse meu dono, não, seu folgado. Eu pertenço apenas a mim mesma! Ele se vira e some na multidão, que se aglomera na pista de dança ao meu redor. Procuro respirar profundamente, tentando controlar a fúria assassina que ainda me domina. Afasto-me do lindo DJ, perdendo o interesse na festa. O desgraçado conseguiu acabar com minha noite! Um vazio me toma e não faço ideia do que preciso fazer para essa sensação horrível passar. De repente, avisto Joseph em um canto do imenso salão, sendo praticamente molestado por uma ruiva fabulosa. Paraliso, chocada, confusa, desnorteada, sem saber o que pensar sobre isso. O que está acontecendo com a gente, afinal? Eu recusando um cara lindo e ele

aceitando se esfregar com uma garota? Nossos olhares se cruzam nesse instante de completo atordoamento e o dele parece me suplicar... Não sei, está escuro e ele estreitou os olhos. Venço o abobalhamento e decido partir em seu socorro. Eu conheço meu amigo, ele não gosta de receber nenhum tipo de atenção. Na verdade, não gosta de nada disso. Quando chego perto o bastante, percebo que se trata da mocinha da novela, que faz par com o tal galã. Estamos bem de safados nesse local! Abro meu mais singelo e sincero sorriso, e começo o show. — Querido, finalmente consegui encontrar você! — brado para ser ouvida sobre o barulho ensurdecedor da música eletrônica. — Acho que já bebi champanhe demais! Eles se separam e aproveito para tropeçar acidentalmente para ser amparada pelos braços de Joseph. Boa! Ele está dentro do script. A ruiva dá um passo para trás e eu laço o pescoço dele como se fosse meu homem. É para atrizinha se tocar mesmo. — Senti sua falta — solto um soluço teatral para

fingir estar muito bêbada. Lanço minha cabeça de encontro a dele e lhe agarro os lábios cheios e deliciosos, em um beijo que me esquenta. Esse é de verdade. Que saudades dessa boca maravilhosa! Eu me esqueço do mundo a nossa volta enquanto estou grudada nele, aspirando seu cheiro bom e sentindo seu corpo se encaixar no meu como se fosse feito para mim. Mas Joseph não gosta de me ter bêbada, eu sei, por isso, quando me repele, não me sinto mal. Tudo faz parte do plano. — Acho melhor te levar pra casa — diz a fala perfeitamente, como eu tinha imaginado. Meu, a gente serve para atuar na Globo. Jorge Fernando, nos contrate! Saio arrastada por ele, que balança brevemente a cabeça para a atriz em uma despedida sem graça e me leva para a calçada. Ele pede ao manobrista para trazer nosso carro e eu me ajeito, verificando se não tem ninguém observando. Solto uma risada estrondosa, fazendo Joseph se sobressaltar. — O que deu em você, Pauline, pirou de vez? — Viu a cara dela quando caí nos seus braços? —

gargalho alto de novo, me divertindo demais com minha encenação épica. — Nunca vou me esquecer! Se dando conta de que não estou bêbada, pelo menos não tanto quanto ele imaginava, Joseph põe as mãos na cintura, franzindo o cenho de maneira linda, me tirando um pouco a concentração. Meu riso perde força até desaparecer. — Você estava fingindo? — Parece realmente bravo. Ui, delícia! — Claro, você me pediu ajuda para se livrar dela e eu... — Não te pedi nada, você é completamente doida! — explode, furioso. O manobrista traz meu conversível e Joseph se apossa das chaves e da direção, esquecendo-se de ser cavalheiro na saída da festa. Mas o valet, que está atento, abre a porta para mim. Agradeço e me sento, meio perdida. Não acredito que entendi errado, não faz nenhum sentido para mim. Viro-me para o meu amigo, sem poder conceber que estivesse curtindo a chaleração daquela mulher. Quando eu tento alguma coisa, Joseph sempre

recua! A menos que... a menos que o problema seja eu. — Você queria ficar com ela e eu atrapalhei, é isso que está me dizendo? — E se eu quisesse? Você não tem nada a ver com isso! Fico com essa resposta malcriada, grosseira, rude. Joseph dirige mais rápido do que de costume dentro da cidade e eu o fito fixamente, tentando processar suas palavras e a sensação péssima que elas me provocam. O sangue me sobe para o rosto, não de vergonha, mas de ódio, e nem sei de quem eu tenho mais: de mim, dele ou da ruiva.

Capítulo 17

Joseph

Na “nossa” casa em Brasília Pauline fica calada durante um tempo que não consigo usar para nada além de dirigir o mais rápido que posso, como se fugisse de alguém. Não deixo de pensar que esse alguém talvez seja eu mesmo. Minhas ideias estão se encaracolando dentro do meu cérebro, roubandome o ar e me deixando simplesmente morto de tanta raiva. Jamais esteve em meus planos sentir isso pela Pauline, afinal, o que ela fez de tão ruim assim? Minha amiga só agiu como ela sempre age. Por que estou tão decepcionado? Chegamos à casa alugada em menos de quinze minutos. Abro o portão eletrônico e estaciono, o silêncio

total ainda nos convencendo de que boa coisa não sairá dele. E, de fato, não sai. Basta que eu olhe para Pauline e ela me observe de volta, com os olhos possessos, que tenho certeza de que é agora que teremos a nossa primeira discussão. O pior de tudo é não saber exatamente por qual motivo vamos brigar, mesmo me sentindo absolutamente disposto a um bate boca. O que é esquisito, com certeza. Eu nunca discuti com ninguém. — Você queria ficar com aquela mulher? — Pauline pergunta em um rosnado áspero, um timbre que nunca vi partindo da boca dela. — Eu, com certeza, não queria que você aparecesse do nada, fingindo estar bêbada e inventando uma saudade, só para me fazer ficar longe dela. — Eu estava tentando te ajudar! — Me ajudar? Que tipo de ajuda é essa, Pauline? — Pensei que estivesse pedindo socorro, eu te conheço, sei que não gosta de ser paquerado de uma forma tão descarada! — grita alto, como se eu não estivesse bem ao seu lado. Nunca vi Pauline tão vermelha. Eu que sou o tomate da história, não ela.

— O que está dizendo, que não gosto de mulher? — As palavras saltam da minha boca em uma espécie de desabafo magoado. Eu não sei por que falei tal absurdo. Ela tem razão, não gosto desses joguinhos, sou muito discreto, mas não significa que eu não possa dar uma chance, certo? Foi ela mesma que me ensinou que devo me permitir. Eu só estava tentando fazer o que aprendi, principalmente depois de ser largado sozinho durante uma festa cheia de gente desconhecida. Pauline resolveu se engraçar pelo mesmo ator famoso que Laurene cola pôsteres no quarto, o que mais eu podia fazer? O que aquele manézão tem de tão especial? Eu sou rico também, não sou? Aposto como a minha conta bancária está mais gorda do que a dele. E eu não sou feio. Tudo bem, eu não sou tão bonito quanto ele. — Argh, seu imbecil! — Ela salta do Porsche e bate os pés até a entrada da casa. Abre a porta com a maior violência e se perde lá dentro, mas eu decido não deixar barato. Foi ela quem começou. Eu não sou imbecil, Pauline que me trata sempre como se eu fosse.

É por isso que a sigo, entrando na casa já com as palavras na ponta da língua. — Você não vai continuar me tratando desse jeito, como se eu fosse um retardado! — berro muito alto, e ela me encara com os olhos arregalados. Percebo sua respiração alta e toda sua pele exposta ainda bem vermelha. — Você só quer estar por cima, sempre ser a experiente, a certa do pedaço. O mundo é muito mais do que a ponta do seu nariz, sabia, Pauline? — Do que está falando, Joseph? — ela grita de volta, atirando uma das almofadas, que jazem sobre o sofá, em mim. Desvio o meu corpo a tempo e a almofada se choca contra uma parede. — Eu nunca te tratei como um retardado, muito pelo contrário, só quis o seu melhor! Não mude de assunto, estou falando sobre você e aquela maldita lambisgoia! — O que tem ela? — Reviro os olhos, quase explodindo de ódio. — Nós só estávamos conversando, já que você fez questão de me deixar sozinho pra se dar bem com o galã. Aqui... O que você tanto quer de mim? Que eu fique sempre na sua cola, esperando a sua boa vontade pra

tudo? Não vai ser assim, sinto muito. — Espera aí, eu não te deixei sozinho e muito menos corri atrás de um galã! Você que ficou calado demais, todo amuado, provavelmente pensando na ligação da Laurene. Eu só queria me divertir! — Ela pega outra almofada, e desta vez a seguro em minhas mãos quando joga em mim. — Você sempre quer se divertir. — É isso mesmo, sempre quero me divertir. Você sabia disso quando aceitou viajar comigo! — Eu sabia, Pauline, só não fazia ideia do quanto você podia ser tão fútil. — Jogo a almofada no chão e me aproximo, um dedo em riste. — Esse dinheiro está te estragando! Não percebe? Achei que você quisesse o prêmio para ser livre, para viver intensamente, não para se prender nessa porcaria de mundo de gente rica e mesquinha! — Mas tudo faz parte, Joseph! — Faz parte do quê? Do que você quer pra si? — grito alto, aproximando-me ainda mais. — Sempre pensei que você fosse a garota interessante que queria viajar e ser feliz, sem se importar com o que de fato não importa.

Achei que fosse a mulher incrível que tinha muito a aprender e a ensinar, que faz as duas coisas o tempo todo, sem se dar conta. — Ela tem lágrimas nos olhos. Alguns soluços lhe escapam, fazendo com que essas lágrimas caiam muito depressa. — Eu me enganei — falo baixo desta vez. — Você é igual a todo mundo. — E você — aponta o dedo bem na minha cara — é igual a todos os homens que já conheci. Querem as mulheres mais gostosonas, com peitos enormes e bundas gigantescas! — Do que diacho está falando? — Quase arranco os meus cabelos de tão forte que os puxo. — Pensa que me engana? É claro que você nunca quis nada comigo, sou muito magra e sem sal pra um cara como você, não é? Basta uma peituda aparecer e pronto, está na sua rede. Foi por isso que aceitou ficar com a Andrea com tanta facilidade. Logo você, o inibido! — grita alto, a plenos pulmões, chorando como uma condenada. Pauline está no auge do descontrole. — Fala que sou fútil, mas não se enxerga, não é, Joseph? Paro e a encaro fixamente, com severidade. Meu

peito está contraído e a decepção atingiu um nível insuportável dentro de mim. Sinto meus olhos se enchendo de lágrimas, mas engulo em seco para espantá-las. Eu nunca me senti tão decepcionado. Nem quando a Laurene me deu um fora, me senti tão miseravelmente destroçado. — Não dá pra acreditar que você acha que sou esse tipo de cara — murmuro em plena dor. Pauline soluça alto, sem desviar os olhos, desafiando-me em silêncio. — Não acredito que, depois de tudo, você me conheça tão pouco. — E você, Joseph? O que acha que faz me chamando de fútil? — choraminga, e meu coração diminui ainda mais. Não gosto de vê-la desse jeito. Por mais raiva que eu sinta, não consigo vê-la assim. — É claro que não me conhece, não entende que sou livre e que a liberdade não tem restrições. Faço o que me dá vontade e amo experimentar tudo, isso é ser livre. Você não me entende e me julga, está cheio de preconceitos. Nós nos olhamos durante muito tempo, silenciosos. Mal ouso respirar, caso contrário algum desastre pode acontecer. Pauline abre a boca, mas desiste de falar.

Acabo fazendo o mesmo, como se estivéssemos ensaiando ou decidindo quem tomaria as rédeas da situação primeiro. Com toda sinceridade, eu só queria lhe beijar até o amanhecer, queria arrancar a minha virgindade dentro de seu corpo macio, mas isso seria o mesmo que admitir que ela está certa. A minha teimosia diz que ela não está. — Por que me deixou sozinho naquela festa? — pergunto aos murmúrios, demonstrando toda a minha mágoa. Ela dá de ombros e balança a cabeça em negativa, como se não soubesse direito o que responder. — Sei que não tem a obrigação de ficar comigo o tempo todo, mas... — Eu... só queria me acostumar. — Acostumar com o quê? — Franzo o cenho, confuso. — A ficar sozinha de novo, já que você vai voltar pra casa. Eu a encaro sem acreditar no que escutei. — Quem disse que vou voltar pra casa, Pauline? — Laurene te ligou — fala sofregamente, expirando todo o ar de dentro de si em um arquejo estranho. — Sei

que ainda a ama e que pensa em voltar. Sei que não vai demorar muito. Eu não consigo te distrair, não sou boa pra você. Não tenho o corpo escultural que ela tem, nem aqueles peitões, é uma batalha perdida. — Pelo amor de Deus, pare de falar sobre peitos! — Sinto meu rosto se esquentar, desta vez não pela raiva, mas pela vergonha. — É isso o que pensa? Que vou te largar sozinha durante a viagem? — Eu não sei! — ela grita escandalosamente. — Se vai fazer isso, faça logo, pare de me enganar e de fingir que sou importante pra você! — Mas você é importante pra mim, porra! — Solto o palavrão sem querer e coro com ainda mais força. Não sei em que tipo de pessoa estou me transformando. Não sei que tipo de homem Pauline me faz ser. Ela mexe com tudo o que há dentro de mim, deixa minha vida toda bagunçada. Vejo seu vulto rápido se aproximando e mal tenho tempo de acompanhar quando me envolve com braços e pernas, beijando-me a boca na maior intensidade. Ando para trás até atingir uma parede, depois empurro o meu corpo para frente e a imprenso na parede oposta. Saímos

carimbando as paredes da sala, em uma atitude louca, totalmente sem noção. Ela morde os meus lábios, depois enfia sua língua até quase atingir minha garganta, afoita. Sinto as contorcidas que seu corpo dá contra o meu e solto um gemido. Só depois percebo que não quero seguir adiante sem colocarmos todos os pingos nos is. É por este motivo que a afasto de vez. Pauline, no entanto, fica muito magoada com meu afastamento. Percebo isso quando corre até um vaso e o agarra, jogando-o contra uma das paredes. O objeto se parte em mil pedaços, deixando-me assustado. — Está vendo? — grita alto. Pega outro vaso e dá o mesmo destino do anterior a ele. — Você não me quer! Eu cansei, cansei de você. Admita, Joseph! Admita que ama a Laurene. Admita que pensa em ir pra casa! Eu quero negar todos esses absurdos, mas seu descontrole me faz pensar um pouco melhor. Não posso mentir ou fazê-la entender errado. Tenho que ser fiel aos meus sentimentos, aos meus medos e às minhas vontades também. Eu me aproximo da Pauline e a tomo em meus braços, mas ela me repele com força, como se sentisse

nojo de se encostar a mim. Sinto uma tristeza absurda me alcançar como uma onda implacável. Mas percebo que é melhor assim. Eu sei que nunca dará certo esse tipo de relacionamento que temos. Sempre soube, desde o princípio. — Vou te dar a verdade, Pauline — murmuro e ela me olha, concentrada no que tenho a dizer. — Penso em ir pra casa, sim. Não sei o que sinto pela Laurene, não sei se quero voltar pra ela, muito menos se pretendo ser o homem que eu era antes de te conhecer. — Pauline solta um soluço alto e começa a chorar ruidosamente. Quero abraçá-la, quero tocá-la e dizer que tudo vai ficar bem, mas não posso. Eu me obrigo a continuar lhe entregando todas as verdades. — Estou perdido entre o que sempre acreditei e o que acredito agora. Eu me sinto em uma corda bamba, onde nada é previsível ou seguro. Eu te olho e o que mais quero é ficar. Juro! Pela maior parte do tempo, você me faz querer seguir, mas quando age como agiu hoje, vejo que, no fundo, estou sozinho. Somos dois solitários caminhando juntos e isso é triste. Tento me aproximar e me inclinar para abraçá-la,

mas Pauline me repele mais uma vez. Fico estático no meio do caminho, sentindo-me um verdadeiro idiota. — Me deixa em paz, Joseph — diz com a voz rouca, embargada de dor. Aquiesço, percebendo que a verdade lhe traz mágoa, e tomo uma decisão importante. É aqui que a gente se separa. Será melhor para nós dois. Ela vai poder viver sua plena liberdade sem se estressar com minhas noias. O que menos quero é impedir que seja feliz, de acordo com suas concepções. — Tudo bem. Não se preocupe, Pauline, vou te deixar em paz. Viro as costas e subo as escadas bem devagar, cabisbaixo. — Joseph... — Pauline murmura e acabo parando entre um degrau e outro. Encaro-a. Suas lágrimas são tão intensas que fazem as minhas próprias caírem também. Eu nem sabia que elas estavam tão perto. — Eu nunca vou deixar de ser o virgem de óculos, Pauline — falo depois que canso de esperar que diga alguma coisa. — Eu sou esse cara. Não importa se estou

vestindo um tal de Armani. O que sou não combina com quem você é, uma deusa bem-resolvida, sedenta pela vida. Pelo seu bem, e porque não quero que mude, muito menos por minha causa, vou te deixar em paz. Subo as escadas, resolvido a juntar minhas coisas, e só depois descubro que nada neste lugar me pertence de verdade. Pego uma das mochilas, coloco alguns itens de higiene, duas mudas de roupas, celular, cartão e pronto. Não sei direito para onde vou, mas não posso ficar. Itaú de Minas não é uma opção. Penso em me estabelecer num hotel até descobrir para onde ir. Preciso pensar melhor nos meus sentimentos, nas palavras que trocamos e nas consequências da decisão de seguirmos separados. Desço as escadas silenciosamente. Pauline está sentada em uma poltrona, sem sapatos e com as pernas para cima da braçadeira. Seu rosto pensativo e o vestido elegante a deixam parecida com uma linda princesa. Prendo a respiração diante de tanta beleza e sedução. Ela me atrai apenas por ser quem é. Preciso parar de me sentir desse jeito. Tenho que pôr minha cabeça no lugar antes de abrir a boca.

Ela percebe minha presença e se levanta rápido, guiando os olhos na direção da mochila que carrego nas costas. Vejo sua expressão mudar: de pensativa, fica arrasada. Sua boca rosada se abre, mas ela a prende com força em seguida. Não posso sair daqui sem dizer o que preciso. — Obrigado, Pauline... — começo e respiro fundo, buscando calma para prosseguir. Ela apenas me observa, sem nada dizer. — Por tudo. Você... foi incrível comigo. — Engulo em seco, tentando conter as lágrimas. — Vivi... momentos impressionantes ao seu lado e... só tenho a agradecer pelo... que me fez... sentir. — A primeira lágrima escorre sem querer, e só não me sinto tão mal porque ela está chorando também. — Joseph... — Adeus — murmuro antes que ela me faça ficar. Eu sei que não será o melhor para ela. — Eu... nunca vou te esquecer. De verdade. Sempre vou... — Solto um soluço, sem a menor dignidade. — Ver seus olhos em cada nascer e em cada pôr do sol. Ando até a porta, quase me arrastando, forçando o

meu corpo a ir de uma vez por todas. Procuro uma desculpa, qualquer uma, para ficar. Reviro minha memória, tento encontrar qualquer coisa, quase imploro para que Pauline me dê uma. Seguro a maçaneta e me demoro, dou tempo para que ela finalmente me faça ficar. Sorrio e fecho os olhos ao escutar sua voz rouca: — Não vá, Joseph. Por favor, não vá. — Fico estático, apenas me deleitando com a boa sensação que é não precisar mais ir embora. Ela nem precisa me dar um motivo, sinceramente. Mudo de ideia no mesmo instante. Estou tão desesperado que só o pedido me basta. — Não terminamos o Nordeste. Não fomos ao Norte ainda, nem ao Sul. Sabia que no Rio Grande do Norte tem uma praia onde a paisagem do sertão beija o mar? Já imaginou? Sertão e Litoral, juntos? Eu queria te levar lá um dia e te provar que é lindo quando os opostos se encontram. Eu me viro para olhar no fundo de seus olhos, e vejo o quanto estão brilhantes. Minha Pauline está de volta. A mulher louca para viver grandes aventuras, curiosa por si só, linda e genial voltou. É com ela que quero conhecer o Brasil, foi por sua causa que resolvi ganhar o mundo e me

permitir o novo. Meu sorriso se torna ainda mais amplo. Largo a mochila no chão, corro até o seu encontro e a tomo em meus braços. Ela salta sobre mim, permitindo um beijo intenso, um jogo de línguas e lábios difícil de acompanhar. Eu a agarro pelas coxas e a levo para o andar de cima, onde fica o nosso quarto. As coisas, que pensei que não me pertencessem, ganham outro sentido, e me dou conta que são as nossas coisas, fazem parte do que construí com ela, portanto me pertencem também. Colocoa no chão e, entre beijos calorosos, encontro o zíper de seu vestido caro, que cobre uma coisinha mais cara e valiosa ainda, sem comparações. Deixo-a só de calcinha, uma peça mínima, preta e de renda, que me deixou louco mais cedo e me deixa quase surtado agora. Sei que Pauline ainda está naqueles dias, não estou afobado para transar — quer dizer, quase —, só quero senti-la em mim o máximo que posso. Ela tira cada peça que visto com muita paciência, e me deixo levar. Termino apenas de cueca, mas eu sei que a tiraria sem pestanejar se ela assim o fizesse, pois estou imerso em

mais um momento incrível em que não existe nada além de puro tesão. No entanto, Pauline me mantém com a cueca. Sei que só ela é capaz de me deixar do jeito que bem quiser. Deitamo-nos na cama enorme e macia. Pauline vem por cima de mim, abrindo-se ao meu redor e me fazendo sentir seus seios em meu peitoral. Trocamos um beijo longo, demorado, enquanto eu aliso suas costas, atravesso sua bunda e lhe aperto as coxas. Ela geme de leve em meu ouvido, provocando-me um arrepio delicioso. Desço meus lábios pelo seu pescoço, mordo sua orelha, e ela geme mais uma vez. Suas mãos estão em mim, atiçando cada partícula do meu corpo, deixando-me livre para ser quem eu quiser, inclusive quem eu nunca pensei que pudesse ser. — Eu nunca tive uma “DR” antes — ela murmura baixo e rimos juntos. Eu já discuti a relação várias vezes com Laurene, mas em nenhuma delas acabou tão bem assim. Geralmente, ela discutia sozinha e eu apenas escutava. Sento-me na cama, levando-a junto comigo. Abraço-a

pela cintura, com força, e agarro seus cabelos. Volto a beijá-la com intensidade, amando o instante após a briga. Estou muito duro sob sua calcinha sexy, mas me mantenho conformado porque quero que nossa primeira vez seja perfeita, sem nada nos preocupando. — Desculpe... — sussurro em seu ouvido, sentindo suas unhas rasparem as minhas costas. — Fui grosseiro contigo. Eu sei quem você é, me perdoe por ter esquecido. — Me desculpe também, Joseph. Eu só estava com ciúmes. — Ciúmes? — Afasto-a um pouco para olhá-la direito. — É diferente dividir uma mulher contigo e te ver com outra mulher. Eu não me sinto bem. Sei que não temos nada, claro, somos amigos, mas... Eu a interrompo com um beijo. Ela se deixa levar. Afasto-me depois de um tempo, decidido a ser sincero. — Não gostei de te ver com aquele cara — admito em voz alta. — Sei que você é livre... Não estou tentando tirar a sua liberdade, longe de mim! Mas é que eu me senti meio sozinho.

— Prometo não te deixar sozinho de novo... — ela fala sorrindo. Rebola seus quadris de um jeito incrível, e meu ventre sofre um espasmo. Sei que minha cueca deve estar toda melada, estou bastante excitado e já soltando lubrificante natural. — Se me prometer que vai me dizer toda vez que pensar em voltar pra casa. Combinado? — Combinado. Selamos nossas promessas com mais um beijo enlouquecedor. Volto a me deitar e me viro de lado, guiando Pauline para que fique bem perto, com sua coluna encostada ao meu peito. Abraço-a forte, como se não fosse capaz de largá-la nunca mais. Esfrego um pouco meu membro em sua bunda, só para atiçar, e ela ri um pouquinho. — Posso fazer uma pergunta? — fala com a voz mansa. — Sim, claro. — Beijo-lhe os cabelos, inspirando o cheiro deles. — Para onde você ia? Itaú? Faço silêncio, e percebo que Pauline prende a respiração.

— Não. Eu ia a um hotel qualquer até decidir o que fazer da vida. — Entendo. Eu me esqueci qual é o próximo item do roteiro, amanhã te aviso e partiremos. — Não, não, já tenho uma escolha. Quero ver o ponto onde o Sertão encontra o Litoral. — Abraço-a com mais força ainda. Escuto um suspiro alto, cheio de excitação. Pauline faz nossas pernas se enroscarem. Eu nunca me senti tão confortável estando perto de alguém. — Rio Grande do Norte, aí vamos nós! Dormimos, mais uma vez, nos braços um do outro.

Capítulo 18

Pauline

Ponta do Mel, Areia Branca, Rio Grande do Norte Eu nunca me senti assim antes, em completo êxtase, sem ter transado. Que coisa doida! Joseph consegue provocar em mim todas as emoções possíveis em apenas um dia. É esquisito que meu corpo se contente somente com sua presença e não entre em abstinência sexual. Ah, não estou me enganando, eu quero muito — e vou! — fazer sexo com ele. Eu lhe arrancarei todas as virgindades até cobrir sua pele com minha marca. Ele vai se esquecer daquela vadia sem coração, que um dia pensou que podia ser sua mulher, e será meu nome que chamará em pleno gozo. Um arrepio delicioso me transpassa a coluna ao

pensar em ouvi-lo de novo tendo um orgasmo, consciente de que fui eu que lhe dei. Não é apenas questão de tesão, mas de conexão profunda. As verdades que foram ditas por nós dois, por mais dolorosas que tenham sido, esclareceram muita coisa. Pela primeira vez na minha vida, a amizade despretensiosa surgiu antes do desejo carnal. Isso não é totalmente exato, mas, a ausência do ato em si, tornou possível uma convivência honesta, embasada em carinho sincero, não apenas em pele e fogo. Adormeço envolta na mais completa alegria e acordo melhor ainda ao encontrar seus braços ao meu redor, do mesmo jeito de quando caímos no sono. Tenho dó de me mexer, mas preciso fazer xixi. Consigo me separar dele sem acordá-lo e saltito nas pontas dos pés até o banheiro. Fecho a por atrás de mim e começo a pensar que não é justo arrastá-lo pelo Brasil como se ele não fosse capaz de selecionar seu próprio roteiro de viagem. Estamos visitando lugares em um ritmo frenético, desse jeito vamos encurtar, e muito, os tantos meses que eu gostaria de prolongar essas férias. Só faz uma semana que saímos de Itaú de Minas? Meu Deus!

Considerando que Joseph é mais do que um parceiro, é meu amigo, meu companheiro e um querido, com quem eu verdadeiramente me importo, vou lhe mostrar minha listinha de destinos e discutir os próximos passos da nossa aventura, incluindo destinos que ele gostaria de visitar, como fizemos com Pernambuco. Vou parar de tomar as decisões sozinha também, como fiz com relação à festa que quase destruiu a confiança que conquistamos ao longo desses oito dias. A partir de hoje, ele vai participar de todas as decisões e não será obrigado a mais nada. Não darei uma de louca, nem o pressionarei. Isso não vai dar certo se ele não escolher por livre e espontânea vontade. Quando termino minha higiene me dou conta de que acabou. Meu martírio teve fim! Uhul! Estou livre dos absorventes e das calcinhas! Aleluia! Levanto as mãos para o alto e dou pulinhos. Não via a hora. Quero me purificar, por isso, entro debaixo do chuveiro, nua e livre, para lavar do meu corpo qualquer vestígio da maldita menstruação. Às vezes — só às vezes, porque eu me amo do jeitinho que sou! —, é um saco ser mulher, mas aí me

lembro das vantagens e me esqueço dos pontos negativos. Os positivos incluem orgasmos múltiplos e penetração dupla. Retorno ao quarto pelada, desfrutando a liberdade total reconquistada. Ai, como a vida é boa! Joseph está acordado e sorrindo, mas quando percebe a falta de roupas sobre meu corpo, cora e fica sério. Que fofo! Tenta cobrir a cabeça com o lençol, mas eu me jogo, segurando o tecido com força e pairando acima dele como uma gata selvagem e perigosa. — Bom dia, meu anjo! Não tem como eu deixar de associá-lo a um anjo casto e lindo. Bela dupla somos: enquanto ele é um anjo de pessoa, eu sou um demônio, que o tenta o tempo todo a cair em pecado. Solto uma gargalhada estrondosa com o pensamento. Foda-se! Eu quero este homem mais do que qualquer coisa que eu já quis nessa vida e, o mais importante, ele também me quer. E isso não tem nada a ver com tentação, mas com sintonia. — Bom dia, Pauline, você está apertando minha bexiga cheia — reclama, com uma careta muito

engraçada. — Achei que essa coisa dura feito pedra entre minhas pernas fosse seu pau delicioso. — Joseph não me responde, nem se mexe, como se temesse que um desastre aconteça caso tente me tirar de cima de si. Sorrio maliciosamente, rebolando um pouco. — Só queria que você soubesse que estou muito feliz por ter ficado, que durante o voo de volta para o nordeste a gente pode conversar sobre os destinos que quer incluir no nosso roteiro e que não estou mais menstruada! Joseph engole em seco, meio sem saber se deve sorrir, agradecer, concordar, enfim, fica totalmente perdido. Opta por gaguejar uma resposta qualquer, nem um pouco conectada ao meu bom humor. — Ah... está bem, também estou contente por não ter ido embora, e, sobre... — cora violentamente, sem conseguir colocar a palavra para fora — bom... pra... você. Dou risada, porque, no fim, a reação dele é tão naturalmente Joseph que não tem como ficar chateada. — Seu bobinho, é ótimo pra gente!

Inclino-me e lhe tasco um beijo na boca, saciando a parte de mim que não via a hora de fazer isso. Beijo de manhã, ainda na cama, na preguicinha, é uma das maiores maravilhas do mundo! Solto seus lábios tão de repente quanto os agarrei e pulo para o chão, animada, pensando nas roupas que vou levar. — Agora, levanta logo daí, anjo, porque temos que pegar um avião! Ele geme, — fico sem saber se por causa do voo, da vontade de fazer xixi ou da ereção matinal —, levantandose rápido do colchão e se trancando no banheiro. Não tenho mais pressa de transar com Joseph. Ele já me ofereceu sua virgindade, agora é questão de tempo e clima para estar finalmente pronto. Estou na vibe do “deixa acontecer”, acredito que quanto menos encanado ele estiver, mais fácil e natural vai ser, então, não ficarei pulando em cima dele feito uma ninfomaníaca. Estarei esperando que queira, porque eu sempre quero. Essa é a viagem mais tranquila que fazemos juntos desde que começamos essa aventura insana e maravilhosa, mesmo sendo reconhecidos no aeroporto como as

celebridades do momento. Tudo bem que avião ainda não é a praia de Joseph, mas ele curte demais quando alugamos um carro e percorremos estradas desconhecidas em busca de cenários exóticos, escondidos em cantinhos quase inexplorados do Brasil. Mesmo levando horas para percorrermos os mais de mil quilômetros entre o centro do país e outro literal do nordeste, a gente chega ao vilarejo de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, antes do anoitecer. Acho o nome da vila estranho, já que a caatinga é vermelha igual ao meu companheiro corado. — Uai, sô, que coisa mais doida! — Joseph exclama, maravilhado, enquanto atravessamos a cidadezinha. — Estou ansioso em ver o mar depois de atravessar o sertão nordestino, quente e árido! — É como se Deus nos desse a benção de nos refrescar depois de tanto calor! Ele sorri, talvez por eu ter metido o divino na conversa, ou simplesmente porque gostou do que eu disse. Pouco importa, na verdade, gosto quando sorri mesmo sem motivo. A via pavimentada morre, repentinamente, fazendo-o frear, e dá lugar à praia. A areia é tão branca

que dói as vistas por causa do reflexo do sol. Fico parada, com a respiração suspensa, o oceano azul se destacando no horizonte e se misturando ao céu. Tomada por um impulso maluco, abro a porta do carro e saio correndo, como se o para-brisa me atrapalhasse a enxergar melhor esse cenário fantástico. Preciso tocar, cheirar, ver de pertinho para acreditar nesse espetáculo. Então eu vejo. Estou exatamente entre eles, na linha que não existe. Do lado esquerdo, o oceano indo e vindo na praia, em uma tranquilidade sem fim. Do direito, paredões de falésias vermelhas se formam em diversas alturas, para confirmar que é possível, sim, dois opostos coexistirem. E ainda mais, podem criar algo belo e único juntos. Sou bombardeada por um tipo de emoção ainda mais nova e mais forte do que tudo que já senti na vida. Algo que jamais teria encontrado em outro lugar, ou com outro alguém. Com os olhos marejados, me volto para meu companheiro de viagem, que paira ao meu lado como se flutuasse. Um anjo, meu anjo bonito, tímido e discreto. Ele me fita, permitindo-me que veja a comoção que também o

toca e sorri meio torto, meio sem jeito, mas tão lindo como nunca. Correspondo, encantada, e ambos procuramos as mãos um do outro, mas não paramos aí. A gente se abraça, assim como o mar faz com o sertão. Meu coração bate forte no peito, tenho certeza de que Joseph pode sentir. Eu me deixo estar nos braços do meu oceano, sentindo brotar no meu deserto interior um oásis. Perco a noção do tempo enquanto ouço seus batimentos acelerados contra minha orelha. Podem ter se passado segundos, minutos, dias ou anos que não seria nada. Ficamos assim, em silêncio, como se estivéssemos em pausa, suspensos, inexistindo, mas somente nesse nãotempo somos capazes de viver de verdade. Eu sinto tudo com tanta força que dói. Tenho a respiração descompassada, o corpo formigando, o sangue percorrendo as veias em fúria. A vida é esse pulsar frenético, ligeiro e incansável, que flui dentro da gente ininterruptamente. Ela vive em nós, somos a própria vida. Sinto uma conexão nova com o divino, como se acabasse de descobrir o maior segredo do universo, a fórmula da criação. Não sei como nominar tal verdade,

que se grava em mim como uma marca eterna, invisível. Apenas sei que ela está lá, tão viva quanto uma força livre. Era isso que eu estava buscando, essa motivação que nos leva às maiores e mais importantes decisões, que traz sentido a uma existência muitas vezes cheia de percalços. Aperto mais o corpo de Joseph em meus braços, tentando transmitir essa sensação espetacular através do gesto. Ele suspira pesado, atraindo minha atenção. O que estará pensando? Será que também descobriu o sentido para sua vida nesse momento? Ergo meu rosto para olhálo e, quem sabe, adivinhar seus pensamentos. Seus olhos encontram os meus, estão vidrados, tomados por lágrimas que mexem comigo. Abre a boca e um soluço contido lhe escapa, tão doloroso que parece socar meu peito. Esticome nas pontas dos pés e envolvo seus lábios com os meus, calando de vez seu sofrimento e o meu próprio. O beijo causa uma explosão dentro de mim. A vida parece brotar dele e quase me mata, me inflando com uma sensação tão grande, forte e poderosa que deveria me assustar. Mas não consigo me afastar de Joseph, como se

essa força da natureza estivesse nos dominando, nos controlando, nos tornando reféns. Aprofundamo-nos mais um no outro, enfiando línguas nas gargantas e dedos nas carnes. Produzimos gemidos sufocados e selvagens. De repente, a gente toma consciência dos sons a nossa volta. O mar, as pessoas, as aves... Separamo-nos, sem ar. Eu tento compreender o que foi que aconteceu. Joseph não parece muito diferente, sua cara de confusão não nega. Meu peito arfa, meu coração parece que vai sair pela boca, minhas pernas tremem. Quase me sinto sufocar, não conciliando todas as sensações que me assaltam. — O que foi isso, você sentiu? — jogo, sem realmente estar assustada, mas muito, muito curiosa para entender. — Não sei, mas eu gostei. Seu sorriso de menino volta com força total, me sugando o pouco de ar dos pulmões. — Eu também, quer provar outra vez? Ele balança a cabeça, concordando e mordendo o lábio inferior. Pego sua mão e o levo mais distante possível do ponto mais cheio da praia. Aproveitamos a

caminhada pela Ponta do Mel para perder o fôlego com sua beleza, enquanto o sol se esconde atrás do oceano, lá adiante. Encontramos barcos de pesca sobre a areia, como se estivessem abandonados. Rindo feito crianças, pulamos para dentro de um deles. Essa parte da praia está bem deserta, nos dando total privacidade para descobrir o que acontece quando nos tocamos. Joseph se senta no fundo, amparando as costas em um pedaço de maneira que serve de banco para os pescadores, e eu me acomodo em seu colo, de frente para ele, encaixando nossas bocas com pressa. A mesma implosão me rouba os pensamentos. Dúvidas se transformam em certezas, mentiras em verdades, o mundo inteiro no diminuto espaço entre nossos corpos. Minhas mãos agarram seu pescoço em busca de mais, muito mais desse poder invencível. As dele não estão menos ansiosas, segurando-me com tanta força pela cintura que vão deixar marcas na minha pele. O sentimento cresce, se apoderando de cada fibra que me compõe. O gemido dessa vez é mais audível, faz vibrar todo meu ser. Joseph corresponde, grunhindo, e

também permitindo que a sensação extrapole. O beijo me parece pouco demais para extravasar tamanha emoção. Enfio dedos ávidos por baixo de sua camiseta, tocando sua pele suavemente, sentindo-o de uma maneira que nunca senti. Como se me imitasse, ele também busca conectar-se a mim da mesma forma. A suavidade de suas mãos na minha pele me causa um tremor violento, por isso eu me afasto, ofegante. — Joseph! — Solto seu nome como uma exclamação, ou uma pergunta, não sei bem. — O que estamos fazendo? — Eu que vou saber, uai? — explode, rindo gostoso, e seu corpo se esfrega no meu involuntariamente, nos levando à seriedade imediata. — Só não quero que pare — admite o que não sai da minha cabeça. — Por favor, Pauline, eu preciso sentir mais disso... com você. Perdemos o pôr do sol, mas ganhamos algo novo e único que nada pode substituir. Mordo o lábio, guiando minhas mãos para a barra de sua camiseta e arranco-lhe pela cabeça. Enrubescendo de leve, Joseph repete meus gestos, tirando-me a baby look. Escorrego meu quadril por suas pernas até poder tocar seu peitoral com minha

boca. Primeiro encosto na pele delicada e firme com suavidade. Em seguida, deixo minha língua despontar e lhe acariciar os mamilos em movimentos circulares. Ele se contorce e estremece, soltando gemidinhos baixos, como se temesse se deixar levar. Não satisfeita em ser apenas suave, sugo seu peito, arrancando-lhe de vez um grunhido rouco. — Santo Cristo, tem misericórdia! — grita exatamente o que não espero. — Isso é bom? — pergunto contra seu abdômen, descendo a boca em sua pele. — Bom demais da conta, sô! Sorrio, abrindo o botão e o zíper de sua bermuda, forçando as mãos pelas laterais para sentir suas formas masculinas e viris. Joseph não reclama, encarando-me com uma coragem que eu desconhecia nele. Seus lábios entreabertos demonstram sua total entrega e envolvimento. Quero sua boca em mim, quero sentir tudo o que puder, enquanto nos permitirmos. Volto a me sentar sobre seu colo, desta vez sentindo sua ereção pulsar entre minhas coxas. Ofereço um seio a ele.

— Faz igual eu fiz em você, por favor. Joseph não questiona e se deixa provar um mamilo de maneira suculenta, aposto que muito melhor do que fiz nele. Fecho os olhos, jogando a cabeça para trás. Sua língua desenha a forma do bico, eriçando-o, arrepiandome, atiçando cada célula do meu corpo. Repete o movimento maravilhoso no outro, como se estivesse testando até onde pode chegar ou apenas considere um de meus peitos insuficiente para seu desejo. Gememos juntos, as respirações descontroladas, em sincronia. Atrapalhadas, suas mãos desenham o cós de minha calça jeans por dentro, queimando a pele que tocam e me fazendo arquejar. Abrem-na com certa rudeza, devido aos violentos tremores. Eu o deixo tentar sozinho, descobrindo por conta própria o prazer de despir uma mulher. Por serem grandes e desajeitadas, as mãos dele não conseguem se enfiar muito dentro do tecido apertado. Sua ansiedade o faz bufar de desgosto e eu rio, levemente, de seu desespero. Seguro seus punhos sem força, somente o suficiente para que se acalme. — Meu anjo, sem afobação, não quero perder

nenhuma sensação e também não quero que perca nada. Solta o ar de maneira ruidosa, concordando apenas com um balançar de cabeça. Eu me levanto, mantendo meus olhos fixos nos dele, dou um curto passo para trás e empurro a calça pelos meus quadris, quebrando-os de leve para ajudar o tecido grosso a descer. Inclino o tronco para frente, até deixar as pernas livres e pulo, largando-a embolada entre nós. Seus olhos estão vidrados no meu sexo, olhando como se fosse o que mais desejava ver. Inesperadamente, se ajoelha aos meus pés, enfiando o rosto no meu centro e aspirando meu cheiro profundamente. Toca minha vagina com os lábios, em um beijo tão terno que sinto minha retina queimar. — Seu perfume me atrai, Pauline. Tudo em você sempre me atraiu. — Ergue o rosto para me encontrar espantada, encarando-o. — Me deixa retribuir o que fez por mim no avião. Meu queixo cai com seu pedido, mesmo que, em meio à certeza de sua voz, seu rosto ganhe uma coloração rosada não muito forte. Ele está vencendo seus medos e limites para me dar prazer, ainda que mal saiba como

fazer isso. Que fofo! As lágrimas ameaçam despencar, enchendo rapidamente minhas pálpebras. Levanto o rosto, disfarçando enquanto as enxugo, e me sento sobre o banquinho de madeira em sua frente, escorando as mãos nas laterais e abrindo as pernas diante dele, oferecendome. Joseph não vacila, encurtando a distância que nos separa e me alcançando com sua língua. O toque macio e úmido é tão bom que estremeço, sentindo espasmos abdominais tão violentos quanto ele. Sinto-o todo trêmulo entre minhas pernas, me lambendo como se eu fosse a coisa mais gostosa que ele provou na vida. Sua espontaneidade me tira o chão, a voz, a capacidade de pensar e falar. Sou apenas sensação, carne, pele e pulsar. A pressão de sua língua em meu clitóris aumenta, como se ele usasse os dedos. Em seguida, suga-o, arrancando-me uma série de gemidos e gritinhos loucos. Repete o processo tantas vezes que, por fim, eu simplesmente me entrego, incapaz de conter o orgasmo que chega na forma de seu nome. — Joseph, Joseph!

Continua lambendo como se o chamado o incitasse. Agarra minhas coxas com tanta força que outro clímax me arranca a energia à unha e quase desfaleço. Meus membros caem de maneira barulhenta, moles e sem vida, enquanto tento aspirar mais ar para os pulmões. — Pauline! — preocupa-se com meu jeito largado, erguendo-me da posição desconfortável que me deixei ficar. Uma sonora gargalhada explode no meu peito, com vida própria, agitando-me toda em seus braços. Ele franze o cenho, sem entender patavina do meu rompante. — Para um virgem, você aprendeu a fazer sexo oral muito rápido! Sua expressão fica em dúvida entre o orgulho pelo elogio e o receio de não ter entendido direito o que eu quis dizer. Estico-me, alcançando sua boca com a minha, e lhe dou um beijo de agradecimento. Tento ser gentil e suave, mas Joseph me aperta com paixão, enfiando sua língua na minha boca e me fazendo sentir meu próprio gosto nela. Puta que pariu! Que tesão dos infernos! Estremeço de novo, tentando conter a fúria sexual que se

acende em mim. Não quero e não posso forçá-lo a ir adiante, por mais que os dois orgasmos que me deu não tenham sido suficientes para aplacar minha sede dele. Suas mãos me largam, de repente, e o sinto se agitar ao meu lado, ainda que sua boca não me deixe. Afasto-me para entender o que se passa. Vejo que seus dedos tentam, a todo custo, lhe arrancar a bermuda e a cueca, revelando um pouco do pau grande e extremamente duro que desponta sob o tecido fino. Minha boca enche de água. Ele se levanta e eu lhe ajudo a tirar tudo, porque suas mãos apressadas mal conseguem segurar alguma coisa, quem dirá se despir. Ele se senta novamente, na mesma posição anterior, e me puxa para seu colo outra vez, sugando meus lábios para dentro de sua boca. A cabeça de seu pau desliza por minha vulva lubrificada, encontrando facilmente a entrada. Paraliso meu quadril antes que eu me afunde nele. Preciso de sua confirmação antes de continuar para não lhe causar nenhum dano ou forçar a barra. — Tem certeza de que está pronto para isso? — pergunto, separando brevemente nossas bocas.

— Eu nunca estive tão pronto quanto nesse instante — responde sério, com uma voz rouca, sexy, carregada com seu sotaque enlouquecedor. Ao mesmo tempo, minha língua desliza de encontro a dele e seu pênis mergulha dentro de mim, todinho, quando me sento de uma vez. Ele geme forte, tremendo feito um liquidificador contra mim. Fico parada, esperando a tremedeira em seu corpo acalmar um pouco, antes de repetir a sensação maravilhosa. Sua boca paralisa na minha, na expectativa por mais. Eu me aparto dele, concentrando sua atenção na nova onda de prazer que lhe ofereço ao me mover para cima e depois para baixo, devagar. De novo, e de novo. Joseph solta grunhidinhos curtos e sem fôlego, fazendo suas palmas suadas e trêmulas saborearem minha pele úmida ao seu modo. A pressão de suas mãos por fora, e de seu pau por dentro, causa um furor em mim, que me agita e convulsiona entre loucura e prazer. Meu nome também se transforma em algo mais em seus lábios, que o usa repetidas vezes na tentativa vã de traduzir seus sentimentos conturbados. Subo e desço mais rápido e mais

vezes do que posso contar. Seus olhos se reviram nas órbitas enquanto sufoco um grito fora de controle, mordendo a língua. Entro em êxtase de novo, apertando seu pau com as paredes de minha vagina molhada. Joseph não contém um xingamento, extravasando seu descontrole, e urra, pulsando com força dentro de mim enquanto ejacula. A gente se abraça e eu faço meu quadril deslizar para cima e para baixo apenas para lhe arrancar um silvo baixo e profundo, que faz cócegas na minha orelha. Dou uma risadinha, resfolegando e enfiando meu nariz na curva úmida de seu pescoço, onde salpico um beijo, que lhe arrepia os pelos. Sinto seus cabelos ensopados na nuca, onde meus dedos brincam em um carinho suave. Seus próprios dedos se enroscam nos meus fios e os outros amarram minha cintura, como se temessem que eu saísse correndo. Não tenho vontade de estar em nenhum outro lugar senão aqui, nesse instante perfeito, com um cara maravilhoso, simplesmente curtindo o carinho e a intimidade recém-conquistada. — Pauline, eu... não podia estar mais feliz por você

ter sido minha primeira. Meu coração acelerado erra uma batida e faz meu peito doer. — E eu também, por ter te dado algo tão especial para guardar pra sempre. Seus olhos encontram os meus e, apesar da pouca luminosidade da lua e das estrelas sobre nós, posso vê-los brilhar, como se tivessem luz própria. — Eu, realmente, não esquecerei esse dia, essa viagem... você... nunca! — Um sorriso diferente se desenha em seus lábios e me tira o fôlego. — Mas, como garantia de que eu não vou perder nenhum detalhe, acho bom a gente fazer de novo. Mesmo que seu riso seja franco e suas palavras ousadas, o tom avermelhado costumeiro escurece sua pele por alguns instantes e eu caio na risada, me sentindo preenchida por essa coisa boa que me rouba o coração toda vez que ele sorri desse jeito.

Capítulo 19

Joseph

Em um barco abandonado, meu novo paraíso particular, Rio Grande do Norte Meu coração ainda bate muito depressa. Não consigo fazê-lo parar de me deixar com essa sensação maluca que mistura nervosismo e felicidade plena. Pauline está em meus braços, encaixada em mim, enquanto olho o céu repleto das estrelas que testemunharam o instante exato em que o meu desejo alcançou o topo. Eu nunca tinha me sentido tão completo. A minha primeira vez foi melhor do que eu podia ter imaginado um dia, melhor do que sempre sonhei. Estou muito suado, apesar de agora já estar esfriando um pouco, sobretudo por causa da brisa marítima, mas tão realizado que não posso deixar de

sorrir para o alto. Pauline se remexe

um

pouco,

atiçando-me,

esfregando sua pele nua na minha. Beija-me o pescoço suavemente e alisa meus cabelos molhados de suor. Apesar de eu quase não ter feito esforço algum, ela que fez questão de controlar o vai e vem dos nossos corpos, todo o medo e o nervosismo me deixaram exausto. Ainda posso sentir seu calor e umidade em mim, o que me deixa perturbadoramente louco. Não podia imaginar que fosse tão gostoso. A sensação de possuí-la é única. Mal posso acreditar que dei adeus a tudo o que me impedia de tê-la só pra mim. Não me arrependo. Não sinto a menor culpa. Fiz porque quis, porque precisava e porque eu a adoro. Pauline é a minha melhor amiga, a única que realmente tive a vida toda. — Será que a gente pode passar a noite toda aqui, nesse barquinho? — pergunta sem me olhar, com o rosto ainda afundado em meu pescoço. Aperto o nosso abraço e solto um riso suave. — É sério, não quero que esse momento acabe. — Eu também não, mas acho que você vai começar a

sentir frio daqui a pouco. — Aliso seus cabelos com uma mão, colocando-lhe uma mecha para trás da orelha. — A temperatura está baixando muito rapidamente. Temo que pegue um resfriado. Pauline se ergue um pouco, fica sentada ereta sobre mim. Presto muita atenção em seus seios, lembrando-me do quanto são bons de chupar. O pensamento me deixa um pouco constrangido, porém também sinto meu membro querendo enrijecer novamente. Fico com mais vergonha ainda, afinal, ela com certeza vai notar quando eu estiver completamente duro, já que não nos separou desde que gozamos ruidosamente. Ela percebe meu desconcerto e ri, rebolando a cintura de um jeito sensual. — Eu não sabia que você era insaciável, Joseph... — Oferece-me um olhar cheio de malícia. — Isso é uma ótima notícia! — Eu... — Ofego e paro, sem saber o que dizer. Pauline deposita o dedo indicador nos meus lábios. — Você está bem? Como se sente? — pergunta, e me sinto cuidado por ela. Pauline se importa comigo, isso me emociona e faz com que eu tenha certeza de que não fiz

nenhuma merda ao permitir que chegássemos tão longe. — Eu me sinto diferente. — Diferente? Como? — Ergue uma sobrancelha, interessada e muito curiosa. Solto um suspiro longo. Ela se remexe ao perceber que estou duro mais uma vez. Eu não sei lhe responder a pergunta, por isso decido ficar calado e esperar a resposta cair do céu. Pauline se levanta de repente, ficando de pé dentro do barco, e me oferece uma mão para me ajudar a levantar também. Aceito sua oferta, um pouco decepcionado. Eu quero mais. Pode parecer loucura, mas não estou pronto para encerrar. Quero senti-la mais uma vez, por mais tempo. Quero testar meus próprios limites. — Vamos mergulhar nus? — Aponta para o oceano azul-escuro e começa a saltitar animadamente. Olho para os dois lados, achando a sua ideia uma verdadeira loucura. Posso ver pessoas circulando na praia adiante, não tão longe assim de onde estamos. — Diz que sim, por favor, eu nunca nadei nua no mar! — E se alguém nos ver? Aqui está meio escondido, mas...

— Por favor, Joseph! — pede com firmeza e não espera uma resposta. Pauline tira meus óculos, depositando-os sobre nossas roupas largadas, para logo depois segurar minha mão e me puxar com força, obrigando-me a segui-la. Quase não acredito que estamos correndo como malucos, totalmente despidos, atravessando a faixa de areia branca existente entre o barco e o mar. Eu nunca corri nu, e devo acrescentar que é esquisito sentir o balançar frenético do meu membro, ainda mais porque ele não amoleceu, embora esteja amolecendo devido ao medo de ser pego. — Minha Nossa Senhora, Pauline, vamos ser presos por atentado violento ao pudor! — falo alto para ser ouvido, já que ela parece concentrada demais em correr e saltitar, soltando um grito assim que atingimos a água e a primeira onda molha nossas pernas. — Está muito frio aqui, você enlouqueceu! — Liberte-se, Joseph! — berra e gargalha, adentrando o oceano e ricocheteando entre as ondas. — Sinta a liberdade! — Solta a minha mão e ergue os

braços, girando ao redor de si como se flutuasse. Enquanto entro no mar — é melhor entrar de vez do que permanecer nu do lado de fora —, observo cada movimento que Pauline faz, jogando a água para cima e rindo como uma criança serelepe. O brilho do sol, refletido pela lua, atinge seu corpo em cheio, formando sombras caleidoscópicas. Não sei se é porque estou sem óculos. Eu me sinto em um sonho, fora da realidade, e talvez por este motivo entro, literalmente, na onda. Começo a jogar a água para cima e a tentar ouvir a mesma música que ela ouve no silêncio. Não demora muito, Pauline me encontra e enlaça os braços no meu pescoço, agarrando-me para si como se eu fosse seu oxigênio. Sinto urgência em seu gesto, uma pressa avassaladora que não permite que meus lábios fiquem tanto tempo afastados dos seus. O beijo que trocamos me faz ter quase certeza de que estou com ela em mais um sonho muito bom. Quero que alguém me belisque para que eu volte a acreditar que é real, que me entreguei a uma mulher incrível e que agora posso tê-la sem medo ou culpa. Pauline abre os braços e

grita, depois solta mais uma risada. Sua espontaneidade me comove, me faz desejar ser como ela. Talvez essa seja a diferença entre o homem que eu era e o que agora sou: a vontade de entender a liberdade que só consigo enxergar através de seus olhos. Pauline larga a minha boca e me encara, abrindo um largo sorriso. — Vamos, meu anjo. Ainda temos a noite inteira só para nós dois. — Meu sorriso se abre instantaneamente. Graças a Deus não sou o único a querer mais. Pensei que eu tivesse enlouquecido. — Quero um lugar aconchegante e bem quentinho pra te sentir de novo. Sabia que a segunda vez é melhor do que a primeira? Arregalo os olhos, descrente. Ela ri da minha surpresa. Eu realmente não sabia disso, e muito me admira, já que quase morro em seus braços. Nunca tive um orgasmo tão intenso, acho que nunca soltei tanto sêmen na vida, pude sentir quando a preenchi profundamente. — Eu não sabia — finalmente lhe respondo. — Percebi! Você vai ver que estou falando a verdade, vamos logo!

Corremos de volta para o barco, temerosos porque um casal que corre pela praia consegue nos ver antes que alcancemos nossas roupas. Quase desfaleço de tanta vergonha, mas me controlo para não ter um trem antes de me vestir. Pauline acha tudo muito divertido, ela ama esse lance de exibição, chega até a gargalhar da nossa falta de sorte. — Você é doidinha demais, Pauline — reclamo, vestindo minha camisa. — Onde já se viu achar isso engraçado? — Ah, a vida é engraçada demais! É só saber reconhecer quando ela nos conta uma boa piada! Passo muito tempo refletindo sobre o que falou, absorto em meus próprios pensamentos, durante o caminho que percorremos, de mãos dadas, até localizarmos o carro alugado. Pauline propõe que fiquemos em uma das pousadas à beira-mar e não me oponho. Quase não me aguento de expectativa ao compreender que dormiremos no mesmo quarto, só que agora com tudo modificado entre a gente. Será impossível não mantermos uma relação ativamente íntima. Ainda não

pensei sobre as consequências disso, e sinceramente não quero pensar agora, só sei que vou aproveitar cada segundo que me for permitido ao lado dela. Entramos no quarto que reservamos, molhados e salgados, rindo porque o recepcionista estranhou muito o nosso estado deplorável depois que pedimos a melhor suíte do estabelecimento. Acho que pensou que não podíamos pagar pela diária. Fiz questão de desembolsar a quantia que nos garantirá conforto, aconchego e tranquilidade para o que pretendemos fazer. Bom, pelo menos eu pretendo fazer bastante e, depois que estiver exaurido, alguma coisa me diz que vou querer de novo. Meu Deus, será que corro risco de me tornar um viciado? Mal fecho a porta atrás de mim, depois de permitir a entrada de Pauline, e ela me agarra forte, saltando sobre o meu corpo e me fazendo derrubar nossas mochilas no chão. Nem tenho tempo de ver como é o quarto. Para ser sincero, não consigo enxergar nada além dela. Eu me apresso em retirar suas roupas de novo, de um jeito meio desajeitado — que droga, preciso aprender a despi-la direito, caso contrário sempre farei papel de inexperiente

—, por isso minhas mãos começam a tremer de nervosismo. Sinto-me frustrado por estar desse jeito mesmo sabendo que é isso o que quero fazer. Será que um dia vou deixar de sentir vergonha ou medo de machucála? Pauline parece não ligar para o meu desconcerto, ajuda-me a deixá-la completamente nua, exibindo cada uma de suas curvas. Suspiro alto ao observar seu corpo, já que no barco estava tudo meio escuro. Eu já a vi pelada umas mil vezes, mas a sensação de vê-la ao mesmo tempo em que posso tocá-la é indescritível. Pego seus seios redondos, durinhos, depois guio meus dedos pela sua cintura fina e levo uma das mãos até seu sexo depilado, macio e úmido. Eu me delicio com o doce prazer que é ouvi-la soltar um gemido por minha causa. — Quero que me foda por cima, Joseph — ela pede e puxa minhas mãos, andando para trás até se sentar na cama de casal, localizada no centro do quarto. Pauline me solta, afastando-se para o meio do colchão. Deita-se e abre as pernas como um convite para que eu a alcance. — Vem... — Dedilha o próprio sexo, estimulando-se

suavemente, e admito que nunca vi uma cena tão excitante. Fico vidrado, sem conseguir desviar meus olhos do prazer que ela oferece a si mesma. — Eu vou... — Engulo em seco, meio perdido. Antes de fazer exatamente o que pediu, tenho um desejo absurdo e recente, que quero realizar de imediato, caso contrário posso morrer de vontade. — Se você... continuar o que está fazendo... — Aponto, lambendo os lábios e sentindo meu rosto esquentar, mas pouco me importando. — Até o fim. Quero ver... Por favor! Deixe-me ver. Pauline sorri da maneira maliciosa que eu sinto não conseguir viver mais sem. Sei que ela vai me atender sem pestanejar, por isso me aproximo da cama e me sento, com os olhos ainda presos em seus gestos ousados, quentes. Estou nervoso, com o coração quase saindo pela boca, sem acreditar no homem que fez esse pedido obsceno — fui eu mesmo? Preciso saber um pouco mais sobre ele. — Quer ver como eu me toco? — pergunta, mesmo já sabendo a resposta. Ela gosta de provocar, de me ver corado, e consegue o que quer com facilidade. Apenas aquiesço, incapaz de abrir a boca para dizer qualquer

coisa que seja. Prendo os lábios com força assim que ela começa a se contorcer, trabalhando lentamente no seu próprio prazer, que acaba virando o meu também. Tento decorar os movimentos que faz, pois desta forma posso repeti-los quando precisar. Quero dar a Pauline tudo o que ela me dá, quero que sinta o que me faz sentir. Essa nova decisão que tomo me deixa espantado, mas, em contrapartida, é tão óbvia que tento não me desesperar. Os dedos circulam seu ponto mais sensível, depois se agitam um pouco mais, arrancando-lhe um gemido que me deixa louco. Ela não desvia os olhos dos meus, é inquestionável que faz isso pensando em mim, imaginando-me entre suas pernas. Estou a ponto de explodir de desejo. Pauline acelera o movimento aos poucos, sem deixar de se mexer e grunhir toda vez que seu corpo exige. Prendo os lábios com força, identificando o momento exato em que chega perto do clímax. Explodo de expectativa, aproximando-me mais só para não perder nenhum detalhe. Ela não para ou cansa, mantém uma

constância maluca até começar a convulsionar e gritar alto, chamando o meu nome aos berros. A experiência é inacreditável. Estou fora de mim, longe de fazer qualquer sentido. A vergonha foi embora e o medo, idem. Só me restou a vontade destruidora de tomá-la para mim, invadila profundamente e fazê-la gritar de novo o meu nome. Tiro minhas roupas em menos de um minuto, jogando tudo ao léu, incluindo meus óculos, e só me satisfaço no instante em que praticamente roubo o lugar ocupado pelos seus dedos, penetrando-a com força. A sensação diferente e acolhedora que senti no barco retorna, fazendo-me rosnar alto, como um animal selvagem. Retrocedo uma vez e a invado novamente, sem poder acreditar em como posso ter passado tanto tempo sem isso. Pauline geme, implorando para ser fodida, e essa palavra, que por acaso nunca usei, jamais fez tanto sentido pra mim. Ela está tão molhada que meu membro escorrega fácil, ajudando-me a manter o movimento constante. Mas acho que não é o suficiente, já que ela sempre pede pra eu ir mais rápido, mesmo que eu não faça ideia de como posso ir mais ligeiro do que isso. Tento mesmo assim.

Meus joelhos queimam por causa do atrito com o colchão e minhas mãos, que servem como apoio, latejam, mas forço o meu quadril a trabalhar do jeito que ela implora aos gritos. Estou quase gozando. Acho que não se passou um minuto completo. Sei lá, não consigo calcular o tempo, parece ter demorado um bocado, mas acho que não demorou nadinha. Fico desesperado e paro dentro dela, respirando alto, encarando-a como se pedisse socorro. Pauline está com os braços para cima em rendição, ofegante igual a mim. Prendo os lábios, tomado pela frustração total. Não posso gozar antes dela, certo? Seria o mesmo que decepcioná-la. Sei que nunca fiz isso antes, mas não quero ser taxado de virgenzinho com ejaculação precoce. — Você quer gozar, não é? — pergunta como se adivinhasse meus pensamentos. Balanço a cabeça para cima e para baixo, arfando. Sinto gotas de suor brotando da minha pele. — Está tão... tão gostoso... — explico aos sussurros. Ela sorri.

Sua boca toma a minha em um beijo prolongado, que me faz apoiar os braços pelos cotovelos e me afundar mais em seu corpo. Sinto o meu sexo latejando forte dentro dela, estou por um triz, sei que qualquer movimento me levará ao êxtase. Procuro me distrair devolvendo o beijo que ela me oferece com tanta permissividade. — Fica à vontade, seu bobo... Fazer sexo é perder o controle — murmura entre meus lábios, rebolando sob mim. Fecho os olhos com força, tentando como posso espantar a vontade louca de me despejar dentro dela. — Não... — Sou muito teimoso quando quero. Reabro os olhos e meto uma vez, só para ver se posso continuar com segurança. Pauline geme e se contorce, imprensando-me com o movimento. — Quero te sentir gozando em mim — confesso baixinho, corando um pouco. Recomeço o movimento de vai e vem, só que mais devagar que antes. Pauline está ainda mais escorregadia, porém às vezes me prende com tanta força que se torna missão quase impossível esperar por ela. Decido dar o meu melhor para ir mais rápido, pois sei que é com força

que ela gosta, fazendo um caminho definitivo, sem volta. Aumento a velocidade como antes, estocando cada vez mais depressa. É agora ou nunca. Pauline volta a gemer, ensandecida. Só mais um pouquinho. Ela não vai demorar, estou sentindo que não. Ou estou enganado? Merda, não sei direito. Nossos sexos passam a provocar um barulho altivo por causa do choque. Esse ruído soa como música aos meus ouvidos, é impressionante. Nunca pensei que eu pudesse me sentir tão constrangido, mas tão excitado, pelo mesmo motivo. Descubro mais uma coisa no sexo que me deixa fora de noção. Acelero mais só para poder aumentar o volume desses sons. Combinando tudo com os meus arquejos e com os gritos de Pauline, novamente tenho certeza de que vou alcançar o clímax a qualquer instante. No entanto, ela o atinge de repente, surpreendendome ao mesmo tempo em que me deixa aliviado. Seus gritos ecoam pelo quarto, meu nome fica no ar, fazendo parte da composição da música que nos cerca. Estou tão mais despreocupado que me deixo ir mais rápido ainda, sem medo de prosseguir. Essa coragem repentina faz com

que Pauline continue gritando alto, revirando os olhos como se estivesse no meio de uma possessão. Começo a ficar preocupado, não sei se está gostando ou odiando, afinal, ela já gozou. Percebo que está adorando quando volta a me mandar acelerar. Puta merda, nunca vai ser rápido o suficiente pra ela? Não é à toa que quis comprar um Porsche. Será que um dia vou conseguir foder a trezentos quilômetros por hora? Solto um urro que parte das minhas entranhas. Meu corpo convulsiona ao mesmo tempo em que Pauline me imprensa, então compreendo que está tendo mais um orgasmo. Sinto cada jato de meu esperma lhe preenchendo enquanto continuo arfando, esgotado. Tremo dos pés à cabeça, em meio ao suor e aos suspiros. — Pauline... — gemo seu nome entredentes, como se fosse uma palavra ofensiva, um xingamento. Não sei o que me dá. Esse homem maluco que usa um timbre tão obsceno não pode ser eu. Pode? — Você é gostosa pra... — Contenho o palavrão que quase me escapa. O que essa mulher fez comigo? Escuto sua risada deliciosa e lhe roubo um beijo

estalado. Pauline está vermelha, toda suada e com um sorriso do tamanho do mundo estampado em seus lábios. Sorrio de volta, meio envergonhado, meio feliz. Saio de cima dela porque não sei se a estou sufocando. Deixo meu corpo cansado estirado sobre o colchão. Ainda estou tentando respirar, mas é muito difícil. — Você tem razão... — falo, umedeço meus lábios e expiro com força. — A segunda vez é ainda melhor. Pauline gargalha, aninhando-se em meu peito. — Você não viu nada, meu caro. Espera só pra conferir a terceira, a quarta, a quinta... As possibilidades são inúmeras! Sexo é a melhor coisa que a vida nos dá de graça! Nesse instante, simplesmente não posso discordar dela. Sempre achei que eu gostasse de dormir e de ouvir música. Mas a verdade é que não me lembro de nada mais que me fizesse sentir desse jeito. Estou fissurado e muito curioso, também temeroso, confesso. O arrependimento ainda não veio, e espero que jamais venha. Enquanto isso, posso dizer, sim, com convicção: sexo é bom demais da conta, sô!

Depois de um banho — que deixo Pauline tomar sozinha, pois estou disposto a lhe dar um pouco de privacidade na hora certa, mesmo diante de suas reclamações —, caímos em um sono profundo. Acordamos supertarde, famintos e morrendo de preguiça de continuar a nossa aventura pelo Brasil. No entanto, mesmo diante do cansaço, transamos pela manhã, antes do desjejum, e mais uma vez depois do almoço. Durante a tarde, quando voltamos de um passeio tranquilo pela praia, caímos em tentação mais uma vez. Após o jantar, realizamos uma verdadeira sessão de sexo louco em toda parte da suíte, incluindo o sofá de apoio. No dia seguinte, prometemos um ao outro seguirmos para o próximo destino, mas acordamos no meio da sacanagem mais uma vez e só começamos o dia, de fato, depois de atingirmos nossos orgasmos. Estou sofrendo uma overdose de sexo, acredito que tirando o atraso dos vinte e seis anos em que não me permiti aproveitar as maravilhas da vida. Pegamos um voo comercial simples até Fortaleza, que graças a Deus não chega a durar nem uma hora completa. Pauline dorme

como uma princesa, e eu estou envolto em muitos pensamentos controversos. Tiro o meu terço da minha mochila, pela primeira vez desde que ganhei na HiperSena e realizo muitas orações. Peço a Deus para me dar sabedoria diante da mudança que meu corpo sofreu depois que descobriu como é gostoso se perder nos braços de uma mulher como Pauline. Observo as nuvens e, repentinamente, uma lágrima me escapa. Não sei direito qual o motivo da emoção, mas me deixo levar e solto muitas outras até finalmente me sentir um pouco melhor. Acho que estou passando por uma fase complicada. Tudo é muito recente. Na semana passada, eu estava juntando dinheiro para construir uma vida com Laurene, e hoje estou sobrevoando o Ceará ao lado de uma garota adepta à liberdade e avessa a compromisso. Fecho os olhos e busco me sentir arrependido, só assim posso pedir perdão pelos meus pecados, mas a verdade é que não me arrependo. Sendo assim, não tenho como alcançar a misericórdia divina, nem perco o meu tempo fazendo esse pedido. Meu corpo se sente muito agradecido. Se bem que,

confesso, minhas bolas doem e acho que meu membro não está muito legal, por um motivo totalmente oposto ao que os fazia doer antes de perder minha virgindade. Eu me sinto mais homem. É como se tivesse amadurecido muitos anos em questão de horas. Eu me acho responsável não apenas por mim, mas por ela, por essa moça doida que dorme ao meu lado. Observo-a por uns instantes e sinto meu coração errar uma batida. Pauline invadiu a minha vida sem pedir licença e me transformou em todos os sentidos. Só me resta tentar descobrir quem é o novo Joseph e se essa transformação foi boa ou não para ele. Só o tempo irá dizer. Enquanto ele não passa, decido seguir a maré, já que nadar contra ela está fora de questão. O tempo em Fortaleza está muito bonito, uma coisa de louco. O céu se encontra totalmente azul, não vejo uma nuvenzinha sequer. Nunca vi um céu tão limpo quanto este, dá a sensação de que podemos ver o reflexo da cidade nele. Pauline está com pressa e animada demais para conhecer o Beach Park ainda hoje. — É a nossa última parada no Nordeste! — exclama enquanto dirige mais um carro que alugamos no aeroporto.

O caminho até o parque é meio longo, mas muito agradável. — Depois vamos para o Sul, como eu te mostrei. Ela finalmente resolveu me deixar fazer parte de suas escolhas. Nossos destinos não são mais uma incógnita para mim. Sua atitude de compartilhar o roteiro comigo faz com que eu me sinta importante, ou ao menos um participante ativo da viagem. Antes, eu era apenas um seguidor assustado que não fazia ideia de qual rumo tomaria. — Amei o Nordeste! A gente precisa voltar algum dia — falo, animado, e só depois me dou conta de que essa viagem tem prazo de validade. Não posso fugir com Pauline para sempre. Um dia cada um terá de seguir seu próprio rumo. — Se der, claro. — Quem sabe? — Pauline me olha e sorri. Não consigo lhe devolver o sorriso, pois meus pensamentos me perturbam muito. — Ainda temos muito para ver. Esse Brasilzão é todo lindo! No fim da viagem a gente pode escolher voltar ao nosso destino favorito. O que acha? — Acho uma ótima ideia. — Qualquer coisa para

passar um tempo a mais com Pauline é válido. Finalmente chegamos ao tão falado Beach Park, localizado na praia de Porto das Dunas, a quinze quilômetros de Fortaleza. O parque é localizado bem pertinho da praia, tem uma beleza tropical impressionante e é todo temático. Pagamos nossos ingressos e ficamos impressionados com as instalações aquáticas do lugar. Pauline aproveita para tirar um monte de fotos e postá-las em suas redes sociais. Tiramos muitas fotos juntos, sorridentes, registrando o momento. Corremos como crianças pelo parque e nos deliciamos com as piscinas e atrações. Eu nunca tinha ido a um parque aquático. Pauline disse que este era o melhor do Brasil, e não duvido. Quando localizamos o Insano, um dos maiores tobogãs do mundo, segundo Pauline, medindo cerca de quarenta e um metros de altura, quase tenho um trem doido. O brinquedo é enorme, alto pra burro. Vejo, pela primeira vez desde que iniciamos a viagem, o medo nos olhos dela. Pauline grita e corre até ele, mas percebo que está nervosa. Tenho a comprovação assim que ela para antes de subir o primeiro lance de escadaria.

— Puta que pariu, é como se atirar de um prédio de catorze andares! — berra e arfa, olhando-me com espanto. Fico admirado porque Pauline sempre é tão corajosa! Ao contrário dela, não estou com medo, só um pouco ansioso e muito curioso. — Merda, não sei se vou ter coragem. Seguro suas mãos e a puxo para perto de mim. — Claro que vai. Vamos subir, lá em cima decidimos. — Ah, não sei não, Joseph... — Prende os lábios, depois os solta. Vejo seu gesto como um convite para um beijo e lhe ofereço um selinho molhado. — Você disse que a gente ia fugir para onde tivesse um tobogã onde pudéssemos escorregar. — Sorrio, recordando-me da música que faz parte de nossa trilha sonora. — Puts, tinha que ser logo um dos maiores do mundo? — Dá um tapa na testa. Solto uma risada espontânea. — Onde eu estava com a cabeça? — Pauline inspira profundamente e, refletindo um pouco, toma uma decisão. — Vamos logo! Vou me arrepender se não viver mais essa experiência.

Subimos muitos lances de escadaria, tantos que chegamos ao topo resfolegantes. Quase paramos no meio do caminho e voltamos, pois a cada degrau a situação fica mais tensa. Não temos ideia do que são quarenta e um metros até de fato estar lá em cima. É preciso mesmo muita força de vontade para encarar esse tobogã, mas, enfim, chegamos. Algumas pessoas estão reunidas, decidindo quem é que tem mais coragem. Um monte já desistiu com a boca na botija. O funcionário do parque tenta convencer a todos de que o brinquedo é seguro e divertido, mas, vendo desse ângulo, eu duvido das duas coisas. — Eu vou! — Pauline ergue a mão e define. Aproxima-se do tobogã, aponta para mim e recua. — Se o Joseph for primeiro! Algumas pessoas riem. Engulo em seco. — Uai... Primeiros as damas! — digo, nervoso. — Não, não, você abre o caminho, como um cavalheiro, para a dama passar. Vamos, Joseph! Está com medinho? — Ela ergue a sobrancelha e me desafia na frente de todo mundo. Solto um longo suspiro e me

aproximo. Eu já fiz sexo. Descer de um tobogã não deve ser tão difícil. — Fique só olhando, sua doidinha — murmuro e subo de vez na área que demarca o início do tobogã. Pauline ri, mas parece meio preocupada. Uma enxurrada de água está descendo com força, perdendo-se adiante. Só preciso cruzar os braços e me deixar levar por ela. Deste ponto, consigo ver o Beach Park quase todo, mas não onde o Insano termina. Respiro fundo, decido não pensar muito e simplesmente vou. Não evito soltar um berro maluco e alto. Meu corpo desce em uma velocidade fora do comum, a barriga quase vai para o cérebro e a minha sunga é enfiada em meu traseiro. Continuo gritando e caindo, de olhos semi-abertos, até atravessar um tubo comprido e finalmente ser jogado em uma piscina. Tem uma galera aplaudindo quando alcanço a superfície. Que trem mais doido! A primeira coisa que faço é tirar o pano da minha bunda. Depois, nado até a escada mais próxima. Um grito fino surge bem atrás de mim. Eu me viro a

tempo de ver Pauline mergulhar com tudo, espalhando água para todos os lados. Ouço os aplausos do pessoal que acompanha os corajosos. Minha amiga grita, vindo ao meu encontro. — Caralho! Se eu fosse virgem por trás, teria perdido a virgindade do meu rabo agora mesmo! Adrenalina pura! Fico morto de tanta vergonha. Não sei se alguém conseguiu ouvir isso, mas acho que sim. Meu rosto se esquenta tão depressa que fico até meio zonzo. — Pauline! — rosno, puxando-a para mim. — Fala baixo, pelo amor de Deus! — Mas é sério! — Ajudo-a a subir pela escada e nos afastamos do Insano. — Meu biquíni me estuprou! Fiz sexo anal com o tobogã! Não consigo fazer outra coisa a não ser cair na risada. — Que inveja dele! — solto no impulso. Juro que foi sem querer. Pauline para e me olha, com a boca aberta. Seus olhos começam a brilhar, e então já sei que ela está

pensando besteira. Minha sunga sente a mudança do clima que nos acerca. Faço o possível para não endurecer, mas é meio tarde. Não dá para imaginar sexo anal com Pauline sem ficar totalmente duro. É impossível. — Vamos resolver essa situação — ela me puxa pela mão, toda afoita. — O quê? Ficou maluca? Onde? Agora? — Qualquer lugar é lugar, meu anjo — ela fala sem me largar, guiando-me para algum local que desconheço. — Qualquer hora é hora para fazer um bom sexo. Sabe, eu não queria te assustar deixando você me comer por trás, mas acho que está pronto para isso. Você é uma máquina, Joseph! — Vira na minha direção e pisca um olho. Estou perdido. Não me resta outra coisa a fazer a não ser apostar todas as minhas fichas e segui-la para onde quer que essa doidinha queira me levar.

Capítulo 20

Pauline

Porto das Dunas, Ceará Não sei se foi o biquíni enfiado, a adrenalina da descida insana no tobogã ou simplesmente Joseph e sua safadeza libertada, talvez seja o conjunto, sei lá, o que importa é que fiquei cheia de tesão e preciso dar minha bunda agora! Mais uma primeira vez para meu anjo. Bateu uma ansiedade louca, que me faz arrastá-lo pelo parque imenso, com o pau duro se esfregando em mim para esconder sua ereção de todo mundo. Têm famílias aqui, os pais não vão gostar nadinha se seus filhos repararem no pauzão do meu amigo. Nem eu vou gostar, cara, sai para lá que isso tudo é só meu! Ganhamos a praia e sinto a maresia me convidando

para o mar. Não, não na água. O sol está a pino, somente para piorar nossa situação, mas isso vai ser rápido, tem que ser. De um lado, coqueiros fazem sombra onde uma infinidade de mesas está espalhada e música ao vivo toca. A lotação me diz que essa não é a melhor direção a tomar. Confiro o lado oposto. Está mais calmo, portanto, continuo puxando meu parceiro de viagem para o mais distante que conseguimos ficar das pessoas. Apesar de que a chance de sermos pegos me deixa mais excitada. Perto da entrada do parque, há uns bancos estofados que estão vazios. Reparo que o movimento por ali está bem fraco. Acabo de encontrar o lugar perfeito! Ando até o banco localizado no centro e mais atrás, meio escondido. — Senta aí, Joseph, e tira esse pintão para fora! — ordeno, ensandecida. — O... quê? — gagueja, olhando para os lados, apavorado, mas se sentando. — Ficou louca? — Você está excitado, eu também, vamos resolver isso de uma vez — digo, avançando contra ele e puxando o dito cujo para fora da sunga sem necessariamente tirá-

la. Uau! Sempre me impressiona o quanto o pau de Joseph é lindo. — Pauline! — se debate, tentando se tampar outra vez. Gente, o que deu nesse homem? Quem mandou falar em anal depois de eu ser praticamente estuprada nos cinco segundos que escorreguei pelo toboágua? Viro-me de costas, puxando o biquíni para o lado, e sento nele, guiando-o para dentro de mim com uma mão. Estou tão molhada que entra tudinho, até o talo, em um movimento só. Gememos juntos, resfolegando com força. Jogo meu peso contra seu peitoral e ele me abraça. Seus dedos atrevidos, e trêmulos pelo medo de ser pego, buscam automaticamente meus seios sobre a peça úmida. Sua respiração faz cócegas na minha orelha e a boca raspa de leve no meu pescoço. — A gente não ia fazer anal? — Sua voz ganha toda aquela sensualidade que me tira o foco. Movo o quadril em círculos curtos e fortes, sentindoo por todos os lados dentro da minha vagina. É tão

gostoso! — Calma, anjo, estou preparando a gente, mesmo sendo uma rapidinha. — Pego uma de suas mãos e a guio para o meio de minhas pernas. — Me masturba, Joseph, do jeitinho que você sabe fazer. Ele enfia os dedos para dentro do meu biquíni e esfrega meu clitóris, me fazendo pulsar e comprimir sua ereção. Subo e desço com pressa, lubrificando-o com minha excitação, intercalando os movimentos com reboladas fenomenais. Contenho meus gemidos para não gritar e atrair atenção indesejada para gente. Joseph morde meu ombro, abafando seus próprios grunhidos. A dor manda uma onda de prazer pelo meu corpo e acho que já está bom demais para aquecer. Paro, mas ele não. Deixo que continue fazendo o que quiser com meu corpo. Tiro seu pau devagar de dentro de mim, segurando-o firme. Está duro feito uma tora! Que maravilha! Passo a cabeça entre minhas nádegas, lambuzando-me com lubrificação e separo o biquíni para não atrapalhar. Joseph gosta, sinto seu pênis latejando na minha palma. Quando acho que já estou bem escorregadia,

encosto a glande contra minha entrada. Meu companheiro geme sensualmente baixinho atrás de mim, se remexendo, ansioso. — Não mova o quadril, anjo, me deixa controlar. Ele me obedece, então me forço para baixo. Seu macio e gostoso pau entra devagarzinho, deliciosinho, me possuindo aos poucos. Ah! Como é bom! Joseph não sabe o que fazer com as mãos, apenas me segura pelo quadril, apertando minhas carnes e me deixando saber, sem ver, o quanto ele está curtindo mais uma primeira vez. Quando entra tudo, fico parada por alguns segundos, me acostumando com a pressão. — Puta que pariu! — Joseph deixa escapar um xingamento, inquieto. Rio, fazendo nossos corpos se esfregarem um pouco, atiçando-nos. — É bom, não é? Todo homem ama transar por trás. — É... tão... apertado! — Anjo, não para de me tocar, ok? Vou precisar de uma ajudinha. Ele balança a cabeça, roçando sua pele na minha,

atendendo ao meu pedido. Espero a sensação maravilhosa de sua provocação me tomar antes e em seguida mexo o quadril para cima e para baixo, primeiro lentamente, deixando suas formas conhecerem as minhas, depois com cadência e firmeza. Mordo o lábio, a língua, o interior da bochecha, tudo que puder para não urrar enlouquecidamente. Aperto os olhos, incapaz de continuar olhando o infinito azul adiante, totalmente conectada a este momento. Joseph se descontrola sob mim, seus dedos aceleram os movimentos no meu clitóris e me deixo levar por um orgasmo incrível. — Joseph! — Parece certo nominar meu prazer com seu nome. Ele é a causa e a solução. Continuo, me contraindo toda, pulsando e gozando de novo e de novo. Minhas pernas tremem, ameaçando fraquejarem, mas as impulsiono usando a força dos braços e finco as unhas nas coxas de Joseph. Ele grunhe, soltando palavrões de todos os tipos. Seu latejar dentro de mim revela quando ele chega a um clímax poderoso, confirmado em seguida quando me invoca como se eu fosse uma maldição. Por isso me largo sobre ele, sem

forças. Respiro pesado, com o coração batendo tão alto que não ouço mais nada. Meu anjo me abraça apertado, quase me impedindo de aspirar mais ar para dentro dos pulmões que ardem. — Pauline... — sussurra, depositando beijinhos inocentes pelo meu ombro, pescoço e orelha. — Pauline... — Agora meu nome parece uma prece em seus lábios. Fecho os olhos e viro o rosto ao seu encontro. — Pauline... Beijo sua boca, sentindo aquele palpitar insano contra o peito de novo, mas agora é diferente. Não tem sabor de tesão ou pressa. Aquece, mas não descontrola. É bom, muito bom, me faz querer beijá-lo para sempre, a qualquer hora, em qualquer lugar, com a liberdade que somente a intimidade alcança. Eu quero ter isso com Joseph, quero dar a ele todas as suas primeiras vezes, realizar suas fantasias mais loucas, fazer tudo o que ele quiser, quando e onde tiver vontade. Pego meu celular à prova d’água — precisei comprar um desses para não estragá-lo —, aciono a câmera fotográfica e tiro selfies da gente agarradinho assim, para

guardar comigo e poder relembrar desses momentos quando ele não estiver mais ao meu lado. Uma tristeza besta me toma, como saudade antecipada. Levanto depressa, ajeitando o biquíni e fazendo Joseph esconder seu pau mole rapidamente para dentro da sunga. — Vamos ver as dunas? Só o que faltava vir pro Ceará visitar o Porto das Dunas e não ver nenhuma duna de perto. Meio desorientado com a mudança de clima, Joseph balança a cabeça para cima e para baixo e resgata um sorriso que faz seu rosto ficar mais bonito. Fico nas pontas dos pés para saboreá-lo e, incapaz de conter o impulso, pego-lhe a mão, porque também não sei mais desgrudar nossas peles. Saio na frente, saltitando e puxando-o como sempre. A quem estou querendo enganar? Não posso fugir de meus próprios medos, apenas escondê-los. Eu me acalmo e dou direito ao meu amigo de participar da nossa aventura ao meu lado e não atrás de mim. — Eu não sei como você suporta tanta... emoção, Pauline!

— O que quer dizer? Ele olha para os lados enquanto caminhamos calmamente pela areia branquinha e fofa, conferindo se tem alguém perto o bastante para que possa nos ouvir sem querer. — Estou falando de... orgasmos. — Percebo que a palavra dita em voz alta o deixa constrangido. — Se com um só eu quase desfaleço e fico incapacitado por algum tempo, como você consegue ter vários? Eu me curvo para frente, rindo até gastarmos todos nossos milhões, e olha que isso pode não acontecer nessa vida. Ele cora, daquele jeito irresistível que me dá vontade de comê-lo no café da manhã, no almoço e na janta. Aperto seu braço contra meu corpo, fazendo uma força gigantesca para lhe responder sem rir. — Desculpe, Joseph, mas é diferente para homem e para mulher — explico como uma professora competente. — Se você não notou, eu não ejaculo. Bem, pelo menos não todas as vezes, como você. — Não? Então como é que você... goza? — É difícil explicar, mas a sensação deve ser

parecida com a dos homens antes do orgasmo, talvez por isso a gente consiga ter múltiplos. — Mas... Você fica tão molhada! — É lubrificação. Quanto mais excitada eu estiver, mais molhada fico, e se eu gozar, então, aí fico ensopada. Ejaculação feminina é rara, a maioria das mulheres nunca teve um esguicho na vida. Graças a Deus eu já tive, por isso entendo quando homens desmaiam. Ele franze o cenho, contrariado. — Eu não desmaio, mas fico esgotado, é verdade. — Engole em seco, corando com o pensamento. — Não sei o que me dá quando a sensação passa, eu fico querendo mais. Não devia acabar tão depressa. — Se não fosse assim, a gente viveria em estado de êxtase o tempo todo e não faria mais nada da vida! — Começo a rir. Imagina só se todo mundo vivesse tendo um orgasmo? Seria maravilhoso! Tenho certeza de que ninguém seria infeliz. Ele caminha pensativo, talvez refletindo sobre minhas palavras, depois concorda, movendo a cabeça de leve. Esse Joseph tem cada ideia! Ele consegue ser

inocente e safado ao mesmo tempo, uma mistura tão doce quanto perversa. Isso me atiça porque suas reações são imprevisíveis e me enchem de expectativa. Chegamos ao lugar mais incrível que já vi ao vivo. O mar, azul e cristalino, invade os montes de areia, criando um pequeno veio de acesso e formando lagos naturais, rasos e impressionantes. Nem penso duas vezes, começo a correr e saltitar, apressando minhas passadas rumo ao paraíso, deixando meu companheiro para trás. Paro quando meus pés começam a afundar na areia sob a água transparente e me jogo, deitando-me de barriga para cima e sentindo os raios do sol aquecerem minha pele queimada. — Venha, anjo, o que está esperando? — convido, sorridente. Para minha total surpresa, Joseph se atira sobre mim, espirrando água para todo lado, no clima de diversão. Rimos e atiramos montes de areia um no outro, socando dentro das roupas de banho para provocar. Aprontamos a maior meleca da galáxia, agindo feito crianças. Joseph passa a mão no rosto e se suja todo de areia. Gargalho

feito uma insana, mas me aproximo, levando água do mar para ajudá-lo a se limpar. Nossos olhos se encontram, analisando-se enquanto as mãos fazem a tarefa automaticamente e o riso afrouxa, cansa, esgota em si mesmo. — Eu nunca me diverti desse jeito antes, Pauline. Acho que, na verdade, eu tinha uma ideia muito torta sobre diversão. Você me fez enxergar essa verdade. — Eu só te mostrei o quanto ser livre nos torna mais leves. — Eu me sinto tão leve que sou capaz de voar! Abre os braços, jogando a cabeça para trás, e seu rosto é tocado pelo sol em cheio, refletindo-o. Fico maravilhada com a cena. Nunca antes ele me pareceu mais anjo do que neste momento. Posso vislumbrar as asas aberta, gloriosas, cheias de luz e beleza. Como não digo e nem faço nada, emudecida diante de seu gesto, ele volta a me encarar. Seu sorriso dá lugar a uma seriedade repentina, parecida com a minha. A eternidade se passa no minuto em que nos contemplamos, deslumbrados. No instante seguinte, Joseph toma minha boca com

uma gana de enlouquecer. Ele parece incapaz de ficar longe muito tempo, assim como eu. Estamos viciados um no outro. Rolamos pelas dunas submersas, temperando nossos corpos com sal e areia. Por dentro do meu biquíni, estou toda lambuzada do nosso sexo louco e recente, mas isso não me impede de querer mais. Eu que não vou lhe negar quando seu pauzão cresce entre minhas pernas, exigente. A gente se esfrega um no outro com a mesma intensidade e desejo. Tenho vontade de ficar nua e deixar a água salgada tentar apagar essa chama que se acende entre nós. Sintome sufocar em seu beijo e arder em seus braços, trocando minha pele pela sua. Joseph me perguntou como eu suporto tanta emoção, mas orgasmos são passageiros. Quero ver arrancar essa insuportável sensação do meu peito quando ele me toca assim, com tanta liberdade. Começou naquela praia, onde tivemos nossa primeira vez, mas antes, bem antes... Não sei precisar o momento, só sei que algo mudou, tomou forma e criou raízes em mim. Ser livre tem um novo significado depois de Joseph. Ter a liberdade de beijá-lo, tocá-lo, tirar sua roupa,

abraçá-lo, dormir aninhada nele... Meu Deus, eu não quero tentar entender isso, só gosto muito de viver cada um desses momentos. Ser livre a ponto de decidir represar meu próprio desejo e curtir uma pegação louca, sem a pressão de ter que sair correndo de novo para transar, por exemplo, é tão gostoso! Alimenta o tesão, mas abre espaço para mais coisas boas chegarem e se aconchegarem na gente. Pelo menos posso dizer por mim. Não faço ideia do que se passa pela cabeça dele. Meu celular vibra entre nós — está enfiado no meu biquíni —, o que nos traz de volta à realidade. Droga, esqueci o aparelho ligado depois das selfies que tiramos, deve ser alguma notificação de rede social. Olho em torno e percebo que continuamos sozinhos, mas não quero mais ficar aqui. Para mim já deu, é hora de seguirmos um novo destino. Sei lá, me deu um troço ruim agora, acho que falta gente. O que me leva a um pensamento que há um tempo penso em como sondar com Joseph, mas não será agora. Vou esperar o momento certo para abordar o assunto, pois é bem delicado. — Vamos... — começamos a dizer juntos e rimos ao

perceber a coincidência, baixando a cabeça, tímidos. Epa, sem estranhezas entre nós, por favor! — Você ia sugerir pra gente partir, Joseph? É o que estou pensando. — Na verdade, eu ia te falar para entrar no mar comigo. Precisamos limpar essa areia toda e... — O quê? — estimulo-o a continuar, curiosa. Ele ri, nervoso, corando e passando as mãos pelos cabelos. — É que estou excitado de novo, Pauline. — Ergue as sobrancelhas como se pedisse desculpas pela sua insaciedade. Nossa senhora dos pintos duros que não amolecem! Caio na risada, incapaz de lhe negar alívio. Também estou cheia de vontade, parece que esse ciclo nunca acaba, apesar de eu estar um pouco dolorida. O pau do Joseph é muito grande, meu Deus, está acabando comigo em todos os sentidos. Mas não posso mentir, estou ADORANDO essa fúria sexual. Será que eu despertei nele um monstro que só pensa em sexo? Deve ser difícil ser homem e ter um outdoor abaixo da cintura, sinalizando o quanto está

com tesão. Mergulhamos de cabeça depois da arrebentação, em uma área mais profunda do oceano. Quando emergimos, sobrou pouca areia para contar a traquinagem que fizemos nas dunas. Joseph me puxa pelas mãos contra seu peito, trazendo-me para cima, e prende seus lábios nos meus. Com as ondas batendo na cintura, amarro minhas pernas ao redor dele, que baixou a sunga até as coxas porque não aguentava mais o elástico apertando suas bolas — palavras dele! — e nos balançamos ao sabor do mar. Joseph entra em mim depressa, gemendo e me arrancando um gritinho. Um pouco de ardência se mistura ao prazer, mas o orgasmo sempre compensa os percalços pelo caminho. Aperto seu pescoço, me deixando levar pelo seu ritmo louco, apressado, ensandecido. Ele agarra com força meu traseiro, seus dedos criando veios em minha carne, soletrando um pedido silente que eu atendo, ofegante. Meu peito se preenche daquela coisa boa que não para de aparecer por aqui, então eu me deixo levar pelas batidas fortes de seu quadril contra o meu, traduzindo meu

êxtase em um gemido. Nunca alguém significou tantas coisas para mim. Ouvir-me chegar ao ápice faz com que ele se entregue também, sussurrando palavras incoerentes ao infinito. Eu me agarro a ele, enfiando minha língua em sua boca em um beijo que diz o que não sei dizer. Cansados, mas sorridentes e mais unidos do que nunca, deixamos a praia, o parque aquático e o estado do Ceará no próximo voo comercial de volta para Brasília. Durmo a viagem toda, abandonando Joseph com seu pavor de avião. Mas é que eu não tenho condições físicas de continuar acordada por mais tempo. Esgotei todas as minhas forças e preciso recarregar as baterias. Esse homem está exigindo muito de mim sexualmente. Quem diria, hein? Benzadeus! — Pauline, chegamos! — Joseph me acorda já no Aeroporto Internacional Juscelino Kubistschek. — Finalmente em casa! — exclamo sem querer, desejando nossa cama sob meu corpo moído. Ele deixa escapar um riso sem graça enquanto pegamos nossa bagagem de mão e seguimos os outros passageiros pelo corredor estreito.

— Cadê aquela sua animação toda? Parece que trocamos os papéis! Não posso discordar dele. Essa montanha-russa de emoções está me exaurindo mais rapidamente do que eu esperava e esses mal-estares repentinos estão se tornando uma rotina um pouco irritante. Eu quero manter minha alegria para sempre, será que é pedir muito? Não posso perder isso, esse negócio de equilíbrio não deve mudar quem sou, senão tem alguma coisa errada. — Só preciso dormir melhor, amanhã estarei tinindo e pronta para outra, você vai ver! Tento parecer animada e acho que consigo enganá-lo, ou a mim mesma, sei lá. Não tenho certeza de que o que sinto seja apenas exaustão. Não sei explicar e isso é estranho. Resolvo dar uma olhada nas minhas redes sociais enquanto vamos de táxi para a residência que alugamos. Nossas fotos no tobogã fizeram o maior sucesso! Leio todos os comentários, mesmo que não dê conta de respondê-los. São muitos! O Facebook me avisa que Laurene Bezerra comentou minha foto. Meu coração dispara, chega a me dar um

tremelique. Laurene, aquela Laurene, a mesma LAURENE que estou pensando? Eu me recuso a pensar “ex de Joseph”, não quero nem mesmo imaginar os dois em uma frase só. NÃO PODE SER A MESMA! Clico na notificação para conferir. Suas palavras me dão nojo, raiva e uma vontade doida de quebrar o braço dela. Eu devia ter feito isso quando tive a chance! “VACA OFERECIDA! Você pode trepar com meu homem o quanto quiser, mas é comigo que ele vai se casar e sabe por que eu tenho certeza disso? Porque ele está confuso, mas não é idiota e sabe separar uma aventura sexual de amor verdadeiro. Joseph ME AMA e vai voltar para mim quando estiver pronto. ESCREVE O QUE ESTOU DIZENDO, DOIDA! Nenhum dinheiro do mundo compra um homem como ele, nem mesmo um prêmio milionário. Tenha uma vida infeliz, vadia!” Vou ao perfil dela, amplio a foto principal e confirmo que se trata da mesma cara de modelo de revista. Meu coração erra uma batida. Ela é tão linda por fora... Para,

Pauline, você sabe o quanto ela é feia por dentro, chega a feder! É verdade, horrorosa! Volto para meu post e vejo a foto da gente junto, tão linda que chega a ser um crime suas ofensas gratuitas. Que foi, sua metida, não consegue ver a felicidade dos outros, não? Releio a mensagem tantas vezes que decoro. As palavras “casar” e “amor verdadeiro” mexem comigo e me tiram o fôlego. Será verdade? Por que eu não seria uma mulher para casar? Só por ser liberal? Isso é preconceito! Tudo bem que nunca pensei em me casar de papel passado, mas isso não quer dizer que eu tenha aversão. Deve dar para ter um sem perder o outro, não? Meu Deus, o que essa louca fez comigo! Para com isso, agora! Excluo o comentário maldito e desativo a Internet no exato momento em que o carro estaciona no nosso endereço. — Ficou quieta e não soltou mil gargalhadas de alegria — diz Joseph enquanto abre o portão da frente. — O que aconteceu? Não havia nenhum fã louco dessa vez? Está mais para arqui-inimiga, porém me recuso a tocar no nome daquelazinha com ele. Vou fingir que nada

aconteceu, é isso. Joseph não pode se abalar com esse comentário maldoso, muito menos ficar pensando na Laurene. Não quero que ele entre na deprê! — Canseira, longa viagem, muito sexo... — Sorrio mais abertamente desta vez. — Não está fácil viajar com um ninfomaníaco, viu? Minha piada o faz corar daquele jeito sexy e engraçado ao mesmo tempo. — Desculpe, eu... — Não ouse se desculpar, Joseph, estou brincando! — Só ele mesmo para me trazer de volta dos mortos. Pauline foi ressuscitada! Dou um abraço e um beijo nele, ansiando por um banho quente. Ele me deixa ir primeiro e uso a banheira demoradamente. Tiro até uns cochilos. Quando finalmente volto para o quarto, vejo que Joseph pediu comida, e bota comida nisso, dá para alimentar um orfanato inteiro. Eu cansada e ele faminto, somos uma dupla e tanto! — Até que enfim, estava achando que você tinha se afogado debaixo do chuveiro — brinca, sorrindo aquele sorriso de menino. — Já ia te chamar para jantar.

O cheiro atiça minhas entranhas. Sabe, gente não vive só de sexo, precisa se alimentar também. Joseph vai tomar uma ducha rápida enquanto ataco o máximo de comida que consigo, em uma velocidade assustadora. Quando ele volta, estou estirada na cama, olhando para TV, mas pensando nas fotos que vi no perfil da Laurene. Joseph parecia tão à vontade com a loira. É terrível pensar no quanto eles combinam juntos. Também, ele conhece a garota a vida toda, mas fica até chato conviver tanto tempo com a mesma pessoa e... — Pauline, planeta Terra chamando! — Oi? — Assusto-me com o tom de voz de Joseph. Por que ele está gritando? — Estou falando sozinho há um tempão e, definitivamente, não tenho esse hábito. Onde você esteve, em Marte? Joseph, o mais novo piadista. Anjo, você não vai querer saber a resposta! — Desculpe, Joseph, acho que estou dormindo sentada. Seu olhar de pesar me comove.

— Deita logo, doidinha. Se você quer mesmo descer pelo Brasil de conversível, vai ter que estar bem descansada para dirigir. — Verdade. Boa noite, meu anjo. Deito e durmo igual a uma pedra. Nem parece que estive com caraminholas na cabeça. Acordo pela manhã com o pau duro de Joseph espetando minha bunda. Ah! Lá vamos nós de novo! Eu me remexo, espreguiçando devagar, o que o desperta totalmente. Seu abraço quente me acolhe e eu me deixo levar quando me toca de maneira ousada, buscando minha pele sempre nua sob o lençol. Coitado, deve ser difícil mesmo dormir ao meu lado sem ficar excitado. Preguiçosamente, seus dedos escorregam pelos meus seios, depois pela minha vulva, melando-se com minha lubrificação natural. Jogo o braço para trás e busco seu pau que, para minha surpresa, não está coberto por nada. Saber que está peladão me acende, mas não apresso as coisas. Eu o excito enquanto ele me estimula, até que começamos a resfolegar. Eu mordendo o lábio e ele me mordendo. Esse homem se tornou tão selvagem! Mas é

com calma e cadência gradativa que ele se enfia em mim, me preenchendo, me possuindo, me fazendo delirar até o último segundo. Acho fofo que, mesmo quase ultrapassando seu próprio limite, Joseph me espere gozar primeiro. A rotina se repete, trazendo de volta para mim a animação da descoberta: refeição, malas e estrada. Joseph e eu vamos revezar na direção, e eu começo dirigindo. Prefiro a capota baixada, o vento bagunçando meus cabelos, do jeito que gosto de ser: livre! Estou precisando me reconectar com minha essência e o conversível com certeza vai me ajudar com isso. Cantamos nossa playlist, empolgados, berrando, despertos e prontos para a mais nova aventura. — Joseph! — grito acima do som do carro, me lembrando de abordar “aquele” assunto. — Sim, Pauline. — Está calmo e com um sorrisão, usando óculos escuros e as lentes que lhe dei. — Eu estava pensando, aproveitando que estamos descendo... — Sim...?

— A gente podia passar por São Paulo em algum momento, quero te mostrar minha cidade natal. — Mas é claro! Eu topo! Sua resposta rápida me faz desembuchar de uma vez. — Quero te levar para uma casa de swing que sou frequentadora assídua e... — Pau-li-ne! — me repreende de maneira firme. Franzo o cenho, decepcionada com sua recusa imediata, como se a ideia fosse absurda demais para ele. Mas não vou ficar lembrando-o de sua promessa. Poxa vida, ele tem que saber se permitir. Para ser sincera, eu esperava que ele simplesmente quisesse ir. — O quê? Vai me dizer que não ficou curioso e com vontade de fazer um ménage à trois? — Er... — gagueja e para. Eu sabia! Você não me escapa, Joseph! — É tudo muito novo para mim, Pauline. Eu conheço você, por isso entreguei minha virgindade sem medo. Mas não me vejo fazendo sexo com uma pessoa que não conheço. É tão estranho! Caio na risada com seu desespero ao se explicar. — Para, Joseph, você beijou a Andrea, esqueceu? —

Ele abre a boca para protestar, vejo pelo canto de olho, e continuo, calando-o. — Meu anjo, você sabe que eu gosto de mulher também. A gente pode dividir uma, eu estarei contigo o tempo todo. Queria muito te proporcionar essa experiência, você não deve transar apenas com uma pessoa na vida, mas só se você realmente quiser. Só peço para que não tente mentir para mim, por favor. Desejo tem tudo a ver com sinceridade. Precisamos agir de acordo com nossas vontades. Ele fica em silêncio por tanto tempo que penso que talvez tenha forçado demais a barra, justo agora que eu tinha prometido não fazer mais isso. Ah, que se dane, eu estou precisando fazer umas coisas loucas e também prometi a mim mesma tirar todas as suas virgindades e realizar todas as suas fantasias. Joseph suspira, demonstrando que vai falar. — Não sei, mas prometo pensar a respeito — responde, finalmente. — Ah, com esse fogo todo que descobrimos e esse seu pau maravilhoso, Joseph, você vai literalmente entrar no paraíso. Vai por mim!

Ele consegue me sorrir de volta, mesmo que seja um sorriso sem força. Desisto de insistir mais nesse assunto. Foco minha atenção na estrada e nas orientações do GPS, rumo a um estado muito lindo, que sempre tive vontade de conhecer, mas nunca tive oportunidade. O que será que vou descobrir sobre mim mesma por lá?

Capítulo 21

Joseph

Passando por Goiânia, Goiás Pauline está cantando sozinha há um tempão. Deixei de acompanhá-la quando meus pensamentos se tornaram um verdadeiro redemoinho, com todas as informações dos últimos dias se contorcendo em uma dança maluca e sem sentido. Eu devo ser ruim demais para a coisa toda, com certeza. Tento pensar no que posso ter errado com ela, mas a verdade nua e crua é uma só: sou um zero à esquerda quando o assunto é sexo. Sempre fui assim sendo virgem, não é agora que vai mudar. Onde estava com a cabeça por imaginar que Pauline se satisfazia comigo? É óbvio que não! Prova disso é o fato de estar à procura de outra pessoa para compartilhar os nossos momentos de

intimidade. Morro de vergonha só de pensar um pouco mais em todas as vezes que transamos. Admito que o ato em si vem melhorando gradativamente, significa que devo estar longe pra burro do que ela considera ideal. Sei que tenta me elogiar, me colocar para cima e fazer com que eu me sinta à vontade, mas Pauline é assim, uma pessoa maravilhosa que quer ver os outros bem. Ela nunca me diria na cara dura que sou ruim de cama, ainda mais depois de ter tirado a minha virgindade. A coitada bem que tenta transpor o muro de timidez que nos separa como óleo e água, mas eu sou incorrigível. Ainda não me livrei das dúvidas, dos medos e também da minha capacidade de ficar vermelho como um pimentão. Sou um idiota. Perto dela, então, sou um idiota com força. — No que está pensando, anjo? — Pauline berra para o vento que lhe assanha os cabelos. Estamos no meio da BR, seguindo na velocidade que o seu coração deseja e os meus nervos tentam ignorar. — Por que está tão corado? Ah, já sei! Está pensando em sexo DE NOVO? — Gargalha alto e acho que a cor do meu rosto não melhora

nada. — A gente pode fazer uma pausa? — peço, mudando de assunto. Estou ficando meio enjoado e ainda temos muito chão para seguir até Bonito, no Mato Grosso do Sul. Segundo ela, o nome faz jus ao lugar. — Já estamos em Goiânia. — Aponto para uma placa. — Sim, claro, estou cheia de fome! — Mostra um sorriso maravilhoso, que retribuo porque às vezes simplesmente não consigo não sorrir para ela. No entanto, por dentro, estou fervendo, morto de vergonha e me sentindo a pior pessoa do planeta. — Também tenho que tomar meu anticoncepcional! Não me deixe esquecer, Joseph, do contrário vamos encher esse Porsche de criancinhas choronas. Não respondo nada. Por um segundo, imagino ter filhos com Pauline, mas espanto o pensamento depressa. Que loucura seria! Pegamos o primeiro acesso à Goiânia e paramos em uma churrascaria na beira da estrada. Os clientes e funcionários do local não ignoram o Porsche, todos nos olham como se fôssemos celebridades. Fecho a capota para não deixar o veículo tão vulnerável e

entramos no estabelecimento sob olhares curiosos. Fazemos nossos pedidos e logo Pauline agarra o celular para ver suas mais recentes notificações, claro, depois de tomar o remédio. Tento olhar para qualquer canto, menos para ela, pois não consigo observá-la sem me sentir um inútil. Eu devia tê-la feito gozar mais vezes. Devia ser mais carinhoso, ou, sei lá, mais agressivo. O pior de tudo é não saber do que ela gosta de verdade. — Meu Deus, o meu segundo perfil acabou de lotar! — ela praticamente berra, chamando a atenção de alguns clientes mais próximos. Nem me dou o trabalho de mandála falar mais baixo, nunca adianta mesmo. — Alguns jornalistas entraram em contato por e-mail, não é o máximo? Ai, eu vou dar entrevistas! Nem acredito! Solto um longo suspiro e ela finalmente desvia os olhos do celular para me encarar de perto. A expressão se modifica muito rápido, agora tem uma ruga de preocupação em sua testa. Lá se vai sua empolgação. Droga, a culpa é toda minha. Acho que Pauline estaria melhor se não fosse eu em sua cola o tempo todo. Se não consigo satisfazê-la na cama, imagina fora dela?

— Tudo bem, tudo bem, desculpa! Vou largar o celular! — avisa e deposita o aparelho ao lado do prato vazio. — Estou tão ansiosa para conhecer Bonito! Pena que ainda estamos muito longe. — Não se preocupe comigo, Pauline, pode ficar no celular. Inclusive... — Retiro o meu próprio do bolso da calça jeans. — Faz um tempo que não dou notícias à minha mãe. Ela me analisa por alguns segundos, depois não resiste e volta a verificar o crescimento de sua fama. Não sei aonde isso tudo vai nos levar. Temo que Pauline se decepcione de alguma forma. A fama tem um preço muito alto que em algum momento é cobrado. Mais uma vez, procuro não pensar muito nas consequências e vejo um monte de mensagens de texto chegar de uma só vez. A maioria é dos meus pais, outras são da Laurene. Meu coração começa a acelerar e me sinto sufocado. A vida que eu levava antes da viagem sempre volta para me assombrar. Quero fingir que ela nunca existiu, mas não posso. Ainda sou parte dela, mesmo não querendo mais ser. Não que eu não ame os meus pais. Estou falando

sobre Laurene. Escrevo uma mensagem longa para a minha mãe e uma bem curtinha para a minha ex-noiva, só avisando que estou bem e que não precisa se preocupar comigo. Não gosto da ideia de ser o motivo da preocupação de alguém. Sei que meus pais estão preocupados, mas não parecem desesperados nas mensagens que recebi, não como a Laurene demonstrou estar. Meu celular começa a tocar e o nome dela pisca na tela inicial. Pauline me olha ao ouvir o toque irritante. Por alguns instantes, não sei o que fazer. Quero desligar tudo e esquecer, mas uma parte de mim está bem curiosa. — É a sua mãe? — Pauline pergunta, talvez mais curiosa do que eu. — Não... Hum... Com licença. — Eu me levanto calmamente e sigo até uma área mais aberta, perto da saída do restaurante. Ainda penso mais uma vez em não atender, porém, se já estou aqui, é porque sei o que tenho que fazê-lo. — Alô? — Joseph! — Laurene grita, e sua voz me causa arrepios. — Joseph, não desliga, por favor!

— Não vou desligar. — Observo o estacionamento. Aproveito e confiro se o Porsche ainda está intacto. Andar com um carro desses me dá nos nervos. — Fale o que quer. — O que pensa que está fazendo, Joseph? Eu te conheço, sô, você não é esse tipo de cara. — O desespero de Laurene é palpável. Meu estômago se contorce ao lembrar que ela costumava ser o alvo de todo o meu apreço. — Não acredito que me trocou por causa de dinheiro. Que absurdo! — O quê? — murmuro, sem saber se entendi direito. Sua acusação é ultrajante. — Essa mulher é uma louca, Joseph. Conheço desse tipinho. Ela está te usando, depois vai te jogar fora. — Olho para trás, para onde deixei minha companheira de viagem, e lá está ela, observando cada um de meus movimentos. Nossos olhares se cruzam. — Ela vai se cansar de você, meu amor... Não caia nessa armadilha. Eu não sei direito como Laurene descobriu sobre Pauline, mas decido não parar para perguntar. Sei que minha ex-noiva é adepta às redes sociais, e que nesse

mundo da Internet ninguém consegue se esconder por muito tempo. Laurene pode acompanhar as publicações de minha parceira de viagem com muita facilidade. Não sei que tipo de informação está sendo compartilhada, mas deve haver muitas fotos minhas com ela, para qualquer pessoa ver. Essa exposição toda é uma grande porcaria. — O que você sabe sobre ela, Laurene? — questiono, desviando meu rosto de uma vez por todas do alvo de nossa conversa. — Por que a julga dessa forma? — É uma aproveitadora como qualquer outra, meu amor. Ela se acha só porque tem dinheiro. Com certeza ficou encantada com a sua beleza e bondade. — Sua voz soa doce, melosa, como nos velhos tempos. — Essa mulher vai te desvirtuar e depois partir para outra. Ela é rica e famosa, tem o mundo inteiro aos pés dela, Joseph. Você é um homem de Deus, merece mais do que essa coisinha. Fico tão nervoso que não sei o que responder. Abro a boca e gaguejo, depois fecho porque sinto meus olhos marejando. Laurene não pode estar certa com relação à Pauline. Eu a conheço. Estamos juntos há pouco tempo,

mas sei que é uma pessoa boa, incapaz de fazer mal a alguém. No entanto, também sei que é uma mulher que não se prende a nada, cultua a liberdade plena e não admite que qualquer coisa se meta em seu caminho. É muito fácil que se canse de mim, principalmente eu sendo esse idiota ruim de cama. Mesmo que ela não queira me magoar nessa história toda, é quase certo que vou sair machucado em algum momento. — Não estou pedindo para você voltar pra mim, Joseph — continua, já que permaneço calado, perturbado pelas novas reflexões que me colocou na cabeça. — Só peço para que volte pra casa. Itaú é o seu lar, sempre foi. Lembra-se de quando me dizia que nunca sairia daqui, que ama este lugar? — Le-lembro — sussurro. — Sua mãe está desesperada, Joseph. Ela chora todos os dias, busca notícias suas a todo instante. Estou te acompanhando pelo Facebook dessa vad... dessa mulher. — Apoio um braço em uma viga de madeira e solto um suspiro. Fecho os olhos com força, totalmente confuso. — É assim que ficamos sabendo se você está bem, mas temo

pela saúde dela. Seu pai anda muito nervoso também! — Como eles estão? — pergunto de um jeito fraco, quase como se a pergunta fosse direcionada somente a mim. Não dá para me sentir pior do que isso. — Péssimos, meu lindo — Laurene responde suavemente, em tom de consolo. — Estão desesperados, como eu. Volta pra casa, Joseph. Por tudo o que é mais sagrado, volte a ser o filho bom e gentil que você sempre foi. Reabro os olhos com uma nova decisão preenchendo o meu coração, embora eu também sinta que ele está se partindo dolorosamente. Estou sufocado e extremamente triste comigo mesmo. Não posso deixar de fazer o que é certo, não mais. Que tipo de egoísmo foi esse que tomou conta de mim? Quem já viu, deixar os pais assim desse jeito, sem uma explicação, sem uma conversa? Eu perdi o juízo. Não, não culpo Pauline, culpo a minha própria insensatez. — Joseph? Ainda está aí? — Laurene chama, percebo que está chorando. — Sim. Eu... estou chegando — falo meio sem

pensar, com a voz rouca. Clareio a garganta. — Avise aos meus pais que devo chegar em breve, por favor. — Eu sabia que você não me decepcionaria! — grita em plena felicidade. — Sabia! Você jamais vai deixar de ser esse homem incrível. Eu te amo tanto, Joseph, tanto... — Laurene... — Eu sei, precisamos conversar com calma, direito. Não se preocupe, não vou forçar a barra. O importante é que seus pais fiquem tranquilos. — Tudo bem. — Lambo os lábios e solto mais um longo suspiro. — Até breve. — Até! Desligo e caminho vagarosamente até a mesa onde Pauline me espera. Eu não sei como vou lhe dizer o que preciso. Percebo que nossas bebidas já chegaram, por isso tomo um gole de refrigerante antes mesmo de olhá-la de frente. Tenho que ter muita coragem agora. Pauline vai ficar possessa, e eu não sei definir direito como vou me sentir quando a ficha finalmente cair. Não consigo acreditar que vou deixá-la sozinha. — Meu Deus, Joseph, não me esconda nada —

Pauline choraminga, meio descontrolada. Eu a encaro fixamente. Não consigo compreender o que sinto quando nossos olhos se encontram desse jeito. — O que aconteceu? Foi a Laurene que te ligou? Aquiesço, balançando a cabeça para cima e para baixo. Pauline faz uma expressão que mistura náusea e extrema irritação. — Pauline, eu... — Inspiro bastante ar e solto de uma vez: — Preciso voltar pra Itaú. Ela continua me olhando sem esboçar qualquer reação. Tento segurar sua mão por sobre a mesa, mas Pauline se afasta bruscamente. Seus olhos começam a piscar bastante, e ela parece ter dificuldade para respirar. — Por quê? — questiona baixinho, com a voz sufocada. A pergunta parece ter partido de suas entranhas. — Os meus pais... estão muito preocupados. Preciso explicar o que está acontecendo. — Ergo os ombros e abro a boca, mas a fecho ao percebê-la enxugando uma lágrima. — Não faz isso, não chora, eu preciso con... — Não foram os seus pais que te ligaram! — brada, desta vez muito chateada.

— Na-Não, foi... Laurene. Pauline me olha por segundos intermináveis. Balança a cabeça, concordando. — Tudo bem, eu já entendi tudo. Certo. Você faz suas escolhas. — Pauline... — Não, tudo bem, tudo bem, Joseph. É sério. — Sorri, mas sei que não é um sorriso sincero. Ela já me ofereceu muitos, sei diferenciá-los. — Você saiu tão de repente, não é? Todo mundo deve estar meio doido, sem saber o que pensar desse seu sumiço. — É... Eu... tenho que resolver essa situação. — Sim, é isso. — Ela sorri de novo. Sinceramente, detesto de todo o meu coração esse sorriso falso. Nossa comida finalmente chega, mas não sinto a menor fome. Pelo visto ela também não está disposta a comer. Damos algumas garfadas, enrolando o alimento dentro do prato. Caímos em um silêncio profundo, incômodo e muito triste. Estou arrasado, tentando entender como as coisas saíram do controle tão depressa. Eu sei que tenho que ir embora, mas a verdade é que não quero

ir. Por outro lado, Laurene abriu os meus olhos. Talvez seja melhor nos separarmos o quanto antes. Pauline e eu somos muito diferentes. — Você pode me deixar em uma rodoviária? — pergunto após o almoço mais silencioso que já tivemos. Espero pela sua reclamação, que não chega. — Claro... Pauline está aérea, muito quieta para o meu gosto. Eu preferia que ela gritasse, esperneasse, sei lá, qualquer coisa que me fizesse mudar de ideia. Mas ela não faz. Em vez disso, pagamos a conta e seguimos no Porsche rumo à rodoviária de Goiânia. Desço do veículo disposto a não levar nada comigo além da carteira e da roupa que estou no corpo. O caminho até Itaú é longo, com muita sorte devo chegar só à noite. Pauline permanece sentada no banco do motorista, olhando para frente, talvez decidindo se continua sua jornada sem me dizer adeus. — Eu... Pauline... Obrigado e... — Prometa que vai voltar — rosna de repente, encarando-me com olhos agressivos. — Prometa, Joseph. Eu não vou te dizer adeus. Não importa de quanto tempo

precise, prometa que vai saber fazer o que é certo, que vai continuar se permitindo e que não vai me fazer rodar esse país sem você. Pulo o Porsche em um movimento maluco, impensado. Agarro-a com força, retirando o seu cinto de segurança e a puxando para mim. Pauline escorre até se sentar em meu colo, as pernas abertas ao meu redor. Tenho consciência de que estamos sendo vistos pelas pessoas que entram e saem da rodoviária, mas, pela primeira vez, não me importo com nada além do cheiro dessa mulher em mim. Sem dizer palavra, beijo-lhe a boca com gana. Puxo seus cabelos para obrigá-la a acompanhar os meus movimentos. Nossas línguas sambam uma na outra, fico excitado apenas com um beijo. Se eu pudesse fazê-la minha aqui mesmo, faria sem pensar duas vezes. Talvez um dia eu me canse de sentir seu corpo no meu, mas esse dia não é hoje e desconfio que ele não chegue pelos próximos mil anos. — Prometo — selo a minha palavra com mais um beijo ardente. — Se cuide. Eu vou voltar, Pauline, apenas preciso resolver isso. Não vou pedir para que me espere,

só saiba que em breve estaremos juntos de novo. Eu prometo. Ela sai de cima de mim aos pouquinhos, como quem não quer se distanciar de verdade. Cogito a ideia de levála comigo, mas acho melhor não. Isso é uma coisa que preciso fazer sozinho, além de que não quero chateá-la ou impedir que continue se divertindo. A conversa que terei com meus pais vai ser meio tensa, mas muito sincera, totalmente aberta. Preciso conversar com Laurene também, infelizmente é inevitável um esclarecimento entre nós. Diferente de como entrei, saio do carro usando a porta. Dou uma última olhada em Pauline, que está apreensiva, porém muito mais conformada. Aceno um “tchau” e ela acena de volta, sorrindo. Viro as costas sem ousar olhar para trás. Ouço o ronco do motor até ele se distanciar e eu não poder mais escutá-lo. Fico com a maior sensação de vazio e desolação que já senti na vida. Consigo uma passagem de Goiânia para Patrocínio, em Minas Gerais, a cidade mais perto de Itaú de Minas e com o horário de saída mais próximo. São seis longas horas de

viagem, ou seja, seis horas intermináveis para pensar e me martirizar com cada um dos meus pensamentos. Não sei calcular quantas vezes durante a viagem sinto o desejo de ligar para Pauline, pedindo para me encontrar em alguma cidade perdida qualquer. Toda vez que penso em meus pais, no entanto, desisto dessa loucura. Não posso continuar sendo um filho egoísta. Também seria muito imbecil se não pensasse direito no que Laurene me falou e, quanto mais me distancio de Pauline, com mais clareza penso. Tenho certeza absoluta de que fiz a coisa certa. Eu não devia ter prometido a Pauline que voltaria, foi no calor do momento, no ardor da excitação. A verdade é que tudo pode acontecer, inclusive meus pais me convencerem a ficar. Ou ela encontrar outro parceiro de viagem, um cara mais experiente e menos tímido, que combine mais com sua personalidade. De qualquer forma, eu tenho o número dela e posso mantê-la informada sobre minhas decisões, assim como ela pode me ligar a qualquer instante me pedindo para não voltar. A ideia me deixa cabisbaixo durante horas. Não consigo pensar em ir a lugar algum sem Pauline. Tenho um

dinheirão na conta e nenhuma esperança guardada para mim. É claro que ela vai me trocar facilmente. Ela é do tipo que consegue fazer amizade em um piscar de olhos, todos se encantam com seu jeito doidinho de ser. Talvez eu nunca mais a veja de novo. Tudo bem, já é certo que jamais a esquecerei. Às vezes não importa se o que foi bom durou pouco, a aprendizagem e as lembranças são eternas, portanto não há com o que me preocupar. Pauline teve de mim tudo o que eu podia lhe oferecer. Não me arrependo de ter caído de cabeça nessa aventura, não me arrependo de ter deixado uma grande parte de mim com ela. O engraçado é que eu me sinto muito mais completo dessa forma. Chego à cidade de Patrocínio perto das sete da noite. Espero mais alguns minutos até conseguir outra passagem, desta vez para Passos. Sou obrigado a aturar por mais algumas longas horas a minha triste companhia. A saudade quase me enlouquece, por isso começo a fazer muitas orações até me sentir mais calmo. Pego um ônibus mais simples para Itaú de Minas e quase não acredito que consegui chegar antes da meia-noite. Pauline não me

telefonou nem mandou mensagem. Decido lhe avisar que cheguei bem, por isso lhe envio uma. Não sou respondido. Está tarde, talvez ela esteja dormindo. Ou tenha caído na noite, à procura de diversão. Não me surpreende. Como moro perto do ponto de ônibus onde desci, vou andando até a minha casa, sentindo o cheiro característico do meu lar. O clima está bom, bem frio, diferentemente das cidades que visitamos no Nordeste. Que saudade de Itaú! Amo essa cidade, não importa para onde eu vá. Foi aqui que nasci e cresci, que vivi muito bem durante vinte e seis anos. Tento esquecer o vazio no meu peito, preenchendo-o com a alegria de estar de volta. Até consigo sorrir e me sentir animado, pronto para encarar os meus pais. Eles merecem a verdade. Bato a porta porque saí de casa sem as chaves. Não levei coisa alguma além da roupa do corpo, e aqui estou eu, voltando do mesmo jeito, como se nada tivesse mudado. Mas muita coisa mudou, só eu sei o quanto sou outro homem. Minha mãe abre a porta e pula ao meu encontro, dando-me um abraço apertado. — Oh, meu filho! Nunca mais faça isso com a sua

mãe! — chora em meus braços, com ar desesperado. Meu pai se aproxima e me abraça também. Ao contrário dela, está calmo. — Por onde andou, meu filho? — Por aí, mãe. — Dou de ombros. Nem eu sei direito por onde andei. Foram tantos lugares diferentes, tantas emoções vivenciadas. Eles me fazem entrar em casa e me sentam no sofá como se eu fosse um inválido. Eu me deixo levar porque ainda estou meio aéreo, sem acreditar que voltei para casa. Nada faz muito sentido. Fico confuso ao perceber que não estou tão feliz quanto deveria. As paredes me parecem estranhas, bem como os móveis e até mesmo os meus pais. Mal se passaram duas semanas e eu já não me acho pertencente a este lugar? Não pode ser possível! — Você nos deve uma boa explicação, mocinho! — Minha mãe aponta para mim de maneira acusatória. Suas ordens e regras já não me apetecem, com toda sinceridade do mundo. — Sentem-se, preciso dizer uma coisa importante — digo e aceno para o sofá largo. Eles me obedecem com pressa, atentos a mim.

— E aquela mulher amaldiçoada, onde está? — Reviro os olhos diante da acusação da minha mãe. — Querida, deixe que ele fale de uma vez — meu pai intercede, e agradeço mentalmente. — Já disse que essas aventuras são normais. Joseph é um homem feito e... — Ah, não vem com essa história, sô! Não tem nada de normal! Pare de protegê-lo. — Não estou protegendo, só acho que... — Parem, pelo amor de Deus, e me deixem falar logo! — Eu me adianto antes que eles comecem a brigar por minha causa. — Desembucha, filho! — Ela olha para mim ansiosamente. — Por favor, me diga que largou aquela pecadora e que vai voltar para Cristo. Você precisa se confessar urgentemente. Amanhã vou te levar à missa e... — Mãe, pare! — Esfrego a testa, impaciente. Eu sei que preciso me confessar, mas não é o momento certo. Não estou arrependido ainda. — Prestem atenção no que vou dizer: eu ganhei na Hiper-Sena. Dois pares de olhos curiosos são arregalados automaticamente.

— O quê? — mamãe grita. — Diacho! — Meu pai se ergue do sofá, estupefato. — Conta essa história direito, sô! Ganhou na loteria? Quando? Como? — Você está mentindo, não é? Está inventando essa história para viver do dinheiro daquela libidinosa. Pensa que não sei que ela é milionária? — Minha mãe sempre teve a capacidade de criar as mais loucas histórias. Ela bem que podia ser escritora, tem a imaginação muito fértil, principalmente para fofocas. — Você se encantou pelo dinheiro, meu filho. Isso não se faz! — Estou falando sério, eu ganhei na Hiper-Sena junto com Pauline. Estou milionário agora. Olhem! — Retiro o meu cartão de crédito sem limites da carteira e o entrego ao meu pai. Ele analisa o objeto e assobia. — Uai, sô... É verdade, mulher! — Me dê isto aqui! — Mamãe rouba o cartão das mãos do meu pai. — Foi aquela meretriz que te deu, não foi? Joseph, meu filho, eu sempre te dei tudo o que você quis! Como pôde se deixar levar assim por uma sedutora qualquer?

— Não chame Pauline desse jeito, mãe! — grito, irritado. — Ela não é nada do que pensa. Não foi ela quem me deu isso, foi o gerente do banco. Acreditem em mim! Marina está de prova. — Ai, Jesus Cristo, você meteu sua irmã nessa confusão? — mamãe se desespera. Já estou atingindo o auge da impaciência. — Por que não nos contou, Joseph? — meu pai, o ser mais centrado que conheço, pergunta. Vejo chateação e decepção em seu olhar, então passo a me sentir realmente mal. — Nós temos tantas dívidas... Quando pretendia nos dizer? — Vocês disseram que não queriam o dinheiro. — Dou de ombros. — Quando dissemos isso? — Durante o jantar, no dia do resultado. Vocês disseram que esse dinheiro não traria felicidade. — E não traz mesmo! — Minha mãe se levanta e choraminga. — Olha para você, só te trouxe confusão até agora. Olhe para nós, estamos desesperados! — Tudo bem, eu fiz uma escolha precipitada, mas fui

embora porque não aguentava mais ficar aqui. Precisava dar um tempo para não enlouquecer. Mamãe ignora minhas palavras e não se sei fico aliviado ou temeroso. — Todo dia Laurene aparece aqui aos prantos atrás de você. — Ela se ajoelha diante de mim, com lágrimas nos olhos. — Não está certo, meu filho, esse dinheiro é uma maldição. Livre-se dele! — Ficou maluca, mulher? — Papai volta a se sentar no sofá, ainda bem surpreso com a novidade. — Estamos falando de milhões! — Não quero saber! De uma coisa não posso ter dúvida, minha mãe é uma pessoa humilde e desligada dos bens materiais. Ela sempre trabalhou muito durante sua vida, nunca acreditou que dinheiro viesse fácil. — Não vou me desfazer desse dinheiro. É meu. Ganhei de forma limpa e, sim, vou realizar muitas doações — explico com calma. — Também vou ajudá-los com a despesa e com o que precisarem. — Você não entende, Joseph? Esse dinheiro já

começou nos trazendo problemas. Acha que pode acumular riquezas sem sofrer qualquer consequência? É impossível, sô. Ninguém pode acumular tanto, meu filho. — O IPTU está atrasado... — papai murmura como se falasse consigo mesmo. — Tem cinco parcelas do carro atrasadas também. — Não se preocupe, pai, vou transferir uma quantia generosa para sua conta amanhã mesmo. Ele sorri para mim e eu sorrio de volta. Ganhei um aliado forte. — Vocês estão loucos! — minha mãe grita alto. — Minha Nossa Senhora, estamos ricos! — meu pai se anima, acho que a ficha está caindo só agora. — Cheios da grana! Vou abrir aquela cachaça da boa que eu estava guardando! — Nada de cachaça! Meu pai ignora os surtos dela e se perde na cozinha. Evito uma gargalhada enquanto minha mãe me olha de um jeito estranho. De repente, ela pega minhas mãos e me observa com seriedade. Eu sentia muita falta de seu toque, apesar de tudo. Minha mãe me ama incondicionalmente,

não importa quantas merdas eu faça, não que eu tivesse feito outras além da que me levou para bem longe. — Filho... Presta atenção no que vou te dizer. — Aquiesço, dando-lhe atenção total. Eu nunca ignorei o que ela me falou durante a vida toda. Posso escutá-la mais uma vez, sem problema algum. — A vida é muito complicada. A gente pensa que é uma coisa, mas uma coisa é outra coisa, sô. — Faço uma careta. Hã? — Nem tudo que reluz é ouro. — Não entendi direito... — O dinheiro muda as pessoas, meu filho. Chama gente ruim pra perto, gente mentirosa que engana os outros. Dinheiro demais é maldição. — Sua voz está tão séria e comedida que estremeço dos pés à cabeça. Isso foi mais ou menos o que falei para Pauline, não foi? Sinal de que minha mãe só pode estar certa. — Você acha que está tudo bem, que pode tudo, mas as consequências virão em breve. — Eu sei — respondo simplesmente. — Vou me manter atento, eu juro. — Não... — Balança a cabeça em negativa. — Livre-

se dele, Joseph. Você é um servo de Deus, uai, sua vida pertence a Ele, não ao dinheiro. Não dá para pertencer aos dois. Dê a César o que é de César. Aquiesço, relembrando algumas passagens bíblicas. Começo a achar que minha mãe tem total razão. Estou ficando cego pelo dinheiro, esquecendo das coisas que realmente importam, daquilo que sempre quis para mim. Eu sempre desejei uma família, um bom emprego, saúde, felicidade, paz. Nunca fui atrás de acumular riquezas. Acho viajar uma atitude digna, que engrandece a alma, mas Pauline e eu torramos muito dinheiro sem necessidade, dinheiro este que poderia ajudar muita gente necessitada. — Dê a Deus o que é de Deus — murmuro. Mamãe sorri amplamente. — É isso, meu filho. Sei que vai fazer a coisa certa. — Ela se inclina e beija a minha testa com ternura. — Você cresceu. — Suspira alto. — Tenho que parar de decidir por você. Ouvimos batidas ligeiras na porta. Meu pai aparece da cozinha, confere no olho mágico e a abre sem nos dizer

quem é o louco que resolveu fazer uma visita a essa hora. Laurene corre na minha direção, senta-se no meu colo e me abraça forte. Começa a soluçar em meus braços, deixando-me sem qualquer reação. Não consigo nem pensar direito. Ela agarra meus cabelos e me dá um beijo sufocante, depois larga a minha boca e volta a chorar. Fico tonto no mesmo instante. — Vou deixar os pombinhos se acertando... — mamãe avisa e se levanta do sofá. — Não... — Tento me desvencilhar de Laurene. Não quero ficar sozinho com ela, mesmo sabendo que precisamos conversar. — Não, mãe, nós... Vamos dar uma volta. — A essa hora? — Não vamos demorar. Não é, Laurene? Ela aquiesce, ainda chorando, e se levanta, finalmente me deixando respirar. Eu não quero ter uma conversa com Laurene dentro de casa, pois com certeza mamãe vai escutar e não vai gostar nada do que tenho a dizer. Por este motivo, pego um casaco no meu quarto — que estranho, não sinto que este seja o meu quarto de

verdade — e sigo ao lado da minha ex-noiva pelas ruas de Itaú. Ela faz questão de segurar minha mão. Não me oponho, mesmo que não me sinta totalmente confortável. Fico alguns minutos sem saber o que dizer. Não sei por onde começar, o assunto é complicado e, mesmo que ela tenha me feito sofrer pra caramba, não quero que sofra por minha causa. Só quero que siga adiante e me esqueça de uma vez por todas. Bom, eu acho. Não tenho certeza se estou pronto para um adeus definitivo. O que a minha mãe falou ainda está martelando na minha cabeça. Talvez a coisa certa seja doar parte do dinheiro e usar o restante para construir a casa e finalmente casar com Laurene. Eu sei que ela me ama e está arrependida. É só uma questão de perdoá-la ou não. Nunca fui rancoroso, mas as palavras que me falou na papelaria me doem muito. E ainda tem Pauline. Não que ela tenha a ver com essa história. Eu acho que não tem, ou pelo menos não deveria ter. — Fala alguma coisa, Joseph... — Laurene diz suavemente, usando a mesma voz que costumava usar para conseguir algo de mim. — Estou meio nervosa.

— Eu não sou mais virgem. — Olho-a de soslaio só para conferir sua reação. Laurene abre a boca e estufa o peito, meio indignada, depois joga o ar para fora em um arquejo. Sinto uma coisa diferente invadindo o meu peito, trazendo-me uma espécie de alegria. Acho que isso se chama vingança. É diferente e meio doido, mas estou curtindo. — Achei que devesse saber, antes de qualquer coisa. — Eu já imaginava... — balbucia, meio ofendida, mas fazendo o maior esforço para fingir que não liga. Sorrio meio de lado, sinto meu rosto se expressando com certa malícia. É tão estranho agir assim. — Foi com aquela... mulher? — Sim, com Pauline. — Odeio a forma como ela e a minha mãe se referem à minha amiga. Não está certo a tratarem como se fosse uma qualquer. Pauline não merece isso. — Foi muito bom, inesquecível. Laurene para e me encara, então eu finalmente sinto a maldita vergonha. Não adianta fingir que sou um homem bem-resolvido. Essa timidez toda já está começando a me irritar de verdade. Ela lambe os lábios bem devagar,

fazendo a minha atenção ser voltada para eles. Percebo sua expressão mudando depressa, e me assusto porque não sou mais o inocente que não fazia ideia do que ela queria comigo quando me olhava desse jeito. Agora, sei perfeitamente. — Eu mereci isso, Joseph — fala baixo, sensualmente. Envolve os braços ao redor do meu pescoço e me puxa para si, de modo que cambaleamos até um muro alto. Está meio escuro aqui. — Talvez a nossa relação precisasse que pulássemos essa etapa de outra forma, para que assim ficasse mais fácil. — Mais... — Engulo em seco. — Fácil? Meu corpo é projetado por sobre o dela. Não sei o que estou fazendo. Laurene me segura com força, exigindo minha presença entre suas pernas compridas e torneadas. Só então percebo que está usando um vestido meio justo e decotado, acentuando cada uma de suas curvas. Será que ela já estava mal-intencionada desde o início? Não consigo responder, mas uma parte recentemente despertada dentro de mim ressurge, vinda de lugar nenhum. Agarro-lhe a cintura, surpreendendo-a.

— Sim, mais fácil. Eu vou te mostrar o que é um momento inesquecível de verdade, Joseph. Deixo-me ser beijado por sua boca ligeira. O beijo de Laurene é o mesmo de que eu me lembrava, embora este esteja muito mais ousado que qualquer outro que já tenha me oferecido. Estranho de imediato, pois estou acostumado a beijar Pauline. Também quase não reconheço seu cheiro, ou mesmo suas curvas. Desço minhas mãos pelas suas coxas e as aperto. É, é muito diferente. Tento me afastar para respirar, mas Laurene está disposta a não me deixar recuar de jeito nenhum. Suas mãos descem e encontram meu membro ereto. Acho que ela também estranha, já que eu nunca deixei que me tocasse dessa maneira. Será que ela vai achar grande, como Pauline diz que é? Escuto um gemido diferente do que estou acostumado a ouvir. Eu não devia estar pensando em Pauline. É o meu futuro que está em jogo. Não é como se eu fosse escolher entre uma e outra. Pauline nunca me pertenceu, já Laurene sempre tentou e nunca conseguiu. Talvez eu devesse finalmente lhe dar o que tanto quer. Assim, quem sabe, eu possa compreender

o que realmente quero da vida. É por isso que a puxo até uma entrada estreita entre dois muros. Aqui teremos um pouco mais de privacidade. Mesmo que a rua esteja escura e vazia, não é uma boa ideia ficar tão exposto. Subo a saia de Laurene até a cintura. Ela sobe em mim, com as pernas ao meu redor e continua a me beijar loucamente. Solto um gemido entre seus lábios. Alguma coisa está muito errada, estou me sentindo horrível. Eu não me sentia assim com Pauline, muito pelo contrário. Ela fazia com que eu me julgasse um homem livre. Neste momento, sinto-me acorrentado. Laurene arranca o botão da minha calça. É tarde demais para recuar, meu corpo exige alívio imediato. Meu Deus do céu, eu virei um maníaco por sexo. Isso está me controlando, mexendo com meu juízo e minhas vontades. Não pode ser. Acho que alguma parte de mim não quer prosseguir, mas deixo que Laurene me massageie por dentro da cueca mesmo assim. É tão delicioso, droga! E essa outra parte, insana, gosta. Solto mais um gemido. Estou muito, muito ferrado.

Capítulo 22

Pauline

Em um conversível a mais de trezentos quilômetros por hora Joseph sai do carro e me deixa sozinha em um espaço imenso no mundo. O que vou fazer agora? Pela primeira vez na vida não sei que rumo tomar, nada faz sentido. Um vazio enorme toma conta de todo meu ser. Sou apenas nada, um cisco flutuando ao vento. Flutuando ao vento... Essas palavras me dão uma luz: fugir. Piso no acelerador com força, fazendo os pneus cantarem. Não olho para trás, não quero vê-lo de costas para mim, como se partisse para nunca mais voltar. Será que vai cumprir sua promessa? E que direito eu tenho de lhe pedir isso? Que direito tenho sobre Joseph, que tem uma vida bem

diferente da minha em Itaú de Minas? Nenhum. Só posso controlar a mim mesma, por isso dirijo feito uma maníaca, arrancando do meu Porsche toda sua potência. O vento nos meus cabelos não tem a menor graça, na verdade chega a ser irritante, por isso fecho a capota e as janelas, me enclausurando dentro do automóvel. A música ajuda a dor no meu peito a aumentar, então desligo. Corro como se minha vida dependesse disso, mas a sensação me persegue, me desnorteia, me encurrala em um canto sombrio da minha mente e um som estranho escapa das minhas entranhas. Estou soluçando tão dolorosamente que sinto pena de mim mesma. Eu não me lembro de já ter chorado assim alguma vez. A cena toda é tão ridícula que começo a gargalhar, misturando lágrimas com risadas, de maneira bem doida. Acho que enlouqueci! Não sei por que choro, então eu rio. Meus olhos embaçam, talvez pelo pranto ou pela alegria exacerbada, que duelam dentro de mim como se eu fosse um ringue. Dois gigantes tentando tomar posse de minha sanidade. Paro no acostamento antes que eu cause um acidente. Não quero morrer nem matar ninguém, por

mais que essa dor seja insuportável. Ouço a voz dele na minha mente, me pedindo calma e se oferecendo para guiar o veículo, já que não tenho condições. Vislumbrar a cena do meu anjo querendo ajuda me faz chorar mais. Encosto a cabeça contra a direção, desejando batê-la para apagar o som de seu sotaque maravilhoso que ecoa no meu cérebro, tentando me consolar. — Para! — grito para ninguém, ensandecida. — Você foi embora, me deixa em paz! Enxugo o rosto, me sentindo uma idiota sem noção. Eu sempre fui assim, meu Deus? O que será que Joseph pensa de mim? Foi por isso que ele partiu, por que fui demais para ele? Estou sendo demais para mim mesma agora e preciso me calar, antes que eu atire a merda desse conversível contra uma vala. De repente, a vontade de ter colo, de ir para casa, me toma e acho ainda mais esquisito. Eu sei que meus pais vão me acolher de braços abertos, mas por que eu devia parar minha vida e correr para eles como uma menina com medo de dormir sozinha no próprio quarto? Que vida, Pauline? Ué, eu sou milionária, tenho uma casa em Brasília e muita grana para

gastar. Tenho um novo lar, que combina com minha conta bancária, tenho fãs nas redes sociais que adoram acompanhar minha viagem, então, por que eu estou aqui parada, chorando feito uma menininha assustada mesmo? Ah, é, Joseph voltou para Minas, mas, e daí? É direito dele ir embora e o meu de me divertir. — Não, na verdade, é meu dever! — sorrio, me conectando comigo mesma em um instante milagroso. Não chorei nem quando Bruno foi embora, não vou deixar essa coisa estranha me controlar. Eu sou Pauline de Freitas Dias, a mulher que segue em frente, livre de tudo e de todos. Não preciso de ninguém para seguir viagem. Quer saber do que preciso de verdade? Um pouco de normalidade antes de prosseguir. A presença de Joseph tem alterado meu ritmo, por mais que ele tente me acompanhar. Tenho certeza de que uma boa noitada, à la libertinagem, vai apagar toda essa angústia de dentro de mim. Sim, é isso! Não vai durar muito, tenho certeza, só necessito esquecer e tudo vai ficar bem. É difícil acreditar em minhas próprias palavras enquanto o GPS me guia de volta à capital federal do

Brasil. As lágrimas teimam em escorrer por vontade própria, me deixando apática e sem vida. Não me sinto eu mesma e, se eu pudesse fechar os olhos, estaria vendo o rosto bonito e tímido de Joseph diante de mim, sorrindo, fazendo careta, corando lindamente. Meu Deus! O que é isso? Meu coração palpita forte e descompassado. Tenho vontade de sorrir entre o choro, só de pensar em seu jeitinho de ser. Suspiro fundo e acredito que seja um mau sinal de sei lá o quê. Como posso me sentir bem e horrível ao mesmo tempo? Isso não faz sentido algum! É em um estado deplorável que chego à nossa... à porra da casa que aluguei no Distrito Federal. Estou nervosa, irritadiça, descabelada e com os olhos inchados quando me deparo comigo mesma diante do espelho. Que horror! Vejo a cama no reflexo e me imagino jogada ali, assistindo filme de mulherzinha e tomando um pote de sorvete. NÃO! Eu não vou fazer isso! Ainda não fiquei louca nesse nível! Posso ir às compras e ao salão, mas não... ISSO! Nunca! Jamais! Nem fodendo! Ninguém vai querer é me foder com essa cara de quem comeu e não gostou nem um pouco do gosto. Minha

língua está áspera e sinto que devia jantar primeiro, seria o que o Joseph me diria, mas não quero, principalmente porque a ideia é associada à sua ausência. Pensar em comida me embrulha o estômago. Álcool cairia bem melhor. Consigo me lançar um sorriso desta vez e até parece sincero. Quanto mais distante dele eu fico, mais me reencontro. Um banho rápido vai resolver por hora. Eu me visto em seguida com qualquer roupa, que não faço questão de escolher, e vou ao shopping mais fodão de Brasília. Passo horas em companhia de pessoas que me bajulam por causa do meu cartão sem limites, tenho consciência disso, mas do jeito que estou me sentindo um lixo, serve muito bem para levantar meu astral. Começo a beber mais cedo, deixando as borbulhas do champanhe fazerem cócegas na minha boca e garganta, arrancando-me risos constantes. Não sou fútil, mas às vezes futilidade salva uma alma perdida. Saio do lugar dirigindo meu lindo carro — sim, lindo porque é meu, porque foi caro, porque é veloz, porque eu amo! —, mais leve e feliz — não sei se posso dizer que

estou realmente feliz, mas me sinto bem o bastante para cair na night de boca! —, arrasando com um vestido de paetê curto e justo. Eu me sinto linda e gostosa pra caralho, pronta para ter muitos orgasmos com todos os homens e mulheres que eu desejar. Meu cabelo está arrumado e a maquiagem esfumaçada me deixa com um ar sexy e classudo. Estou poderosa, do jeito que o dinheiro me tornou. Chego à boate de swing abrindo caminho com minha presença feminina e sensual. Claro que o Porsche ajuda e a conta bancária também. Encosto no balcão, ficando bem visível, e peço o primeiro drink da noite. Não demora nada e alguém se encosta ao meu lado, chamando minha atenção com sua presença. O homem é grande, alto e forte. Confiro bem a cara dele. Não é muito bonito, mas vai servir para o que eu quero. — Oi, você é nova por aqui — diz, assim, na lata. É disso que eu gosto em lugares como esse: a liberdade e a falta de estranheza. — Você gosta de conhecer todas as novidades primeiro? — pergunto, atiçada.

Seu sorriso sacana acende a libido adormecida dentro de mim. Foi esquisito vir sem estar excitada, normalmente só a ideia de swing me deixa pronta, mas esse desconhecido acabou de despertar a maníaca por sexo que ainda existe presa no meu corpo, sob minha pele sedenta por toque. — De preferência — fala, carregando a voz com um tom grave e profundo. Meus pelos se eriçam, arrepiados, mas meu coração não reage. Não sinto a adrenalina correndo, aquele desejo pulsando nas veias, nada avassalador como... Mas o que é isso, Pauline? Você está PROIBIDA de pensar em Joseph agora. Espera! Eu nunca me proibido. Jogo as mãos para o alto, agarrando o pescoço grosso e firme do estranho e enfio minha língua em sua boca. Suas mãos enormes cobrem meu traseiro e aperto os olhos com força, tentando me entregar ao momento, fazendo o maior esforço do mundo para não comparar essa pegada com a... dele. A carícia de suas mãos é tão boa que relaxo instintivamente. Meu corpo reconhece os caminhos do prazer. Meu vestido é erguido para que ele possa apalpar

melhor e eu deixo, permito tudo, sinto-me com vontade de ser tomada para sempre e simplesmente esquecer o que houve mais cedo. Preciso gozar e beber tanto até me esquecer que um dia tirei a virgindade da delícia que é Joseph... Quero esquecer que a gente ganhou a Hiper-Sena juntos... E que um dia eu o conheci. Preciso esquecer seu sorriso, seu sotaque, sua gentileza inédita na minha vida... Sua fé. Caralho, tudo nele é fofo demais! Rosno de raiva na boca do armário e ele entende que estou cheia de tesão. Enfia os dedos na minha fenda, que devia estar úmida, mas não está quase nada. Desesperada para sentir mais e apagar as lembranças dolorosas da minha mente, enfio minha mão entre suas pernas, em busca de seu pau duro e latejante, mas... Esbarro em uma coxa de um lado, depois na outra... Cadê o pinto dele? Não me aguento e começo a rir, de cuspir longe, assim que ele se afasta com meu rompante. — O que foi isso? — pergunta, meio bravo. Não consigo parar de gargalhar. O cara deve tomar bomba, que é isso, gente! Para quê ter esse tamanho todo se o pau é minúsculo? Inútil! Esse não serve. Imagina só

se eu vou dar pra um homem de pênis pequeno depois de pegar um virgem, tímido e lindinho, que tem um pauzão? Paraliso a risada na hora por causa da associação que faço. Mas que merda de cabeça idiota que não sabe o que a palavra esquecer significa! Sem receber resposta e puto da vida com meu acesso de loucura, a montanha de anabolizantes some na multidão. Meu, eu não estou bem. Observo ao redor. As pessoas me olham esquisito ou sou eu que acho tudo esquisito demais? Esse nem parece meu ambiente, meu habitat natural, meu território. Viro-me para o balcão, engolindo toda a batida açucarada que pedi. Bato o copo na madeira, chamando a atenção do barman, e lhe peço logo algo mais forte, para me deixar aérea, porque é impressão minha ou isso está uma bosta hoje? O calorzinho da tequila me causa um torpor agradável, do jeito que Joseph faz eu me sentir quando está por perto. Mas que porra é essa? — Mais uma! — exijo, angustiada devido aos pensamentos malucos. O que está havendo comigo? Avisto uma morena dos

olhos claros, que me lembra Andrea, e meu coração dispara. Chego a imaginar Joseph por trás dela, enlaçando-lhe a cintura e sorrindo para mim por sobre seu ombro, oferecendo-a de presente e grato por dividi-la comigo. Que coisa doida! Um tesão maluco me toma quando essa imagem se grava no meu cérebro. Eu preciso transar com essa mulher e tem que ser agora! Viro o copinho antes de me encaminhar direto para ela. Chego perto sem aviso, sem sorrir, sem dizer palavra. Pego-a pela cintura e, apesar do susto, ela se deixa levar, chocando seu corpo gostoso e macio contra o meu. Nossos lábios se encontram, se enlaçam, se misturam. Fecho os olhos, fixando minha mente na fantasia que vai me levar ao orgasmo hoje. Porque se Joseph não sai da minha cabeça, que fique nela e pelo menos me faça gozar mentalmente. Sinto mãos nos meus ombros, masculinas, ferozes, excitadas... Que escorregam por cima do vestido como se não ousassem tocar minha pele sem autorização. Na minha cabeça, é Joseph que me toca, apesar de que meu corpo não o reconhece e deseja repelir o abusado. Eu me forço a continuar. As palmas suaves da

mulher cobrem as dele, guiando-as por minha pele. Ah! Era essa autorização que ele buscava. Eu me deixo ser usada como o brinquedinho sexual desse casal, mesmo que o beijo e os toques estejam longe de me enlouquecer. O único que me tira do eixo é Joseph e o pensamento que não o larga em Itaú de Minas, onde é seu lugar e não o meu. Arquejo, buscando ar, sufocada de frustração e um desejo louco que ele volte e me foda até o amanhecer. Meu anjinho safado! Aquela dor retorna com força, apertando meu peito e me fazendo decidir parar com essa pegação que não vai me levar aonde quero. Eu me desculpo, dizendo que não estou no clima, e me afasto. Assim que me encosto ao balcão novamente e o barman repara bem na minha cara, traz outra dose sem que eu peça. — Noite difícil? — A pergunta mais clichê do universo! Tenho vontade de ser malcriada na resposta, do tipo: o que você tem a ver com isso? Mas minha boa educação não deixa. Ele só está dando espaço para eu me abrir e,

quem sabe, me sentir melhor. Garçons são mestres terapeutas na arte de ouvir sobre chutes na bunda. Mas, espera aí! Quem me chutou foi Bruno, meu ex, não Joseph, que é apenas um amigo. Isso está ficando cada vez mais esquisito, eu, hein? — Briguei com meu melhor amigo e fiquei sozinha em nossa viagem pelo Brasil — resumo a desgraça toda, ocultando toda a confusão de meus sentimentos. — Você pode encontrar companhia aonde for — diz, animado. — Pelo que observei, sabe fazer amizade muito depressa. Espera aí — estou pensando muito nisso hoje! —, ele está me cantando, assim, na cara dura? Reparo bem no rosto e no corpo do sujeito. Nada mal, para ser honesta, e não seria a primeira vez que eu pego um funcionário de um clube de swing. Essas coisas acontecem mais do que se imagina. Não existe nenhuma regra proibitiva para eles nem para mim, que sou frequentadora, então, se ambos quisermos, por que não? — Sim, é verdade, mas ele era especial e eu não queria perdê-lo.

Puta que pariu! Para quê tanta honestidade com um estranho, Pauline? Porque eu sou assim, para de me repreender como se fosse Joseph, subconsciente! Ele foi embora, cala a boca! — Especial, como uma paixão? Caio na gargalhada com o que ele deduz. Eu, Pauline de Freitas Dias, a mulher mais liberal da face da Terra, apaixonada por um virgem? Não tem o menor cabimento uma coisa dessas. Eu sou apaixonada por pessoas, pela vida, por tudo, mas não sinto esse tipo de amor. Não, não nasci para me amarrar a ninguém. Eu sou livre! — Não, com a gente não era assim. Pelo menos não devia ser. Aponto o copo em sua direção, e o barman enche para mim. Viro a maldição para dentro em um gole que desce doce e fácil. É engraçado como o sabor da tequila muda depois da... quinta dose? Já perdi as contas. — Então ele não vai se importar se você sair daqui acompanhada? Quê? O cara quer, tipo, me levar para casa? Meu, sinto muito, não vai rolar. Estou mesmo muito doida, era

para eu ter dito isso em voz alta, não era? Abro a boca para responder, mas uma ideia me toma com força. Tem outra coisa que esse tipo de gente pode conseguir fácil, ainda mais em um lugar como esse. — Você sabe onde posso arranjar bala? — Corto sua onda rapidamente, ansiosa em conseguir algo ainda mais forte. Já que hoje não vou gozar, vou engolir êxtase industrializado. Seu sorriso demonstra que curtiu o meu pedido. — Gostei ainda mais de você, garota. — Ergue a mão sobre o balcão, puxando meu pescoço para perto e, com a outra, aperta a droga na minha palma. — Acho que mereço pelo menos um beijo, aí você decide se vai querer mais, assim como essa amostra grátis na sua mão. Dou o que me pede por falta de opção. Sua língua é gostosa, atrevida, sedutora. Suspiro ruidosamente, me sentindo quente, úmida, cálida. Minha mente turva momentaneamente e sinto o cheiro da maresia nas narinas, tão forte quanto o perfume de Joseph. A textura do barquinho à beira-mar contra meus joelhos, meu quadril

se esfregando no dele... Por Deus, sinto que posso implodir a qualquer momento, por isso me separo do barman, ofegante e doida para não lembrar mais, já que implorar para esquecer não resolve. Ignoro-o totalmente, engolindo a seco a pílula de Ecstasy, mas reparo antes que tem um coração flechado em baixo relevo nela e forço sua passagem pela minha garganta, como se tragasse meu próprio coração ferido. A zonzeira que bate não tem nada a ver com a droga, não deu tempo de meu organismo absorvê-la ainda. Tem a ver com a porcaria da palavra que ronda minha cabeça. É possível que eu esteja me apaixonando pelo Joseph, Destino? É essa merda que você queria que eu vivesse? Por quê? O que fiz para merecer me perder em outro se eu nunca desejei isso? Faço sinal para que o barman encha mais uma vez meu copinho e amanso a ardência na minha garganta com o líquido delicioso. Bang, da Anitta, começa a tocar, me fazendo recordar da noite em que levei Joseph pela única vez em uma casa como esta. A lembrança de seu cuidado e ciúmes me arranca um sorriso besta, mas que faz eu me

sentir bem pela primeira vez na noite. Empolgada com a sensação normal e reconfortante, pulo na pista de dança, agarrando-me a um poste de pole dance e descendo até o chão. Eu me esfrego nele de olhos fechados, deixando as memórias me bombardearem. Foda-se! Se quer lembrar, cérebro imbecil, lembre-se e seja feliz! Finjo que o aço é Joseph, parado, envergonhado, corado, e danço ao seu redor como naquela noite, provocando mesmo. Sinto mãos me tocando, mas sei que não são dele, porque não foi assim que reagiu daquela vez, mas me deixo iludir, sonhar acordada com ele aqui, agora, me tocando e me aceitando do jeito que sou, assim como eu o aceitei. Tantas mãos, santo Deus! Joseph virou um polvo no meu imaginário libidinoso, mas não importa, adoro mãos ousadas e ansiosas. Finalmente a “droga do amor” começa a fazer efeito e o estado de excitação mental e sexual me toma, deixando-me propensa a qualquer estímulo externo ou interno. Os dedos me invadem e aperto o aço inox entre as mãos, segurando-me enquanto sou dedada, beijada, lambida por todos os lados. Não ouso abrir os olhos para

não ver que os tentáculos não são de Joseph. Mas é ele que imagino, em toda sua perfeição acanhada, seu pau enorme, seu sorriso lindinho. É sua boca que sinto, sua mão que mete em mim, gostosinho como eu lhe ensinei a fazer... É com lágrimas de felicidade nos olhos que explodo em um orgasmo violento, que sacoleja todo meu corpo e me deixa exausta. Estou com medo de abrir os olhos e acabar com o encanto que é senti-lo em mim graças à dose cavalar de serotonina no meu cérebro. Não quero acordar e me dar conta de que o perdi de novo, ainda que tenha sido uma ilusão fantasmagórica a que me tocou agora. Viro o rosto para o chão, afasto todo mundo de perto de mim e começo a correr, o peito doendo de tanto que meu coração bate contra as costelas. Preciso esperar impaciente que o manobrista me traga o carro, salto para dentro dele e acelero na noite fria da capital do país. Depois de alguns quilômetros percorridos, me dou conta de que saí sem pagar a conta. Caio na risada, feito uma insana. Já estou agindo como os ricos e famosos que aparecem nos lugares para atrair gente e não pagam nada.

Dou de ombros, sem me importar em voltar para quitar minha dívida. Foda-se! Não quero pisar lá de novo, não sozinha, não sem Joseph. Por Deus, alguém aí em cima pode, por favor, me explicar essa loucura toda? Ainda estou excitada e estimulada sinteticamente, por isso, dirijo em altíssima velocidade, buscando um clímax diferente do que já ganhei e claro que ainda não me satisfez. Faço curvas bruscas sem frear, cantando pneu e sentindo o cheiro da borracha queimada. Meu Cabriolet aguenta firme, estável e veloz, percorrendo as avenidas largas e seguras de Brasília. Baixo a capota e deixo o vento me acarinhar o rosto, sedento por mãos que estão a quilômetros de distância. Piso mais fundo, ultrapassando a velocidade da luz! Quem me dera me transformar em um borrão no espaço e transcender o tempo, como The Flash! Eu voltaria para aquele maldito telefonema, destruiria o celular de Joseph, jogaria-o no conversível e faria amor com ele até não suportarmos mais. Meu, eu pensei “amor”? Caramba, é um mal sem volta! Por que não implorei para que ficasse? Por que tenho esse orgulho no peito? Por que insisto nesse

ideal de deixar todo mundo livre como eu sou? A liberdade não me interessa mais e isso me dá uma vergonha tão grande que nunca senti na vida. Eu não posso estar querendo dar as costas para tudo em que acreditei a vida inteira por causa de um homem! Isso é insano até para mim! Eu nunca me senti tão confusa e perdida, sem saber o que fazer. Chego a cogitar dirigir a noite toda até Itaú de Minas e resgatar Joseph daquela interesseira metida da Laurene. Mas não posso fazer isso. Ele tomou sua decisão e agora preciso aprender a lidar com ela. O que está difícil pra burro! Ouço uma sirene em algum lugar distante demais dos meus pensamentos para prestar atenção, mas o som aumenta, fazendo-me conferir o espelho retrovisor. Merda! A polícia! Freio bruscamente, arrancando fumaça do asfalto, e minha atitude sem pensar quase causa um acidente. A viatura para a centímetros do meu Porsche. Aperto a direção com força para que meu corpo não voe por cima do capô, caso haja colisão. Os policias descem furiosos e apressados, tocando as armas como uma ameaça clara. Se eu fizer algum movimento brusco, vão

atirar. — Boa noite, autoridades — digo, sorrindo o meu melhor sorriso. Apesar da cara de maus, acredito que tenho algumas vantagens. Primeiro: sou mulher e todo mundo sabe como homens fardados gostam de paquerar. Segundo: tenho muito dinheiro e de novo todo mundo sabe como policiais ganham mal no Brasil. Terceiro: eu não infringi nenhuma lei grave, infringi? — Que pressa é essa, mocinha? Estava correndo bem acima da velocidade permitida. — Desculpe, seu guarda, acho que me empolguei — continuo sorrindo feito uma idiota. Acaricio o volante do carro. — Sabe como essas belezinhas andam bem, não é, ele chega a cem por hora em alguns segundos, então não percebi, mas prometo que vou prestar mais atenção. Obrigada por me lembrar disso. Espero que me liberem, mas não estão com cara de que vão me deixar ir assim tão facilmente. Que merda! — Documentos — pede, sério. Que mau humor, Deus me livre! Entrego tudo e

espero, impacientando-me. Eles analisam a foto e minha cara, depois vão à viatura e retornam do mesmo jeitinho. — Você é a ganhadora da Hiper-Sena — diz ao me devolver tudo. Minha deixa? — Sim, a sortuda — falo, pegando meus documentos de volta e aproveitando que abro a carteira para fazê-lo ver meu cartão de crédito fabuloso. — Adoraria dar uma bonificação para vocês por realizarem um bom trabalho. Eu me atrapalho um pouco, meus dedos não me obedecem direito e minha língua se enrola. O conteúdo da carteira acaba se espalhando pelo assoalho do Porsche. Começo a xingar. Sem pensar direito, abro a porta porque não vai dar para agachar nesse espaço apertado e acerto o policial sem querer. — Saia do carro e ande nessa linha, por favor, vamos terminar os procedimentos. Merda! A Lei Seca não pode me pegar, nunca mais poderei dirigir meu conversível de novo! Desço do carro sem ajeitar o vestido que subiu um pouco e caminho em sua direção, sedutora, pelo menos eu acho que sim.

— Seu guarda, a gente não pode resolver isso de outro jeito? Que tal vocês me levarem até um caixa eletrônico, para eu poder pagar uma gorda bonificação, e depois vocês me deixam em um ponto de táxi? Prometo que não dirijo mais hoje. Ele faz uma cara de mau supersexy e mordo o lábio. Puta que pariu! Que tesão dos infernos! Nem parece que gozei há pouco. No entanto, ele me segura firme pelos braços e, fazendo uma careta estranha, me faz girar no meu próprio eixo, amarrando meus punhos com os dedos e deitando meu tronco sobre o capô. Uau, ele vai me comer assim, agora, no meio da rua? — A senhorita está presa por tentativa de suborno e de sedução de uma autoridade policial, e por dirigir alcoolizada e sob efeitos de drogas. Porra! Eu não tenho sorte! Tinha que pegar um policial honesto e talvez gay? Fui mesmo uma imbecil por chegar tão perto e deixá-lo sentir meu hálito de tequila, além de ver minhas pupilas dilatadas. — Policial, o senhor entendeu tudo errado, eu não... — Explique-se na delegacia, mocinha rica —

sentencia com desprezo, me arrastando para a viatura. Eu me debato, inconsequente, falando pelos cotovelos, atropelando palavras e cuspindo justificativas a torto e a direito. Os caras me ignoram e sou jogada algemada no banco de trás da viatura. Entre mim e eles tem uma grade e me vejo perdendo minha tão abençoada liberdade de um jeito muito pior do que se eu simplesmente admitisse, para mim, para ele e para o mundo inteiro, que estou mesmo apaixonada por Joseph.

Capítulo 23

Joseph

Itaú de Minas, meu lar... Meu lar? Laurene ofega alto sob meus lábios, depois solta um gemido esquisito para os meus ouvidos acostumados com um timbre diferente. Suas mãos estão em mim, atiçandome de um jeito louco. Meu membro está todo para fora da calça, latejando forte, causando-me uma dor aguda. Estou com os olhos bem fechados, tentando conter o estranhamento e também compreender o que estou sentindo. Sei que estou excitado, isso é óbvio, mas não consigo entender por que me sinto tão sujo também. — Joseph... — ela murmura e me puxa bruscamente, permitindo que minhas costas batam no muro. Mudamos de posição, agora é ela quem me acerca.

Ainda estou tentando não estranhar a voz excitada que me chamou pelo nome. Quase tenho um trem ao vê-la se agachando diante de mim e me abocanhando sem pensar duas vezes. Abro a boca, surpreso e bastante desajuizado. Seguro seus cabelos loiros entre meus dedos, contendo a vontade de balançar os quadris para empurrar mais fundo em sua garganta. Os lábios dela trabalham ao redor do meu sexo com urgência. Isso está errado. Não é assim que a Pauline faz comigo. Com ela eu queria gozar na primeira lambida, já neste momento estou prestes a amolecer. — Laurene... — Tento avisá-la que sua boca está me machucando, afastando-a de leve, mas minha ex-noiva insiste em me chupar do jeito errado. Tudo bem, não é que esteja ruim, é só que... Eu não sei explicar direito. Só não está como eu queria que estivesse. — Laurene, levante-se, por favor. Ela finalmente me atende e fica de pé, sorrindo com malícia. Acho que pensou que pedi para parar porque estava quase gozando, não tenho certeza. Sem perceber que minha excitação está indo embora, Laurene se vira de costas, esfregando o traseiro em mim. Rebola devagar,

erguendo o vestido para que eu possa sentir tudo. De fato, sinto sua pele macia contra mim, as curvas perfeitas e a calcinha molhada e quente, desejando minha presença. Estou voltando a ficar totalmente duro. — Sabe, Joseph, tem uma virgindade que ainda não tirei... — incita com a voz rouca, ainda rebolando e usando uma mão para mirar o meu membro na entrada que é protegida apenas por um fio mínimo da calcinha. — Quero que me foda aqui. Quero que seja com você. Suas palavras me remetem ao passado, para ser mais exato, ao momento em que falei para Pauline que queria tirar minha virgindade com ela. Lembro bem de seu sorriso amplo, e então uma cadeia de pensamentos me invade sem aviso prévio. Penso no cheiro dela, em suas loucuras, em tudo o que já me falou e no que me fez sentir desde que a conheci. Recordo nossas primeiras vezes, o jogo do “Eu nunca” no avião e os tantos destinos que ainda temos em nosso itinerário. Olho para cima e vejo um céu escuro, refletindo a imagem de mim mesmo. O que raios estou fazendo? Empurro Laurene devagar e ela finalmente nota que a

estou afastando. Olha para mim, meio ofendida e confusa, sem saber o que dizer. Guardo o meu sexo dentro da calça, fecho o zíper e o botão. Não sei como explicar que não quero prosseguir. Ainda estou duro, significa que quero prosseguir com certeza, mas... Não consigo me entender! Na dúvida, é melhor parar. Tudo o que menos quero é me arrepender, se bem que já tenho um grande arrependimento para dar conta. — Uai... O que deu em você, Joseph? — pergunta, toda amargurada e bem chateada. — Quando finalmente vamos poder transar? — Nós precisamos conversar, Laurene. — Você é gay, é isso? — Claro que não! — Agora sou eu que estou ofendido. — Só creio que precisamos conversar antes de qualquer coisa! Ela expira ruidosamente, demonstrando muita impaciência. Pauline costumava ter paciência comigo, e olha que foi uma longa jornada até eu me sentir seguro para ter um momento íntimo com ela. Mas eu vou relevar, afinal, demorei dez anos para ter um amasso desse tipo

com Laurene. Pensando melhor, acho que lhe devo desculpas por nunca ter me permitido. A culpa é minha por toda a desgraça que se estabeleceu em nosso relacionamento. — Conversar? O que você tem pra me dizer que é mais importante do que isso? — Muita coisa é mais importante do que sexo. Caminho até a saída da rua, deixando-a para trás. Laurene me segue, aprumando o vestido curto e bufando raivosamente. Eu não tenho coragem de encará-la. Estou envergonhado, com o rosto provavelmente vermelho e sem compreender nada do que acabou de acontecer. A gente devia estar transando agora, eu devia experimentar como é estar com ela, para que assim possa definir os rumos da minha vida. Mas a quem estou tentando enganar? Não me sinto confortável com Laurene, é como se tivesse deixado de ser eu mesmo e dado lugar a um homem que só quer sexo. Não tem coisa mais repugnante do que um cara que só transa com uma mulher para satisfazer a si mesmo. Estou longe de ser esse tipo de pessoa. — Vamos sentar naquele bar, tomar alguma coisa e

conversar? — proponho, apontando para frente. Há um estabelecimento aberto, com poucos frequentadores, mas serve para uma conversa franca. — Tudo bem — Laurene concorda, embora eu perceba sua decepção. Sentamos à uma mesa meio afastada, com privacidade suficiente para o tipo de conversa que pretendo ter. Estou disposto a ser muito sincero e virar de vez essa página. Vim a Itaú de Minas decidido a fechar todas as arestas, é isso que tenho que fazer, não cair em tentação em um beco perdido e dar uma de macho comedor. Nunca fiz questão de ser assim, por que agiria desta forma agora? Só porque não sou mais virgem? Sexo não deixa de ser importante a partir do momento em que fazemos uma vez. Pedimos refrigerantes, já que Laurene também não bebe. Esperamos nossas bebidas chegarem sem sequer nos olharmos, como se fôssemos desconhecidos. Ainda não sei por onde começar, mas me forço a acabar com isso de uma vez por todas. Acho que é melhor deixar tudo bem claro.

— Eu te amei muito, Laurene — começo, de repente, me sentindo decidido. — A gente passou por muita coisa juntos. Atravessamos várias fases das nossas vidas, posso dizer que crescemos juntos e nos conhecemos como ninguém. Ela abre um sorriso enorme, de orelha a orelha, porém não consigo retribuir essa alegria. Estou me sentindo vazio. Há uma placa de gelo grossa no lugar do meu coração. Percebo o quanto ainda estou magoado pelo que ela me fez. Laurene destruiu cada um dos meus sonhos. Não importa que agora eu sonhe com outras coisas, isso não muda o fato de que ela me destruiu uma vez. — Sim, meu amor, nós nos conhecemos. — Segura a minha mão por sobre a mesa e a aperta em um gesto de cumplicidade. — Eu... ainda não tive a oportunidade de me desculpar direito. Joseph, me perdoa. — Sua expressão se suaviza a ponto de se tornar quase chorosa. — Estou tão arrependida! Já pedi tanto a Deus pra te trazer de volta pra mim. E agora, graças a Ele, você está aqui. — Suspira. — Tudo há de se resolver.

Meu coração fica do tamanho de uma formiga. Não gosto nada dessa conversa. Eu não voltei para Laurene, voltei para Itaú a fim de resolver pendências. É o que estou tentando fazer. — Eu errei muito te deixando na mão durante esses anos — confesso em voz alta, desabafando a culpa que também tenho nessa situação toda. — Como seu noivo, eu devia estar mais atento às suas necessidades. — Já passou, Joseph. — Dá de ombros, voltando a apertar minha mão. — Por favor, vamos colocar uma pedra no passado. Não adianta batermos na mesma tecla. A gente pode recomeçar agora. — Laurene... Eu... — Desvio o rosto dela porque a covardia me abate e não sei se vou ter coragem para dizer o que é necessário. Meus olhos atravessam o bar e se perdem em uma televisão velha ligada em um canal qualquer. Vejo uma mulher de cabelos pretos e cacheados sendo levada por policiais. Abro bem os olhos para conferir se estou enxergando direito. Meu Deus, por favor, não permita que essa mulher seja Pauline. Por favor, não!

— Você sabe que eu ainda te amo, Joseph. Sei que está magoado, mas que também me ama. Vamos nos dar uma chance, por favor? Tento ler a manchete da notícia. A televisão está meio distante, mas meus óculos são bons e consigo, lentamente, decifrar as letras, juntá-las e descobrir o inacreditável! “Menina rica faz vexame: vencedora da Hiper-Sena e queridinha das redes sociais acaba de ser presa por dirigir alcoolizada após night em Brasília.” Pisco bem os meus olhos, preciso de mais uma comprovação. Não pode ser possível. Acompanho a cena deprimente de Pauline entrando algemada em uma delegacia, com a roupa curta, cobrindo muito pouco de seu corpo esguio, e a maquiagem completamente borrada. Meus olhos se enchem de lágrimas instantaneamente. Não, meu Deus, por favor. Por favor! — Não... Não... — murmuro. — Não? Mas, Joseph, nós... — Laurene começa a falar um monte de coisa que não faço a menor questão de

ouvir. Ainda estou vidrado na TV, chocado com o que vejo. Há uma multidão na frente da delegacia, todos com seus celulares apontados para Pauline, que chora enquanto é levada. — Puta que pariu, porra, cacete, caralho! — grito alto e me levanto, derrubando a cadeira atrás de mim. — Joseph! — Laurene berra, incrédula. Corro até a saída do estabelecimento, mas o garçom me para, exigindo que eu pague pelos refrigerantes. Abro a carteira com as mãos trêmulas, tiro uma nota de cem reais e falo que o troco é dele. Laurene não para de me chamar, mas não consigo escutar muita coisa. Ando rápido pelas ruas de Itaú, e acho que ela está me seguindo, porém não quero perder tempo conferindo. Preciso ir à Brasília. É urgente! Meu Deus, o que Pauline fez? Por quê? Por quê, minha Nossa Senhora? — Caralho! — berro alto, no auge do desespero. Um muro aparece bem na minha frente e o soco com força. — Porra, Pauline! Uma lágrima me escapa e paro para enxugá-la. Estou nervoso, todo trêmulo e tenho certeza de que não saberia

dizer qual é o meu nome se alguém me perguntasse. Laurene se aproxima e me toca, mas a repilo com veemência. — Joseph, o que deu em você? — Eu não te amo mais! — falo em alto e bom tom. Quero que o mundo inteiro me ouça pelo menos uma vez na vida. — Desculpa, Laurene, mas acabou! Eu não te quero. Não te desejo. Eu só ia te comer naquele muro para satisfazer meu ego ferido. Desculpa, eu não sou esse cara, não consigo ser assim! Ela solta um soluço dolorido, então, percebo que fui muito grosso e rude. Tento me aproximar para abraçá-la, mas ela não permite meu toque. — É por causa daquela mulherzinha, não é? — reclama aos prantos, abraçando a si mesma como forma de proteção. — Ela é uma vaca! Vai te fazer sofrer, Joseph. Não acredito que está apaixonado por uma vadia de baixo nível! — Cala a boca! — grito a plenos pulmões, como nunca gritei com alguém desde que vim ao mundo. Coloco um dedo em riste. — Não ouse falar da Pauline desse

jeito. Foi você quem me fez sofrer! Se existe uma vadia nessa história, é você, Laurene, que não soube ser sincera e fiel. Vá pra casa e esqueça que eu existo! — Olha aqui, Joseph, não permito que grite comigo desse jeito! Quem pensa que sou? Não tenho tempo a perder com Laurene e seus gritos escandalosos. Deixo-a berrando sozinha no meio da rua — antes isso do que dar a resposta desrespeitosa que guardo na ponta da língua — e corro o mais rápido que posso de volta para casa dos meus pais. Não posso sumir de novo sem dar qualquer satisfação. Se assim fizesse, teria voltado a Itaú para nada. Minha vinda não pode ter servido apenas para que Pauline entrasse em confusão sozinha, sem ninguém para protegê-la. Eu me recuso a aceitar um absurdo desse. Aliás, eu ainda não acredito no que vi na televisão, as imagens não param de circular pela minha mente. Devo estar em um pesadelo muito ruim. Bato na porta e meu pai atende com um sorriso largo no rosto, segurando um copinho vazio de pinga. Entro como um foguete, chamando atenção tanto dele quanto da minha mãe. Ela está bebendo? Faço uma careta ao

perceber um copo igual ao que o meu pai está segurando nas mãos dela também. Mas não tenho tempo para me preocupar com o teor alcoólico no sangue de mais uma pessoa. Por enquanto, só preciso tirar Pauline daquela delegacia, isso se ela já não tiver conseguido se livrar sozinha. — Tenho que voltar pra Brasília! — aviso, andando de um lado para o outro, verificando o que tenho que levar comigo. Por fim, percebo que não preciso de nada além da minha carteira. Ah, e de um veículo. — Pai, pode me emprestar o seu carro? Está tarde, não vou conseguir um transporte mais rápido. — Desmiolou, meu filho? — mamãe reclama, levantando-se, muito aflita. — Por causa de quê você vai pra Brasília a essa hora? Meu pai não faz perguntas. Retira as chaves do bolso e me entrega. — Pauline está com problemas — explico rapidamente, pois não quero entrar em detalhes, muito menos com ela. — Pai, eu não pretendo voltar nem tão cedo. Vou dar um jeito de trazer seu carro de volta, muito

obrigado! — Se cuide, garoto. — Ele aquiesce e segura meu ombro. A confiança que meu pai deposita em mim é louvável, estou colhendo os frutos que plantei durante longos anos de obediência. — Dirija com cuidado, a estrada é muito longa. — Joseph! O que está acontecendo? Quem é Pauline? — Mamãe segura meu braço antes que eu saia para a garagem. — É a minha melhor amiga — respondo com a certeza de que fui ameno demais para definir o quanto ela é importante para mim. — Vou mandar mensagens, mãe, prometo. Não precisa se preocupar comigo, ficarei bem. Amanhã transfiro um dinheiro para as despesas, não vou me esquecer. Eu tenho que ir, amo a senhora... Amo vocês — falo tudo rapidamente, quase atropelando as palavras. Observo um e depois o outro, ambos estão meio admirados comigo, para finalmente dar as costas e abrir a caminhonete da família. Acho que fiquei louco de vez. Não reconheço o cara que dá partida e sai cantando pneus rumo à capital do

Brasil. A viagem é longa, mais longa do que minha paciência pode suportar. Paro só uma vez para ir ao banheiro, abastecer e comprar uma garrafa de água. Não sinto fome, na verdade não sinto nada além de pressa. Tento ligar para Pauline, mas o celular está desligado, deixando-me desesperado a cada minuto que passa sem que essa porra de estrada termine. Atravesso cidades, faço milhões de curvas, mas não ouso desacelerar. Vou realizar esse percurso pelo menor tempo que já foi possível alguém fazer. O cansaço chega diversas vezes e o mando embora em todas elas. Minhas costas doem, minhas pernas, idem, os olhos quase não conseguem se manter abertos. Estou há muito tempo sem dormir e sem me alimentar, porém a determinação vibra em meu peito. Só vou descansar quando Pauline estiver inteira em meus braços. Levo cerca de sete horas para vencer um percurso que geralmente duraria nove. O medo se intensifica dentro do meu peito assim que vejo a placa que me avisa que finalmente cheguei ao meu destino. Só então percebo que não faço ideia de onde Pauline está.

Paro em um posto de gasolina e acesso a Internet pelo meu celular. Faço algumas pesquisas no Google, buscando notícias sobre o ocorrido. Acho as informações depressa, por menos tempo do que pensei que fosse levar. A prisão da Pauline já é matéria em sites de todas as qualidades, inclusive em alguns bastante ofensivos. Tenho vontade de fazer Pauline processar um monte de gente, por calúnia e assédio moral, enquanto anoto o endereço da delegacia no GPS. Estou irritadíssimo com o que andam falando sobre ela. Com o meu destino traçado e o coração na mão, dirijo sem saber direito o que pensar. Chego à delegacia em questão com o corpo inteiro no auge da instabilidade emocional. São oito horas da manhã, infelizmente não consegui chegar mais cedo que isso. Ainda tem muitos repórteres na frente, bem como fãs segurando cartazes. Com certeza vou chamar a maior atenção assim que descer da caminhonete, mas Pauline vale o esforço. Ela vale tudo de mais precioso que existe no mundo. Mal piso no chão e as pessoas se aglomeram ao meu redor, impedindo a minha passagem. Ignoro todas as

câmeras que são apontadas para mim, bem como as perguntas sem noção que me fazem corar. O povo todo sabe o meu nome e busca informações sobre a Pauline e a minha opinião quanto ao seu comportamento. Sinceramente, ainda não consigo emitir qualquer julgamento. Que Pauline é meio doida eu já sei de cor, porém nunca achei que fosse capaz de arriscar a própria vida dessa forma. Ela ama viver, tenho certeza. Esse tipo de imprudência não combina nada com sua personalidade livre. Abro caminho como posso, sem nada falar para os microfones apontados, usando as mãos para me afastar dessa loucura. Entro na delegacia e sou recebido por um policial, que me leva até o delegado de plantão. Explico que sou amigo da Pauline e ganho a péssima notícia de que ela ainda está aqui, aguardando o pagamento da fiança. — Por que não permitiram que ela ligasse para alguém? — reclamo para o delegado, um homem sério e meio parrudo. Ele não está de bom humor, mas não ligo, pois também não estou.

— A senhorita Pauline ligou para o gerente do banco, mas não conseguiu liberar o dinheiro da fiança. O pagamento sendo realizado, ela vai responder ao processo em liberdade — resmunga, entregando-me uma papelada. Eu me pergunto por que essa louca não me ligou. Dou uma verificada rápida nos papéis, captando apenas o valor da tal fiança. Não é muita coisa. Posso pagar de olhos fechados, sem nem sentir. — Estava tão drogada que achamos melhor mantê-la aqui. O carro foi apreendido e a senhorita Pauline de Freitas Dias não poderá dirigir pelos próximos doze meses. Esta é a Lei sendo aplicada. — Pauline não usa drogas ilícitas — esclareço com rigidez. O delegado ri da minha suposta inocência. — Não foi o que pareceu, senhor. Ela foi presa em flagrante. Ainda está sob efeitos de entorpecentes, sem contar que tentou seduzir um de nossos homens para se livrar da prisão. — Meu estômago dói, parece que acaba de levar um soco. O delegado clareia a garganta e se apruma na cadeira, oferecendo-me um olhar duro. — Ela podia ter matado alguém. Já cansei de deter esses riquinhos que acham que podem fazer o que querem.

Engulo em seco, sem conseguir digerir a ideia de que a situação podia ser pior do que já é. Ainda bem que existe essa fiança, pois não suportaria se ela tivesse que ficar presa. Era o meu dever protegê-la. Eu falhei amargamente. — Pauline não é assim... — murmuro, depois defino em voz alta: — Vou pagar essa fiança agora mesmo e tirála daqui. Ela tem direito a um advogado, não é verdade? — Vamos dar entrada no processo e aguardar, assim ela poderá escolher ou contratar um advogado de defesa. A burocracia toda é uma grande meleca, mas finalmente consigo liberar o dinheiro junto com o meu gerente. Além da fiança, ainda existe uma multa gorda que Pauline terá de pagar, isso sem contar o valor para liberar o Porsche. Não me aguento de ansiedade para vê-la de novo, por isso, depois que está tudo mais ou menos resolvido, pergunto ao delegado se posso. Ele dá ordem de soltura e sou guiado por um agente até a cela onde a minha amiga está. Tenho vontade de chorar ao ver seu estado debilitado. Pauline está sentada sobre uma cama velha e

suja, com as pernas grudadas ao corpo, toda acuada. Seus ombros chacoalham devido aos soluços que lhe escapam. Cada um deles me leva à profunda tristeza. Estou com o meu coração destroçado, absolutamente comovido pela sua desolação. Ela não merece passar por isso. Quando o agente abre a cela, Pauline ergue a cabeça devagar, deixando-me ver seus olhos vermelhos inchados. Um rastro preto que mescla lágrimas e maquiagem lhe borra a face assustada. — Oi... — falo baixo, quase sem conseguir emitir som algum. Pauline salta depressa até mim, mas sem ultrapassar a grade aberta. Ela segura os ferros e começa a chorar descontroladamente. — Joseph... Joseph... — Solta tantos soluços que acho que vai ter uma síncope. — Por que você foi embora? Por quê? — Ela se contorce e se curva, quase caindo no chão. Põe o rosto contra o gradeado. — Por que me deixou sozinha? — Pauline... — Eu me agacho, desesperado. Agarroa como posso para que mantenha a cabeça erguida. — Vai

ficar tudo bem. Eu voltei. Nunca mais vou te deixar sozinha, prometo. — Estou vendo coisas... Droga! De novo, não! — berra, quase arrancando os cabelos de tão forte que os puxa. — Sai da minha cabeça! Sai da minha cabeça, agora! Eu me levanto e quase empurro o agente para poder entrar na cela. Corro ao encontro da mulher que foi capaz de deixar o meu mundo de cabeça para baixo. Atiro-me no chão e a puxo para mim, faço com que se sente no meu colo. Abraço-a tão forte que não consigo conter a emoção, começo a chorar como ela, desabafando todas as minhas angústias. Somos dois malucos soluçando dolorosamente. Choro enquanto observo seu corpo, procurando algum vestígio de espancamento ou qualquer coisa do tipo. Ela me parece intacta. Suspiro aliviado, pois não me perdoaria se alguém tivesse lhe causado algum mal. — Joseph... Você está aqui mesmo? — choraminga como uma criança indefesa. Olho-a nos olhos, percebendo suas pupilas dilatadas. Ela está fora de si, com certeza, e não é apenas por causa do choque causado pela prisão.

Estranho bastante. O efeito do álcool já devia ter passado há muito tempo. — É você, de verdade? — Sou eu. — Seguro seu rosto com as duas mãos, juntando nossas testas. — Estou aqui, vou te levar pra nossa casa. — Nossa... casa? — Sorri, e de repente me sinto feliz. Ela está sorrindo, tudo vai ficar bem. As coisas vão voltar a ser como eram antes. Aquiesço, devolvendo-lhe o sorriso. O agente diz que não podemos ficar aqui, por isso me levanto e a ajudo a se levantar também. Cubro seu corpo com o meu casaco, pois seu vestido é curto, decotado e está rasgado em algumas partes. Aposto que essa louca está sem calcinha, mas isso só vou saber quando chegarmos à casa. Tento me livrar desse pensamento para poder tirá-la daqui de uma vez por todas. Não posso me desconcentrar, o caso é muito sério. Pauline não consegue ficar de pé direito. Seus saltos fazem os pés virarem o tempo todo, de forma que não consegue dar um passo sequer sem ajuda. Vê-la desta forma só me deixa ainda mais arrasado. Eu me curvo

diante dela e lhe retiro os sapatos calmamente, depois a pego em meus braços, carregando-a como uma princesa. Suas mãos me agarram com força e o rosto choroso fica grudado no meu pescoço. É desse jeito que me sento diante do delegado e a faço assinar algumas papeladas burocráticas. Precisamos de um bom advogado urgente, mas primeiro tenho de acalmá-la e esperar o efeito do que quer tenha ingerido passar. — Estão liberados, agora saiam da minha frente — o delegado fala, impaciente, gesticulando para nós como se fôssemos lixo. Acho que não gostou do fato de alguém ter vindo salvar a Pauline. Tenho uma vontade absurda de fazer a maior confusão dentro da delegacia, mas respiro fundo mil vezes para me acalmar. Não adianta aceitar provocação. Engulo esse sapo e ergo a Pauline, fazendo-a ficar de pé novamente. Tem muita gente lá fora, não quero que ela saia daqui como uma derrotada. Essas imagens rodarão o mundo. Eu desejo que todos saibam o quanto essa mulher é uma guerreira forte e decidida, não uma mimada sem noção que não sabe aproveitar o dinheiro que ganhou.

— Pauline, olha para mim. — Seguro-lhe o queixo com certa força. Ela me encara, meio desnorteada. Enxugo seu rosto, tentando apagar os borrões causados pela maquiagem. — Tem repórteres e curiosos lá fora, prontos para gravarem a sua saída. — Ai, meu Deus... — choraminga, fazendo uma careta de desespero. Começo a usar a minha camisa para deixar seu rosto mais apresentável. Aos poucos, consigo limpá-la completamente, mas não é tarefa fácil. — Estou tão feia e desgraçada! — Ei... Não está, sô. — Penteio os seus cabelos usando meus dedos. Faço cada mexa ficar no lugar certo, do jeito que tem que ser. Pauline treme um bocado e chora, está muito angustiada. — Vai dar tudo certo. Pare de chorar e erga essa cabeça, vamos. Você é a Pauline, a garota mais incrível que eu conheço. Eu me afasto um pouco só para fechar o zíper do casaco que a cobre. Ela começa a chorar muito depois do que falei. Que estranho, achei que fosse entrar na onda de vaidade que sempre costuma ter e finalmente virar o jogo no maior estilo Pauline de agir. Mesmo achando seu

comportamento esquisito, mantenho-me centrado em deixá-la bem. Gosto do resultado depois que fecho o casaco, assim Pauline fica mais composta. Ajoelho aos pés dela e lhe calço os sapatos, é melhor que não saia descalça. Estarei bem ao seu lado, apoiando-a e fazendo com que ande sem tropeçar. — Joseph — Pauline me chama com seriedade e levanto o rosto para vê-la de baixo, ainda trabalhando em seus sapatos. — Você voltou porque eu fui presa? Levanto-me e a analiso antes de responder. — Não. — Dou de ombros. Acabo de descobrir que, no fundo, eu não percorri todos esses quilômetros apenas para tirar a Pauline daqui. — Voltei porque o meu lar, por enquanto, é quando estou contigo. Sinto meu rosto inteiro esquentar muito, estou morto de vergonha pelas palavras que deixei escapar sem sequer compreendê-las. Acho que não me deixei ser entendido nem mesmo por ela, pois Pauline começa a soluçar alto. Abraça-me forte, quase como se fosse incapaz de me largar algum dia. Essa fragilidade toda é muito esquisita vinda dela. Quero Pauline inteira de novo, com urgência.

Ela precisa de um banho, roupas limpas, comida quentinha e horas reconfortantes de sono profundo. É exatamente isso que quero e vou lhe proporcionar. Pauline se afasta, enxuga as lágrimas e depois sorri. Creio que toma coragem para sair daqui de cabeça erguida. Não falo nada, apenas seguro sua cintura com força e andamos juntos, devagar, na direção da saída. Somos abordados pelas pessoas, que nos filmam, como previsto. Dou uma de segurança particular, abrindo caminho e pedindo para que se afastem. Com muito custo, consigo levar Pauline até a caminhonete. Para meu alívio, ela não faz nenhuma declaração. Eu sabia que essa história de fama daria em merda, mas não é neste momento que vou jogar isso na cara da minha amiga. Ela precisa de apoio agora, não de acusações. Circulo o veículo, sob flashes e gritos, para finalmente conseguir entrar pelo lado do motorista. As pessoas se afastam quando arranco depressa, deixando tudo e todos para trás. — Onde arranjou a caminhonete? — questiona, curiosa. — É do meu pai — respondo. Um silêncio incômodo

é colocado entre nós, até que resolvo entrar no assunto principal: — Não vou te perguntar o que aconteceu agora, nem mesmo por que não me ligou, mas você precisa me contar tudo em algum momento. — Olho-a de soslaio. Pauline está muito quieta, reflexiva. — Você enlouqueceria se soubesse os detalhes. No mínimo. Dou de ombros, imaginando de tudo um pouco. Pauline deve ter caído na maior farra e, pelo que a conheço, deve ter beijado e quem sabe transado com mais de uma pessoa. Talvez alguém tenha colocado alguma droga em sua bebida. Santo Cristo, não suporto nem imaginar o que pode ter acontecido. Embora pareça mais sóbria agora, sei que ainda não está em seu estado normal. Eu jamais forçaria uma conversa difícil. — Como foi em Itaú? — pergunta com a voz baixa, como se não quisesse realmente saber a resposta. — Conseguiu resolver alguma coisa? — Acho que sim. Depois conversamos. — Viu a Laurene? — Sim. — Prendo os lábios, lembrando-me da

loucura que foi reencontrar a minha ex-noiva. Agora que a poeira baixou percebo o quanto fui um canalha com ela. — Depois conversamos — insisto. — Tudo bem. — Eu nunca vi Pauline tão conformada. — E o meu Porsche? — Hum... — Fico nervoso porque não sei como explicar que ela não vai poder dirigir nem um carro de mão, muito menos um conversível, por pelo menos um ano. — Vamos resgatá-lo assim que der. Chegamos ao lugar que intitulamos recentemente de “nossa casa”. Claro que há repórteres por perto, — eles estão por toda parte! — mas bem menos do que na delegacia. Atravessamos o portão eletrônico sem grandes dificuldades e me sinto confortável, com a sensação de estar, de fato, na minha casa. Isso é uma reação muito esquisita, que procuro não compreender para não me sentir doido demais. No entanto, não posso negar que estou aliviado, finalmente me encontrando no lugar certo. Já estou pronto para dormir e acordar ao lado de Pauline, como se nenhuma loucura tivesse nos acontecido.

Capítulo 24

Pauline

Em minha nova e eterna morada, os braços de Joseph Eu ainda me sinto um lixo, mas o cuidado de Joseph me torna um item reciclável. Só preciso de uma cara nova para ser reutilizada. Affe, que comparação nada a ver! Acho que minha cabeça continua sob o efeito da droga e do álcool, ou estou entorpecida pelos braços dele. Não acredito que realmente esteja aqui, cuidando de mim de maneira tão carinhosa e me dizendo coisas tão lindas. Parece um sonho bom demais para ser real. A felicidade no meu peito é tão imensa que o medo de acabar é aterrador, portanto, o choro é inevitável. Penso em tantas coisas para lhe dizer, mas nada além de lágrimas saem de mim enquanto ele me despe com uma

gentileza que nada tem de sexual. Mas a sensualidade está no toque suave de suas mãos na minha pele e em minha nudez sem receios. No entanto, nunca me senti tão exposta e vulnerável diante de outro ser humano. É como se minha alma estivesse desnuda aos olhos de Joseph e ele pudesse lê-la, tocá-la e ver cada um dos sentimentos que me desperta sem que seja necessário confessá-los. O silêncio entre a gente não é desconfortável, na verdade, muitas palavras ecoam nele, palavras que eu nunca ousei pronunciar, muito menos tive o prazer de ouvir. Tudo com Joseph é intenso, inédito e maravilhoso. Meu peito se enche daquela coisa boa que não ouso intitular, por mais que a pergunta do barman volte à minha cabeça toda vez que tento fugir dela. Aperto os olhos, sentindo o vestido escorregar por meu corpo, farfalhando ao tocar o chão. Nunca um som me pareceu tão gritante. Respiro fundo e olho novamente para ele. Seus olhos me analisam, preocupados, então me sinto culpada por ter sido tão irresponsável e lhe causar essa expressão. — Joseph, por favor, me perdoa — imploro com uma rouquidão que faz a voz mal parecer a minha.

Em seguida, me sinto tola. Como se me autodestruir o atingisse na mesma intensidade que a mim mesma... É claro que não! Joseph é apenas um amigo que se preocupa com meu bem-estar físico. Nada mais do que isso. Ele voltou para Itaú de Minas porque ainda ama Laurene e quer consertar as coisas por lá, para quando voltar de fato. Não posso me iludir porque ele atravessou parte do país para me salvar. O sorriso que me oferece de presente é a coisa mais linda que já vi na vida. — Não precisa se desculpar, Pauline, estou fazendo o mesmo que você teria feito por mim. Eu faria qualquer coisa por ele, me pedindo ou não, inclusive deixá-lo ir embora, mesmo que isso me matasse. Incapaz de suportar tamanha dor que se manifesta em mim, me jogo em seus braços, dizendo o quanto há verdade em sua declaração através de um beijo de tirar o fôlego. Joseph não me rejeita, pelo contrário, me aperta em seu peito como se eu fosse a coisa mais preciosa que ele já teve na vida. Estremeço, incapaz de conter a força do sentimento que nasce, cresce e toma forma, moldando meu

novo eu em sua essência. Mais pranto vem, mais alegria se mistura a todas as sensações. Joseph se inclina sobre mim, passando os braços atrás dos meus joelhos e me erguendo em seu colo de novo, como uma garota fragilizada que mal consegue caminhar sobre as próprias pernas. Meu peito infla tanto que parece que vai implodir. Meu Deus, que homem é esse? Eu me sinto tão egoísta porque, pela primeira vez na vida, eu quero alguém para mim. Desejo tanto que ele seja meu que a certeza de que não tenho esse direito me fulmina em cheio. Como conciliar liberdade e pertencimento? Não faço a menor ideia, só sei que nunca desejei tanto uma coisa que não posso ter. Pior, eu nunca me deparei com nada que me fosse negado, talvez por isso mesmo o queira tanto. Sou carregada ao banheiro enquanto sua boca não me deixa jamais. Minha pele fica toda arrepiada, frio e calor se chocam dentro e fora do meu corpo cansado. Mas não importa, porque ele me protege de qualquer coisa, inclusive de mim mesma. Joseph me afasta devagar, como se lutasse contra a própria vontade de ficar comigo em

seus braços. Não quero largá-lo, então, seguro-o firme, com medo desse sonho terminar ao abrir novamente os olhos. Joseph solta um riso engraçado e abafado nos meus lábios, que faz cócegas. Não resisto e começo a rir junto com ele. — Não posso entrar no chuveiro de roupa, maluquinha — diz contra minha boca. Gargalho alto, afastando-me muito pouco, ainda presa ao seu pescoço. — Na verdade, você pode tudo o que quiser, meu anjo, mas será um prazer ajudá-lo com isso. Dou um toque de malícia ao meu tom e sou baixada de volta ao chão. Fico em pé na frente dele e tento imitar sua delicadeza ao lhe arrancar peça por peça, inclusive os óculos. Sua pele ganha aquele tom avermelhado lindo e sorrio ao perceber que ele nunca vai perder a vergonha de ficar nu diante de mim. E eu jamais vou me cansar disso. Sempre vi beleza na sinceridade e não existe nada mais autêntico do que seu rubor. Aprendi a amar tudo nele, porque cada um desses gestos revela seu verdadeiro eu. A gente entra juntos na banheira e abre as torneiras ao

mesmo tempo — eu a da banheira, ele a do chuveiro — para encher mais depressa. Nossos corpos se grudam novamente sob o jato de água morna. As pequenas correntes que se formam e deslizam entre e sobre nós, parecem carícias constantes e sedutoras. Elas carregam consigo as impurezas que me cobriram durante sua ausência, me purificando para ser merecedora dele. Suas mãos também me limpam, abrindo caminho à força na minha pele, tomando posse de cada milímetro do qual sou composta. Arquejo, em uma mistura de tesão e amor — sim, amor, não vou me proibir de nominar o que sinto, seria tolice, pior, seria hipocrisia e eu posso ser louca, mas não sou hipócrita —, dando-lhe minha língua. Joseph a suga daquele jeito delicioso que me acende como se eu fosse uma lâmpada de um milhão de volts. Jamais estive tão pronta para ser de alguém como agora. Quero ser dele, pertencer-lhe, fazer parte de seu corpo e de sua vida na mesma medida exacerbada e descabida, indo contra tudo que sempre acreditei. Quero me perder nele a ponto de não me reconhecer mais. Quero

vê-lo em mim quando me olhar no espelho. Eu me amo, não desejo ser substituída por ele e desaparecer do planeta, consumida por amar demais, como tantos fazem, dando valor ao outro e preterindo a si mesmo. Mas a beleza do coração de Joseph me encanta a tal ponto que eu quero, e muito, ter a inocência e a pureza que habitam nele dentro de mim. O ato de amor que vamos fazer — porque caminhamos para isso agora e desejo demais que aconteça — vai ser o simbolismo perfeito e literal disso. Ofegando, ele me empurra contra a parede, nos tirando de sob a água. Descola nossas bocas, encostando a testa na minha. Respira ruidosamente, puxando bastante ar. — Eu devia te dar um banho e te colocar na cama. Você está cansada depois de passar uma noite em uma cela. A gente não devia fazer sexo... Ponho um dedo sobre seus lábios, interrompendo-o. — Apenas se permita, Joseph, se é o que você quer. Porque eu sei que te quero muito dentro de mim agora. Não preciso esperar mais um dia para tê-lo outra vez. — Pauline, eu... — sussurra em um sopro fraco. Ele aperta os olhos com força e acaricio seu rosto,

enlevada com sua emoção tão parecida com a minha. Beijo sua testa devagar, puxando sua cabeça para baixo, bebendo a água morna que escorre de seus cabelos. Coloco os dedos em seus fios molhados, que deslizam com facilidade como se deles fizessem parte. Salpico seu rosto de selinhos, distribuindo-os por todos os lados enquanto ele não ousa encarar meu gesto de qualquer maneira. Busco a curva de seu pescoço, encaixando-me ali e lambendo com lentidão a pele eriçada. Joseph, enfim, reage, deixando sua própria língua sentir minha pele, imitando meu carinho. Pega minhas mãos gentilmente, afastando-me dele, e me sinto traída por um segundo antes que ele beije os nós dos dedos de maneira adorável, fazendo meu coração parar por um segundo e depois acelerar enlouquecido. Joseph beija minhas palmas, deixando a ponta da língua aparecer, provando o meu gosto. Desce para meus pulsos e paraliso de tensão ao pensar que ele pode ouvir meus batimentos cardíacos ensandecidos, mas seria bobagem tentar esconder que sou apenas sentidos nesse instante. Lambe a curva do lado de dentro dos meus

cotovelos, enlouquecendo as reações do meu corpo. Onde foi que ele aprendeu tudo isso? Que delícia, meu Deus! Seu rosto paira diante de meus seios e não perde tempo em abocanhá-los. Chupa os mamilos carinhosamente, mas nem um pouco menos excitante. Larga meus braços para poder segurar meus peitos nas mãos grandes, e me sinto como se ele tivesse me amparado inteira em suas palmas, tamanha delicadeza que utiliza. Não me lembro de ter me sentido tão amada e cuidada em toda a minha vida, principalmente durante o sexo. Para mim, transar sempre foi um momento de loucura, tesão, pele, desejo... Apenas isso, sem margem para sentimentos que não tenham a ver com fantasias sexuais ou anseios mais primitivos e ocultos. Nunca pratiquei com tanta candura como com Joseph. Sua boca espalha beijos pela minha barriga e a língua se encaixa no meu umbigo, me arrancando um gemido da garganta. Seus beijos deixam rastros no meu ventre até alcançar meu triângulo depilado, que pulsa de desejo por ele. A água da banheira balança, caindo pelas bordas, quando Joseph se agacha, laçando meu quadril e passando minhas pernas

por cima de seus ombros. Arquejo, surpresa, olhando em sua direção, mas ele se concentra no ponto bem diante de seus olhos, vencendo a pequena distância que nos separa. Estimula sensual e maravilhosamente bem meu clitóris inchado, de um jeito provocante e tão bom que não quero que pare nunca. Joseph o suga com vontade, depois lambe e pressiona com a língua, em um ritmo cada vez mais forte e rápido, como se soubesse exatamente como me levar ao êxtase. Mas ele sabe, Pauline, já fez oral em você antes. O melhor oral da minha vida, devo acrescentar. Seguro sua cabeça, puxando-lhe os cabelos, e me entrego à explosão orgástica que arranca de mim. Gozo deliciosamente em sua boca porque é isso que ele quer que eu faça. Com cuidado, me coloca de volta sobre meus próprios pés e percebo que minhas pernas estão trêmulas e cansadas. Mas não me importo, me mantenho firme e consciente, desejando mais, sempre mais desse homem que se tornou tudo de repente, mesmo não sendo nada até ontem. Hoje é um novo dia, o nascer do sol o trouxe de volta para mim e não vou descansar enquanto não morrer

em seus braços. Seus lábios procuram os meus outra vez, as mãos se emaranham nos meus cabelos, me levando para mais perto, mais dentro de si, e eu me grudo nele como chiclete velho em carteira de escola. Não vou sair daqui nem tão cedo! Minha vez de abençoá-lo com meus beijos. Largo sua boca para descobrir um novo gosto em sua pele e decorálo para não haver confusão ou esquecimento. Este é Joseph Ayres, o único que tirou tudo de mim, mesmo quando não me pediu nada. Eu nunca fui tão feliz em me perder desse jeito. Era para eu estar com medo, acuada, preocupada, mas não dá para ignorar os sentimentos maravilhosos e deixá-los se esvaírem, sem importância alguma. Eu sou Pauline de Freitas Dias, a mulher que não tem medo de experimentar o novo. Acabo de descobrir que estou cansada do velho, cansada demais para sequer pensar em voltar para aquela vida que já me fez bem, mas que agora não parece boa o suficiente, porque nela meu amor não cabe. Se essa sensação divina tem direito a um espaço relevante, então é muito fácil fazer a escolha certa. Jogar-me nessa estrada

desconhecida sem pensar muito também faz parte de quem sou. Não há o que temer. Eu me sento na borda da banheira e o sugo para dentro da minha boca, com toda a vontade represada que tenho. Joseph apoia as mãos contra a parede, acima da minha cabeça, ofegando enquanto o chupo descontroladamente, buscando mais e mais de seu líquido excitante e saboroso. Seus quadris se movimentam no mesmo ritmo, se empurrando mais fundo, doido para gozar. Por favor, faça isso, quero engolir tudo. — Pauline, pare! — Pede com tanta fúria que eu paraliso, assustada, afastando-me depressa. O que foi que eu fiz de errado? Só queria lhe dar o que me ofereceu. Ele passa uma mão no cabelo, em desalento, e com a outra me puxa para seus braços novamente. — Desculpe por gritar, mas... — engole em seco, procurando uma resposta adequada. — Quando você me chupa desse jeito, eu não consigo me segurar. — Seu sorriso tímido me arranca outro em resposta e, ao corar daquele jeito lindo na sequência, caio na gargalhada. — Eu quero que seja... completo.

Sua intensidade me cala. Assinto, deixando meus lábios beijarem os seus mais uma vez. Não me canso, gente, essa boca é maravilhosa demais! Joseph me desgruda, tomando as rédeas da situação e permito que controle nosso sexo. Faça do jeito que quiser, meu anjo, eu sou sua. Ele me gira de costas, afastando meus cabelos e beijando meu pescoço em uma carícia fantástica, me sensibilizando ainda mais. Fecho os olhos e me apoio contra a parede, contorcendo-me sob o poder de sua língua. Esfrego minha bunda contra seu pau duro, porque não consigo ficar quieta e apenas me deixar seduzir, sem nada lhe dar em troca. Seu corpo se curva, me tomando toda para si em um abraço por trás. As mãos me apertam e acariciam, em uma mistura de amor e paixão. Eu me inclino junto, encaixando minhas formas as dele e ajudando seu pênis a encontrar minha entrada escorregadia. Joseph não tem pressa, percorre minha extensão com a mesma lentidão que tivemos até agora nas preliminares. Suas palmas encontram meus seios, e seu rosto a curva do meu pescoço, concluindo nosso ajuste perfeito. Seus

batimentos e sua respiração sincronizam com os meus e somente seu quadril faz o trabalho vagaroso e agonizante de empurrar seu pauzão cada vez mais fundo dentro de mim. Joseph tira mais uma virgindade minha nesse instante. É a primeira vez que faço amor. Quando ele está inteirinho no meu interior úmido e pulsante, mexe o quadril em um movimento circular, redescobrindo pontos ainda mais sensíveis em mim. Estou de olhos fechados, sentindo toda a intensidade desse momento em cada célula. Inicia o vai e vem sem a menor pressa de nos levar ao fim e eu nunca quis tanto prolongar uma transa como dessa vez. Fico mais molhada a cada bombeada, entregando-me de corpo, alma e coração a este homem. Nossos corpos se chocam com leveza, mas de maneira profunda e irreversível, fazendo-me dele e ele meu. De repente, Joseph nos desencaixa, porém sem afastar nossas peles sedentas uma pela outra. Usa uma mão para fazer a cabeça de seu pau pincelar entre minhas nádegas e me contraio de expectativa, sabendo que ele pretende me tornar inteirinha sua hoje, agora, nesse exato

momento. Quando fica satisfeito, encaixa-nos e impele seu pênis deliciosamente duro e macio para dentro, com a mesma paciência de antes. Aos poucos, ele vai ganhando espaço em mim, forçando passagem gentilmente e descobrindo um jeito de fazer parte de meu corpo. Como antes, não há dor, somente prazer e a certeza de que ele a mim pertence, então é natural que esteja em toda parte. Joseph resfolega, voltando a se debruçar sobre mim. Seu hálito arrepia minha pele quando toca minha orelha. Estou fervendo, sentindo meu sangue aquecer a mil graus. Seu quadril desliza novamente, primeiro para trás, depois para frente, ganhando-me totalmente. Quando repete o movimento, o pênis escapa e escorrega mais embaixo, entrando com a maior facilidade. Gememos juntos, contendo a excitação que a troca causa em nós. Ele gosta de me possuir por completo e eu enlouqueço de vez, enquanto ele volta para minha segunda entrada, atolandose até o fim. O movimento, a pressão e o tesão maluco nos arranca grunhidos. Da próxima vez que ele se mexe, vou com ele, atraída pela sensação de posse, de entrega, de

pertencimento. A troca se dá com um pouco mais de fúria e vontade, ainda que os sentimentos de carinho e cuidado estejam presentes no toque, no abraço, na transpiração que se junta às gotas do chuveiro em nossa pele. Sinto, sem serem necessárias palavras, que Joseph me diz: “você é minha, somente minha, para sempre minha” e nunca esse pensamento me pareceu tão perfeito, adequado e preciso. Chego a me sentir feliz de verdade com ele. Acho que o problema da liberdade que eu vivia era exatamente essa: eu nunca tinha por quem ou para o que voltar quando o mundo me chamava para uma aventura. Agora eu tenho. Ele sai da minha vagina exageradamente lubrificada e volta para meu ânus pulsando, louco de desejo por mim. Invade-me como se me pertencesse e não fosse apenas um pedacinho delicioso dele. Meu anjo, meu demônio, meu paraíso e meu inferno. Joseph consegue ser meu maior erro, minha rota equivocada, mas também meu rumo certo e meu grande acerto. Como a loteria que vencemos. Um jogo pode ser considerado censurável por causa da sorte, ou seja, é superstição. Mas o prêmio é a melhor coisa que uma pessoa pode ganhar por apostar cegamente. Pelo

prêmio milionário vale a pena arriscar. Assim é o amor que sinto por Joseph. Ele é, simplesmente, meu destino. Gradativamente, aumentamos o ritmo, buscando mais sensações no corpo um do outro. Ele continua brincando, possuindo-me pelos dois orifícios como se não conseguisse se decidir qual é o mais gostoso ou em qual deles quer se acabar. Eu lhe permito escolher o que quiser. Vê-lo feliz me faz feliz. Suas mãos mudam de posição enquanto arfa atrás de mim, escorregando nas minhas curvas. Uma vai parar no meu quadril, controlando a velocidade do nosso choque, e a outra entre as minhas pernas, onde me estimula. Joseph repete as arremetidas duas vezes antes de realizar a troca, aumentando o atrito e testando nossos limites. Ousado, atrevido e curioso, esse homem está se transformando em uma máquina de fazer sexo, e sexo muito bem feito. Na próxima repetição, multiplica para três, intensificando o tesão maluco que nos acerca. Ele vai deixar o orgasmo escolher aonde quer chegar. E eu quero muito que venha, mas ao mesmo tempo não. Está tão delicioso tê-lo em mim desse jeito que penso ser tolice

parar. É uma primeira vez absurdamente erótica e romântica, tudo junto e misturado. A velocidade também cresce conforme as metidas se somam e perco o controle sobre meu corpo. Quatro, cinco, seis bombeadas depois, estou explodindo em um clímax intenso, forte e perturbadoramente prolongado, já que ele retorna à minha vagina para repetir o movimento, um pouco mais bruto, firme e absurdamente rápido. Solto um grito rouco, embaralhado ao seu nome. O momento perfeito chega ao seu ápice, com Joseph socando fundo em mim uma última vez e jorrando seu prazer para que se una ao meu. Ofegantes, nos largamos um no outro. Minhas pernas vacilam e fraquejam, mas ele me ampara, me puxando para a água morna da banheira, dentro da proteção de seus braços, após fechar as torneiras. O piso do banheiro se inunda com a água que transborda, mas quem se importa? Eu me recosto em seu peito, sentada entre suas pernas abertas, que também me abraçam lateralmente. Eu me sinto acolhida. Minha casa não é esse teto alugado sobre nossa cabeça. Meu lar é Joseph, assim como ele assumiu

mais cedo para mim. Silenciosos, nos deixamos aconchegar por uns instantes, enquanto nossos corações disparados se acalmam. Sinto que devia dizer alguma coisa, mas é tanta emoção, é tanto sentimento, é tanta exacerbação na minha mente que eu não saberia por onde começar. Acho que o cansaço da noite em claro, do álcool e da droga no meu organismo finalmente está me cobrando seu preço. Agora não é hora de pensar, muito menos de falar em coisas sérias e importantes. Mas estou feliz por sentir, por me permitir e por entender e aceitar, finalmente. Só isso já me deixa mais tranquila. Joseph afasta um braço de mim por um momento, pega a bucha de banho macia, despeja sabonete líquido nela e começa a me esfregar. Que fofo! Eu o deixo, como disse antes, fazer o que quiser por mim. No estado em que estou, durmo aqui mesmo nessa banheira. Estar perto dele me basta. Ele alisa cada pedacinho de meu corpo, limpando centímetro a centímetro. Esfrega entre minhas pernas, delicadamente, como uma carícia, mas sem provocar. Pelo menos acho que não seja sua intenção.

Joseph me faz girar e a gente se encara, eu sorrindo e ele corando lindamente sério enquanto esfrega minhas costas e entre minhas nádegas. Mordo os lábios para demonstrar o quanto é bom. Seus olhos seguem os movimentos da minha boca e, em um reflexo, ultrapassa o espaço entre a gente, nos consumindo em um beijo doido. Pulo para o colo dele, sedenta por mais. Roubo-lhe a esponja, alisando seu corpo com ela enquanto nossas línguas duelam deliciosamente. Joseph me agarra, me aperta, me segura, puxa meus cabelos com fervor e vontade quando lavo seu pau até que fica durinho na minha mão. Ai, meu Deus! A gente não vai parar hoje, mesmo exaustos? Ele passa as mãos pelo meu corpo, retirando o sabão, e faço o mesmo. Em seguida, me deita sobre a água, fazendo meus cabelos se ensoparem. Ele me levanta novamente e começa a laválos com xampu. Eu me sinto tão bem que paro de atacá-lo, mas também quero limpar seus cabelos. Deixo que cuide de mim primeiro para depois retribuir. Sem pensar duas vezes, quando o vejo tocar a torneira para enxaguar minha

cabeleira, me jogo para trás e mergulho de olhos fechados, agitando a cabeça sob a água para limpá-los. Quando volto, Joseph está rindo de gargalhar. Eu me divertindo muito. Deixo que passe o condicionador nesses cabelos rebeldes e, enquanto esperamos a ação do creme, lavo os dele, tarefa muito mais simples. Na hora de enxaguar, a gente mergulha junto. A banheira é grande o bastante para nós dois, muito gostoso. Voltamos para a superfície ao mesmo tempo, fazendo espuma escorrer pelo chão. Joseph se levanta, me puxando junto, me abraçando e me beijando, tão soltinho quanto eu. Que bom que estamos em total sintonia. Ele me ajuda a sair da banheira, tomamos cuidado para não escorregar no piso molhado, e me enxuga com uma toalha grande e felpuda, tão macia quanto o carinho de suas mãos. Sou enrolada na toalha e, antes que eu possa tentar fazer o mesmo, ele me ergue nos braços, me carregando lentamente até a cama, sorrindo satisfeito com sua função de protetor. Encosto minha cabeça em seu ombro e me permito estar, simplesmente feliz. Meu anjo me deita na cama e me cobre com um

lençol, nua em pelo como sabe que gosto de ficar. Deixa um beijo na minha testa e me pede, com um sorriso inocente no rosto bonito: — Agora descanse, linda menina, estarei aqui quando acordar. Ele se ergue para se afastar, mas agarro seu pulso, momentamente assustada. — Não, por favor, Joseph, fica comigo! Seus olhos piscam, me encarando intensamente. Ele chega a olhar para a bagunça que deixamos para trás no banheiro, mas se rende, talvez tão cansado quanto eu. — Está bem. Amanhã a gente pensa no resto. O resto? Que resto? Não consigo pensar direito, principalmente quando o calor de seu corpo me envolve. Abraço seus braços por cima dos meus e fecho os olhos, sentindo-o aconchegado em mim pelas costas. Adormeço quase que imediatamente, e por um segundo não perco o beijinho que ele deposita bem no meu pescoço, antes de aspirar meu perfume e apagar também, eu acho. Acordo e encontro tudo escuro e frio. Um medo terrível me toma. Joseph foi embora de novo, droga, ele

estava bem aqui! Levanto-me zonza por causa da rapidez do movimento e saio trombando nos móveis, nas paredes e nas portas, mal reconhecendo onde estou. Grito vários “ais” até que uma luz se acende, quase me cegando, e sou abraçada por um Joseph assustado e preocupado. — O que foi, Pauline? Não está se sentindo bem? Resfolego, sem acreditar na minha sorte. Ele ainda está aqui! — Não foi... nada — explico sem explicar, não é? — Uai, sô — coça a cabeça de um jeito engraçado. Depois dá de ombros e deixa isso quieto. Ainda bem. — Está com fome? A comida acaba de chegar. Balanço a cabeça positivamente e ele me leva pela mão até a sala de jantar. Quase desfaleço ao chegar à entrada. Fico paralisada, olhando para tudo sem falar nada, emocionada até o último fio de cabelo. Lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto. Os cheiros se misturam e aumentam mais ainda minha emoção. Fome e alegria nunca foram tão amigas. Viro-me para ele, que sorri, voltando para perto de mim carregando um dos vários buquês de rosas vermelhas que enfeitam a sala.

Estende para mim. — São todas para você, afinal, que mulher não gosta de flores? É um pecado você nunca ter recebido antes. Eu me atiro contra ele, pendurando-me em seu pescoço e lhe beijando até perder o ar. Esse homem consegue ser tudo o que eu nunca soube que queria, até ganhar. Não tem mais volta, não posso esperar nem um segundo dessa vida maravilhosa com incertezas e inseguranças. Vou dizer a Joseph o que sinto. Dane-se a promessa que fizemos sobre não nos apaixonar. Eu já disse uma vez que ninguém escolhe por quem se apaixona, não é diferente comigo. E antes que eu o perca para sempre, preciso lhe dizer a verdade. Sinceridade é mais importante do que qualquer juramento. Foi sobre essa base que comecei a amizade com ele e é com ela que quero fortalecer nossa relação.

Capítulo 25

Joseph

Perdido entre o aqui e o agora Acho que exagerei nas rosas. Quando procurei o telefone do delivery de comida mais próximo e acabei encontrando o número de uma floricultura, queria fazer com que Pauline se sentisse confortável, além de que estava em meus planos lhe presentear com flores, já que ela falou que ninguém teve a decência de fazer isso antes. Contudo, minha amiga não para de chorar, está toda emocionada enquanto observa e cheira cada um dos buquês. Eu ia comprar só um, mas a nossa casa anda tão sem vida que achei melhor comprar dez. É, eu realmente exagerei. Em vez de arrebatar sorrisos, estou arrancando lágrimas.

— Pauline... Você está bem mesmo? — pergunto por trás dela, que está com um dos arranjos nos braços, cheirando-o e deixando mais lágrimas molharem seu rosto. Depois do momento vivenciado debaixo do chuveiro, simplesmente não consigo vê-la da mesma forma. Pauline nunca esteve tão encantadora aos meus olhos, acho que sou capaz de qualquer coisa para fazê-la se sentir bem. Afinal, é assim que ela me faz sentir. Não é apenas pelo sexo, mas por tudo que passou a representar na minha vida, e tão depressa. Vejo o mundo inteiro de outro jeito. Talvez por isso ela também me pareça diferente do começo. — Estou bem, anjo. Estou ótima! — Suspira e finalmente sorri. Fico aliviado. Acredito que ela esteja vulnerável por causa da noite que passou sozinha em uma cela escura. Estou muito curioso para descobrir cada detalhe do que aconteceu, embora saiba que as informações não me deixarão muito contente. Mas essa conversa precisa acontecer, até porque também tenho muito a dizer para ela. A confusão só

aumenta dentro da minha mente, preciso dos conselhos de alguém que aparentemente sempre sabe o que fazer nas situações mais diversas. — Vamos jantar, você deve estar faminta. — Aponto para a mesa já posta. Pauline sorri mais amplamente, colocando o buquê de volta ao vaso e caminhando, meio desnorteada, até onde organizei nossa comida. — Vem, sente-se aqui. — Afasto a cadeira e ela começa a rir não sei do quê. Acho que perdeu mais do pouco juízo que tinha. — Eu... preciso vestir alguma coisa. Só então percebo que ela está completamente nua. Não sei que esquisitice é essa que me faz ficar tão natural diante de sua nudez. Eu devia estar envergonhado, chocado ou, no mínimo, bastante vermelho, mas não estou de nenhum dos três jeitos, embora sinta que estou ficando meio corado, talvez pela minha própria falta de percepção de algo tão óbvio. Ela ri do meu desconcerto e falta de resposta. Vira-se, subindo as escadas sensualmente, mostrando-me cada detalhe do corpo que eu conheço bem demais e fico duro só de pensar em todos os ângulos que

já o vi. Sento no sofá me sentindo um pouco sufocado, não sei por que prendi a respiração por tanto tempo, sem me dar conta. A campainha toca estridente, assustando-me e me tirando das reflexões malucas. Atravesso a garagem e abro o portão menor sem me lembrar de conferir quem é. Pela hora, pode ser um dos jornalistas que não param de rondar a casa. Um homem usando terno e gravata surge na minha frente. — Desculpe o incômodo, mas a senhorita Pauline de Freitas Dias mora nesta residência? — Fico sem palavras durante alguns instantes. O que esse cara quer com a Pauline? Será que é da polícia? Faço uma careta e acho que o homem percebe que não estou disposto a oferecer a minha amiga de bandeja. — Sou segurança particular do clube onde ela esteve ontem. Aqui está a lista dos itens que a senhorita Pauline consumiu. — Entrega-me um pedaço de papel. — Ela saiu sem quitar o valor. — Hum... — Dou uma olhada no papel, percebendo que o gasto discriminado é realmente bem alto para uma pessoa só consumir durante uma noite. Pauline bebeu

como uma ensandecida. — Como faço para pagar a dívida? — O senhor pode fazer uma transferência nesta conta aqui até amanhã. — O homem sério me entrega uma espécie de cartão com informações bancárias e descrições sobre o lugar. Então percebo, pelo nome do estabelecimento, que não se trata de um clube qualquer. — Ou pode me entregar o dinheiro agora, se preferir. Estou petrificado, sem saber o que pensar sobre o que acabo de descobrir. Olho o papel várias vezes, prendendo os lábios para não sair gritando. Não consigo entender direito a minha reação extremamente decepcionada. Eu não devia estar nem um pouco surpreso. Por fim, abro a carteira e retiro o valor necessário para o pagamento. Quero acabar com isso de uma vez por todas. — Fique com o troco — murmuro. — Obrigado. Assine aqui, por favor. — Ele me entrega uma caneta, por isso, assino e ofereço o papel de volta. Ele carimba duas vias e me entrega uma, como uma espécie de recibo. — Mais uma vez, obrigado, e me desculpe o incômodo.

— Tudo bem... — O homem se afasta devagar, porém eu o intercepto pegando em seu braço. — Só me tira uma dúvida. Este... lugar... é um clube de... sexo? Ele me olha de um jeito divertido, creio que porque gaguejei como um idiota. — Sim, senhor. Até breve. Eu fico plantado rente ao portão, observando o cara ir embora enquanto meu coração se despedaça em milhões de partículas indefinidas. Não dá para me sentir mais imbecil do que isso. Saber que Pauline esteve em um lugar como aquele de novo, e sem minha companhia, me faz amplificar a certeza de que eu nunca conseguirei satisfazê-la totalmente. Nós tínhamos transado o tempo todo, como dois malucos viciados, e mesmo assim, qual é a primeira coisa que ela faz na minha ausência? Vai atrás das tantas modalidades de sexo que curte e que eu jamais me vi fazendo algum dia. Não sei por que isso me angustia tanto. Para Pauline, sexo é apenas diversão, um passatempo gostoso que gera orgasmos fantásticos e nada mais. No fundo, a culpa é minha por estar romantizando nossos momentos. Somos

amigos — amigos que fazem sexo, mas ainda assim, amigos —, não posso exigir que transe apenas comigo, muito menos que se satisfaça com um cara inexperiente. Não importa o quão bom seja para mim o nosso sexo, para ela sempre vai ser só mais uma oportunidade de usar o corpo a favor de seu próprio prazer. É desse jeito que eu tenho que pensar também. Pauline não está errada em recolher apenas o melhor de tudo que a cerca, sem se preocupar com o futuro. Entro em casa me sentindo diferente, talvez porque acabo de ganhar mais uma aprendizagem. Quero ser um Joseph mais despreocupado, menos envergonhado e mais permissivo. Desejo ser alguém como Pauline, livre, leve, solta e transparente. Essa talvez seja a resposta para os meus problemas. Difícil mesmo é começar a agir assim, já que costumo pensar demais nas consequências. Acho que Pauline pode me ajudar a dar adeus, de uma vez por todas, ao meu passado cheio de regras. Quem sabe assim eu me torne alguém que a satisfaça mais. Sei lá, é só uma hipótese. — Quem era? — ouço sua voz e ergo o olhar em sua

direção. Quase não acredito no que vejo diante de mim. Pauline veste uma camisola preta curta e megatransparente, que permite qualquer um visualizar seus seios arrebitados. Uma calcinha bem pequena pode ser vista por baixo do tecido, e eu não sei se ela ficaria mais sexy sem ela, acho que não. Do jeito que está já é o suficiente para me deixar absolutamente desajuizado. — Algum entregador? — Não, sô... — Engulo em seco, tentando conter uma ereção e falhando tragicamente. — Foi só um dos jornalistas. Ele não vai mais incomodar. Eu me sinto mal por estar mentindo para Pauline, mas não quero entrar no assunto “clube de sexo” nesse momento. Quero que ela jante em paz e descanse direito antes de começar a me contar o que houve. Agora que já sei para onde ela foi à noite passada, posso me preparar melhor. Ou não. Acho que nunca vou estar pronto para isso. — Ótimo! — Sorri e levanta as mãos para mim, chamando-me. — Vamos jantar. Tenho umas coisas para te dizer.

Nós nos sentamos à mesa, então percebo que alguém acendeu algumas velas sobre ela. Juro que não fui eu. Certamente a assustaria se, além das rosas, também propusesse um jantar à luz de velas. Pauline não pensaria coisas muito positivas ao meu respeito, acharia que estou confundindo tudo. Olho ao redor e me dou conta da iluminação suave; as luzes da sala estão desligadas, apenas as da garagem e as da cozinha estão acesas, tornando o ambiente bastante íntimo. Acho que Pauline vai tentar me seduzir de novo, mas mal sabe ela que já estou seduzido. Visualizo uma cena muito quente de nós dois sobre a mesa de jantar. O pensamento me faz enrubescer, e claro que ela percebe. Começa a rir de mim, coisa que acho que gosta de fazer. — Eu... também tenho... algumas coisas para te falar — digo, porque acho melhor começarmos a conversar sobre mim primeiro do que sobre ela. Preciso de seus bons conselhos com urgência, do contrário posso enlouquecer. — Mesmo? O que tem para me dizer? — Ela sorri um pouco nervosamente, o que eu estranho de imediato.

Nós servimos nossos pratos e começamos a saborear a comida. Está muito boa, ainda bem. — É sobre minha ida a Itaú. Pauline para o garfo antes que ele alcance a boca. Encara-me de um jeito muito esquisito, desistindo de comer. Fica me olhando com uma expressão séria. Suspiro profundamente para criar coragem de contar as loucuras que se passam pela minha cabeça. Eu não sei se ela vai me entender, mas Pauline sempre dá um jeito de me fazer sentir melhor comigo mesmo. — Conta logo, Joseph! — Sua voz sai abafada e urgente. Ela está tão esquisita! — É que... Eu nem sei como começar a explicar, uai. Estou muito confuso, sem saber que direção seguir. — Você está falando sobre Laurene? — pergunta ainda muito séria. — Estou. — Dou de ombros. Ouço Pauline expirar o ar dos pulmões como se estivesse irritada. Pudera, ela não gosta de Laurene e com razão. — Foi tão estranho. A gente se atracou em um beco escuro e... — Vocês se atracaram em um beco escuro? —

Pauline grita, assustando-me. Quase derrubo os talheres no chão. Paro e a observo com os olhos arregalados. — Fo-foi. — Vocês transaram? Não acredito nisso, Joseph! Por que transou com ela depois de ter te feito sofrer tanto? — Abro a boca para falar alguma coisa, mas Pauline simplesmente não deixa. Acho que ela nem respira entre as palavras que saem como enxurrada. — Ai, meu Deus! Vocês... se amam, é claro! Pretendem se casar quando essa viagem acabar e esperam ser felizes. Devem ter acertado todas as diferenças ontem... Sei lá se uma trepada bastou pra você. Mas se voltou para cá, então ainda vai pensar melhor a respeito e ver que ela é o amor da sua vida... sempre foi. E Laurene vai te dar muitos filhinhos chorões. Ah, minha nossa! — Você acha isso? — pergunto, fazendo uma careta. Meu coração para de funcionar por alguns instantes diante das palavras de Pauline. Não fazia ideia de que ela tinha essa opinião. Sempre pensei que ela achasse que Laurene e eu nunca voltaríamos a nos dar bem de novo. — Acho! — Sorri de um jeito anti-Pauline. — Acho,

acho sim. Balança a cabeça nervosamente para cima e para baixo, como se tivesse que reforçar suas palavras porque não consigo entender direito. — Eu... não sabia que... — Minhas ideias estão todas embaralhadas. — Por que acha isso? — pergunto, me irritando um pouco. — Posso saber? — Não sei, só acho. — Seus ombros erguem em um movimento de desdém. — Mas por quê? — Estou realmente chocado agora. — Eu não sei. — Tem que ter um motivo. — Impaciento-me mais. Não é possível que não há uma resposta decente para isso. Eu estou tentando encontrar uma solução para meu problema e Pauline me deixa mais confuso. Não pode ser! — Eu não sei, Joseph! Você voltou para Itaú por causa dela, tem motivo melhor que esse? — Seu grito desesperado me sobressalta. — Meu Deus, eu estraguei tudo! — Deposita a cabeça entre as mãos e puxa os cabelos nervosamente. Eu estou mais perdido que cego em tiroteio. E triste também. Não sei dizer direito por que,

mas tenho uma vontade absurda de sumir do mundo. Se eu não sabia o que fazer antes, agora então... — Fiz a maior merda! Eu não devia ter sido presa. Atrapalhei a sua vida, seu futuro, sua felicidade! — Pauline... Desculpa, mas... eu não estou entendendo nada. Ela se ergue da mesa, criando uma distância estranha entre a gente. — Você devia estar em Itaú agora, acertando os pontos com Laurene. Joseph, como pôde ter feito uma coisa dessas? — Mas o que é que eu fiz? — Tem um nó gigantesco no meu cérebro. — Eu não voltei por causa dela, eu voltei porq... — Claro que foi por causa dela! — Pauline parece descontrolada. Seu rosto está vermelho e as mãos um pouco trêmulas. — Não entende, Joseph? — Não, eu não entendo! Você ficou maluca por acaso? — Ah, sim, eu pirei! Nunca me senti tão doida quanto neste instante! — desdenha, rindo alto, mas de um jeito

falso. — Não sei o que deu em você, mas eu não transei com Laurene. A gente... deu só uns... amassos. — Devo ter ficado vermelho, sinto um calor no rosto, por isso desvio os olhos e observo o prato diante de mim. — Depois foi esquisito. Eu te vi na televisão e saí de lá correndo. Laurene tentou me seguir e eu fui um verdadeiro imbecil com ela. Falei que não a amava, que não a queria. Foi horrível! Pauline fica em silêncio durante longos segundos até explodir numa gargalhada que me assusta. Eu me sinto decepcionado com a sua atitude. Esperava tudo vindo dela, menos que risse de mim dessa forma descarada. Caramba, estou imerso na maior confusão e ela só sabe tirar uma com a minha cara? Indignado, arrasto a cadeira para trás e me levanto. Sob seus risos infinitos, atravesso a sala e só sou interrompido por sua pergunta quando estou prestes a subir as escadas. — Joseph? Para onde está indo? — Vou dormir, estou cansado — resmungo olhando para o chão. Pauline corre até mim, apressada, e segura

meu braço. — Desculpa, meu anjo. Vamos terminar a conversa antes. — Você está rindo de mim, Pauline. Não sei no seu mundo, mas, no meu, os amigos não desdenham uns dos outros desse jeito. — Acho que ela finalmente percebe a seriedade da situação, pois faz uma expressão arrependida que chega a dar dó. — Poxa, me desculpa! — E para contrariar tudo o que diz, abre um sorriso enorme lindo, que me causa um embrulho no estômago. — A culpa não é sua. É que acho que entendi tudo errado. — Eu que estou entendendo tudo errado desde que te conheci. — Pauline fica em silêncio e decido que essa é a hora certa de terminar de subir as escadas. Mas então eu decido fazer uma coisa melhor. Já que não estou entendendo merda nenhuma mesmo, vou me perder de vez enquanto tiro essa camisola que não para de mexer com meu juízo. Dou a volta abruptamente, desço o único degrau que subi e a agarro pelos braços como se eu fosse um maníaco. Estou começando a achar que sou

mesmo, mas me sinto tão irritado que não penso, nem por um instante, em ser mais gentil. Tem um trem esquisito se enrolando no meu estômago, mesclado com o tesão e a vontade de explodir o mundo. — Joseph? — Pauline não entende o que pretendo até que a levo de volta para a mesa em que jantávamos. Arrasto pratos, copos e talheres sem qualquer cuidado, deixando um espaço que julgo suficiente para o que quero. — O que... você... vai... — Cala a boca, Pauline! — grito em sua cara. — Você só me confunde com essa camisola. — Puxo-a pela cintura e faço com que se incline na mesa. Empurro seu corpo até que seus seios se encostam ao tampo, deixando o traseiro macio todo arrebitado para mim. A peça é tão curta que vejo a calcinha preta quase toda, desenhando suas formas deliciosas. — Fica quietinha aí. Não estou a fim de beijá-la, acarinhá-la ou tirar sua roupa devagar, como fiz mais cedo. Só quero saciar esse sentimento novo e constrangedor que habita em mim desde a nossa primeira vez. Pauline quase nunca usa calcinha, por isso passo minhas mãos em toda a extensão do tecido,

pensando se a retiro ou não. Por fim, decido deixá-la vestida. Só tenho o trabalho de empurrar o fio-dental um pouco para o lado. A renda estala com o meu esforço, então me curvo e enfio a minha boca entre suas nádegas, lambendo tudo o que encontro pela frente. Eu quero devorá-la. Ouço seus gemidos e arquejos, que servem de gasolina para os meus gestos cada vez mais ousados. Passo a minha língua em toda parte, sentindo o gosto de Pauline me embriagar de um tesão difícil de ser aplacado. Agarro a barra de sua camisola e puxo para mim. O tecido é fino, fraco demais para um homem desesperado como eu, por isso as alças se rompem enquanto eu a sugo com força. Continuo puxando até deixar a camisola inutilizada. Não quero que Pauline use isso de novo na minha frente. É crueldade com um homem que mal sabe o que está fazendo. — Joseph! — ela grita alto, e as pernas tremem muito. Sei que está quase gozando quando me chama, por isso simplesmente paro. Não quero que goze aqui, assim. Ela rebola quando sente a minha ausência, contorcendo-se

toda em busca de algum estímulo. — Por favor! Prendo os lábios e tiro o meu membro duro para fora da bermuda. Adoro o fato de ela ter implorado por mim. Acho que meu caso é realmente grave, porque não me sinto o mesmo cara de sempre. Eu nunca fui tão livre para explanar qualquer tipo de agressividade, e aqui estou eu, sendo agressivo de um jeito positivo. Sei que Pauline está curtindo, é isso que importa. É por este motivo que continuo. — Não coloque palavras na minha boca — rosno, meio descontrolado. Sinto a necessidade de avisá-la para que nunca mais embaralhe as informações ao meu respeito, do contrário é assim que vou agir. Isso é muito doido! Não a estou ameaçando ou nada do tipo, nem mesmo pretendo sentir essa raiva de novo, mas não me arrependo de ter dado voz a esse sentimento estranho. — Por favor, Joseph, me fode! Não suporto que me implore mais. Eu lhe dou exatamente o que quer ao penetrá-la fundo, mantendo-a nesta mesma posição. Pauline está tão molhada que meu sexo escorrega com facilidade, invadindo-a até o final, de

um jeito capaz de me fazer urrar de tanto prazer. Ela fica tão quente e úmida, perfeita para mim. Jamais vou me cansar dessa sensação maravilhosa que me envolve toda vez que estou dentro dela. Soco na maior velocidade que consigo, lembrando-me de dar o meu melhor para satisfazê-la. Eu preciso, com urgência, deixar de ser o inexperiente que não a sacia totalmente. A mesa começa a chacoalhar no ritmo dos choques de nossos corpos. Minhas coxas batem nas dela, provocando um ruído sensacional. Eu estou fora de mim, longe de qualquer realidade, apenas provando mais um sentimento descomunal. Não desacelero, por mais vontade que esteja de gozar. Seguro a onda como posso, tento até pensar em outra coisa, mas não consigo me desconectar deste instante. Pauline se contorce e convulsiona, gozando e me chamando aos berros, pedindo por mais. Sinto bastante líquido nos lubrificando, tudo isso partiu dela, e facilita os meus movimentos. Decido que só vou parar quando lhe der mais um orgasmo. Curvo o meu corpo por sobre o seu, agitando meus quadris em choques intensos, profundos. Tudo que está

sobre a mesa balança perigosamente, mas nada vai me fazer parar. As ideias se embaralham na minha cabeça e sinto vontade de dizer mais coisas, extravasar tudo que parece me sufocar o peito. Se eu pudesse, conversaria com Pauline somente durante uma transa, pois acho que é só desta maneira que ela me leva a sério de verdade. — Eu não quero pensar no depois, Pauline! — Solto um grunhido e ela geme em resposta. Continuo a penetrando loucamente. — Quero viajar contigo... até descobrir... quem eu... sou! — Cada pausa que faço é um choque de nossos corpos. — Joseph! Sinto seu sexo me espremer e sei que ela está gozando novamente. Sorrio, satisfeito por ter conseguido aguentar até aqui. No entanto, sei que não posso mais forçar a barra. Preciso de alívio, mas não é assim que eu quero. Vou fazer diferente desta vez, porque Pauline precisa parar de rir de mim e levar em consideração o que estou dizendo. Ela tem que se sentir satisfeita só comigo, porque sou eu o seu companheiro de viagem. Sou eu que viajo parte do país para salvá-la. Eu que faço de tudo

para vê-la sorrir. Mas que merda, sou eu que aguento seus surtos, compactuo com as suas loucuras e faço tudo o que eu nunca pensei que fosse fazer um dia. Por sua causa! Retiro meu membro pulsante, à beira de um orgasmo, e, com muita pressa, levo-o até o rosto dela. Não permito que ela mude de posição ao segurar seus cabelos desgrenhados, juntando ainda mais seu rosto ao tampo da mesa. Enfio meu pênis em sua boca, e ela me suga duro, do modo exato para me fazer gozar em segundos. Movo meus quadris de maneira que a faço me engolir todo, até que eu sinta sua garganta tentando me expulsar. — Nunca mais ria de mim! — berro, apertando os olhos, mas voltando a abri-los porque não quero perder nada. Retrocedo rápido porque começo a gozar como um bicho feroz, soltando jatos e mais jatos de sêmen. Inicio em sua garganta, depois melo sua boca deliciosa e continuo deixando meus rastros por todo seu rosto. Uso uma mão para chacoalhar o meu sexo, liberando ainda mais gozo. Pauline respira alto e não sabe se fica sufocada ou se lambe tudo que espirrei nela.

Depois que o êxtase vai embora e vejo Pauline daquele jeito, o arrependimento finalmente chega. Santo Cristo, como fui terrível! Este não sou eu. Não quero ser assim, não combina comigo. Eu me afasto devagar, analisando os estragos. Pauline não ousa se mexer. Ela está de quatro, com a camisola rasgada, a calcinha no lugar errado e a cara repleta de sêmen. O que fiz com ela, meu Deus? Pego um monte de guardanapo e, suavemente, limpo sua face avermelhada, talvez pelo sexo recém-feito. Eu a ponho de pé, ajudando-a a sair da posição impensável em que a coloquei. Seus olhos brilham quando eu a analiso fixamente, e então um sorriso amplo se abre. Mas eu me sinto tão canalha que não ouso lhe devolver esse sorriso. Estou preocupado, mais do que já estava antes. Ainda não creio que fui capaz de tanta barbaridade. — Pauline, me desculpa. — Meus ombros caem ao redor do meu corpo. Estou exausto e decepcionado comigo mesmo. — Isso foi... — Fico esperando os xingamentos dela, ciente de que mereço todos eles e muito mais — Incrível,

anjo! — A surpresa me toma outra vez. — Minha nossa, que sexo mais louco! Foi fantástico! — Ela me abraça forte, envolvendo os braços ao redor da minha cintura. Fico meio sem reação, mas finalmente a abraço também. Suspiro aliviado por ela não ter ficado chateada comigo. — Eu sei que está confuso, Joseph. Desculpa por ter rido de você, não foi a minha intenção. É só que também ando meio perdida. — Acho que precisamos cair na estrada logo. Estou louco para continuar a nossa viagem. — Eu também! Quer saber? Vamos continuar fugindo assim que amanhecer! — Pauline afasta o rosto do meu peitoral e me olha de muito perto. — Vou contratar um advogado para tomar conta de tudo, inclusive da liberação do Porsche. O que acha? — Acho ótimo. Precisamos de um segurança pra essa casa também. — É verdade. — Suspira enquanto sorri. Pauline está serena e feliz, mesmo vestida em trapos. Preciso comprar uma camisola nova pra ela. — Vai dar tudo certo, não é? — Vai, sim — afirmo, querendo acreditar em mim

mesmo. — Vamos continuar de onde paramos. — Sim, tudo bem. Eu espero que você encontre as respostas de que tanto precisa, anjo. Aquiesço e lhe dou um selinho doce. — Promete que vai me contar no caminho tudo o que aconteceu ontem, linda menina? — pergunto, tomando coragem para ouvir a verdade. Nosso sexo maluco não pode substituir essa conversa. — Eu prometo. — Ela levanta os dedos cruzados, como um escoteiro. Agarro suas pernas e a carrego em meus ombros escada acima, em meio a muitos risos. Pauline grita em plena alegria e eu gargalho por estar me sentindo aliviado e, por que não dizer, mais livre. Jogo-a em nossa cama e nos aninho entre os lençóis. O sono nos vence depois de alguns minutos abraçados, sem que nenhuma palavra seja dita. Eu não preciso lhe dizer mais nada. Estou bem assim. No entanto, antes de pregar o olho, lembro que Pauline tinha coisas para me dizer também. A coitada não teve sequer a oportunidade. Mas tudo bem, amanhã será outro dia e não temos pressa. Tudo vai voltar a ser como

era antes.

Capítulo 26

Pauline

De volta para casa Acordo de repente e bastante excitada, percebendo que tive um sonho erótico maravilhoso com Joseph. Em seguida, eu me lembro da maneira insana que ele me comeu sobre a mesa e quase tenho uma parada cardíaca. Nossa senhora das bocetas molhadas, preciso transar agora com esse homem maravilhoso! Não faço ideia de como ele aprende essas coisas tão loucas que eu nunca provei antes, mas estou ficando viciada nele, ansiosa demais pelas próximas descobertas e faminta por seu pauzão delicioso dentro de mim. Eu o desperto com um boquete dos deuses. Seus olhos se arregalam e sua boca linda sussurra meu nome

tão engasgado que quase morro de tanto tesão por ele. Faço nossos sexos se encaixarem na velocidade da luz e pulo nele ensandecida, em busca de alívio para meu desejo sem fim. Eu sempre gostei de sexo, mas com Joseph estou me tornando uma maníaca que não pensa em outra coisa, ainda mais depois da pegada de ontem. Entro em clímax, implorando para que me acompanhe, e ele ejacula dentro de mim, urrando com força. Eu me deixo cair sobre seu peito, abraçando-o apertado e sorrindo feito uma besta, satisfeita pelo menos por este minuto. — Pauline... — me chama tão baixinho que meu nome parece uma carícia em seus lábios. — Por que nunca é suficiente? Eu rio, fazendo meu corpo escorregar um pouco no dele. A pergunta é retórica, já falamos sobre esse assunto antes, mas ainda assim decido falar alguma coisa: — Jamais vai ser o bastante, meu anjo. Essa é a graça de transar, sempre se pode provar mais, incansavelmente. Seu suspiro é profundo e cansado, como se não gostasse da minha resposta.

— Eu acho... que a gente... precisa parar com... isso... Por que tantas pausas em uma frase só? O que ele quer dizer? Ergo-me, encarando seus olhos que me evitam, assim como suas mãos. O que está havendo? — Você está falando sobre parar com o nosso sexo, Joseph? Ele cora terrivelmente, fazendo meu coração errar uma batida e nem precisaria balançar a cabeça para confirmar o que já sei, mas ele faz assim mesmo. Puta que pariu! Sinto um desespero esquisito, uma falta de ar intensa. Sento-me, colocando distância entre nós, a distância que ele me pede com seu jeitinho envergonhado de ser. Depois de nossa “conversa” na mesa, pensei que... Merda, eu me iludi demais. Como fui burra! Joseph disse que rejeitou Laurene quando me viu sendo presa pela TV. Poxa vida, atravessou parte do país para me tirar da cadeia, achei que sentisse o mesmo que eu. Acreditei até que fosse desnecessário confessar meus sentimentos. O que fiz de errado? Talvez esteja chateado por termos resolvido com sexo, ele queria conversar e

nem conseguimos. Muita coisa que precisava ser dita nem chegou perto de sair de nossas bocas. Eu tinha que ter lhe falado sobre a boate de swing, de como também não consegui transar com ninguém longe dele, que eu só sinto desejo por ele e mais ninguém. Affe! Eu estrago tudo, assim como acabei com meu casamento por vivê-lo somente na cama. — Sim, Pauline — continua se explicando enquanto tento ordenar as ideias na minha cabeça. — Somos amigos viajando juntos, sô. Acho melhor pararmos agora antes que fiquemos muito magoados. Sua amizade é muito importante para mim e não quero perdê-la por causa de sexo. Meu mundo rui bem diante dos meus olhos e me sinto incapaz de agarrar sequer um tijolo a fim de evitar o desastre que se forma. É claro! As velas, a camisola, minha submissão total durante nosso sexo selvagem... Joseph sabe! Está escrito na minha testa que eu quebrei uma das três regras — na verdade, acho que já quebrei duas contando com o celular —, a regra mais importante: não se apaixonar. Ele está confuso e perdido, disse isso

com todas as letras. Não quer interromper nossa viagem, mas ainda não sabe o que vai fazer quando chegarmos ao fim do itinerário. Joseph não quer me magoar se decidir voltar para Laurene. É isso que ele quer me dizer e não tem coragem. Sacanagem usar de indireta! Por que não é sincero comigo de uma vez por todas? Finjo uma passividade que não tenho e assinto, movendo a cabeça levemente. — Como quiser, Joseph. — Lanço-lhe um sorriso, fazendo a maior força para desenhá-lo, e vou ao banheiro lavar seu cheiro de minha pele. Permito que algumas lágrimas escorram, mas me proíbo de retornar ao inferno que foi aquelas vinte e quatro horas sem ele. Pouco me importa que eu tenha ficado bêbada, drogada, sido presa e meu Porsche apreendido. Nunca mais quero sentir aquele vazio que sua ausência cavou no meu peito. Nem sei como fechá-lo outra vez! Muito menos agora que suas palavras parecem reforçar as estruturas deste buraco horrível. Preciso de pedreiro, engenheiro, mestre de obras, da peãozada toda para me salvar deste abismo. O pensamento me arranca

uma gargalhada esquisita, meio estrangulada e alucinada. Estou completamente louca e preciso ser levada a um manicômio com urgência. Esfrego minha pele com força, deixando vergões por toda a parte. Choro e choro, incapaz de conter o pranto que me sacode. Sinto vontade de socar paredes a ponto de quebrar os ossos dos dedos. Dizem que uma dor substitui a outra. Eu me sinto uma inútil, imbecil, inexperiente... As palavras nojentas de Laurene voltam à minha memória e eu realmente não me sinto digna de amá-lo, muito menos de receber seu amor em retribuição. Como eu deixei isso acontecer? O que vou fazer agora? A única coisa que devo, é o que farei: esquecer esse sentimento e seguir em frente. Não sei se vai ser fácil, mas vou morrer tentando. Retorno ao quarto e encaro a cama vazia com mais raiva do que tristeza. Agora eu entendo como Lúcifer se sentiu quando foi expulso do paraíso e obrigado a viver nessa Terra insípida. Aí o desgraçado criou o inferno para nos torturar também, porque a vida dele estava tão fodida que não a suportava sozinho. Abro o guarda-roupa, me recusando a usar de golpe baixo e desfilar nua pela casa.

Joseph não quer mais transar comigo, eu que não vou forçar a barra com ele. Não quer, não vai ter, pronto, acabou. Dou de cara com as camisolas sexies que comprei inutilmente, em um impulso besta. Que desperdício de dinheiro! Sinto tanto ódio que tenho vontade de destruir tudo. Então me lembro da maneira como ele rasgou a camisola preta de renda e bato a porta com força, tentando afastar a recordação vívida. Fico sentada no colchão por um tempo, observando o chão como se nele fosse aparecer, como mágica, uma toca de coelho que me levasse direto ao país das maravilhas. Acho que preciso de uma pausa. Vida, me dá um tempo! O Destino, aquele grande filho de uma puta, me joga na cova dos leões e sai de fininho. Você bagunçou minha cabeça, agora faz o favor de arrumar! Affe! Estou precisando rir um pouco, tirar Joseph da minha cabeça e me lembrar qual é o próximo destino do itinerário. Pela primeira vez em nossa viagem, não tenho ideia para onde estamos indo ou o que eu gostaria de ver. Estou perdidinha. Penso nas milhares de notificações que deve ter nas minhas redes sociais e resolvo que quero conferir uma por

uma. Procuro meu celular pelo quarto, mas não o encontro. Tento me lembrar quando foi a última vez que o vi e não faço a menor ideia. Devo ter deixado em algum dos lugares onde estive como uma insana bêbada, que droga! Visto qualquer coisa básica, como sempre, e desço as escadas. O cheiro do café da manhã incensa o ar e meu estômago ronca alto. Estou há muito tempo sem comer nada. — Joseph, você viu meu celular? Paro diante da mesa transformada na sala de jantar. Não há vestígios da cena tórrida que vivemos nela, como se ele tivesse limpado de propósito, para também não pensar a respeito. Isso que é horror a sexo! Acho que de tarado passou a ser celibatário de novo. Sem me olhar, Joseph pega um saco plástico transparente que está sobre o balcão e me entrega. Sinto uma queimação esquisita se espalhar pela minha pele quando o reconheço. Dentro dele estão todos meus pertences que a polícia recolheu antes de me fichar e enquadrar. Quase desisto de pegar o aparelho, com um medo repentino do que vou encontrar na Internet a meu

respeito. Ah! Foda-se! Qualquer coisa é melhor do que ficar olhando para cara de bunda do Joseph. Agradeço por sua gentileza e ele responde com um aceno breve. Eu me sento à mesa para devorar tudo que puder enquanto aciono o smartphone. Clico na tela e não acontece nada. Merda! Acabou a bateria! Procuro pelo carregador na minha bolsa, ponho na tomada mais próxima e volto a apertar o botão com certa força. A carroça demora uma vida inteira para ligar, Deus me livre! Aproveito esse tempo silencioso e solitário para comer. Não levanto sequer meus olhos do prato. Está tudo uma delícia e acho por bem que ele saiba disso, apesar de que não sei se ele cozinhou ou comprou. Acho que está mais para delivery, por isso desisto do elogio. Suspiro ruidosamente, cansada de tantas dúvidas. Quando isso vai ter fim? As notificações pipocam tanto que o celular sai vibrando pelo vidro e cairia no chão se Joseph não o segurasse para mim. Só que eu também faço o movimento de salvá-lo e nossas mãos se encontram sobre o aparelho. Sinto um calor sufocante e o encaro para descobri-lo

corado e sem graça. — Obrigada. — Tento agir naturalmente, mas está cada vez mais difícil ser eu mesma perto dele. Fico com medo de cometer uma gafe e ser rechaçada de uma vez por todas. Joseph estava muito puto ontem, não sei por que, e, depois de seu pedido de hoje, acho que não vou querer entender. Tenho certeza de que ficarei ainda mais chateada. Confiro primeiro as mensagens de voz e descubro que minha mãe e meu pai me ligaram, cada um de seu celular, na tentativa de falar comigo depois da notícia de que eu havia sido presa por dirigir alcoolizada. Ignoro todo o resto, porque estou precisando de um pouco de carinho e nada melhor do que o amor incondicional de meus pais. Retorno a ligação de Aline, minha mãe e primeira amiga na vida inteira, e mesmo antes que atenda, eu já sei para onde vou, não importa se Joseph vem comigo ou não. Encurto bastante o tempo da conversa por que: 1) Joseph está a alguns passos de distância, ouvindo

tudo, e não quero me abrir na frente dele. 2) Estou ansiosa para vê-la pessoalmente, então me apresso em encerrar a chamada e começar a fazer as malas. 3) Meu pai, Paulão, pega o telefone da mamãe para ouvir minha voz e dizer que ficou muito preocupado comigo também. Além disso, acrescenta que está morrendo de pena por eu não poder dirigir por pelo menos um ano. A notícia me deixa triste, principalmente pela falta de sinceridade de Joseph. Ele devia saber que eu não poderia mais voar no meu Porsche e não teve a decência de me contar, por mais que eu devesse saber. Meu companheiro de viagem está criando um abismo entre nós. Sua ida a Itaú de Minas foi apenas o primeiro passo. Enfim, vou jogar a merda no ventilador e ver espalhar para todo lado: — Joseph, cuido do advogado no aeroporto. Estou com pressa de ir para São Paulo, lembra que te falei de passarmos lá? Ele engole em seco, balançando a cabeça e

confirmando que lembra perfeitamente de minhas palavras. Naquele dia ele havia concordado em ir. Ah! Eu me recordo também que mencionei o clube de swing e ele havia ficado de pensar, agora tenho certeza de que sua resposta é negativa. Tudo bem, arranjo outra coisa para fazermos, a cidade tem muitas atrações. — Meus pais querem me ver depois do que houve, acho que você entende bem sobre preocupação familiar. — Joseph balança freneticamente a cabeça. Parou de comer no momento em que falei com ele e fica me olhando esquisito, com os olhos esbugalhados. — Então, acho que vou pegar um avião que é mais rápido e deve ter um voo agora cedo. Estou sem o conversível mesmo... Dou de ombros como se não me importasse com meu Porsche. Não poder dirigi-lo nos doze meses seguintes é decepcionante. Mas, neste instante, a tristeza que sinto por Joseph se canaliza para mim, porque deixei que acontecesse. E tudo por que eu não soube lidar com sua ida para casa. Não me reconheço mais. Essa Pauline que se apaixonou por um rapaz que conheceu há umas duas semanas não se parece comigo.

— Tudo bem, eu vou com você. — Vai? — espanto-me, primeiramente porque ele odeia voar e, segundo, porque achei que quisesse distância de mim. Ele bufa, irritado com minha pergunta. Aquele Joseph troglodita ainda não foi embora? Ui, que tesão dos infernos! Xô, desejo, não posso mais te ter! — Eu não te disse que queria continuar a viagem, Pauline? Achei que... daquele jeito... — cora com força, me fazendo sorrir de verdade pela primeira vez depois que ele falou para sermos somente amigos. Sinto a minha vagina melando a calça, já que não vesti calcinha — você me entenderia. Cara, eu não consigo entender. Achei que podia, mas eu me enganei. — Tudo bem, então... Que tal passarmos... no Hopi Hari? — Acho que é um passeio brochante o bastante para não ficar pensando em sexo o tempo todo. — Você já foi a um parque de diversões desse tamanho? — Não, eu nunca fu... Caio na risada no momento em que ele usa a célebre

frase. É claro, eu já devia saber que não. Joseph não saiu de Minas antes de me conhecer. — Meu, a gente tem que parar de dizer “eu nunca”! Ele franze o cenho, sem entender meu rompante. Então recebo uma luz do infinito. Obrigada, Destino, por ainda estar guiando meus passos. Tenho uma ideia tão boa que fico imediatamente feliz. Se eu não quero esquecer algo, preciso gravá-lo. — Joseph, já sei que tatuagem vou fazer! — Seu rosto se ilumina naquela curiosidade que lhe é nata. — Um trevo de quatro folhas e a frase: “eu sempre”. Dessa forma, eu nunca vou me esquecer de me permitir. Já que estamos nos tratando na indireta, aí vai uma para você, meu anjo. — Gostei, vou fazer também — sorri, me surpreendendo ainda mais. Como se não bastasse o fato de concordar comigo! Quem é você e o que fez com meu amigo? Gente, o que está acontecendo com Joseph? Primeiro aquele surto maravilhoso — que me deixa excitada só de lembrar. Em seguida, ele me afasta como se eu fosse um demônio

tentando desvirtuar um menino puro. E agora ele curte a ideia de uma tattoo que fala sobre ser livre, coisa que ele claramente não é? Estou pirando! Terminamos a refeição em meio a um clima melhor, mas ainda estou desconfiada, esperando que sua bipolaridade acabe com a pouca paz conquistada. Joseph paga uma empresa de transporte para realizar o serviço de levar a caminhonete de seu pai de volta a Itaú. Também resolve contratar uma empresa de serviços domésticos para dar um jeito na casa em nossa ausência. Desde que a alugamos, não fizemos nada nela. Tem sujeira e bagunça para todo lado. Se ele estava esperando que eu limpasse por ser mulher, caiu do cavalo. Eu não, neném! Fazemos nossas malas e partimos num táxi para o aeroporto Presidente Juscelino Kubitschek. Compramos as passagens para o próximo voo e embarcamos em duas horas. Fico esse tempo grudada no celular, verificando todas as notificações. Algumas são indecentes e desnecessárias, outras são hilárias e bonitinhas. Tenho muitos fãs que me apoiam mesmo quando me revelo louca, bêbada e drogada. O povo gosta de um mal feito!

Descer no aeroporto de Congonhas me traz inúmeras recordações de minha terra. Conforme o avião embica na pista, que fica no coração da cidade, mergulhando como se fosse bater em todos os prédios que parecem perto demais, Joseph estremece ao meu lado. Morrendo de pena, tento acalmá-lo e distraí-lo ao mesmo tempo. Repouso minha mão sobre a dele, que aperta com força o braço da poltrona, e, olhando pela janela, aponto alguns pontos da cidade. — São Paulo é imensa! Tenho muito orgulho de minha cidade natal. Este é o segundo aeroporto mais movimentado do Brasil, também conhecido por ser o meio de transporte mais usado por executivos para cidades como Rio de Janeiro e Brasília. E, claro, pela famosa ponte-aérea, que é tão utilizada por artistas. Joseph não sorri até que os trens de pouso tocam em solo firme. Mesmo que seja um sorriso meio amarelado e trêmulo, ele parece grato e aperta minha mão de volta, em um gesto que aquece meu coração, mesmo que eu o tenha congelado com nitrogênio líquido antes de sairmos do Distrito Federal. Esse menino tem a capacidade infinita de

me amolecer apenas com um olhar. Assim fica difícil esquecer meus sentimentos por ele. No táxi, faço questão de lhe mostrar de perto os grandes símbolos da cidade que, provavelmente, ele já deve ter visto pela televisão. Como por exemplo, a famosa ponte Octávio Frias de Oliveira, que é uma beleza de contemplar à noite devido às luzes coloridas que a iluminam; o centro velho da terra da garoa, com sua arquitetura antiga e conservada nesses quase quinhentos anos de fundação; a Estação da Luz, a mais importante do transporte ferroviário de Sampa; e, por último, o Parque do Ibirapuera, onde cresci e levei muitos tombos de bicicleta e patins. — Os milionários chegaram! — diz mamãe ao nos receber na calçada. Meus pais estão nos esperando no portão quando saltamos do automóvel, depois de pagar pela corrida. Sou sufocada em um abraço duplo por Paulão, o gigante que vivia botando medo nos meus namoradinhos — até eles perceberem que meu pai jamais interferiria na minha vida sem que eu permitisse —, e Aline, a magrelinha comprida

de quem ganhei os genes. Não há pranto, apesar de eu sentir um aperto na garganta e engolir o choro à força. Não vou chorar na rua, aí já é demais! Eles sorriem muito, gargalhando de felicidade por estarem vendo o quanto estou bem... Aqui em casa reencontros sempre foram motivos de alegria, não de tristeza. Direto como ele só, meu pai nota Joseph primeiro, afastando-se para me olhar com curiosidade. — Esse é o amigo que está viajando com você e pagou sua fiança, Pauline? — Sim, papai. O nome dele é Joseph. — Olho feliz da vida para meu companheiro de estrada, incapaz de conter minha alegria por estar de volta à minha casa. — Joseph, esses são meus pais: Paulão e Aline. Ele dá um passo, estendendo a mão para cumprimentá-los, porém, meus pais nunca se contentariam com algo tão impessoal e frio. Eu rio, dando espaço para o big abraço que Joseph recebe deles em conjunto, como eu ganhei. Seguro a gargalhada para não deixá-lo mais constrangido. Vejo sua cor branquinha ficar rosada e depois vermelha feito uma pimenta malagueta.

— Muito obrigada, querido, por estar lá por nossa filha — agradece mamãe, emocionada. Sempre uma manteiga derretida, cheia de amor para dar. — Por nada, senhora. Pauline faria o mesmo por mim. — Joseph repete a frase que já havia me dito. Paulão larga meu amigo, deixando palmadas pesadas nas costas dele, que quase lhe arrancam o ar dos pulmões. — Espero que pretendam ficar. Sua mãe comprou tudo o que você gosta e já preparou seu quarto para passarem a noite. — Ficaremos, com certeza! Quero levar Joseph para conhecer o Hopi-Hari. Ah! Mãe, você podia fazer meu prato preferido para ele experimentar? Pisco um olho para um Joseph corado e quieto, que me olha intensamente. — Você me conhece, filha, sabe que já está pronto! Venham, vamos entrar logo, vocês devem estar com fome. Saltitando, agarrada de novo a eles, adentramos a casa com cheirinho de lar, ou seja, ovos, linguiça e bisteca de porco. Ai, meu Deus, não sabia que podia ficar tão faminta até sentir o cheiro do Virado a Paulista da

minha mãe. Que saudades da comida dela! A gente se esbalda e Joseph não poupa elogios às mãos de fada de Aline. Até eu não resisto! Será que ela prepara uma quentinha pra eu levar para Brasília quando formos embora? Enquanto comemos, contamos todos os detalhes sobre nossa viagem. Eu não cito nossa intimidade por apenas um motivo: Joseph não quer mais mantê-la, então, ela não é mais relevante para ser mencionada em uma conversa com meus pais. Eu contaria tudo para eles se não fosse por isso. Depois de ser inteirado sobre o assunto que lhe interessa, Paulão convida Joseph para tomar uma cerveja, que ele recusa educadamente, mas ainda assim o acompanha para a sala, onde ouço a TV ligada em um canal de esportes. Aline suspira fundo, como se esperasse que eu introduzisse um assunto importante. Cara, eu queria confessar tanta coisa, mas nem sei por onde começar. Então, começo pelo fim. — Mãe, preciso de sua ajuda. Não sei mais o que fazer! Minha angústia volta com força total quando penso

em meu problema com Joseph. — Percebi que tem algo te incomodando na sua voz pelo telefone. Estava ansiosa para ouvir o que é que tanto perturba minha filhinha. — Acho que me apaixonei pelo Joseph e não sei o que fazer para me livrar disso. Jogo as mãos para o alto, em desalento, depois escoro o queixo nelas e finco os cotovelos na mesa, esperando pela solução maravilhosa que ela vai me dar. — E por que você quer se livrar... disso? Se nem minha mãe me entende, o que vai ser de mim? — Porque eu não devia me apaixonar por ele. Sequer imaginava que isso pudesse acontecer. Na verdade, quando estipulei a regra de não nos apaixonarmos quando o convidei para viajar comigo, era para me proteger, caso ele se envolvesse demais. Eu nunca... Affe, merda, mãe... Nunca pensei que eu fosse me apaixonar! Aline ri, mas seu riso não chega perto do que eu soltaria se estivesse me ouvindo no lugar dela. Admitir meus sentimentos em voz alta parece mais ridículo do que somente pensar neles. Ainda bem que eu não disse nada

para Joseph. Ele, com certeza, riria da minha cara de idiota apaixonada. — Filha, a gente não escolhe... — Por quem se apaixona — completo, irritada. — Eu sei! Mas quando a gente não é correspondida, tem que haver um jeito de acabar com isso. Ela estende a mão por sobre a mesa e acaricia meu rosto contorcido em uma careta de insatisfação. Pudera, eu esperava encontrar uma solução nessa conversa e pelo visto não vou achar nada. — Pauline, minha filha, amar é um presente. Não rejeite um sentimento tão puro, ainda mais quando é a primeira vez que o sente. — Como você sabe? Minha mãe já ouviu sobre todas as minhas paixões, mas eu não lhe disse que essa era diferente das anteriores. — Eu te conheço, meu bem, vi nos seus olhos assim que chegou. Você nunca olhou para outro rapaz do jeito que olha para este. Affe! Ser transparente é um saco! — É que dói tanto, mãe — reclamo, o que considero

abominável. — Eu não quero continuar nessa vibe louca. Uma hora, estou flutuando nas nuvens, e no instante seguinte, caio em um estado depressivo que não combina nada comigo. — Filhinha, amar dói porque quem ama se importa. Se não doesse, não seria amor. — Mas parece tão errado, contraditório, idiota! — continuo teimando. — Como é que vou conciliar minha liberdade e minha individualidade com essa vontade maluca de jogar tudo para o alto só para ficar com ele? Joseph nem sente o mesmo por mim! Não dá para viver desse jeito, mãe, me ajuda, por favor! Eu suplico, me agarrando a ela como se fosse meu bote salva-vidas no oceano. — Como sabe que não é correspondida? Você se declarou e ele te rejeitou? — Não! Pirou, mãe? Eu não falei nada, não! — Então, como você sabe que ele não te ama também? Abro a boca para retrucar e paraliso no movimento. Depois me lembro do que ele me disse pela manhã.

— Hoje, depois que acordamos e fizemos um sexo maravilhoso, ele me disse que achava melhor pararmos e sermos somente amigos para não nos machucarmos. Ela fica em silêncio e eu agonizo de ansiedade, à espera de uma resposta coerente. — Para mim, isso quer dizer que ele se importa, Pauline. Não dá para ter certeza se ele realmente te ama do mesmo modo, mas ele se preocupa. Joseph não voltou da cidadezinha para onde você se mudou só para te tirar da prisão? — Foi... E ele largou a ex falando com as paredes quando me viu sendo presa pela TV. Confuso isso, viu? E a senhora não está me ajudando em nada. O que eu devo fazer? — insisto, desesperada. — Querida, você ainda vai ficar confusa por um tempo, mas não tem como arrancar esse sentimento do seu peito, ainda mais se vocês continuarem juntos. Quanto mais se conhecerem, mais chance tem de esse amor aumentar. É um risco que você tem que pesar se vale a pena correr. Eu não posso tomar essa decisão por você, mas posso te dar o meu exemplo.

Ouço atentamente, tentando esconder frustração com o início de sua resposta.

minha

— Quando me casei com seu pai, mesmo que por amor, não foi fácil. A gente era liberal, até hoje somos. Temos uma relação boa e estável. Dinheiro nunca foi importante, mas necessário, e conseguimos nos manter do jeito que queríamos viver. Amor vem para bagunçar tudo mesmo, a cabeça, o coração e o relacionamento. Mas você quer saber de uma coisa? Eu faria tudo de novo, filha, mesmo depois de trinta anos de casada. Seu pai é meu companheiro, meu parceiro, meu amigo e meu amante. A gente tem o mesmo estilo de vida, mas nem sempre concordamos. Espanto-me, pois nunca os vi brigar na minha vida inteira! — E esses pequenos testes que a vida faz é para sabermos se o amor é forte o bastante para suportar. O tempo só me fez amá-lo mais. E ainda que eu tenha perdido parte de minha liberdade em respeito a ele, eu sou feliz em ceder, porque eu o amo e me importo com seus sentimentos. Não quero que ele sofra por minha

causa. Fico besta. Minha mãe e eu nunca falamos de amor antes, nesses termos, apenas sobre sexo. Estou estranhando tamanha emoção em suas palavras. Eu sabia que ela era toda emotiva e tal, mas não sabia que acreditava em perder sua própria liberdade em função de outra pessoa. Vai contra tudo o que ela me ensinou. — Não faz o menor sentido para mim. Por que eu tenho que mudar por causa de outra pessoa? Por que tenho que fazer sacrifícios por amor? — Nossa, filha... Acho que erramos em não te dar limite algum, mas eu achei que a própria vida ia mostrar que sua liberdade termina quando começa a do outro. — É? — Não acredito no que estou ouvindo! — Mas é claro! A sociedade não tem regras para uma boa convivência? No seu trabalho não existem preceitos que você deve seguir? Em um relacionamento é a mesma coisa, mas a diferença é que cada casal cria suas próprias regras. — Puta que pariu, mãe, como é que eu fiquei sabendo disso somente aos vinte e oito anos, depois de perder um

marido para outro cara? Estou em choque! Ela ri e fica sem jeito ao mesmo tempo. Eu me sinto ficar vermelha, mas não é de raiva. Acho até estranho quando percebo que estou corando de vergonha, muita, mas muita vergonha mesmo. Eu pareço uma adolescente inexperiente quando o assunto é sentimento. Mamãe acaricia minha bochecha de novo, sorrindo gentilmente dessa vez, um pouco alegre demais para o meu gosto. — Você já está mudando e nem percebeu, minha filha. Não lute contra, deixe esse amor te tornar uma pessoa melhor. É o que este sentimento faz com as pessoas que se permitem vivenciá-lo. Meu Deus! Não me aguento mais e começo a chorar feito um bebê. Minha mãe faz a volta na mesa e se senta ao meu lado, me abraçando até que os soluços parem. — O que eu vou fazer da minha vida agora? Eu nem sei o que se faz quando se ama alguém! — choramingo feito uma criança com medo de se ralar toda. — Diferente do que muita gente diz, Pauline, amar não é tesão, nem palavras vazias. Amar é ação. Quando se

ama alguém, faz tudo o que tiver ao seu alcance para o outro ser feliz, não importa se essa pessoa retribua ou não. Amor verdadeiro não espera nada em troca além de ver o outro bem, sorrindo, livre para manter sua individualidade e sua vida. Amor se baseia em respeito, confiança e comprometimento com a outra pessoa. Enxugo as lágrimas, fungando, em um estado bem deprimente. — O que você está querendo me dizer, afinal? A gente se encara por um instante enquanto ela me ajuda a me limpar, carinhosamente. — Prossiga com essa viagem e apenas o ame sem cobrança, pressão ou medo. Você vai ver como ficará mais leve se apenas sentir. Deixo-o partir quando a viagem acabar, se for o que ele escolher. — Ela me aperta com certa força e olha bem fundo nos olhos. — Se Joseph estiver em seu Destino, ele vai voltar. Tenha fé. Uma estranha leveza toma conta de mim assim que ela pronuncia a última frase. Se minha mãe diz que amar vale a pena, não importa de que jeito, eu acredito nela. E, cara, Joseph é o melhor homem que conheci nessas quase

três décadas de vida, não foi à toa que me apaixonei por ele. Não devia sentir tanta vergonha de um sentimento tão bom, nobre e profundo, que simplesmente ganhei de presente do Destino, junto com uma conta bancária supergorda. Se tem alguém que tenho certeza de que merece ser amado, essa pessoa é o meu anjo, Joseph Ayres.

Capítulo 27

Joseph

São Paulo, Capital Gosto bastante de viver em clima familiar. Não tive tempo de passar mais do que alguns minutos com meus pais, por isso estou aproveitando ao máximo a companhia dos parentes de Pauline, mesmo me sentindo um pouco envergonhado. Eles são tão intensos e malucos quanto a filha — finalmente tenho uma boa explicação para ela ser do jeito que é. Creio que ficar perto deles está fazendo um bem danado para a minha amiga também. Ela passou a tarde toda sorridente, conversando e brincando como antes. O clima meio tenso entre nós foi dissipado, mas sei que a partir do momento em que ficarmos sozinhos de novo, é muito provável que a estranheza volte.

Eu não tenho mais escolha, nem mesmo o que fazer com relação a isso. Prefiro mudar os rumos do nosso relacionamento a viver eternamente buscando em Pauline algo que eu nem sei o que é, e que ela certamente não pode me dar. Suas palavras foram o bastante para me fazer entender que eu jamais terei a capacidade de saciála, deixá-la satisfeita sexualmente falando. Sei como Pauline ama sexo, portanto não vou lhe dar decepções atrás de decepções só porque não consigo olhá-la sem querer estar dentro dela. Eu preciso me controlar mais. Essa história de transar com a melhor amiga não me entra direito na cabeça. É certo que em algum momento vou enrolar tudo e o estrago pode ser irreversível. Não quero perder uma amizade tão bonita por causa de inexperiência. Só que alguém precisava ter me avisado que essa ausência dói muito. Toda vez que me lembro do modo despreocupado como tratou o nosso distanciamento, concordando sem pensar duas vezes, sinto-me adoecer. Sua gargalhada vinda do banheiro, que escutei enquanto sentia meu mundo inteiro ser destroçado, me deixou

introspectivo e um pouco descrente na consideração que eu achava que ela tinha por mim. Eu sei que sou ruim na coisa toda, mas não precisava me caçoar às escondidas. Tudo bem, acho que mereço. Não, eu não mereço, dei o meu melhor, sô! Droga, não faço a menor ideia do que pensar. Eu queria poder entrar na cabeça dela para descobrir o que ela acha ao meu respeito. Essa dúvida toda está me tirando do eixo. Tanto que permaneço meio calado o dia inteiro, inclusive quando nos reunimos na mesa para o jantar. — Não me admira que esteja apaixonada pelo Joseph, Pauline — Seu Paulo fala com a voz grave de locutor de rádio, caindo na gargalhada. Olho para ela com os olhos arregalados e o limite da minha vergonha alcançado com sucesso. — Eu estou apaixonado por ele! — Continua rindo alto e dona Aline o acompanha. — É um rapaz inteligente e muito gente fina! — Pai... — Pauline arqueja desesperadamente. Jamais a tinha visto tão vermelha antes. Deve estar da mesma cor que eu. Quero um buraco para enfiar minha cara e nunca tirá-la de lá até a próxima encarnação.

— Mas é verdade. Gostei de conhecer seu namorado. — Paulo dá tapões nas minhas costas, deixando-me atrapalhado para tomar a sopa que dona Aline fez. Não que alguma coisa fosse passar pela minha garganta agora. — Nós... não somos namorados, senhor. — Ah, não? — Ele me olha com uma expressão incrédula. Dona Aline apenas ri. — Ele fala tão engraçado, não é, meninas? Gostei de você, genro. — Pelo amor de Deus, pai! — Pauline revira os olhos, ainda está muito corada. A reação dela me deixa surpreso porque eu esperava que começasse a gargalhar e a brincar com o que seu pai está sugerindo sobre nossa relação. Nunca que eu imaginaria vê-la com vergonha um dia. Pauline não ficou assim nem quando saiu da delegacia e teve que encarar olhares curiosos e cheios de julgamentos. — Meu bem, deixe-os em paz. — Dona Aline vem em nosso socorro. — Eles são apenas bons amigos, não é, Joseph? — Pisca o olho na minha direção e eu não faço ideia do que quer dizer com esse gesto. Sinto uma pontada de ironia, mas resolvo ignorar.

— Si-Sim... Graças a Deus, Pauline resolve mudar de assunto, falando sobre a grana milionária que recebeu e perguntando o que seus pais querem fazer com ela, já que está em seus planos dividir a bolada com eles. Acompanho a conversa quase sem respirar, ouvindo sobre os sonhos malucos desse casal impressionante. Não me admira que uma viagem exótica ao Japão seja o primeiro item da lista. Paulo e Aline têm o espírito aventureiro e livre como o da filha. São pessoas encantadoras que amei conhecer, além de que sou tratado com direito a muitos mimos e gentilezas. Algo me diz que esse comportamento não é nada forçado, apenas faz parte do que eles são. Após o jantar, sentamos na frente da TV e jogamos conversa fora. Seu Paulo fica admirado com a coincidência nos números que jogamos na Hiper-Sena. A novidade toma quase todo o rumo da conversa, o que agradeço, já que ninguém mais tem tempo de mencionar a profundidade do meu relacionamento com Pauline. Nem imagino o que eles pensariam se soubessem que a gente já transou!

Eles resolvem abrir uma garrafa de cerveja e tomam juntos. Aceito um copo apenas para não ficar chato, porém passo o restante da noite bebericando devagar para tomar só um mesmo. As horas passam rápido na companhia agradável dos pais de Pauline e, quando menos percebemos, já é mais de meia-noite. — O que vão fazer amanhã, filha? — Aline pergunta, interessada. Está visivelmente empolgada com a nossa viagem, falou até que nos acompanha pelas fotos que Pauline posta vez ou outra. — Amanhã vamos ao Hopi Hari! — Minha amiga se empolga. O velho brilho em seus olhos está de volta, deixando-me aliviado. — Mas vocês voltam pra cá? — Seu Paulo questiona. — Não sei, acho que não, pai. Temos muitos lugares para visitar. — Tudo bem, a gente entende. Vocês têm mais é que se divertir mesmo. — Fico impressionado como seu Paulo compactua com o tipo de vida que a filha leva. Trata tudo com muita naturalidade. — E então, pessoal, vamos

dormir? Amanhã pego no batente. Pauline está ricaça, mas eu gosto de trabalhar! Todos riem, divertidos. — Pauline, está tudo arrumadinho lá no quarto e os lençóis estão sobre a cama. Meu corpo meio que trava diante da ideia de dormir em um quarto com Pauline na casa de seus pais. Como assim? Uma coisa dessas jamais seria permitida lá em casa. Mamãe teria um trem, como teve ao descobrir que Pauline dormiu comigo na noite em que ganhamos na loteria. — Obrigada, mãe! Boa noite! — Pauline se levanta do sofá e dá um beijo na bochecha dela. Depois, senta-se no colo do pai, como uma menina levada, e lhe beija também. — Boa noite, paizinho. — Boa noite, filha. — Vamos, Joseph? — Vira-se na minha direção e eu ainda estou paralisado, criei raízes no sofá. Eu me levanto depois de fazer o maior esforço e cumprimento Aline e Paulo, tentando agir com a mesma naturalidade que Pauline. Passo por eles, acompanhando-a até seu antigo

quarto. Tem um monte de bonecas, coleções de carrinhos, pôsteres, rabiscos na parede e um verdadeiro arsenal de parafernália organizada em prateleiras. A decoração do ambiente é tão aleatória quanto a dona. Eu não devia me surpreender, mas não contenho minha admiração. Pauline retira a colcha da cama e finalmente me olha. Fecho a porta atrás de mim, meio sem saber se fiz a coisa certa. Acho que eu devia tê-la deixado aberta. Encaramo-nos durante alguns segundos. — O banheiro é ali... — Ela aponta para uma porta repleta de adesivos de chiclete. — Vou tomar um banho. Ou você quer ir primeiro? Lambo os lábios. Não evito pensar no último banho que tomamos juntos. O momento foi tão intenso, marcante e enlouquecedor que posso sentir seus dedos percorrendo a minha pele até agora. Basta que eu feche os olhos para vivenciar cada detalhe da nossa entrega. Mas o pensamento também me machuca, por isso me mantenho com os olhos bem abertos e a cabeça no lugar. — Po-Pode i-ir. — Que grande porcaria! Meus

gaguejos lhe arrancam um sorriso, então me lembro, mais uma vez, de que Pauline gosta de rir de mim. A decepção me toma e finalmente consigo manter certo controle. — Depois eu vou. — Como quiser. Ela pega roupas limpas na mochila e se perde dentro do banheiro. Sento na cama de casal e espero impacientemente, pois é o que me resta fazer. Não há sofá, poltrona ou colchonetes por perto, então suponho que vamos ter que dividir o mesmo colchão. Suspiro fundo e balanço a cabeça, pensando que talvez eu deva dormir na sala. Não vai dar certo ficar aqui com Pauline. Eu a quero tanto que poderia tê-la o tempo todo, em qualquer lugar, a qualquer hora. Sou viciado na junção de nossos corpos. Minha indignação aumenta ao perceber que estou ficando duro só de lembrar como é bom penetrá-la até o fim e ouvir seus gemidos nada discretos. Após um tempo incalculável, que usei apenas para lamentar, Pauline ressurge com uma blusa simples e um short recatado. É a coisa mais puritana que já a vi usando para dormir. A minha tristeza aumenta drasticamente,

porque sei que ela não tem intenção alguma de me seduzir. Ainda assim, ela me seduz, talvez mais do que se estivesse nua bem na minha frente. Sem nada falar, pego uma bermuda, uma camiseta e sigo para o meu banho solitário. Não demoro muito, apenas me lavo bem, depois visto as roupas de maneira rápida. Pauline já está deitada em um lado da cama de casal quando retorno. Engulo em seco. Penso mil vezes em ir para sala, mas meu corpo vai sozinho para a cama e se deita no lado oposto. Viro-me de costas, encarando os objetos do quarto e não reconheço nada. A solidão se mistura à tristeza e me faz ficar com um nó enorme entalado na garganta. Escuto ela se remexendo atrás de mim, meio inquieta. A cama é espaçosa, mas tenho consciência o tempo todo de sua presença muito perto, próxima demais para meu desespero suportar. Resisto à vontade absurda de me virar de frente para ela e puxá-la para os meus braços. A gente nem precisa transar, eu só quero sentir seu cheiro e cair no sono com nossas peles encostadas uma a outra. Apenas isso já me satisfaz. Pauline se remexe mais uma vez e, no impulso,

acabo me virando. Tento descobrir se ela dormiu, mas não consigo, pois tirei meus óculos antes do banho e não os coloquei de volta. Só vejo os contornos suaves de seu corpo na penumbra, nada mais. Olho o seu rosto, mas simplesmente não consigo saber se está adormecida, embora esteja tão quieta que acredito que sim. Eu a observo, tentando ver mais do que meus olhos podem. — Joseph? — murmura baixo, mas me assusto porque tudo está tão silencioso que o seu sussurro mais parece um grito ensurdecedor. Arquejo alto. — Achei que estivesse dormindo... Eu... estou sem óculos e... — Paro porque não encontro palavras para me justificar. — Hum... Sério? — Sua voz sai muito doce e suave, porém meio decepcionada, de forma que meus braços se arrepiam. — Achei que estivéssemos trocando olhares esse tempo todo. — Olhares? — Solto outro arquejo. Do que ela está falando? — Esquece, anjo. Boa noite. — Eu estava te olhando — confesso em um impulso

estranho. Não quero dormir. Não vou conseguir mesmo. — Só não sabia que você me olhava de volta. — Eu te olhava de volta. O silêncio que se forma é tão grande que escuto os meus próprios pensamentos. Devo admitir que nenhum deles envolve outra coisa a não ser Pauline e eu nos amando neste colchão, como dois alucinados. — Por quê? — pergunto. Não sei direito a quê estou me referindo com essa pergunta. Talvez eu queira perguntar por que ela ri de mim ou por que não se satisfaz com o nosso sexo, que para mim é sempre perfeito. Também gostaria de saber por que ela me deixa tão confuso e por que não paro de pensar nela mesmo quando não quero. São tantos porquês! — Porque você é lindo. Não sei se ela consegue ver o meu rosto ficando vermelho, mas eu o sinto esquentar como brasa. Por que ela me faz agir assim o tempo inteiro? Por que não posso ser mais maduro na frente dela? Por que eu me preocupo tanto em ser um homem diferente do que sou? As perguntas não param de circular pela minha cabeça.

Fico em silêncio, simplesmente me esqueço que devia falar qualquer coisa. Eu tinha que pelo menos ter agradecido pelo elogio, mas não o faço. Não sei quais são as intenções dela em me elogiar assim, talvez queira me ver corando para depois caçoar do bobão que nunca sabe o que fazer e como agir. Eu sou piada pronta na frente dela. Nada mais que isso. Seguro um soluço indignado e, do nada, me revolto. Eu não quero que ela me trate assim nunca mais. — Pare, Pauline! — rosno baixo, irritadíssimo. — Que merda, apenas pare com isso! — De-Desculpa... — É a primeira vez que a vejo gaguejando, com a voz sem fôlego. Percebo que alguma coisa está muito errada, mas o ódio ainda me domina. — Joseph, eu só... Foi só... — Fica quieta e vai dormir! Estou cansado disso! Em vez de ouvir o meu próprio soluço, ouço um bem fraco partindo dela. Pauline está chorando? Não é possível. Meu Deus do céu, o que está acontecendo conosco? Não entendo mais nada! — Pauli...

— Desculpa, Joseph! — ela choraminga, interrompendo-me. Sinto o colchão tremer sob mim, então tenho certeza de que Pauline está mesmo aos prantos. — Por que está chorando, uai? — Suavizo meu timbre, pensando em tocá-la, mas desistindo no meio do caminho. Recolho minha mão e a guardo dentro do lençol. Eu estou oficialmente desesperado. Seu choro é como feridas se abrindo dentro de mim. — Porque eu... eu... porque... — Pauline funga e se move, acho que ficou com a barriga para cima, mas não tenho certeza. Só vejo seu vulto diante de mim. — Sou muito boba. Só isso. — Por que se acha boba, sô? — Sempre achei que o bobo fosse eu, não ela. — Desde que fui presa, estou me odiando por dentro. Devia ter sido mais responsável. Eu... fiquei tão sem chão sem você, Joseph. Só queria que soubesse que... que... Sabe, eu não quero ficar sozinha. Essa viagem não vai ter a menor graça. Nada vai ter graça... sem... você. Não sei por que estou sorrindo. Meu coração está apertado e uma culpa aterradora se apossou do meu

corpo, mas mesmo assim meus lábios se esticam em um sorriso amplo. — Estou me sentindo muito culpado agora. — Fecho os olhos e tento, mais uma vez, engolir o nó na minha garganta e parar de sorrir sem motivo, mas está difícil demais da conta. — Não, anjo, não se sinta culpado. Se há uma culpada, sou eu. — O que você fez naquela noite, Pauline? Pode finalmente me dizer? Ela fica um pouco calada, quieta. Por fim, solta um suspiro e começa: — Fui a uma boate de swing. — Expiro o ar dos pulmões em uma reação afetada, que certamente ela percebe. Meu sangue ferve em minhas veias. O sentimento que me toma é tão amargo que não consigo defini-lo. Jamais senti algo tão forte. — Bebi todas e usei Ecstasy, consegui com um barman. Não sei se você sabe, mas é uma droga. Eu... — Por que usou essa droga? E ainda mais sozinha? O pior podia ter acontecido, você sabe disso! — E o que eu

ia fazer se tivesse acontecido algo muito pior do que uma simples multa? Minha Nossa Senhora, não quero nem imaginar! — Eu sei. — Mais um soluço lhe escapa. — Pus a minha vida em risco, e também a vida de outras pessoas. Acho que ela se vira novamente para ficar de frente para mim. Percebo a sua mão parar próxima da minha, há um calor gostoso partindo dela, por isso a seguro. Começo delicadamente, com suavidade, depois aperto seus dedos, incapaz de largá-los. — Se há alguém que eu conheço que ama viver, essa pessoa é você, Pauline — prossigo, alisando seus dedos e a palma de sua mão. — Sinceramente, acho que aquela garota que foi presa não te representa. Você tem uma paixão natural pela vida e pela liberdade. — É verdade, meu anjo. Você me conhece. — Não tenho muita certeza, mas acho que ela sorriu. Uso a outra mão para comprovar. Ergo-a até lhe tocar os lábios esticados. Pauline não me repele, porém para de sorrir. Continuo contornando sua boca com os meus dedos. — Conheço. Eu acho... — falo roucamente, doido de

vontade de beijá-la. Estou hipnotizando pela bela sensação que meus dedos enviam ao meu cérebro. — É claro que conhece — afirma, fazendo sua boca se mover sob meu toque. — Não sou nada além daquilo que você já viu. Estou ofegante neste momento, e acho que ela também. Meu coração está muito acelerado, causando-me certa vertigem. Essa conversa está se tornando muito intensa. Acho que é a hora certa de dizer o que o meu coração tanto teme. — Não quero ficar nesse clima estranho contigo — admito, percebendo que o corpo dela está se aproximando do meu. Demoro demais a notar que na verdade sou eu que estou rastejando no colchão, indo ao seu encontro e largando seus lábios. — A gente devia se divertir mais. É essa a ideia, não é? Estou te achando muito triste, linda menina. — Vou ficar bem. Você tem razão. — Estou tão perto que simplesmente a puxo para mim, girando-a para que fiquemos de conchinha. Envolvo meus braços em seu corpo e me deixo ficar, aliviado depois dessa conversa

franca. Não posso me esquecer de que eu sei quem Pauline é. Ela é bondosa, não deseja meu mal. Talvez faça certas coisas sem saber, mas a culpa é minha por me ofender com facilidade. — Boa noite, anjo. Assim está bem melhor pra mim. — Pra mim também, sô — murmuro em seu ouvido, referindo-me, claro, ao seu corpo quentinho junto ao meu, e lhe planto um beijo na nuca. — Boa noite. Amanhã vamos seguir para uma nova aventura! — É isso aí... Obrigada, anjo, por sempre me entender. Até amanhã! Durmo maravilhosamente bem com Pauline em meus braços. Bem que eu falei que a gente sequer precisa transar para eu me sentir bem de novo. Acordamos com os ânimos renovados — nós dois ignoramos muito bem a minha ereção matinal — e, depois de um café da manhã reforçado feito por dona Aline, partimos para o nosso próximo destino: o Hopi Hari, um dos maiores parques de diversões da América Latina. Pegamos a estrada usando um carro alugado em uma empresa especializada. Seu Paulo queria nos levar, mas

Pauline não deixou, alegando que essa viagem é para ser feita em dupla. Ele não se contrapôs, muito pelo contrário, gargalhou e falou que sabia que a gente pararia para fazer besteira na estrada. Não entendi bem o que ele quis dizer, mas acho melhor não saber mesmo. O parque fica a setenta quilômetros da capital de São Paulo, por isso demoramos um pouco para chegarmos, principalmente por causa do trânsito. Pauline explica que pegamos o horário de pico da marginal. Nunca vi tanto carro junto, criando quilômetros de congestionamento. Se vão ficar parados, por que sair de casa dirigindo? O Hopi Hari é imenso, maior do que imaginei, e é dividido em várias regiões que oferecem os mais diferentes tipos de entretenimento. Pauline ama os brinquedos que fazem subir a adrenalina. Como nunca andei em nenhum deles, começamos pelos mais suaves. Confesso que gostei mais da região Wild West, de longe a mais interessante, por ser tematizada como o Velho Oeste. Andamos o parque quase todo sem nos cansarmos, pulando apenas a região com brinquedos dedicados às crianças. O restante a gente encara. Mesmo sabendo que

não dá para conhecer o Hopi Hari em apenas um dia, fizemos o possível para aproveitarmos ao máximo, escolhendo as grandes e imperdíveis atrações do lugar. Com a empolgação nas alturas, Pauline finalmente me convence a ir aos brinquedos mais radicais. Quase morro do coração no Evolution, a sensação de ficar de cabeça para baixo é muito louca. Para quem tem medo de altura, como eu, até que não passei vergonha. Ainda bem! O frio na barriga é quase insuportável dentro do VulaViking, barco que balança até quase atingir um ângulo de noventa graus com relação ao chão. Nem preciso dizer que Pauline gritou como uma maníaca e amou o clima de emoção à flor da pele. Por fim, paramos em frente à Montazum, a maior montanha-russa de madeira da América Latina e também do Brasil, que alcança a velocidade de um carro: cem quilômetros por hora. A experiência deve ser mais perturbadora que o tobogã Insano. — Eu... acho que não vou nesse trem, não, Pauline! — Ela me puxa, sem me dar ouvidos, para a pequena fila de pessoas ansiosas para usarem o brinquedo. — Não é um trem, é uma montanha-russa! — berra,

toda animada. Minha Pauline está de volta, ensandecida e divertida como sempre. Por mais medo que eu sinta, adoro estar com essa mulher. — Eu sei que é uma montanha-russa! — Dou língua pra ela. — É só que é muito grande, acho que vou ter um trem! — Tudo para os mineiros é definido pela palavra “trem”? — Gargalha sozinha, abraçando-me forte. — Você vai, sim! Lembre-se: sempre se permitir! — Neste mesmo instante, um dos vagões da montanha-russa desce na maior velocidade, chamando nossa atenção. O frio na minha barriga se intensifica. Santo Cristo! Nossa vez chega mais depressa do que a minha cabeça consegue se preparar para enfrentar meu receio. Entro em um dos vagões ao lado da Pauline, que grita e acaba animando também os outros frequentadores do parque. Começo a rir de puro nervosismo. Não consigo me controlar, simplesmente. As risadas se tornam uma verdadeira crise de riso, que a minha amiga estranha, mas entra na onda. Já estou chorando de tanto rir! O vagão engata devagar, mas tem uma subida imensa

bem na minha frente e eu não faço outra coisa além de rir cada vez mais forte, até a minha barriga doer de verdade. O “trem” sobe, provocando um barulho esquisito que me causa pavor. O chão fica cada vez mais distante. Olho para Pauline e ela está gritando inúmeros “uhuuuul”, com as mãos para o ar. Olho para o outro lado e vejo o parque inteiro, como se fosse miniatura. — É agora, Joseph! — ela berra tão alto que meu ouvido dói. No instante seguinte, sou tomado pela sensação maluca da descida, que leva o meu estômago até o meu cérebro e o cérebro até uma nuvem perdida no céu azul acima de nós. — Uhuuuuul! — PUTA QUE PARIUUUUUUUUU! — grito com toda liberdade que me neguei a ter a vida toda. Meu coração quase sai pela boca, por isso resolvo fechá-la, voltando a abri-la apenas para gritar outro palavrão na próxima curva. Pauline ri alto, provavelmente de mim, e passa a gritar mais obscenidades também. Eu nunca me senti tão autêntico! A montanha-russa é longa, demora um pouco para alcançarmos o ponto de chegada, mas o percurso todo é

feito na maior velocidade. Fazemos uma curva que parece que vai nos jogar na estrada, logo ali, onde carros e caminhões seguem seus destinos. Passamos até por baixo de um viaduto, é muito louco! A sensação que tive foi a de que cairia a qualquer momento, me esborrachando no chão. Pauline termina toda eufórica. Pega o celular da bolsa e, antes de descermos do vagão, tira uma foto nossa com os cabelos em pé. Esse dia já se tornou mais um dos tantos dias inesquecíveis que vivenciamos juntos. — Eu preciso me acalmar! — ofego enquanto andamos pelo parque, analisando as próximas atrações. Ainda estou sem ar. — Olha só, algodão doce! Quem quer? Eu quero! — Levanta a mão e saltita até um pequeno carrinho que vende a especiaria. Compramos dois algodões-doces enormes. Faz uns vinte anos, no mínimo, que eu não como essa mistura de açúcar e corante. — Isso tem gosto de infância — comento, com a boca e os dedos sujos, recordando-me dos parquinhos que às vezes eram montados na pracinha de Itaú. — Verdade, anjo! Como era bom ser criança! Se bem

que gosto de ser adulta também. — Reflito um pouco e percebo que gosto mais de ser adulto depois que ganhei na loteria. Antes disso, achava um saco. — Vamos à rodagigante? Estou cansada também. — Eu topo! A Giganta Mundi não é uma roda-gigante qualquer. Possui quarenta e quatro metros de altura, ou seja, tenho medo só de olhar. Mas como vejo algumas crianças subindo, percebo que seria vergonhoso deixar de ir nela porque tenho horror à altura. Pauline e eu entramos sozinhos em uma das cabines, ainda com nossos doces em mãos. O brinquedo gira muito devagar, por isso me sinto um pouco mais seguro. — Olha, Joseph! — Ela aponta para o horizonte à nossa frente. — O sol está se pondo! De fato, o astro-rei está mergulhando entre as montanhas verdes adiante. O cenário não é tão espetacular quanto o que vimos em Veadeiros, mas é magnífico de acompanhar de qualquer modo. Acredito que o nascer e o pôr do sol nunca serão os mesmos para mim depois dessa viagem. Sempre haverá uma beleza difícil de traduzir e

um sentimento impossível de explicar toda vez que eu tiver o prazer de assistir a esses fenômenos da natureza. — Muito bonito, sô. Pauline se aproxima, lambuzando-se toda com os restos do algodão-doce. Terminamos de comer enquanto observamos a noite chegar mais uma vez. — Estou toda melada! — Ri sozinha e inocentemente, com as bochechas e os lábios sujos. Eu a olho para não perder o contorno de seus lábios ao sorrir. Os últimos raios solares deixam Pauline ainda mais linda, como se brilhasse. — Gostou do parque? — Gostei... — falo distraidamente, ainda a observando com o olhar fixo. — Achei o máximo! A gente pode dormir em um hotel em Campinas, fica aqui perto. Tem um aeroporto lá, então poderemos seguir para o Sul, finalmente. — Não vejo a hora. — Ainda estou muito distraído. Não consigo parar de olhá-la. Rezo para que alguma coisa chame a minha atenção, sei lá, me faça desviar o rosto, mas nada aparece e eu não ouso me mexer. Pauline finalmente percebe a seriedade na qual

entrei. Ela sorri e me olha de volta, depois fica muito séria. Lambo os meus lábios grudentos por conta do açúcar. Sinto-me sedento, quase implodindo, com vontade de gritar ou de abraçar o mundo inteiro. Quero que qualquer coisa muito exagerada aconteça, só assim quem sabe o meu coração passe a bater rápido por outro motivo que não seja Pauline. Por fim, eu me faço a última pergunta: por que o meu coração está batendo tão depressa por causa dela? Eu sei que não é a roda-gigante, o pôr do sol ou o algodão doce. Não são resquícios da adrenalina que vivenciei na montanha-russa, nada disso. Estou acelerado por causa de seu rosto sereno, dos olhos brilhantes e dos lábios sujos, merecedores de um beijo intenso. — Ai, meu Deus do céu... — murmuro e arfo, espantado, surpreso, estupefato e qualquer outro adjetivo maluco que possa explicar como fico ao perceber a tragédia que está acontecendo dentro de mim. — O que foi, Joseph? — Esbugalha os olhos. — Na-Nada. — Ainda a estou encarando, mas agora eu sei. Encontrei todas as respostas em seu olhar preso em

mim. Preciso ter certeza com urgência. Por tudo o que é mais sagrado, preciso de uma comprovação definitiva. É por este motivo que, repentinamente, tomo Pauline em meus braços e uno nossas bocas em um beijo de tirar o fôlego. Ela sequer pestaneja, enfia sua língua entre os meus lábios como se estivesse pensando nisso o tempo inteiro. Nossas bocas urgentes se desenham uma na outra em movimentos rápidos, arrancando arquejos e gemidos baixos, incontidos. Ela senta em meu colo depois que a puxo para ainda mais perto. Subo minhas mãos, segurando-lhe os cabelos pela raiz. A sensação é quase a mesma que tive na montanha-russa. Meu coração está saindo pela boca, meu estômago parou no lugar do cérebro e lá está ele, entre as nuvens do céu acima de nós. Tenho vontade de gritar um palavrão, igual a como eu fiz na primeira descida. É desta forma que percebo que o meu problema é ainda maior. Enquanto eu a beijo, me pergunto como não reparei antes. Não é a primeira vez que sinto isso, embora seja a primeira que sinta com tanta intensidade, com tanta

pressa e desespero. Bom, o fato é que eu devia ter descoberto logo. Devia ter sido o primeiro a saber que Pauline significa mais para mim do que eu sempre imaginei. Não acredito em como pude ser tão burro. Não posso ter quebrado a nossa principal regra. Não posso! No entanto, para quê continuar negando? A verdade é dura e sofrida, mas é uma só: eu estou completamente apaixonado por essa mulher.

Capítulo 28

Pauline

Entre as nuvens com Joseph Eu gosto de todos os Josephs que conheci nesse tempo viajando com ele. O tímido, o reservado, o sorridente, o que se permite, o que me beija sem aviso, o viciado em sexo e, principalmente, aquele homem bruto e selvagem que me fodeu enlouquecido sobre a mesa, de quem morro de saudades. Ainda mais agora que o certinho dentro dele resolveu me deixar em abstinência sexual. Então, quando seus lábios possuem os meus desse jeito insano, eu reajo cheia de vontade reprimida, pulando em seu colo sem nem pensar que eu não devia estar fazendo isso. Não é porque ele está me beijando que vai me comer, ainda mais em cima de um brinquedo, em um lugar

público. Nossa vida de loucuras sexuais acabou. Nem sei como ainda consigo pensar tendo a língua de Joseph enfiada na minha boca desse jeito. Senti-lo assim, entregue e sedento por mim de novo, era tudo o que eu queria, mas não faço ideia de qual é a motivação dessa vontade toda. Saber que o amo, infelizmente, me deixou com medo de me machucar, porque ainda sinto a ferida aberta por sua rejeição. É por causa disso que pulo de volta para meu lugar, fazendo força para não me comportar como uma ninfomaníaca. Eu nos afasto como se o tivesse atacado sem mais nem menos. Nem me ligo que foi ele quem me beijou, eu apenas correspondi. — Desculpe, Joseph — digo, sem fôlego, enquanto a roda-gigante sacoleja, voltando a girar. Já escureceu. O último resquício de sol abençoou nosso momento de pura paixão. Eu quero morrer por tê-lo interrompido assim, mas foi necessário. — Não devia ter me descontrolado desse jeito, juro que não vai mais acontecer. — Pauline... eu... — Eu sei, eu sei, você quer ser apenas meu amigo, nada de amassos nem de sexo. Eu entendi, não precisa

repetir. Vou me comportar, prometo! — digo, piscando um olho para ele, sorridente. Nosso dia foi tão legal que não quero estragar tudo com bobagens, por mais que me doa ter que me afastar. — Mas... — tenta outra vez, mas ele vai dizer alguma coisa que pode acabar com meu bom humor, por isso não deixo que termine de jeito nenhum. Por sorte, a roda-gigante para e nós precisamos descer. Eu o pego pela mão e o levo para fora do parque. Não posso ficar sozinha com ele agora, senão não vou suportar mais nenhum segundo longe de seus braços. Ai, meu Deus! Estou perdidamente apaixonada, no sentido literal da palavra perdida, mas vou respeitá-lo até o último instante de nossa viagem e fazer com que seja uma experiência maravilhosa e inesquecível para ele, assim como vai ser para mim. — Vamos para Campinas. Vou pesquisar pelo celular se tem voo para o Sul ou se precisaremos ficar em um hotel até amanhã. Se eu tiver que dividir um quarto com Joseph essa noite, será uma tortura para mim. Meu corpo ainda está

quente e latejando de desejo pelo dele. Ele dirije, guiado pelo GPS, enquanto faço a busca. Para meu total desespero, o único voo para Porto Alegre acaba de sair e o perdemos. São mais de cem quilômetros até Bento Gonçalves, mas pelo menos a gente estaria mais perto de nosso destino. Merda! Procuro por outros aeroportos nas proximidades e, como todos os vôos saem somente manhã, opto pelo que vai direto para Caxias do Sul, que fica a apenas vinte e sete quilômetro da cidade e já estaremos na serra gaúcha, tchê. Preciso encontrar uma saída, uma distração, algo que tire esses pensamentos libidinosos da minha mente. Que vontade de parar o carro na beira da estrada, como fizemos ao sair de Itaú de Minas — e meu pai sugeriu ao se despedir da gente —, e meter Joseph para dentro de mim, acabando com sua ausência de uma vez por todas. Caramba, Pauline, para com isso! Eu nunca senti tanta necessidade de ter alguém, nem quando o tesão implacável me domina. Porque eu sei que não é só excitação que eu sinto, mas um anseio de fazer parte, de ser dele, de me entregar a essa paixão sem limites. Porém,

os limites existem e eu preciso me policiar para não ultrapassá-los. Passar pela casa dos meus pais no momento da descoberta mais importante da minha vida foi a melhor coisa que eu fiz. Conselho de mãe nunca é demais, mesmo que papai tenha nos constrangido com sua espontaneidade. — Joseph! — arquejo, em meio à empolgação pela ideia que acabei de ter e também pelo desespero de externá-la logo. Ele se sobressalta, evidenciando estar mergulhado em seus próprios pensamentos. — O que você acha de fazermos a tatuagem agora? — Eu... — começa, sem fôlego, depois engole em seco, sacudindo a cabeça como se despertasse. — A gente não estava indo para o aeroporto? — Sim, mas infelizmente não tem mais voo hoje, apenas amanhã depois do almoço. Então pensei que, já que teremos que ficar aqui essa noite, podíamos aproveitar para fazer a tattoo e jantar — emendo, entusiasmada com a perspectiva de passar o máximo de tempo possível longe de um quarto de hotel com ele. — Estou faminta e você?

— É... — Parece confuso, coitadinho. Eu sou muito instável, por isso é tão difícil me acompanhar. — Pode ser. Fico aliviada por Joseph concordar, não sei o que faria se ele me questionasse demais. Estou improvisando. Eu me dedico a novas pesquisas nessa ordem: tatuador, restaurante, hotel. Corrijo as coordenadas do GPS e ele nos leva à primeira parada. Desço do carro feito uma alucinada, guiando-o para dentro do estabelecimento, localizado no centro de Campinas, com pressa. Somos atendidos rápido e perco um tempo precioso discutindo com o cara o desenho único que queremos, até que ficamos satisfeitos com o resultado final. Mesmo morrendo de pavor, vai ficar linda demais! Decido tatuar no meu punho esquerdo, para ficar fácil de olhar sempre que eu quiser. A gente consegue dois tatuadores para fazer ao mesmo tempo, já que eu não suportaria esperar minha vez e Joseph parece ansioso demais também. O movimento está bem fraco a essa hora. No entanto, no momento em que o aparelho é ligado e começa a zunir, estremeço toda,

quase arrependida de ter inventado essa tatuagem. Como é que vou deixar esse estranho me espetar um milhão de vezes com uma agulha cheia de tinta? Como? Paraliso, em pânico, e meus olhos se enchem de água automaticamente. Viro o rosto. Não quero ver em hipótese alguma, e me deparo com um Joseph vidrado em seu próprio pulso, assistindo ao cara desenhar o trevo, o símbolo da nossa sorte, em sua pele. Ele está tão lindo que isso me distrai da dor que se centraliza em uma área pequena, mas tão profundamente que parece alcançar meus ossos. Merda, isso dói pra caralho! Seus olhos se voltam para mim, como que atraídos pelos meus, que clamam por seu sorriso de menino. Eu ganho o que pedi mentalmente e lhe devolvo algo bem longe da beleza que recebi. Meu sorriso sai meio torto, meio agonizante, mas sai. Percebendo meu desconforto, Joseph para de sorrir e sua voz ganha uma doçura sem fim quando fala: — Que tal jogarmos, Pauline? — Fico sem entender suas palavras. Minha expressão deve denunciar a confusão em que estou, porque ele continua se explicando:

— Já que vamos abolir o “eu nunca” de nossas vidas, para o quê você diria “eu sempre”? Gosto e muito da brincadeira. Enquanto olho para ele, voltando a sorrir, de verdade desta vez, não consigo pensar em outra coisa a não ser em nós, mas não quero parecer patética demais, portanto opto pelos momentos mais especiais que vivemos. — Eu sempre vou me lembrar daquele pôr do sol na lua. — Não sei se essa era a ideia que ele tinha do jogo, mas como não impôs regras, digo o que me vem à cabeça. O que não falo é que o momento que mais me recordo daquele dia foi quando nossas mãos se tocaram, nos abraçamos e eu senti o calor de seu corpo junto ao meu, enquanto eu chorava, emocionada, com o espetáculo. Na hora, o gesto não pareceu tão bom quanto agora, na minha recordação. — Eu sempre vou me lembrar do gosto do mar no sertão — emenda, de maneira intensa e ruborizando horrores. Sinto um arrepio, que sobe pela minha coluna na velocidade da luz. O fato de citar exatamente o lugar onde

perdeu a virgindade comigo quase me causa uma parada cardíaca. Eu aqui, tentando não colocar sexo e Joseph em um único pensamento, e o que ele faz? Me leva direto para aquele barquinho sobre a areia branca, onde nos amamos pela primeira vez sob as estrelas. É pra acabar com o pequi de Goiás! Aquele calorzinho maravilhoso que me aquece volta e meia ressurge, queimando-me como brasa. Pior que tenho certeza de que ele teve o mesmo pensamento. Por qual outro motivo ficaria todo corado desse jeito? Solto uma gargalhada insana e levo uma bronca do tatuador, que me manda ficar quieta para não estragar o desenho. — Eu sempre vou adorar te ver vermelho assim — admito na cara dura, sem medo de expor como acho lindo quando fica rosadinho. Joseph enrubesce mais violentamente, chegando àquela cor de pimenta irresistível. Dá vontade de mordêlo, nhac, mesmo sabendo que vou arder toda por dentro. Ai, meu Deus, é impossível não pensar nele sem associálo a sexo. IM-POS-SÍ-VEL! — Eu sempre vou atravessar o país para te salvar —

rebate, sem desviar os olhos dos meus, enfrentando sua própria timidez. Perco o ar dos pulmões. Caramba, que fofo! Saber que posso contar com ele para o que der e vier me causa uma comoção tão grande! Sempre tive muitos amigos, mas nunca quis ou precisei de ninguém, pelo menos achava que não. Até conhecer Joseph e não conseguir mais imaginar minha vida sem sua presença doce, gentil e tão imprevisível. — Eu sempre lembrarei com carinho dessa aventura ao seu lado, anjo. Engulo um soluço antes que caia na choradeira. Virei uma manteiga derretida, mas também, como não me derreter toda com esse homem tão quente em todos os sentidos? Não desvio meu olhar do seu. Conectados, esquecemos de onde estamos e o que fazemos. O mundo inteiro silenciou e temos apenas um ao outro, e nosso jogo do “Eu sempre”. — Eu sempre vou me permitir o novo graças a você, linda menina. Deixo uma lágrima de emoção rolar pelo rosto. É

assim que me sinto, como essa gota, me esvaindo em mim mesma porque não consigo mais conter esse amor dentro de mim. A frase chega à ponta da minha língua, se formando sozinha e, sem pensar a respeito, apenas a sinto: “Eu sempre vou te amar, Joseph Ayres.” Mas uma voz estranha, que não tem nada a ver com a meiguice de meu anjo, me sobressalta e me arranca da ilusão. Puta merda, eu quase admiti meus sentimentos pra ele! — Pronto! Veja se curtiu, moça. — O quê? — Santo Cristo das causas perdidas. Onde estou, quem sou eu? — A tatuagem... Já terminei. — Ah! — Ah, tá! Já tinha me esquecido. Nem percebi a dor. Joseph é uma distração e tanto, ainda mais quando meus sentimentos ficam tão alvoroçados. Olho para o local tatuado, que ficou bem vermelho, mas lá está estampado tudo o que sou a partir do momento em que esbarrei nesse rapaz tímido na lotérica. Tem um espelho grande na parede e confiro como ficou com o pulso solto. O trevo é todo pretinho, cheio, com um caule tão pequeno que só consigo ver de perto. O

texto, que segue o contorno da folhinha, foi escrito com uma fonte cursiva bem linda, mas legível: “eu sempre”. Amei demais minha tattoo! Principalmente porque ela nunca vai ser apenas minha, é nossa. Joseph para ao meu lado e encosta seu pulso ao meu, deixando nossas tatuagens lado a lado. Não acredito que ele fez no braço direito! Abro um sorriso tão imenso que com certeza não cabe no meu rosto. Impulsivamente, pego sua mão, entrelaçando nossos dedos e fazendo nossas sortes se tornarem almas gêmeas. Talvez elas já sejam, eu não sei. — Curti demais, sô! — Seu sotaque excitante resolve dar as caras para fechar a coisa toda com chave de ouro. Não que ele não estivesse o usando até agora, mas, nesse momento, uma comichão muito doida toma conta de mim, a ponto de eu ter que fazer a maior força para não atirar os braços ao redor do seu pescoço e beijá-lo até amanhã, quando finalmente estaremos em outra região do Brasil. — Essa vale levar para a vida toda... — digo numa versão editada da minha verdadeira confissão.

Sorridentes, somos orientados de como cuidar delas. Compramos uma pomada cicatrizante, que é aplicada sobre a pele sensível agora mesmo, e enrolam um plástico em nossos punhos para proteger contra contaminação. Acho o máximo sair por aí com ele e todo mundo saber que eu acabei de fazer uma tatuagem. Pagamos e partimos. Próxima parada, restaurante de comida japonesa. Depois de toda aquela gordura apetitosa na casa dos meus pais, precisamos de uma refeição leve e saudável. A gente não anda comendo bem esses dias e não sei se Joseph já conhece essa culinária que eu adoro. Amo frutos do mar! Como co-piloto, cuido do GPS e ele aceita, talvez me deixando participar de algum modo, já que não posso dirigir. Vai ser muito difícil ficar tanto tempo sem pegar a direção de um carro. Quando chegamos, descubro que Joseph nunca experimentou japa. Eu sei até usar os hashi sem borrachinha nas pontas. Curioso, ele concorda quando peço uma barca enorme com sushi, sashimi, salmão, rolinhos primavera, temaki e saquê para acompanhar. Joseph pede a bebida também, dizendo que gostaria de

provar e me pega desprevenida. Estava esperando que ele tomasse sua água com gás, como de costume. Eu nem pretendia forçá-lo a beber álcool. Animada, sugiro um brinde ao recebermos as doses. — Aos momentos eternos... Tilintamos os copos e tomamos um gole. Bem, eu viro uma generosa quantidade, olhando-o bicar a sua, fazer uma careta e depois testar o gosto na língua. Por fim, parece aprovar, então ousa ingerir um pouco mais. Fico tão surpresa que quase engasgo. O que está acontecendo com ele? Será que aquele Joseph maluco vai dar as caras outra vez? Ai, ai, como eu queria que ele me pegasse daquele jeito doido de novo e me penetrasse loucamente, em qualquer lugar. Céus! Que tesão! Ferveu tudo por aqui. A gente come se divertindo como há um tempo não fazemos. Joseph se atrapalha com os hashi, mesmo que estejam presos com borrachas, me arrancando gargalhadas. Eu ajudo, ensinando-o a usá-los. Seguro sua mão e movo seu indicador junto com o meu, mostrando como fazê-los funcionar corretamente. Concordo que não seja fácil, ainda mais com tanta comida escorregadia, mas

ele teima até obter algum sucesso. A barca e nossos copos esvaziam tão depressa que fico meio decepcionada comigo mesma por não ter enrolado mais. Sem opção, nem ideia para adiar o momento — até porque está tarde e estamos cansados do passeio cheio de adrenalina do dia —, nos guio ao melhor hotel da cidade para o pernoite. Tomo a frente na recepção, pedindo um quarto duplo. Jamais suportaria vêlo entrar em outra porta no mesmo corredor, mas não vou obrigá-lo a dormir comigo de novo se ele quer voltar a ser celibatário. Essa é sua decisão e eu não posso fazer mais nada além de aceitá-la. Caminhamos pelo corredor em um silêncio capaz de me tirar a razão. Cadê aquela alegria de agora a pouco? Affe! Que tragédia! Não consigo mais manter um clima bom com ele o tempo todo, como antes. Eu me transformei demais e isso me irrita, mas não sei como voltar ao que éramos. Dou de ombros. Não existe volta para esse tipo de mudança. É uma experiência que inevitavelmente me transformou. Vou sorvê-la até a última gota. Não posso me arrepender de não ter aproveitado cada segundo com meu

anjo durante essa viagem juntos. — Acho que o cansaço bateu de uma vez — justifico minha quietude com uma meia verdade assim que fecho a porta do quarto atrás de mim. — Eu estou... bêbado — diz como se não quisesse admitir. — É? — Solto uma risada que chacoalha meu corpo inteiro. — Nem percebi. — Nuss... Enquanto estava sentado, me senti bem, mas agora estou meio alto, andando como se flutuasse. — Vem cá, anjo. A gente se move um na direção do outro e dá uma trombada fenomenal. Ele cai de bunda no chão, todo atrapalhado, e eu tento me equilibrar, mas acabo cobrindo seu corpo com o meu. Gememos quando nossos ossos encontram carnes macias, que certamente deixará marcas roxas em nossas peles, e logo nossa proximidade me distrai. Já nem lembro o que era mesmo que eu ia fazer. Sinto aquele incêndio se alastrar dentro de mim, descontrolado, e não me impeço mais. Grudo minha boca na dele, agarrando seus cabelos com fúria e esfregando

seu quadril entre minhas pernas, que abro ao seu redor com agilidade. Algo me diz, lá no fundinho, que eu tenho que parar, mas não tenho forças, portanto ignoro a vozinha do mal. É muita maldade exigir que eu deixe de beijá-lo agora. Joseph geme, me tirando de vez a sanidade. Nossas línguas bailam, insanas, juntas. Sua mão agarra meus cabelos pela nuca, com uma violência deliciosamente excitante. A outra aperta minha cintura com tanta força que com certeza seus dedos ficarão tatuados na minha pele. De repente, ele nos gira, repousando minhas costas contra o piso e movendo com selvageria seu corpo contra o meu. Por mais que eu o queira dentro de mim, aquela voz endemoniada não cala a boca. Só por isso não tiro suas roupas. Beijo não é sexo, não é mesmo? Ele me beijou na roda-gigante, então também posso beijá-lo. E, nesse momento, quem está controlando nosso amasso louco é Joseph e não eu, então não sou culpada. Ele pega nossas mãos, unindo-as, e puxa para cima da minha cabeça enquanto seus lábios me devoram. Sinto os plásticos que cobrem as tatuagens roçarem

um no outro, me lembrando de nosso jogo novo. Meu Deus, eu amo esse homem com cada célula do meu organismo. Tudo em mim pulsa por ele, reage ao seu toque, clama por cada detalhe que o faz perfeitamente lindo aos meus olhos. Quando menos espero, começo a chorar descontroladamente. Ele percebe e se afasta, ofegante, acariciando meu rosto na vã tentativa de deter as lágrimas que deslizam sem pausa. — Uai, o que foi, Pauline? Eu te machuquei? — Sua preocupação é tão fofa que meu pranto aumenta. — Onde dói? Me diz! Tenho vontade de dizer que é meu coração que dói, mas deixo para lá. Eu me obrigo a parar com essa palhaçada sentimentaloide sem noção. — Desculpe, você não fez nada de errado, muito menos me machucou, Joseph, relaxa. Devem ser os hormônios. Quando uma mulher não sabe como explicar seus sentimentos, sempre pode apelar para a TPM e acabar com as perguntas desconfortáveis. — Ah, tudo bem, então. Acho melhor você tomar

banho na frente. — Ele se ergue do chão e me ajuda a levantar. Faço o que me sugere sem questionamentos, apenas criando espaço entre nós para que eu possa me recuperar totalmente. A água do chuveiro ajuda a apagar os rastros da choradeira e saio do banheiro revigorada, vestida demais para o meu gosto. Mas não posso provocá-lo com minha nudez, seria golpe baixo de minha parte. Ele me deseja, eu senti seu pau duro em mim, mas tenta se controlar, então farei o mesmo. Ainda mais porque ele disse estar bêbado, portanto não está totalmente dono de si nesse momento. O beijo no chão foi só mais um lapso. Seu banho é a jato, impressionante. Fico quieta, sem saber se lhe desejo boa noite ou apenas sossego meu facho e durmo. A cama enorme é glacial sem ele. O arcondicionado zune baixinho, resfriando o quarto e fazendo com que me cubra com o edredom em busca de um pouco de calor. Ouço as molas da cama ao lado cederem. Ele se move tão silenciosamente que não escuto seus passos. Deve estar tomando cuidado, achando que eu já dormi. Quem me dera. Mesmo cansada, estou pilhadinha. Nem a

água morna me relaxou. Tudo me incomoda. A roupa que sou obrigada a vestir, quando estou acostumada a dormir completamente pelada, me dá nos nervos. Até calcinha eu estou usando! Mesmo sendo indecente, sei que ele não vai ver mesmo, então não pode ser considerada uma provocação. O lençol sob mim, que não tem a textura da pele de Joseph, também me deixa irritada. O zunido constante do ar me sufoca, bem como o edredom que me obriguei a utilizar. Imagina se minha bunda ou um seio se descobre durante a noite? Ouço o tique-taque de um relógio irritante que só existe na minha cabeça. Nem a respiração dele eu ouço. É como se estivesse completamente sozinha no quarto. Não tenho ideia de quanto tempo fico acordada, nem olho no relógio que é para não perder a paciência. Evito mudar de posição muitas vezes, permanecendo na mesma até me cansar. Por fim, deixo minha mente divagar para Joseph... Quer dizer, esse assunto nunca acaba... E rememoro nossos últimos beijos. Meu Deus! Se eu não tivesse chorado, a gente teria transado. Seria inevitável!

Frustrada, me lembro que deixei os artigos de sex shop em Brasília, no guarda-roupa da nossa casa. Affe! Eu devia ter trazido, ainda mais que eu já sabia que ele ia me deixar em abstinência. Agora estou aqui, excitada demais para pregar os olhos e precisando urgente de um alívio antes que eu veja o sol nascer pela janela do quarto. Suspiro e giro meu corpo, ficando de barriga para cima. Mordo o lábio e tento perceber se Joseph está dormindo. Não quero levantar da cama e fazer isso no banheiro. Prefiro que seja deitada. Não escuto nada. Escorrego a palma da minha mão a partir do meu pescoço, passando pelos seios e acabando na minha vagina. Eu me toco por cima das roupas, aquecendo-me mais. É tão gostoso! Aperto os olhos e imagino que é ele que faz tudo em mim. Com a outra mão, aperto um seio, reprimindo um gemido. Sem a menor ansiedade, deslizo os dedos pela virilha, atiçando-me. Faço uma carícia longa e lenta, para cima e para baixo, resvalando no clitóris que se intumesce devagar, reagindo à minha provocação. Meus mamilos

também endurecem, arrepiados, quase perfurando o tecido fino da blusa. Imagino a boca de Joseph os sugando, a ponta da língua desenhando minhas formas sensíveis. Mordo a língua, engolindo o urro que quase libero. Eu me permito ir mais longe, alterando a memória que tenho de nossa pegação. Nessa versão, Joseph continua esfregando seu pauzão duro na minha fenda melada e, mesmo por cima das peças de roupa, me enlouquece completamente. Esfrego minha própria mão, imitando o movimento que ele fazia com seu corpo maravilhoso no meu. Sufoco um arquejo, mas minha respiração acelera, incontrolável. Vislumbro em minha mente seu desespero ao me ver nua. O Joseph dos meus sonhos eróticos para de me beijar, tirando minha camiseta com tanta fúria que ela rasga. O short jeans é mais difícil de ceder à sua força, mas ele consegue arrebentar o botão. Fico louca de tesão por esse homem cheio de desejo represado. Sua boca toma meus seios para si e eu curvo o busto contra ela, exigindo que não pare. Enfio meus dedos sob a blusa, beliscando os mamilos

com ferocidade, como seus dentes fariam. Meu corpo se remexe, descontrolando-se. Sinto minha fenda melar e melar, ansiosa pela penetração. Meu anjo safado imaginário enfia um dedo em mim, testando minha vontade e minha lubrificação. Depois o chupa ruidosamente, saboreando meu gosto. Enlouquecida, faço o mesmo comigo mesma. Porra! Eu estou muito molhada! Abro as pernas para recebê-lo, convidando-o a entrar de uma vez em mim. Seu pênis enorme mira meu centro e se mete ali dentro até o talo. Meus dedos, nervosos, socam o máximo que podem, escorregando com facilidade em minha excitação. Joseph retrocede e volta, e eu imito meu pensamento, sentindo-o em cada partícula que me compõe. Mais fundo, mais duro, mais rápido, escorrega, vai e vem, batendo seu quadril cadenciadamente no meu. Esbarro em meu clitóris mais do que inchado, me pedindo atenção, exigindo atrito e prometendo um orgasmo tão intenso quanto meu anjo me daria se estivesse em mim agora. Atendo seu chamado insistente, movendo minha mão em círculos ensandecidos. Sinto cada músculo contrair em expectativa. Travo a respiração, aumento a

velocidade e não paro... não paro... não paro... até que explodo em um clímax tão maravilhoso que continuo apenas para prolongá-lo mais um pouco. Sinto espasmos violentos, incapazes de serem controlados, e um gemido me escapa, curto e animalesco. Meu peito é socado por meu coração, ferozmente, e pareço asmática, de tão errada que está minha respiração. Fico jogada no colchão, satisfeita — temporariamente —, sentindo meu corpo amolecer após a injeção de alta dose de endorfina no meu sangue. Aos poucos, minha atividade corporal normaliza e eu acabo encontrando uma posição confortável, na qual apago. Tenho um sono tranquilo, sem sonhos nem sobressaltos. Acordo bem, mesmo que ainda esteja toda lambuzada, mas uma ducha pode resolver. Quando olho para o relógio, já são dez horas da manhã. Puta que pariu! Temos que estar no aeroporto em duas horas! Eu dormi demais! Salto da cama e noto que a de Joseph está vazia. Ah! Será que ele desceu para o café da manhã sem me esperar? Poxa vida, fiquei triste agora. Ando apressada ao

banheiro e dou de cara com a porta fechada. Ops, acho que encontrei meu gatinho. Quem me dera poder estar lá dentro com ele agora, mas me contento em esperar. Joseph sai do banheiro só de bermuda, enxugando os cabelos molhados. Banho de cabeça de novo? Bem, quem sou eu pra julgá-lo? Às vezes sentiu necessidade de um banho frio para despertar. Pulo da cama onde estou sentada, agarrada na minha nécessaire. — Bom dia, anjo! — cumprimento, contente, como se realmente tivéssemos transado ontem à noite. Não bato bem, mas dane-se. O importante é ser feliz! — Bom dia, linda menina! — Ele também parece bem satisfeito. Que bom! — Precisamos nos apressar para não perdermos o voo — digo enquanto cruzo com ele no meio do quarto, invertendo nossas posições. — Eu sei, ia te acordar depois que saísse do banheiro. Qual é mesmo o nome da cidade, Pauline? Joseph se senta na beirada de sua cama, largando a toalha no chão e vestindo a camiseta. Os músculos de suas costas se movem de maneira sensual e viril. Como eu

quero enfiar minhas unhas ali enquanto ele me come. Nossa! Desanuvio a mente, afastando o pensamento obsceno e lhe respondo: — Bento Gonçalves. Acho que você vai gostar da viagem de trem pela serra gaúcha. Seu rosto ganha vida, sorrindo daquele jeitinho lindo que eu amo. — Nuss! Até que enfim uma viagem com os pés no chão. Vou tomar minha chuveirada gargalhando de sua brincadeira. Era de se esperar que, depois da falta de conclusão de nossa pegada, estaríamos estranhos, carentes, cheios de dedos um com o outro, mas aconteceu exatamente o contrário. Acho que, como eu, Joseph já deve ter se acostumado com nossas loucuras, porque descobrimos que não importa como, só que estejamos juntos.

Capítulo 29

Joseph

Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul Não estou entendendo mais nada. Eu beijo Pauline e ela chora. Depois ela me beija e chora. Uai... O que será que se passa nessa cabeça oca? Sei muito bem que mulheres costumam colocar a culpa nos hormônios para tudo. Bom, ela já saiu da fase da TPM que eu sei — afinal, acabou de menstruar, não foi? —, não devia estar chorando desse jeito, por qualquer motivo. É óbvio que algo sério está acontecendo e ela não quer me contar. Talvez Pauline esteja se sentindo forçada a ficar comigo. Sei lá, deve ter pena de mim e fazer o maior esforço para me dar o que está escrito na minha testa que eu quero, só que deve ser tão difícil para ela que não consegue conter

as lágrimas. Não aguento mais ficar duro desse jeito, porém também não suporto vê-la assim. Preciso, de uma vez por todas, aprender a controlar os meus impulsos. Mas como me conter depois de descobrir que o impensável aconteceu? Não me sinto muito bem desde que um estalo repentino finalmente me avisou que estou apaixonado por ela. Ainda não consigo acreditar em como pude ser tão inconsequente. O pior de tudo é que, a cada segundo que passa, percebo que esse sentimento é ainda maior do que eu esperava. Eu queria muito que fosse, mas acho que o que sinto pela Pauline não é uma simples paixão boba. Depois de um banho frio e de cabeça, deito na cama de solteiro da suíte dupla do hotel, em Campinas. Pauline já está deitada e quieta, toda coberta com o edredom, provavelmente dormindo. Não consigo ver muita coisa na penumbra. Esqueci os meus óculos no banheiro e não estou a fim de me levantar, pois meu corpo está cansado por causa das aventuras no parque de diversões. Sequer tento me endireitar para dormir, já sei que não vou conseguir. Minha mente está perturbada e confusa, nada

parece se encaixar com exatidão. É tão deplorável estarmos dormindo longe um do outro que a tristeza me abate. Eu queria tanto que ela me quisesse também. Queria que sentisse por mim pelo menos um pouco do que sinto por ela, quem sabe assim poderíamos ser felizes, não somente durante essa viagem, mas por um tempo maior? Vejo os minutos passarem e o silêncio absoluto intensificar a minha tristeza. Penso em várias coisas até finalmente perceber que eu não devia estar triste, afinal, tenho tudo de que preciso para viver. Deus é muito bom comigo, não tenho dúvidas disso, portanto não serei um filho ingrato que não reconhece as maravilhas diante de seu próprio nariz. É incrível como a gente tem mania de querer o que não tem ou o que não pode ter. Sempre achei esse tipo de comportamento lamentável. Agir assim nunca esteve em meus planos e nunca estará. É por este motivo que faço uma oração, somente agradecendo por todas as graças recebidas, e me sinto melhor, como sempre me sinto quando estou conectado com Deus. Fico quieto em uma posição confortável, esperando o sono me arrastar para bem longe da realidade. Estou

observando os contornos da cama ao lado, em busca de algum sinal ou de um milagre que me faça enxergar mais do que posso agora. Queria vê-la dormir, mas, já que não posso, imagino seu rosto sereno, os olhos fechados exibindo os cílios cheios, bem pretos, além da boca desenhada e meio rosada. Sua face está tão fixa em minha cabeça que nem preciso vê-la de fato para poder admirála. Pauline é tão linda! Sabe, não é uma beleza explícita de capa de revista, ela é naturalmente encantadora, interessante e bastante excitante. Aprendi a admirar cada pedacinho dela, o que tem por fora e por dentro. É, eu sei, estou realmente muito ferrado. Meu braço arde um pouco por causa da tatuagem recém-feita. Toda vez que me lembro dela, abro um sorriso meio bobo. Ainda não tive tempo de me arrepender de ter marcado a pele para sempre, mesmo sabendo que a minha mãe vai ter uma parada cardíaca quando vir. Sei perfeitamente que, aconteça o que acontecer, jamais me esquecerei dessa viagem e de como eu me modifiquei em um período tão curto de tempo. Marcar a pele foi só uma representação exterior do que

aconteceu por dentro: meu coração está devidamente marcado. Paro de sorrir assim que escuto um som abafado, parece um gemido curto. Abro bem os olhos, tentando perceber qualquer movimentação na cama ao lado. Escuto a respiração de Pauline ficar alta, ofegante. Mais um gemido lhe escapa. Conheço muito bem esse timbre, já ouvi gemidos iguais perto do meu ouvido. O edredom se remexe um pouco, deixando o meu coração tão acelerado que tenho a sensação de ouvi-lo também. Minha Nossa Senhora! Será que Pauline está...? Não é possível, sô. Ela não pode estar fazendo isso sozinha depois de ter me rejeitado duas vezes. Pauline se move de tal forma que confirma minhas desconfianças. Mas que droga, não consigo ver porcaria nenhuma! Mantenho-me muito quieto, pois ela provavelmente acha que estou dormindo e não quero assustá-la ou impedi-la de buscar o próprio prazer. Geme um pouquinho mais alto e quase morro do coração. Meu membro está ficando perigosamente duro só de imaginar o seu toque na pele sensível e macia. Fecho os olhos, já que

não vejo nada mesmo, e me concentro nos sons. Com muita atenção, posso ouvir seus dedos entrando em atrito com seu sexo muito úmido. Tenho vontade de grunhir, tamanho é o tesão que me assalta sem aviso. Estou muito duro agora, de maneira insuportável. Prendo a respiração quando Pauline geme fraco, porém em uma frequência muito maior, quase desesperada. Meu Deus, ela está gozando, sei que está. O que eu faço? A vontade de me levantar e pular na cama dela é insuportável. Chego até a visualizar a cena inteira: eu arrancando aquele edredom e cobrindo seu corpo com o meu. Sem rodeios, penetrando-a com força até que entenda que não precisa encontrar alívio sozinha. Faço questão de aliviá-la quantas vezes forem necessárias, incansavelmente. Estou entrando em desespero, sufocado e encolhido nessa cama, que de repente se torna grande demais para caber o meu desejo. Por que Pauline não me diz como fazer para saciá-la? O que há de tão errado comigo? Se ela soubesse que eu faria qualquer coisa para lhe dar prazer, acho que nunca pensaria em me torturar desse

jeito. Com certeza estaríamos na mesma cama agora, vivenciando um momento de pura luxúria. Creio que mal faz dois dias que não transamos, mas para mim parece uma eternidade. O quarto entra em total silêncio depois que Pauline goza. Ela se move uma vez, virando-se de lado, creio eu, deixando-me desesperado e excitado até o último fio. Tento me acalmar de todas as formas possíveis, mas não consigo. Sinto uma espécie de excitação misturada à raiva. Pauline fica muito quieta, e sei que dormiu quando sua respiração se torna compassada e pesada. Eu me reviro na cama muitas vezes, porém todas as posições não são confortáveis para o meu membro, que lateja exigindo atenção. Eu me nego a saciá-lo. Estou tão frustrado que me masturbar só intensificaria essa decepção toda. Durmo depois de horas tentando espantar a vontade de acordá-la com minha boca entre suas pernas. Meu sono, obviamente, é perturbado e composto por pesadelos de alto teor erótico, envolvendo sexo, mortes e muito sangue. Faz um tempo que não durmo tão mal. Acordo de vez antes mesmo do despertador da Pauline tocar e me

enfio no banheiro. Não tem jeito. Estou duro e preciso de alívio, do contrário agirei como um tarado. Nunca me perdoaria se encostasse um dedo na Pauline sem sua permissão, por isso resolvo o meu problema durante mais um banho frio. Agito meu membro furiosamente em minha mão, imaginando o corpo dela totalmente entregue a mim. Se me fosse permitido, eu a colocaria de quatro e a socaria com violência, até fazê-la gozar repetidas vezes. Solto um grunhido baixo e expilo uma quantidade grande de sêmen, que se junta à água do chuveiro e escorre pelo ralo. Passo um tempão com a cabeça equilibrada na parede de azulejos, sentindo o tão desejado alívio, embora a decepção ainda exista e me deixe bastante irritado. Soco a parede uma vez, com força, até sentir que as lágrimas finalmente vão sair. É melhor chorar do que explodir, certo? Faço a minha escolha e deixo o choro extravasar tudo de ruim que venho acumulando dentro do meu peito, até me sentir renovado. Saio do banheiro pronto para encarar mais um dia de abstinência. Guardo as frustrações em um lugar escondido e busco o bom-humor para continuar essa viagem com

alegria. Pauline merece o melhor de mim, e é isso o que terá. Após um delicioso café da manhã no hotel — em que tentamos permanecer no mesmo clima amigável de antes —, partimos para o aeroporto Viracopos, um nome que Pauline acha bem sugestivo. Nosso voo só sairá à uma e quinze da tarde, mas achamos melhor chegarmos mais cedo para comprarmos as passagens e fazermos logo o check-in, já que mal tivemos tempo de resolver tudo pela Internet. Esperamos o horário da nossa ida a Caxias do Sul, a vinte e sete quilômetros de Bento Gonçalves — nossa próxima parada —, sentados em um pequeno restaurante, dentro do aeroporto. Pauline está ao telefone com um advogado renomado, amigo de Seu Paulo, cuidando da liberação do Porsche e da sua situação com a polícia. Enquanto isso, reúno todas as notas fiscais que juntei para contabilizar quanto gastamos até então. São tantas notas que resolvi organizálas em uma pasta. Anoto todos os gastos em um caderno pequeno e, com a ajuda de uma calculadora, consigo avançar um pouco nessa difícil tarefa. Pauline não vai

escapar de seu juramento, vamos doar parte do dinheiro gasto quando a viagem tiver fim. Pauline só larga o celular para embarcar no avião. Eu me sinto sozinho até ela segurar a minha mão ao perceber que estou morrendo de medo. O céu está todo encoberto e passar por muitas turbulências é inevitável. Parece perceber a minha presença só então. Eu a olho a fim de traduzir a expressão séria que me oferece, mas simplesmente não consigo descobrir o que se passa em sua cabeça. Ela se apoia em meu peito antes que eu tenha qualquer descoberta, erguendo a braçadeira que nos separa e se juntando ainda mais a mim. Resolvo não fazer nada além de abraçá-la e deixá-la desse jeito, bem perto e confortável. Estou tão apaixonado que não evito pensar em um mundo perfeito em que nós dois somos muito mais do que simples amigos de viagem. Esses pensamentos me distraem durante todo o voo. Quando menos me dou conta, pousamos no Aeroporto Regional de Caxias do Sul. O clima do sul está adoravelmente frio, fazendo com que a gente sinta a necessidade de comprar alguns casacos e peças mais quentes. Pegamos um ônibus especial que nos

leva a Bento Gonçalves, a Capital Brasileira da Uva e do Vinho. — Está muito tarde para andarmos na Maria Fumaça hoje, vai ter que ficar para amanhã. — Pauline me avisa, tirando-me do devaneio que entro ao admirar a paisagem entre as cidades através da janela do ônibus. Ela está vidrada em seu celular mais uma vez, só que agora verificando os nossos destinos. — Mas a gente precisa conhecer o Vale dos Vinhedos. Sabia que os vinhos do Vale são os únicos no Brasil a ter o selo de indicação de procedência e o de denominação de origem? — Hum... O que isso significa? — Significa que o vinho é tão bom que eu preciso de uma taça urgentemente! — Ela abre um sorriso amplo. Os olhos estão brilhando, sinal de que está animadíssima. — Aliás, não só uma taça, né? E você vai tomar também, mocinho. Vir a Bento Gonçalves e não apreciar um belo vinho é até pecado. — Tudo bem, eu experimento. — Nunca tomei vinho na minha vida, nem mesmo na Páscoa, mas deve ter gosto de suco de uva. Não deve ser ruim, afinal. — O que é

aquilo ali? — Aponto para frente, onde vejo, sobre a pista, uma construção enorme similar a uma gaiola. — Cadê? — De onde está Pauline não consegue ver, já que ocupo o assento da janela, por isso ela simplesmente se senta no meu colo e se inclina. Meu coração acelera no mesmo instante. — Ah, estamos chegando a Bento! — Pula sobre mim, empolgada, e eu acho que vou ter um trem. — Isso se chama Pipa-Pórtico. É o cartão de entrada da cidade, um pórtico em formato de pipa. Sabe aqueles barris de conservação do vinho? Então, é isso. Estamos, literalmente, entrando no mundo do vinho. Não é lindo? — É bem interessante mesmo, sô! — falo, usando o maior autocontrole do mundo para não gaguejar. Pauline sai de cima de mim, deixando-me meio sem ar e com uma ereção para tentar evitar. Passamos por dentro da construção e Pauline tira muitas fotos. Ela decide conhecer o Vale dos Vinhedos ainda hoje, por isso, assim que descemos em uma estação específica, pegamos um ônibus de excursão que nos leva para um passeio turístico por esse vale, além de

visitarmos uma das tantas vinícolas existentes na região. Fico empolgado quando ela me fala que vamos conhecer os procedimentos de fabricação do vinho. A região é composta por colinas e plantações enormes de uva, além de araucárias belíssimas. Descemos na vinícola junto com o grupo de excursão e um guia, que nos explica sobre a importância do vinho para a economia da cidade. Somos levados a cada uma das instalações do lugar, começando pela plantação de uva. O passeio é tão diferente e didático que me vejo concentrado, disposto a aprender tudo o que posso. O frio está muito gostoso, cerca de doze graus Celsius, segundo o guia. Ainda ganho uma desculpa para abraçar Pauline com frequência, já que ela treme mesmo usando o casaco. Sofro muitos arrepios toda vez que ela coloca a mão fria por dentro da minha camisa, buscando o meu calor para se sentir melhor. Eu me sinto tão bem com seu toque e proximidade... Por fim, entramos em um galpão repleto dos barris que Pauline mencionou, onde o vinho fica segregado durante anos até estar perfeito para o consumo. O momento mais esperado pela Pauline finalmente chega: o

de degustação. Somos presenteados — ou não, já que pagamos caro pelo passeio — com muito vinho produzido pela vinícola visitada. Tomo o primeiro gole e acho delicioso. É a melhor bebida alcoólica que já tomei desde que comecei a viagem. Por este motivo, e pela primeira vez, acabo bebendo mais de uma taça. Volto para o ônibus me sentindo meio aéreo, acho que fiquei bêbado, mas estou feliz e satisfeito. Pauline não fica tão diferente de mim. O efeito do vinho lhe traz o calor necessário para não mais tremer de frio. Uma pena, já que eu queria que continuasse me tocando. O caminho de volta é feito em silêncio. Estamos observando o pôr do sol entre as colinas, vidrados na beleza natural do Vale dos Vinhedos. Retornamos à mesma estação em que pegamos o ônibus turístico e seguimos de táxi até um hotel muito chique escolhido pela Pauline. Estou bastante cansado, mas ela sugere um jantar especial em um dos tantos restaurantes italianos de Bento Gonçalves. Topo na mesma hora. O surgimento da cidade tem tudo a ver com a imigração italiana, por isso encontramos muitas opções de

comida tradicional. Escolhemos um estabelecimento que mais parece um pedacinho da Itália no Brasil, onde nos sentamos e pedimos a sugestão do Cheff tanto para o prato quanto para a bebida que, claro, acaba sendo um vinho tinto delicioso, talvez mais do que aquele que tomei na vinícola. — À nossa viagem! — Pauline faz nossas taças tilintarem e sorri com certa malícia. — O que achou do passeio de hoje? — Amei! Estou adorando a cidade, o frio, o vinho... Tudo! — É a primeira vez que você bebe com tanta empolgação! Estou gostando de ver, hein? — Gargalha e toma mais um gole. Fico observando seus lábios sorverem o líquido escuro. É tão sensual. — Ah, mas isso aqui é mesmo uma delícia! Eu te entendo, anjo! Nossa comida chega e nos esbaldamos com a fartura de massas e molhos. Os pratos que chegam dão para alimentar um rinoceronte adulto, mas fazemos de tudo para não deixar sobrar nada. Não é uma coisa forçada, é porque está delicioso mesmo. Depois de aplacarmos a

fome, começamos a comer por pura gula, sempre intercalando a mastigação com goles de vinho. — Pauline Dias e Joseph Ayres? — Ouvimos um grito perto de nós. Ergo o olhar e vejo uma mulher loira, muito bonita, exibindo um sorriso de orelha a orelha. Faço uma careta porque não sei como ela sabe nossos nomes. — Ah, meu Deus! Não acredito que são vocês! Eu acompanho seu Instagram, Pauline, te acho o máximo! Sou fã! Chupa, mundo! — Ergue os braços meio escandalosamente. Pauline começa a gargalhar, e acho que o vinho me faz rir também. Eu devia estar com vergonha, mas só estou achando tudo engraçado. Minha amiga se levanta e abraça a garota. Acabo fazendo o mesmo e a cumprimentando por pura educação. — Vocês são tão lindos, meu Deus! — A desconhecida saltita, toda empolgada, como se estivesse diante de celebridades. — Estou acompanhando a viagem de vocês. Eu sabia que estavam em Bento, mas dei muita sorte, não fazia ideia de que estariam jantando aqui! — Que legal, uma fã, Joseph! — Pauline está tão

empolgada por ser reconhecida que não para de piscar os olhos freneticamente e sorrir. — Qual é o seu nome? — Cibelle, mas podem me chamar só de Belle. Estou tão emocionada! — Ela nos dá um abraço duplo, cheio de carinho. Estou meio tonto, flutuando... Sei lá. É esquisito, mas não de um jeito ruim. — Senta com a gente, Belle! — Pauline chama. Logo percebo que talvez sua intenção seja outra. Eu a observo meio desconfiado, mas tudo bem. Conheço Pauline e sei que ela gosta desse tipo de aventura. Não sou eu que vou impedi-la. — Vamos tomar um pouquinho de vinho e conversar! — Ah, é que estou com meu marido, o Arthur. — Aponta para uma mesa próxima. O homem acena para nós, sorridente. — Uai, pode chamá-lo! — sugiro meio sem pensar. Acho que porque uma parte de mim não quer que Pauline faça com a garota o que creio que ela esteja pensando em fazer. — Se não for incômodo. — Ah, como ele fala bonitinho, gente! — Belle grita e me abraça forte. — Ele é um fofo mesmo, Pauline, bem

que você fala nas postagens! — Finalmente eu me sinto corando, pois meu rosto esquenta bastante. Depois de me largar, a fã maluca se vira e chama o marido, que vem sem pestanejar. Ele é um homem alto e negro, todo sorridente, e eu sei que é o tipo de cara que chama a atenção da minha companheira de viagem. Fico tranquilo porque ele está acompanhado, afinal. Vai ser um encontro entre casais, mesmo que Pauline e eu não sejamos um casal de verdade. — Belle não para de falar de vocês! É um prazer imenso conhecê-los! — Arthur nos cumprimenta calorosamente. Seu sorriso constante me faz julgá-lo um cara legal logo na primeira impressão. — Estamos até pensando em fazer uma viagem ao Nordeste nas férias. Aquelas fotos que você postou, Pauline, são maravilhosas! — Ah, o Nordeste é lindo, vocês vão amar! — Pauline se agita e aponta para nossa mesa. Nós nos sentamos ao redor dela e pedimos mais uma garrafa de vinho, além de duas taças para o divertido casal. Começamos a conversar sobre os destinos da nossa

viagem. Pelo visto, Pauline posta fotos mais do que eu imaginava. Ela também fala coisas sobre mim nessas postagens, e tive vontade de ter uma rede social só para saber o que tanto diz ao meu respeito. Passamos horas falando sobre tudo. Eu me enturmo com o Arthur e conversamos acaloradamente sobre vinhos e indústrias. Ele também se interessa muito em saber mais sobre minha cidade natal. As garotas começam a fofocar daquele jeito esganiçado que só as mulheres conseguem. Tomamos muito vinho, tanto que me surpreendo comigo mesmo. As horas passam de modo que nem percebo. Estou me divertindo horrores com esses dois, eles são engraçados, espontâneos e bons de papo. Pauline sugere que tiremos uma foto, os quatro, para que possa postar, e Belle quase tem um infarto de tão emocionada que fica. Ela é realmente uma mulher muito bonita, com os olhos verdes e os cabelos lisos bem cheios. Lembra-me a Laurene, mas só um pouquinho. Minha ex-noiva nunca se comportaria de maneira tão natural assim. Infelizmente, o garçom vem nos avisar, cedo demais, que a cozinha vai encerrar suas atividades. Olho o relógio

de pulso e são quase uma hora da manhã. Caramba, é a primeira vez que estou cansado, mas quero continuar me divertindo. Todos da mesa estão com o mesmo sentimento que eu, pois vejo Pauline fazer biquinho e Belle se entristecer também. — Por que não vamos ao nosso apartamento? Tem um vinho maravilhoso que guardei para ocasiões especiais! — Arthur sugere, todo animado. Acho que ele também está ficando alto, como eu. — Ainda está muito cedo! O que acham? Ele me olha, buscando consentimento. Belle já está saltitando na cadeira, bem como Pauline. As duas são tão parecidas neste ponto. Louquinhas na mesma medida. — Acho ótimo. O que acha, linda menina? — pergunto a Pauline carinhosamente. Não sei o que me dá, sinto a necessidade de mostrar que ela é especial para mim. Seus olhos brilham muito quando me observa. Ela está feliz, é isso o que importa. — Perfeito, anjo! Por mim, tudo bem! — Se não for incômodo, claro — acrescento, voltando-me para Arthur.

— De modo algum, vocês são muito bem-vindos! Vai ser uma honra recebê-los! — Arthur fala e Belle solta um gritinho animado. Acho que ela é a mais bêbada de nós. Ou então é a mais naturalmente desajuizada. Pagamos a conta e seguimos no carro do casal, já que escolhemos não alugar um veículo, e eles nos oferecem, de bom grado, a carona. Arthur coloca um funk animado no som, fazendo as meninas cantarem e dançarem. Acho que nunca ri tanto na minha vida. Estou me sentindo livre, meio solto e à vontade como quase nunca fico, principalmente diante de pessoas que acabei de conhecer. O apartamento de Belle e Arthur é espaçoso e bem decorado. Ambos são fisioterapeutas e têm uma clínica especializada em grávidas. Acho bastante interessante a explicação do Arthur sobre o trabalho que realizam. Enquanto isso, as meninas tratam de ligar o som e continuam com o dueto que iniciaram durante o percurso até aqui. Sento-me no sofá ao lado do Arthur, empunhando uma taça cheia de um vinho maravilhoso — acho que finalmente encontrei uma bebida alcoólica que vale a pena ser ingerida —, observando as garotas e conversando com

animação. — Pauline é muito divertida, não é? — ele comenta em certo momento. — Deve ser muito bom viajar ao lado dela. — É perfeito! Pauline é muito especial mesmo! — As palavra saem da minha boca sem que eu as sinta de verdade. — Já me colocou em tantas situações malucas que, se eu contasse, ninguém acreditaria! Arthur gargalha alto e analisa as meninas atentamente. Eu faço o mesmo. Elas estão muito sexies dançando desse jeito. Rebolam seus quadris, descem até o chão e mexem o corpo em sintonia perfeita, formando uma coreografia sensual. Fico vidrado, por uns instantes, nesses movimentos. Percebo que estou sendo indelicado quando Arthur me dá uma cotovelada e ri alto diante do meu desconcerto. — Elas são lindas, não são? — pergunta, meio malicioso, e confirmo apenas balançando a cabeça. Dou mais um gole no meu vinho e mudo de assunto: — Faz muito tempo que trabalham juntos? — Faz três anos. Estamos casados há quatro. Sabe,

Joseph, Belle e eu temos uma relação muito boa. — Fica me olhando fixamente, como se raciocinasse bastante, depois explica: — Somos abertos um com o outro, fazemos muitas viagens e nos permitimos novas aventuras o tempo todo. Este é o segredo para um bom casamento. — Que legal, sô! Parece mesmo que vocês são muito felizes! — É verdade! Dou a Belle a liberdade total de fazer isso! — Aponta para as garotas e quase engasgo com o que vejo. As duas estão se balançando do mesmo jeito sensual de antes, exceto que estão grudadas uma à outra, quase encostando os lábios. — Uau... Essas duas estão me esquentando mais que o vinho. — Nuss... — Olho de um jeito vidrado, meio sem acreditar no que vejo, mas sentindo um tesão insuportável. Sinto também um pouco de ciúme, Pauline parece tão à vontade com Belle, tão autêntica! — Será que vão se beijar? — Arthur pergunta com a voz afetada, deve estar tão desnorteado quanto eu. — Puta merda... Beijem logo! Sinto meu rosto ficar vermelho, porém não deixo de

olhá-las por nem um segundo sequer. Estou quase sem respirar e sem piscar, observando Pauline e Belle se tocarem com luxúria, como se reconhecessem o corpo uma da outra antes de finalmente se beijarem. Quando acontece, deixo escapar um grunhido e escuto Arthur soltar uma exclamação abafada. Consigo ver as línguas se enroscando daqui. Elas se tocam com mais veemência, massageiam os seios uma da outra, apertam as bundas e se atracam até caírem em um sofá individual, onde continuam com os amassos. — Caralho... — solto sem querer. Estou duro demais para suportar uma cena dessas na minha frente. Também estou bêbado demais para me sentir desconfortável. — E aí, cara? — Arthur chama minha atenção. Olhoo de soslaio, quase sem conseguir parar de ver as meninas se esfregando. — Você curte olhar ou participa também? Viro meu rosto inteiro na direção dele. Meus olhos estão bem abertos. — O quê? — Não sei você, mas estou a fim de me meter ali no meio. — Sorri maliciosamente, encarando as garotas.

Fico em silêncio, meio sem entender direito do que ele está falando, apesar de que um lado meu sabe exatamente e talvez queira igual. — Eu... — Meus olhos seguem na direção de Pauline, que já está sem a blusa. Belle está sugando os seios lentamente, em uma carícia deliciosa de ser observada. Ela está amando. E com certeza vai amar mais ainda se o Arthur fizer o que tem em mente. O ciúme quase me corrói por dentro, principalmente por ter consciência dos tantos orgasmos que ele pode oferecer à minha amiga. Mas que tipo de idiota eu seria se a impedisse de viver essa emoção? Prendo os lábios, a dúvida me faz ficar bastante reflexivo. — Com todo respeito, não me leve a mal. O que acha de fazermos isso? — Co-Como... vamos fazer... isso? Ele ri um pouco. Pudera, devo estar muito corado agora. — Você nunca fez, não é? Relaxa, cara, sem estresse. Sei que está a fim. Minha mulher te adorou. — Arthur está

dizendo que posso comer a esposa dele ou é impressão minha? — O que acha? Vamos dar uma mãozinha para elas! Olho Pauline mais uma vez. Ela está por cima agora, retirando o vestido de Belle com o maior cuidado do mundo. Cada gesto seu manda uma mensagem sem sentido para o meio das minhas pernas. Eu não preciso perguntar o que ela quer fazer, sei perfeitamente qual é o tipo de sexo que a agrada. Meu Deus, essa é a chance que eu tenho de satisfazê-la de verdade. Não posso recuar agora. Preciso engolir esse ciúme absurdo que quase me faz gritar e sair correndo como um louco. Não me vejo transando com Belle de forma alguma, mas se é isso o que todo mundo quer agora, o que posso fazer? Ela é bonita, atraente e com certeza eu vou dar o meu melhor para satisfazê-la também. Meus lábios estão quase feridos de tanto que os mordo. A excitação não passa, e o desejo de fazer isso só se amplifica, principalmente depois de perceber que é o que Pauline necessita para se sentir repleta. O bem dessa mulher é o que mais prezo no mundo. Eu faria qualquer coisa por ela.

Qualquer coisa. Tomo um gole amplo, que leva quase todo o conteúdo da taça. Enxugo os lábios com as costas das mãos e digo ao Arthur, decididamente: — Vamos lá, cara.

Capítulo 30

Pauline

No apartamento mais quente do sul Se eu conseguisse pensar agora, tenho certeza de que estaria me crucificando por estar me atracando fisicamente com Cibelle na frente de Joseph, mas, primeiro, estou bêbada demais para sequer tentar raciocinar, e, segundo, o tesão represado em meu corpo reagiu naturalmente ao dela. Belle é gostosa pra caralho, igual àquelas mulheres fabulosas que fazem ensaios fotográficos para o Paparazzo. Eu a deixo nua depressa, tirando-lhe o vestido pela cabeça, e paro um instante para ver suas curvas que já toquei. Joseph se aproxima nesse momento, me arrancando o ar dos pulmões. Meu coração dispara, enfurecido dentro

do peito, e sofre uma parada cardíaca quando ele se debruça sobre Belle e a beija. Eu o quero tanto e o que ele faz? Aperto os olhos, incapaz de continuar vendo-o com ela. É como se eu estivesse assistindo Joseph voltar para Laurene, me preterindo a ela no instante em que toma a decisão definitiva. A mágoa e a dor dão sinais de me tirar a razão, mas engulo o choro. Ainda estou travada, sentada em cima da Belle, quando sinto mãos enormes tomarem meus seios por trás. O toque é diferente e estranho, mas quente pra burro, e automaticamente eu o aceito. O hálito da pessoa queima minha orelha, depois meu pescoço, onde a língua saboreia o gosto da minha pele. Inclino a cabeça para o lado, lhe dando total acesso. Os dedos apertam meus peitos com força e repouso minhas mãos sobre as dele, acompanhando seus movimentos. Ouço um gemido e Cibelle se mexe, me forçando a abrir os olhos. Ela rasteja pelo sofá, saindo de baixo de mim, depois se retorce na tentativa de despir Joseph. Minha mão coça com duas vontades loucas e contrárias. Quero tocá-lo, arrancar suas roupas violentamente e pular

em cima dele até a exaustão física. Mas, para isso, teria que bater em Belle até lhe quebrar o braço que ousa tomálo para si sem minha permissão, como se ele me pertencesse. O pensamento violento me faz despertar. Joseph não é meu e não tenho nenhum poder sobre sua vontade. Se ele quer comer Belle, que coma e seja feliz. Permito que meu lado liberal tome conta de mim, afastando a Pauline apaixonada, que conhece o sabor amargo e intragável do ciúme. É excitante ver a maneira como Joseph beija Belle: tem fome, desejo, loucura. Será que é assim que me beija também? Ele perde a camisa e os óculos em algum momento. Ela desenha com as pontas dos dedos seu peitoral definido e delicioso, que eu já tive o prazer de lamber e chupar. O pensamento me deixa mais excitada, então, quando a mão de Arthur — dedução óbvia, inclusive pela cor pecaminosa de sua pele contra a minha — se enfia entre minhas pernas, eu gemo alto. O som que escapa da minha boca chama a atenção de Joseph, que abre os olhos — eles estavam tão apertados, como se estivesse apenas curtindo o momento, sem precisar vê-lo, apenas senti-lo — e me encara. Há fogo

em suas pupilas, uma chama que nunca vi antes, nem quando lhe tirei a virgindade e ele se descobriu viciado em nosso sexo. Talvez ele tenha descoberto mais hoje: o álcool, a boca de Belle em sua pele, o tesão ultrapassando todos os limites do aceitável. O pau de Arthur se esfrega nas minhas costas no ritmo de seus dedos no meu clitóris, me levando à loucura. Belle arranca a calça de Joseph com uma facilidade impressionante. Eu fico me perguntando como Joseph, um homem tímido e certinho, aceita tudo sem pestanejar. Logo em seguida, resolvo não pensar no assunto, caso contrário enlouquecerei antes de ser fodida. Vejo-o ficando totalmente nu por minha visão periférica, porque meus olhos não desgrudam dos dele, que queimam em mim como brasa. Belle se deleita com o pauzão dele, engolindo-o cada vez mais fundo e arrebitando a bunda na minha cara. Inevitável me distrair com tal visão. Arthur me debruça para frente, coisa que faço com desejo explícito. Quando minha língua toca a vagina dela, seu marido enfia com tudo o dedo na minha. Ela rebola o quadril na minha boca, provocando,

pedindo mais, e chupando Joseph entre gemidos. Belle está toda molhada e deliciosa, assim como eu devo estar. Arthur junta outro dedo, metendo com força e cadência dentro de mim, fazendo com que eu me contorça por causa da sensação de preenchimento e excitação crescente. Nossos movimentos sincronizam conforme todos os corpos se agitam no ritmo do tesão desenfreado. Quando ouço Joseph grunhir, quase tenho um infarto. Ele está gostando, se entregando, e, mesmo não sendo para mim, meu tesão sobe terrivelmente. Eu vou ter esse homem hoje nem que tenha que dividi-lo, não importa. Só preciso ficar com ele do jeito que me aceitar. Dominada por essa ideia, passo a língua duramente entre os pequenos lábios de Belle, fazendo-a enlouquecer sob minha vontade. Automaticamente, ela acelera o boquete e eu sou abandonada por Arthur, que arfa atrás de mim enquanto ouço suas roupas caírem ao chão. Sinto que preciso retribuir o que seus dedos fizeram por mim, mas, ao mesmo tempo, não quero largar a mulher dele. Também imagino que a nossa pegação o excite. Mas Joseph afasta Belle, de repente, imitando Arthur.

Pela maneira como respira, deduzo que estivesse prestes a gozar na garganta dela. Nossos olhos se cruzam no instante em que paro de chupá-la, um pouco antes de eu ser virada de frente habilmente pelo homem enorme que é nosso anfitrião. Sou deitada, de barriga para cima, no estofado. Arthur me faz escorar os pés na curva do móvel mais próximo e abrir as pernas amplamente, antes de mergulhar a cabeça entre elas e começar a me chupar tão gostoso que me vejo suspirando, curtindo o momento como a antiga Pauline. Belle geme tão enlouquecida que viro a cabeça para assistir de camarote, e de muito perto. A boca de Joseph está devorando os mamilos dela de um jeito tão maravilhoso que me vejo mordendo meu próprio lábio e apertando meus seios, com um desejo doido de sentir o mesmo que ela. Arthur junta a mão à sua língua, me deixando perdida em sensações cada vez mais eróticas e impensáveis. Seus dedos e sua cara se lambuzam com minha lubrificação, que emana sem pausa. O líquido escorre por minhas partes, descendo entre as nádegas, onde ele ajuda a se espalhar, acariciando com cuidado o

meu ânus. Ai, que delícia! O braço de Joseph esbarra no meu quando se move para se ajeitar melhor no sofá. Pelo visto, ele foi jogado ali pela Belle, que se mantém rebolando no pau dele, sentada em seu colo, de maneira deslumbrante. Não tem nada mais bonito do que uma mulher nua sentindo prazer. A gente se entreolha por apenas um segundo e ele volta a apertar Belle, fingindo que não estou bem ao seu lado. Não vai ter como me ignorar por muito tempo, meu bem. Hoje você não me escapa. Vejo quando a dona da casa se estica para fora do sofá, sem deixar de tocar em Joseph, e pega algo na mesinha de vidro que tem ao lado. Ouço o barulho do plástico rasgando nos dentes dela e, antes que eu possa ver, concluo que é uma camisinha. Ela vai fodê-lo! Pelo amor de Deus! Meu coração dispara no peito e um rugido ecoa dentro de mim, fugindo por meus lábios em um som estrangulado. Eu estendo uma mão, alcançando seu pauzão e abraçando-o com meus dedos como que se dissesse: ele é meu e você só vai comê-lo porque eu estou permitindo. Ao mesmo tempo em que não quero que outra mulher

fique com Joseph, não consigo deixar de sentir um prazer enorme por ele estar se permitindo de verdade a experiência. Dou graças a Deus por estar por perto. Se ele fizesse isso sem mim, me magoaria ainda mais. Agora entendo como ele deve ter se sentido quando eu fui à boate de swing sem ele, apesar de que seus sentimentos por mim não devem ser tão intensos quanto os que sinto por ele. Só que a gente está junto nessa, em todas as aventuras, e precisamos continuar assim até o fim. Seu rosto se vira para mim no instante em que reconhece meu toque e os olhos parecem dois braseiros me transformando em cinzas. — Joseph — gemo, incapaz de dizer para que não a aceite. — Pauline — responde sem fôlego, pegando minha mão em seu pênis e a apertando. Correspondo ao gesto com certa força, me entregando ao primeiro orgasmo da noite na língua de outro homem que não é quem eu realmente quero. Joseph me encara intensamente, como se outra mulher não estivesse o protegendo com um preservativo e engolindo seu membro

com uma vagina faminta. No instante seguinte, a gente simplesmente se alcança, deixando nossas bocas se alimentarem desse desejo enorme que ganha forma em nossas línguas. A gente se beija de um jeito insano e pornográfico, lambuzando um ao outro com muita gula. Sinto a breve ausência de Arthur entre as minhas pernas, mas sua pele ainda roça na minha, então não me mexo. Eu me grudo a Joseph como se precisasse dele para respirar. Ouço os gemidos de Cibelle e o som de sua vulva melada se chocando contra o pau do meu anjo safado, enquanto lhe seguro a nuca a fim de puxá-lo para mais perto de mim. Mais ruídos de plástico ganham a minha atenção, então eu sei que esse negão, em quem mal prestei atenção, vai me foder, e só vou saber o tamanho dele quando estiver dentro de mim. A expectativa e o beijo me enchem de uma excitação maluca, quase insuportável. Arthur puxa minhas pernas até fazê-las abraçar sua cintura. Sinto o peso de seus braços ao meu redor, afundando o sofá, e a cabeça do seu pau encontra minha entrada. Em um único movimento, seu pênis faz morada

em mim, abrindo espaço à força. Grunho contra a boca de Joseph, que corresponde infiltrando seus dedos nos meus cabelos, me levando mais para perto dele. Estou sem fôlego, excitada até o último fio de cabelo, sentindo esses dois homens me possuírem de maneiras completamente diferentes. Belle pula mais rápido no colo de Joseph, fazendo nossos corpos se esfregarem em uma ritmo gostoso imitado por nossas bocas. As línguas dançam e provocam, como se fizéssemos oral um no outro e, quando ele agarra meu lábio, mordendo, meus mamilos endurecem, arrepiados. Arthur retrocede o quadril e mete de novo em mim, me levando à loucura. Agora meu corpo também dança como o de Joseph, sob o controle e domínio desse casal fantástico que acabamos de conhecer, mas com quem vamos nos divertir a noite toda. Estamos retorcidos, com os troncos virados um para o outro. Meu anjo escorrega suas mãos pelo meu pescoço, passando pelos ombros e tomando meus seios nas palmas, daquele jeito gentil de sempre. Enquanto Arthur me come com força e cadência, de uma maneira impossível de

ignorar, Joseph brinca com os bicos sensíveis dos meus peitos, circulando-os entre os dedos como se usasse a língua. Sua boca não larga a minha de forma alguma e eu nem quero que o faça. E é assim que o segundo êxtase me encontra. Sua língua sufoca meu grito, que faz minha garganta arder. Arthur é grande também e a ideia de ter os dois dentro de mim, ao mesmo tempo, me enlouquece e me leva a mais um gozo, tão intensamente, que estremeço todinha. É a vez de Belle urrar, ela pula tão alucinada em cima de Joseph que sinto como se fosse em mim. Estamos perto demais, todos se tocando de alguma forma, intencionalmente ou não. O negão maravilhoso se acaba sobre mim e, no instante seguinte, capturo com a boca o grunhido de Joseph, tão forte que vibra na minha língua. Tenho certeza de que ele também alcançou o clímax. Percebo o negão pauzudo e sua mulher loiraça se afastarem, mas a gente não se larga, apenas diminui o ritmo do beijo até que os corações encontrem o compasso certo outra vez. Quando paramos, respiramos fundo e encostamos nossas testas. Eu aperto os olhos, feliz demais

por esse contato, sem medo de ser rejeitada ou de estar fazendo algo errado. Vou aproveitar cada segundo desse momento para pegar nele e saciar minha vontade eterna de Joseph. — Ai, eles não são lindinhos juntos? — Belle fala empolgada, ganhando totalmente nossa atenção. A gente se separa num impulso esquisito. O casal anfitrião está nos olhando, agarradinhos, fabulosamente nus, em pé diante do sofá. Eu sorrio, meio sem jeito, porque Joseph não é nada além de um amigo e eles falam como se fôssemos mais. Espio meu anjo e o vejo todo vermelho, esticando os braços à frente como se quisesse esconder a belezura de seu pênis, de repente consciente da própria nudez. Arthur nos serve mais uma taça de vinho e bebe a dele depois de tilintar com a da esposa, antes de propor: — Meninas, preciso de uma ducha, mas eu acho que deviam dar uma atenção especial ao Joseph. É a primeira vez que ele participa de uma festinha como essa. Sem esperar por uma resposta, Arthur se retira, sumindo por um corredor.

Eu queimo por dentro de tanto tesão. Era o que eu queria dar a Joseph, um ménage. Eu me viro para ele, sorrindo amplamente, e o vejo morder o lábio insanamente, os olhos arregalados de expectativa. Ele quer. O estofado é enorme, cabe todo mundo confortavelmente. Tiro a taça vazia de sua mão e Belle se aproxima como uma gata manhosa pelo outro lado dele, tocando em seu ombro, como eu faço. Com a mão livre, a gente segura uma na outra também, nos aproximando do rosto dele juntas e lhe pedindo um beijo triplo. Sem hesitar, ele apresenta sua língua, repetindo a cena que protagonizamos no Nordeste, com aquela morena espetacular. Deixo minha mão deslizar no corpo de Joseph como uma carícia sem intenção. Belle me imita, duplicando o estímulo que ele recebe. Hoje ele vai poder extravasar toda a fúria sexual que está represada dentro de si com duas mulheres doidas para serem fodidas por ele. Que homem nunca sonhou com isso? Entrando no clima, Joseph nos toca, fazendo o desenho de nossas curvas do quadril aos seios, em um carinho excitante e quente, tão dele que

me arrepia a pele e nem me importo de estar dividindo-o com essa fã gostosa. Arfante, Joseph aperta nossas carnes, respondendo com a mesma fome que nossas mãos em sua pele. Raspo as unhas em seu braço porque a minha vontade é tão violenta quanto o amor que vibra no meu peito. Quero marcar sua pele igual à tatuagem que fizemos. Como nosso brinquedinho, fazemos com ele tudo o que temos em mente, mas eu guio a brincadeira, autorizando Belle a seguir meus passos sem precisar fazê-lo verbalmente. O prazer dele é nosso objetivo. Belle reflete meus movimentos com certa precisão. Interrompendo o beijo, concentro-me na orelha de Joseph, passando a ponta da língua em todo seu contorno. Em seguida, salpico seu pescoço com beijos molhados, sentindo sua pele arrepiar. Vejo seus mamilos reagirem também e me concentro em um, enquanto a anfitriã suga o outro. Joseph é tão gostoso que eu podia fazer isso o restante da noite. Desço devagar, beijando seu abdômen e ventre, pulando o centro e dando um chupão na coxa branca que vai ficar marcada.

Olho para Belle, sorrindo, antes de partirmos, juntas, para o pauzão incrível, retirando a camisinha melada de seu gozo anterior. Começamos de baixo, lambendo lentamente o saco, o que faz nossas línguas se tocarem por um instante, e subimos por sua extensão devagarzinho, como se chupássemos um picolé. Joseph deixa injúrias escapar pela boca, me dando certeza de que está amando nosso jogo de sedução. Quando chegamos à cabeça, rodopiamos a glande com a pontinha da língua, em movimentos circulares contrários uma da outra. — Puta que pariu, caralho, cacete, merda, merda, merda! — ele xinga. A gente repete todo o processo, provocando mais e sentindo-o endurecer insuportavelmente sob nossas línguas. Joseph alisa nossas bundas empinadas, deixando seus dedos deslizarem em nossas fendas macias e encharcadas. Seus movimentos não são brutos, mas não deixam de ser deliciosos, escorrendo em minha excitação para frente e para trás, o que o faz tocar em meu clitóris durinho e pronto para ser estimulado novamente. Belle e eu sugamos a cabeça juntas, cada uma

abraçando uma metade com a boca, e sinto o gosto do líquido de sua excitação. O pau de Joseph pulsa sob nossa vontade, implorando para ser engolido. Como ela já o chupou, lhe faço sinal para se concentrar em outra parte tão sensível quanto e atendo ao pedido silencioso dele. Joseph silva baixinho quando meus lábios o envolvem completamente, deslizando por sua carne macia e, ao mesmo tempo, incrivelmente rígida. As mãos de Joseph trabalham com furor em meu corpo, escorregando e se enfiando, como se não soubesse exatamente como me agradar ou quisesse fazer tudo de uma vez. Seu anseio louco me alucina, então o chupo com gana e força, fazendo barulhos doidos com minha boca em sua pele. Belle agarra as bolas dele, sugando deliciosamente, de maneira que até eu me excito ao ouvila. De repente, um dos dedos dele encontra a entrada da minha bunda, escorregando para dentro com tanta facilidade que me retorço. A sensação e a pressão nessa área muito erógena me deixa tão excitada que me sinto melar e pulsar mais. Eu me abro para ele, perdendo o fôlego, e me

empolgo no boquete. Sinto que ele está prestes a gozar quando grita para que eu pare, com uma ferocidade maluca. — Pauline, não! — rosna, largando minha bunda e me puxando pelos cabelos para longe do pau dele. — Eu preciso gozar dentro de você! Nós nos encaramos com um tesão infernal e, de repente, nos jogamos um nos braços do outro, nos beijando feito dois maníacos. Nem sei onde Belle se meteu, mas eu me engancho nele e ele em mim. Vou parar em seu colo, agarrada nele possessivamente. Só então sinto as mãos suaves da loira nas minhas costas, quando ela se encaixa em mim por trás, sentando-se sobre os joelhos de Joseph. A gente a ignora, mas ela toca a nós dois. Sinto suas mãos se infiltrando entre nossos corpos, não para nos separar, mas para participar de nossa paixão insana. Ergo o quadril e faço seu pau entrar em mim agora, imediatamente, sem poder esperar mais nenhum segundo. Belle aproveita para acariciar meu clitóris enquanto dançamos juntas sobre ele. Sinto as mãos de Joseph entre

mim e ela, como se fizesse questão de dar prazer a nós duas. Seus lábios mordem os meus, grunhindo e rosnando de maneira animalesca conforme aumento a velocidade. O som do meu quadril se chocando com o dele é deliciosamente instigante, e os beijos da nossa anfitriã na minha nuca me lançam de vez no limbo. Joseph nos abraça com força, grudando Belle em mim e eu nele, me prendendo e impedindo que eu me mexa. Merda! O que ele está fazendo? Quero lhe dar um orgasmo intenso. Ele nos deita no sofá, de lado, nem sei como consegue a proeza de carregar as duas sem que nos machuquemos. Belle me gira para que eu continue deitada de lado, mas de frente para ela. Joseph se levanta, nos abandonando sozinhas. Ouço o som de plástico sendo rasgado de novo e as molas do sofá chacoalham sob o peso do meu anjo, que vem por trás de Belle, de joelhos, e se debruça sobre ela. Estamos tão enroscadas, com as pernas encolhidas, que parecemos uma só. Sinto o calor de Joseph pairando por cima de mim também, de tão perto que estamos, enquanto o corpo da loira se choca contra o meu, brutalmente.

Espera aí, Joseph vestiu a camisinha para meter nela? É claro! Estava sem preservativo comigo, ele sabe que a gente não precisa, mas com ela, sim. Tento conter o ciúme enquanto beijo Belle loucamente, me esfregando ao máximo em seu corpo e erguendo sua perna sobre meu quadril para facilitar o acesso do meu anjo à sua boceta virada meio de lado. Quando uma das mãos de Joseph apertam meu traseiro, me sinto bem melhor por não ter sido negligenciada por ele. Calma, Pauline, ele só vai satisfazê-la primeiro. Não demora nada para que Belle estremeça nos meus braços, entrando em êxtase. Joseph não para, comendo Cibelle com tanto fulgor que eu fico molhada só de imaginar. Eu me remexo toda, me friccionando na pele suada dela e metendo a mão em seu clitóris para que goze de novo, mas com a minha ajuda dessa vez. Ela faz o mesmo por mim, usando seus dedos habilidosos, que escorregam com exatidão, me deixando em ponto de bala. Sinto os dedos deles afundarem na minha carne e um grunhido animalesco escapa de seus lábios, enquanto Belle geme na minha língua. Até que tudo para abruptamente.

O sofá se mexe de novo sob os joelhos de meu anjo e sinto sua aproximação. De repente, sem aviso algum, o pauzão de Joseph se enfia em mim de um jeito doido, como se quisesse entrar de corpo inteiro, ao mesmo tempo que suas duas mãos apertam minha bunda arrebitada de ladinho. Fico tão louca que meus lábios escapam do beijo de Belle. Novamente sem camisinha, ele soca em mim em tom de punição, e a atitude faz eu me lembrar da vez em que me comeu sobre a mesa. Grito, maluca, chamando por ele sem parar. Finalmente, vejo a sombra achocolatada de Arthur agachado ao lado do estofado. Onde ele se meteu esse tempo todo? Não faço ideia, mas nesse instante ele está nas costas de sua esposa, com a cara enfiada no meio de sua bunda, chupando com tanta ferocidade que eu me contraio. — Goza, Pauline, caralho! — Joseph ordena. — Goza no meu pau, menina veneno! Não consigo tirar os olhos de Arthur quando ele se ergue para se enfiar em Belle com brutalidade. Ela se segura em mim para não ser atirada longe. Ele bate seu quadril com ainda mais fúria do que Joseph me come,

fazendo sua mulher perder a razão e soltar palavras ininteligíveis. Ele sabe exatamente o momento em que ela goza e, incapaz de me conter com tamanho tesão e estímulo, gozo também, entregando ao meu anjo safado o que ele me pediu. — Caralho, ver vocês transando foi tentação demais para eu não vir aqui participar — explica-se Arthur, saindo e se metendo tão devagar em Belle que estranho. Arfando, sem que Joseph pare de me enlouquecer, eu vejo a loira morder o lábio e empinar a bunda para o marido, ainda deitada de lado nos meus braços. Assisto ao momento em que meu parceiro também nota que Arthur está comendo Belle por trás. Ficamos ambos malucos. Enfio a mão entre as pernas dela, penetrando-a com meus dedos, e Joseph mete em mim ininterruptamente, mas com cadência menor, como se fizesse isso para conter o próprio orgasmo. Ele está pingando de suor. Seu pau duro pulsa entre minhas pernas juntas e eu o aperto ao meu redor, deixando meu corpo desacelerar um pouco. Estou louca para ver meu anfitrião comendo o rabo da esposa. O pau enorme de Arthur resvala contra minha mão

enquanto meto na vagina ensopada de Belle. Joseph parece dançar por trás e por cima de mim, batendo seu quadril no meu de maneira lenta e intensa. Ele retrocede, depois se enfia até o talo, sem pressa. Suas duas mãos me seguram com força, e ele lambe os lábios quando o olho com a maior cara de safada do planeta. Ele nem cora, estreitando o olhar para mim naquela careta brava sedutora. Não tem como essa orgia ficar mais louca, ou tem? O negão chama a minha atenção de novo ao se mover contra a esposa, uma, duas vezes, devagar, apreciando a entrada apertada dela, mas, na terceira, se mexe com força, fazendo-a gritar. Puta que pariu! Quero ser fodida assim também! Joseph se inclina sobre mim, me exigindo, me ganhando, como se me quisesse só para si. Agarra meus cabelos e me faz virar o rosto para ele. — Está gostoso, Pauline? — grunhi tão perto que aspiro seu hálito com cheiro de vinho. Ele ficou bêbado e eu nem percebi porque estou igual. Está tudo explicado agora. — Está do jeito que você gosta? — Não respondo, então ele rebola o quadril, fazendo seu pau girar dentro de

mim e um turbilhão de sensações me dominar. Em seguida, mete com força. — Hein? — Pelo amor de Deus, Joseph! — resmungo, revirando os olhos. Ele repete o movimento como se testasse meus limites. — Assim... Você gosta assim? Seu corpo bate com tanta força que me esqueço do casal que está ao meu lado. — Sim, por favor! — imploro, irracional. Ele pega meu rosto pelo queixo, com fúria, capturando minha boca na sua em um beijo para lá de maluco. Seu pinto dança dentro de mim, primeiro em círculos, depois para fora e para dentro, com força, duro, alucinado. Joseph larga meus lábios, encostando a testa na minha e, respirando fundo e forte, aumenta o movimento dos quadris. Ouço Belle gritando praticamente na minha orelha, retorcendo-se toda enquanto se entrega a mais um clímax, dessa vez com o pauzão de seu marido enfiado no rabo. Eu me contraio e me agarro a Joseph, altamente estimulada e pronta para gozar também no pênis do meu

anjo safado, que me come sempre do jeitinho que gosto. — Joseph! — libero meu orgasmo ao sabor de seu nome, porque é como denomino meu prazer. — Joseph! Ele continua, enlouquecendo, grunhindo, e não faço ideia de como ainda não entrou em combustão. Mas, nesse momento, ele se entrega, ejaculando tão forte dentro de mim que eu sinto. Meu Deus, esse dia vai ficar na história de todas as fodas memoráveis que eu já tive. Joseph me beija, caindo sem forças sobre mim, e a gente se deixa ficar largados e misturados no sofá por um tempo. Aos poucos, nossos corpos escorregam em nosso suor e ele se deita no espaço vazio atrás de mim, me agarrando de conchinha e resfolegando em busca de ar. Belle e o marido também estão atracados e nós duas nos encaramos, uma de frente para outra, sorrindo, satisfeitas. — Querem tomar uma ducha rápida? — ela pergunta. Eu concordo, sentindo Joseph me apertar contra si. Todos nos levantamos, mas Belle vai até a cozinha beber água. Arthur nos leva até o banheiro, que é maior do que esperávamos para um apartamento. Entramos os três e ele nos explica os lances de água quente e fria. Meu anjo

consegue fazer uma água deliciosamente morna se derramar sobre nós, repentinamente, me pegando desprevenida. Rio feito uma criança boba, molhada da cabeça aos pés. Joseph me olha com uma fome diferente. Tem desejo, sim, mas também tem algo mais, que não consigo identificar. Antes que eu possa entender, ele me pega no colo e se encosta à parede atrás de si, enquanto o beijo e enrosco minhas pernas ao seu redor. Seu beijo tem um gosto louco, que me deixa perdida. Eu me toco do que pode ser: parece saudade. Meu coração se parte em mil pedaços infinitos de amor. Eu quero tanto esse homem que me meti em uma orgia por causa dele. Não que eu esteja odiando, não é do meu feitio me negar a qualquer tipo de sexo, mas eu achava que ele não queria e, se ele não era feliz assim, eu podia ficar sem. E, para minha total surpresa, além de topar, ele se meteu no meio por livre e espontânea vontade, e até comeu a loira sem que ninguém ficasse dizendo o que ele devia fazer. Eu nunca duvidei de sua capacidade em nenhum momento. Sexo é instintivo e Joseph sabe usar seus instintos como ninguém, mas achei que sua cabeça ia

atrapalhar. Talvez seja culpa da quantidade absurda de vinho que a gente tomou, vai saber! — Cara, que tesão vocês dois! — Eu me assusto ao perceber que Arthur ainda está aqui, vendo a gente se pegando em seu banheiro. Largo Joseph, mas ele não me solta. Eu olho para trás e sorrio para o negão nu e duro de novo. — Posso participar? Uma festinha só nós três dessa vez? Pela primeira vez na minha vida, não sei o que responder, então me viro para Joseph. Era para ser um momento só nosso, talvez para nos acertarmos de vez, mas ele dá de ombros, como se não fizesse a menor diferença em sua opinião. Meu peito dói quando meu coração erra uma batida, rachando miseravelmente. Arthur é tão grande que ocupa boa parte do boxe ao entrar. Sou descida para o chão, mas não quero me virar de costas para o meu anjo. Ainda estou magoada, mas se ele quer ver outro homem me comendo outra vez, vou tentar aproveitar, porque dupla penetração é um dos sexos mais loucos que eu já provei. Toco no peitoral de Joseph, como se o gesto deixasse

claro que o amo, apesar de ter aceitado transar com Arthur. Meus olhos não desgrudam dele e nem os dele de mim, em uma prisão nova pra gente. Respiro fundo quando ele corresponde à minha carícia, ainda que seja sem aquela pressa de antes. Nós nos tocamos com cuidado e gentileza, como se fosse a primeira vez que estivéssemos juntos desse jeito. Fechando o sanduíche, o negão enorme me encoxa por trás, esfregando seu pau enorme na minha bunda e implorando por ela. Joseph preenche suas mãos com meus seios, apertando-os, e eu agarro seu pau meia bomba, movendo a pele para cima e para baixo. Ele cresce devagar em minha mão, e sinto alívio por ter controle sobre seu corpo do mesmo modo que ele tem sobre o meu. Arthur desliza a mão pela minha fenda, direto para a vagina, atiçando-me e buscando meu clitóris de um jeito tão doido que simplesmente abro as pernas para facilitar seu acesso. Joseph silva baixo, excitado com a maneira que eu bato uma para ele, e fico feliz por vê-lo tão meu. Ele se curva para frente, agarrando um mamilo com os dentes, inesperadamente me fazendo delirar entre dor e

prazer. Jogo a cabeça para trás e encontro o ombro desse negão delicioso, que circula meu ponto mais sensível, me partindo em duas. Quando Joseph suga o outro bico do meu peito, me fazendo surtar. Arthur enfia um dedo na minha vagina, lambuzando-se na minha excitação. Bato a punheta mais depressa, enlouquecida com o tesão infernal que é ter dois homens me tocando ao mesmo tempo. Estico a outra mão para trás e agarro o pau do negão também, tentando agradar a ambos e deixá-los preparados para mim. Nós três gememos juntos. Meu anjo larga meu seio, afasta minha mão e se agacha na minha frente, puxando uma perna para cima de seu ombro e sugando meu clitóris maravilhosamente, do jeito que só ele sabe fazer. Arthur aproveita para meter o dedo com mais fúria, levando-me a um orgasmo fodástico na boca de Joseph. Puta merda! Lubrifico mais na mão do anfitrião. Ele puxa o dedo para fora de mim enquanto Joseph continua me chupando e lambendo, me fazendo estremecer e me escorar na parede, usando as palmas das mãos, antes que minhas pernas vacilem. Arthur me segura firme pelo

quadril, pedindo para meu anjo erguer minha outra perna também. Ele a leva ao seu outro ombro, me abrindo para Arthur, que desliza seu dedo lambuzado na minha entrada de trás, socando um dedo apressado e me arrancando um fiapo de dor. Estou acostumada a ser tratada com carinho nessa região, mas a brutalidade de Arthur, por mais que me surpreenda, também me excita. Logo relaxo, até porque Joseph me chupa muito bem, segurando-me pelas coxas com força. O negão mexe seu dedo em mim, para dentro e para fora, e coloca outro depois de lubrificá-lo, me acostumando com seu tamanho imenso. Sinto minha vagina responder ao estímulo automaticamente, enquanto os dois dedos entram e saem de mim cada vez mais furiosamente. Meu anjo safadinho sente o movimento de meu quadril e move sua língua com tanta fúria que gozo de novo, gritando coisas que nem eu entendo. Estou tão sedenta e trêmula, tudo junto e misturado, que preciso da ajuda dos dois para ser movida. Arthur me segura pelos braços e Joseph pelas pernas. Sou erguida novamente, com facilidade, para os quadris de meu amor,

onde me encaixo em seu pênis pulsante e faminto. Ele fica parado, esperando que o negão me penetre por trás depois de meter o pênis em uma camisinha. O olhar de Joseph no meu é tão intenso que fico louca e lhe tasco um beijo na boca, de fazer as línguas bailarem naquela festa própria delas. Nosso anfitrião se enfia com certa rapidez, me invadindo à força, e o desconforto dura somente o tempo em que ele demora para ficar inteiro dentro de mim. Alguns segundos passam sem que nos movimentemos. Eu me sinto tão preenchida que perco o fôlego e abandono a boca de Joseph, fazendo um barulho que estala no ar e excita cada célula de nossos corpos. Arthur se mexe primeiro, testando minha aceitação. Em seguida, meu anjo se move também, então a loucura começa. Eu me seguro com tanta força no pescoço de Joseph que não sei como ele não reclama. Fecho os olhos e uivo feito uma insana quando o ritmo aumenta levemente, estimulando partes tão sensibilizadas do meu organismo que tenho medo de me partir em duas a qualquer instante. Eles são enormes e estão dentro de mim ao mesmo tempo, em busca de seu prazer e me oferecendo um presente raro.

Não tenho ideia de como ainda cabe tanto desejo entre nós. Olho para Joseph e tenho minha resposta. Com ele, eu sempre vou querer mais. Ele me encara de volta, ofegante, mas duvido que tenha deixado de me olhar em algum instante que eu tenha me distraído com o tesão insano do ménage. Seu quadril bate contra o meu com força, me apertando contra o pau duro de Arthur, bem atrás de mim, que se choca em um movimento contrário. Eu me sinto um mexido de Pauline, mas um mexido gostoso pra caralho. Tem muito calor entre minhas pernas, dois pênis se metendo em mim, aumentando a força e o ritmo. Os homens grunhem enquanto são tomados pela excitação que é dividir uma mesma mulher. Eu estou no paraíso! Observo a maneira como a boca de Joseph se entreabre em busca de ar. Sou dominada pelo fogo que se propaga pelas minhas veias, conforme a brutalidade das arremetidas cresce, tirando minha concentração desse anjo que consegue ser minha salvação e também perdição. A sensação orgástica me toma e se expande, buscando

espaço onde não tem. Não há alternativa a não ser deixar que o clímax imploda, derretendo meus órgãos com seu fogo incendiário. Chamo por Joseph, porque não existe outro nome que dê vazão aos meus sentimentos. Desejo que dessa maneira ele saiba o que fez comigo: tirou minha liberdade e me roubou para si. Ele sabe que eu gozei, já me conhece, mas ainda assim não deixa de meter seu pauzão para dentro de mim, fincando as unhas nas minhas nádegas, grunhindo como um louco e exigindo que me entregue outra vez. Arthur fica alucinado atrás, me sentindo aberta e receptiva para ele. Se move com tanta força que aquele orgasmo anal que eu estava esperando chega, anuviando minha mente e nublando meus pensamentos a ponto de eu nem saber se disse alguma coisa ou gritei, sei lá. Sinto meu corpo amolecer e Joseph me segurar em seus braços, parando seus quadris enquanto Arthur sai de dentro de mim. — Você está bem, Pauline? — se preocupa o meu anjo. — Si-sim — gaguejo, trêmula e sentindo um terrível frio repentino.

— Puta que pariu, como vocês conseguem ser tão tesudos desse jeito? — A voz da Belle me sobressalta e quase escorrego ao chão se não fosse Joseph me suster. — A gente vai se acabar de transar! Uhuuuuuuuuuuul! Arthur gargalha, se juntando à esposa na porta e lhe tascando um beijo enlouquecedor. — Você também quer uma DP, querida? — Que pergunta, amor, mas é claro que sim! Joseph é uma delícia, e o jeito que ele fode... Meu Deus! Meu anjo estremece contra mim e eu me sinto empalidecer. Não! Ele vai comer a loira sem mim! SEM MIM! Eu não posso ver isso. Não consigo! Não quero! Eu me afasto dele, me deixando ficar embaixo da ducha, com os olhos fechados. Nem quero vê-lo sair desse banheiro, vai ser demais para mim. — Venha, Joseph, vamos conhecer meu quarto — sugere Arthur. — Pauline, tem toalhas limpas na gaveta maior do armário — avisa Belle, rindo, feliz da vida. Aceno com a mão, mantendo-me de costas para eles, gritando por dentro, enquanto os ouço se retirarem do

pequeno ambiente. Uma parte de mim morre enquanto permito que lágrimas silenciosas escorram por meu rosto, misturando-se à ducha. Não seria justo negar a Cibelle algo que eu tive em nossa orgia, mas como fazer meu coração entender que ter Joseph de novo em mim não significa que ele me pertence? Diga-me, meu Deus, como arrancar essa dor do meu peito?

Capítulo 31

Joseph

Imerso na maior loucura por amor que já cometi na vida Prendo a respiração ao sair do boxe e deixar Pauline para trás. Isso não está certo, eu não quero transar com Belle de novo, por mais que ainda esteja duro como pedra, louco por um alívio. Bem que tentei, mas não consegui gozar sabendo que outro cara estava comendo a minha linda menina por trás. Eu quero matar Arthur, e ainda socar sua cara até lhe arrancar todos os dentes, porém não posso. Ele não tem culpa de nada, afinal. Só está fazendo o que todos querem nesta noite, buscar e dar prazer. Olho para trás uma última vez, só para conferir se Pauline vai ficar bem sem mim. Queria que ela nos

acompanhasse, preciso de sua presença constante para manter a minha sanidade, mas seu jeito relaxado sob o chuveiro mostra que já se satisfez e agora precisa de um tempo para repor as energias. O casal me espera, necessita de mim mais do que ela, e não me nego porque já estou aqui, essa foi a minha escolha também. É certo que aceitei essa loucura por causa de Pauline, mas considero minha responsabilidade ir até o fim. Arthur e Belle não têm nada a ver com a tragédia que acontece no meu coração toda vez que me dou conta que quem eu gosto jamais chegará a sentir um fiapo do que eu sinto por ela. Entro no quarto amplo do casal sem prestar atenção em muita coisa. Concentro-me na mulher que se deita na cama larga e abre as pernas sensualmente, como um convite obsceno para os dois homens que vão lhe deixar louca pelos próximos minutos. Arthur se ajoelha ao lado dela e faz a mulher abocanhar seu membro tão duro quanto o meu. Ela o chupa com vontade, porém me olhando fixamente, talvez se perguntando aonde irei me encaixar. Eu me faço a mesma pergunta. Não me demoro e tomo uma decisão, por isso me esgueiro e deito na cama com a

cara entre suas pernas. Belle é adorável e tem um gosto que acende os meus instintos masculinos. Esses instintos não ligam para sentimentos, apenas para satisfação pessoal. Talvez por este motivo eu realmente sinta vontade de sugá-la até que goze na minha língua. Eu não sou muito experiente na coisa, portanto não me resta nada além de copiar os movimentos que sempre faço em Pauline, e que ela parece gostar, embora eu nunca saiba do que ela gosta de verdade. A mulher se contorce inteira, porém não permito que se movimente muito. Agarro suas coxas, imprensando-as contra o colchão. Quero que ela fique quieta, só me deixando devorá-la com fúria. Sei que estou exagerando, sei perfeitamente que o Joseph que está preso entre essas paredes não é o mesmo que o levou até aqui, mas se é para fazer isso, então vai ser do jeito que quero, e quem achar ruim que se foda, com todo perdão da palavra. Quase não acredito quando Belle, depois de menos de um minuto que começo a chupá-la, grita alto e forte, pausando o sexo oral que faz no marido só para gemer ensandecida diante de um orgasmo que faz seu corpo curvilíneo tremer.

Fico meio surpreso, parando tudo para observá-la com os olhos arregalados. Será que eu sou bom nisso e não sei? Pauline demora um pouco para gozar sob meus lábios. Que estranho! Acho que Belle é mais sensível, ou, sei lá, talvez sinta mais atração por mim do que Pauline. A ideia me enche de verdadeiro ódio. Por que essa desconhecida goza tão rápido enquanto a mulher por quem estou apaixonado parece sequer gostar de nosso sexo? Mas que merda! — Continua, Joseph... Por favor, continua... — Belle pede aos murmúrios, parece desesperada pela minha língua. Volta a abocanhar o marido enquanto ele lhe estimula os seios com ar de propriedade. Não tenho outra opção a não ser prosseguir com o que eu estava fazendo. Volto a lamber, sugar e circular meus lábios em Belle, que se contorce freneticamente. Seus gemidos me avisam que está adorando o estímulo. Acelero o movimento apenas para ter o prazer de vê-la entrar em êxtase novamente, expelindo muito líquido lubrificante na minha boca. Agora, chega! Não quero mais assim. Meu sexo está latejando e precisa de alívio, essa

mulher vai me dar o que quero e ponto final. Eu me ajoelho no colchão e olho para os lados, meio perdido. Não posso penetrá-la sem preservativos, mas não sei onde encontro um. Notando a pausa que faço, Arthur sorri e se afasta para pegar um pacote em uma gaveta. Olho para Belle, que está sorrindo e me olhando de volta. Pisca os olhos e lambe os lábios, depois ergue o braço e se senta no colchão para me envolver em um beijo intenso, que me pega de surpresa. Correspondo com raiva e a puxo sem rodeios. O gesto bruto me faz cair para trás com ela em meus braços, ainda enfiando sua língua delicada em minha boca, como se quisesse sentir também o seu gosto que ficou nela. Arthur entrega a camisinha à esposa, que me larga apenas para nos deixar protegidos. Suas mãos escorregam o plástico em minha ereção pulsante e pronta. Ela abre as pernas e se acocora, usando a mão para enfiar o meu membro em sua entrada úmida. Não quero pensar de novo em como é estranho transar com outra pessoa que não seja Pauline. Passei a noite inteira fazendo comparações bizarras e absurdas, não quero dar vazão à dor que cresce

toda vez que me lembro da burrice que foi me apaixonar pela pessoa errada. Atenho-me ao fato de que é gostoso fazer sexo, não importa com quem, e me deixo levar pelo vai e vem de nossos corpos. Deixo a culpa para a camisinha, já que eu nunca tinha usado antes e deve ser estranho mesmo para todo mundo. Não tem nada a ver com o fato de que não é a Pauline aqui, contorcendo-se sobre mim. Arthur fica de pé sobre o colchão e agarra os cabelos de Belle violentamente, obrigando-a a engoli-lo até o fim. Ela está engasgada, vermelha e trêmula, mas isso só me faz ter vontade de chocar com ainda mais força os nossos sexos. Não sei quanto tempo se passa até eu ter uma ideia genial. Se aquele filho de uma mãe comeu a minha mulher por trás, eu devo fazer o mesmo. Certo, ela não é a minha mulher, sei disso. Não tenho direito algum sobre Pauline e isso só me irrita, portanto vou comer a bunda de Belle e ai de quem disser que não! Sinto que sou capaz de matar alguém de porrada se for contrariado. Nunca fui violento desse jeito, porém não perco tempo me auto-incriminando. Já percebi que ninguém aqui é inocente mesmo, eu que não

vou ser o virgem santificado. Pego a coxa de Belle com uma mão, fazendo-a parar de se mover sobre mim. Com a outra, miro o meu membro em sua segunda entrada. Ela geme quando percebe o que quero fazer, ajudando-me ao colocar força para nos encaixar desse jeito pela primeira vez na noite. Sinto seus músculos cederem lentamente, levando-me a um estado de loucura e irritação. Por fim, desisto de esperar demais e a agarro, puxando-a para baixo de uma vez. Entro nela sem pedir licença, chego até a sorrir ao ouvir seu grito insano, sugerindo uma mistura de dor e prazer. Passo a me mover na maior velocidade que posso, além de ajudá-la a se manter equilibrada. Arthur gira a esposa no mesmo clima furioso em que estou, tirando-lhe o equilíbrio, de forma que ela termina de costas para mim, meio inclinada para trás. Suas mãos não acham apoio no colchão ao meu redor, por isso acabam encontrando o meu peitoral e se escorando nele. A visão que tenho é diferente e muito instigante, deixa-me excitado, quase maluco. Gosto de ver o traseiro de Belle se chocando no meu ventre enquanto a como, fico vidrado observando o

movimento. Acho que estou ficando louco de vez. Deve ser por isso que Pauline é doida, fez tanto sexo maluco que perdeu o juízo. — Vem, amor, me fode também... Por favor, vem logo... — Ela pede ao marido com um timbre emergente, ansioso e, ao mesmo tempo, fraco, como se suas forças estivessem se esvaindo. Arthur se esgueira acima de nós, fazendo Belle se inclinar até não conseguir mais se apoiar em mim. Ela desiste e se deixa cair, deitando-se até seu rosto ficar ao lado do meu. Eu me viro e mordo o lóbulo de sua orelha, provocando-a. Seguro-lhe pela cintura e paro nossa entrega apenas para que Arthur se encaixe nela também. Belle berra, uiva e se contorce. Seu corpo treme inteiro, e me lembro do modo como Pauline tremeu quando aquele cara se colocou nela. Minha raiva só faz aumentar, por isso passo a me movimentar com fúria, agitando todos, obrigando-os a se mexerem também. Levo uma mão até os cabelos loiros de Belle, puxando-os para trás, fazendo-a continuar gritando. Com a outra, envolvo seu pescoço e enfio minha língua em seu

ouvido. Ela geme alto, enlouquecidamente, e sinto sua entrada me apertar forte, indicando um orgasmo brutal. Eu não quero parar, não estou nem perto de gozar. Ela vai ter que fazer mais do que isso para me satisfazer de verdade. Não que eu não esteja gostando, pirando ou me sentindo extremamente excitado, é só que eu quero mais e mais, mesmo que o meu coração grite que eu não vou ter esse mais com Belle. Só uma pessoa nesse mundo pode me dar o que eu quero. Urro com força, socando-a furiosamente, tentando esquecer todos os pensamentos. Não posso pensar nela. Tenho que pensar só em Belle. — Belle! — grito alto, e saboreio com amargura o nome estranho que escapa pelos meus lábios. Que ódio do mundo, meu Deus! — Goza, Belle! — insisto, beliscandolhe os seios. A mulher obedece facilmente ao meu comando e grita também, está absolutamente rendida a nós dois. Arthur berra e retira o membro de dentro da esposa só para salpicá-la inteira com seu sêmen. Não sei direito se acho isso nojento ou excitante. Ao mesmo tempo em que não quero entrar em contato com o gozo alheio, acho

perfeito ele tê-la deixado lambuzada. Quero fazer isso também. Vou deixar meu rastro espalhado pela mulher dele, deste modo vou gargalhar sozinho pelo resto da vida quando me lembrar que ele bateu, mas também levou. O homem se afasta com um sorriso pleno no rosto. Ele me olha como se me desse sinal verde, sugerindo que eu fizesse o que me desse na telha. Sei perfeitamente o que quero, por isso tiro Belle de cima de mim, deitando-a ao lado, e me ajoelho novamente no colchão. Livro-me do preservativo e chacoalho o meu membro até sentir que estou quase gozando. Puxo a mulher pelo queixo, percebendo que ela já está com a boca aberta, pronta para receber minha ejaculação. O primeiro jato cai bem na sua língua, mas eu tenho outro objetivo. Miro em outras direções e, entre muitos grunhidos, lhe lambuzo os olhos, o nariz, a bochecha e deixo o último jato em seus lábios esticados. Ainda mexo mais e alguns pingos caem em seus cabelos lisos. Analiso o estrago e fico bastante satisfeito. Belle parece ter adorado também, pois sorri amplamente para mim. Eu não ouso sorrir de volta. Agora que teve fim,

percebo que tudo aqui dentro está doendo. Preciso me lembrar de nunca mais agir assim na minha vida. O arrependimento finalmente chega, por isso deixo o casal para trás e me viro na direção da porta. Tenho que encontrar Pauline e confessar essa dor. Não importa se ela vai rir de mim ou me rechaçar, é uma necessidade da minha alma fazer com que entenda que eu não quero esse tipo de vida. Pode ser gostoso e excitante, mas não é o que me satisfaz ou me engrandece como pessoa. A porta do banheiro está aberta e percebo a luz ainda acesa. Ouço o ruído do chuveiro e estranho imediatamente. Entro sem pedir licença e vejo Pauline do mesmo jeito que a deixei. Meu coração quase sai pela boca de tanta preocupação que sinto. Será que está passando mal? Não acredito que a abandonei assim, que lhe neguei socorro para entrar em uma modalidade sexual doida demais para a minha cabeça suportar. — Pauline? — chamo baixinho, temendo lhe provocar dor. — Você está bem? Ela não me responde, por isso entro no boxe e deixo meu corpo se ensopar em questão de segundos, levando de

mim suor, gozo e culpa, embora a última esteja insistindo em não me abandonar. Seguro seus ombros e ela solta um pequeno arquejo, meio molenga. Toco-lhe a cintura e trago seu corpo para mim, no entanto, Pauline se afasta de repente, parecendo acordar de um sono pesado. Ela não me olha e nem fala nada, apenas sai do boxe, pega uma toalha, se enrola e me deixa sozinho debaixo do chuveiro. Eu não sei o que fiz de errado. Será que a machuquei? Poxa vida, de novo esse afastamento? Fico olhando para a porta aberta, meio sem reação. Depois de tudo o que fiz por ela esta noite, é assim que me trata? Como se eu fosse um estranho? Tudo o que fiz foi em vão, é isso? Prendo os lábios e engulo um soluço, mas meus olhos se embaçam e não é porque estou sem óculos. Faço o máximo possível para não fraquejar, mantendo um controle que eu nunca precisei ter. Mas eu não vou fazer isso na casa dos outros, não quero agir como uma criança indefesa, nem mesmo como vítima. Sou culpado, sei que sou, mas não sou o único. Termino de me lavar pacientemente, apenas saboreando a dor e engolindo o nó

na garganta. Saio enrolado em uma toalha e caminho até a sala, onde Pauline termina de se vestir. Sua presença me faz estremecer. Não sei o que falar e tenho medo de uma nova rejeição, portanto me visto em silêncio, tentando passar despercebido. Enxugo os meus cabelos por último, coloco os óculos, dobro a toalha e a repouso sobre um móvel. Quero ir embora o mais rápido possível. Na verdade, eu quero mesmo é sumir dessa porcaria de mundo cruel. Pauline penteia os cabelos usando os dedos, alheia aos meus movimentos. Sua expressão é impassível, difícil demais de traduzir. Nem parece a mesma Pauline que cruzou essa porta, muito menos a que gemeu durante os tantos orgasmos que teve. Olho pela janela da varanda porque não consigo vêla desse jeito por mais nem um segundo. Estou frustrado, morrendo de raiva, ódio e rancor, querendo que ela se exploda na mesma medida em que quero beijá-la e abraçá-la. Percebo o nascer do sol e meus olhos marejam novamente. Desta vez, a natureza não me dá esperanças de um novo dia, só me traz mágoa e tristeza.

— Ai, gente, foi um prazer conhecer vocês! — Belle surge na sala ao lado de Arthur. Já estão devidamente vestidos. Ela se aproxima de Pauline e a abraça. Minha amiga corresponde o gesto, mas não é com tanta animação assim. — Você é linda, Pauline. Esta noite foi incrível! — Obrigada, Belle — sua voz sai estranhamente comedida. — Foi ótimo. Também gostei de conhecê-los. — Vou levá-los até o hotel em que estão hospedados — Arthur sorri e avisa alegremente, chacoalhando as chaves do seu carro entre os dedos. — Não precisa, cara, a gente pega um táxi — sugiro. Belle se aproxima e me abraça forte. Devolvo o gesto porque eu preciso tanto de um abraço que ninguém nessa sala poderia ter noção. — Foi bom demais te conhecer, Belle. — Ergo meus olhos para o anfitrião, balançando a cabeça uma vez. — Arthur. — De jeito nenhum, Joseph, faço questão de leválos! — Arthur se aproxima e me cumprimenta com um aperto de mãos. Seu humor é o oposto bizarro do meu. — Vamos descendo! Ah, quero o telefone de vocês. Quando virem a Bento de novo, não se esqueçam de nos avisar!

— Pode deixar — Pauline fala ao receber um abraço do homem negro. Mordo os lábios, morrendo de ciúme. Arthur e Belle, sempre gentis, educados e brincalhões, nos deixam na porta do hotel luxuoso. Apesar de tudo, gostei de verdade de tê-los conhecido. São pessoas especiais, sem dúvida nenhuma. Trocamos nossos números e nos cumprimentamos pela última vez. Pauline e eu atravessamos, muito quietos, o hall da recepção e pegamos o elevador como se fôssemos dois desconhecidos. Seu silêncio me revolta, me indigna e me entristece, mas não serei eu o imbecil que vai rompê-lo. Se Pauline quer assim, então é deste modo que será. Continuarei fazendo nada mais que sua vontade. Ela se tranca no banheiro durante um bom tempo e depois volta, vestida com um short e o casaco que comprou no aeroporto. Não está tão frio aqui dentro do quarto, embora esteja lá fora, mas acho que vou precisar do casaco também. O frio que sinto advém do gelo ártico em que meu coração está imerso. Vou ao banheiro apenas para colocar uma bermuda e escovar os dentes. Fico com o moletom novo que comprei e me deito na cama. Mais

um quarto duplo, com camas devidamente separadas, mas desta vez agradeço por isso. Eu não conseguiria dormir tão perto dela neste momento. Pauline se esqueceu de desligar as luzes, por isso vejo perfeitamente seus olhos fechados, até porque ainda não tirei os óculos. Fico a observando fixamente, rememorando cada detalhe da noite e tentando entender em que momento cometi um deslize que justificaria seu distanciamento. Foi ela quem começou a beijar Belle primeiro, bem como a lhe tirar a roupa. Não pestanejou quando me aproximei, nem mesmo quando Arthur a tocou tão intimamente. Ela transou com outro cara na minha frente e não pareceu nada arrependida durante todas as loucuras que cometemos. Pauline permitiu que Belle me tocasse, não fez qualquer oposição e nem mesmo pareceu chateada, portanto esse silêncio todo não pode ser ciúme. A propósito, ciúme de quem? De mim? Sei que esse é o tipo de sentimento que não a afeta, portanto descarto a ideia antes que minha mente comece a se iludir sozinha. Estou distraído quando Pauline abre os olhos, de repente, e me encara. Levo um susto, por isso desvio o

rosto e permaneço quieto, concentrado em observar o teto. Após alguns segundos, decido encarar a situação e me viro em sua direção de novo. Pauline ainda está me olhando, porém se remexe na cama, virando-se para o outro lado e levando os lençóis consigo. Não me desejou nem um boa-noite. Fui mais uma vez ignorado e rejeitado sem qualquer explicação. Sinto vontade de gritar, espernear e iniciar um bateboca daqueles, mas me refreio ao máximo. Eu quero jogar na cara dela as tantas coisas que já fiz para agradá-la sem esperar nada em troca, além da maneira absurda como consegue me enlouquecer e me deixar no escuro ultimamente, ela não era assim. Costumava ser um livro aberto. Tenho tantas verdades para dizer, inclusive que estou apaixonado, que a quero para mim não por um dia ou um mês, mas pelo tempo que durar uma paixão tão avassaladora. Preciso explicar que nenhuma mulher vai me saciar de verdade, que eu não quero transar com um monte de gente só para compreender o que já sei: é só dela que preciso na minha vida. Posso aproveitar e implorar por tudo no mundo pelo seu perdão, pois não

quero tirar a liberdade que tanto a faz feliz apenas porque não consigo vê-la com outro alguém. Meu Deus, eu sou tão egoísta, idiota e patético! Prendo o ar para não soluçar alto e chamar a atenção de Pauline. Era só isso que me faltava, ser visto aos prantos. Tiro os meus óculos, colocando-os na mesa de cabeceira ao lado e estico a mão para desligar as luzes. O quarto fica na mais completa escuridão, combinando com o meu humor. Enfio meu rosto no travesseiro e consigo soltar o primeiro soluço sem fazer qualquer ruído. As lágrimas vêm logo em seguida, partindo das profundezas da minha dor e se externando impacientemente. Não me controlo ou me julgo, apenas choro porque não aguento mais essa situação. Sabendo que jamais agi desse jeito passional com Laurene, me dou conta que o que sinto pode ir ainda mais além do que previ. É com muita angústia que descubro que Pauline não é apenas uma amiga, uma companheira de viagem ou uma paixão intensa, ela é o meu novo, e talvez primeiro, amor. Eu a amo tanto que viveria na merda para sempre se isso significasse trazer o seu sorriso de volta.

Estou me odiando por amá-la, mas me odeio mais ainda por nunca fazê-la suficientemente feliz.

Capítulo 32

Pauline

Na primeira fossa da minha vida graças ao bendito amor Eu me remexo na cama como se estivesse deitada em cima de um formigueiro. Não estou nem aí se atrapalho o sono de Joseph. Espero que não durma se eu não conseguir pregar os olhos. Cansei de chorar por causa dessa dor estúpida no meu peito enquanto os gritos de Joseph e de Cibelle ecoam na minha cabeça, feito uma maldição satânica. Como ele teve coragem de falar com ela daquele jeito? Exatamente do jeito que eu amo, ainda que seja tão diferente do cara tímido e certinho que conheci. Talvez por isso mesmo me fascine tanto. Não sei o que pensar sobre sua atitude. Achei que eu fosse a única

a deixá-lo louco daquele jeito. Eu me enganei terrivelmente e agora estou pagando o preço da desilusão. Quantos Josephs há dentro dele, afinal? Será que o homem que disse se importar comigo ainda existe? Estou confusa, o corpo dormente pela quantidade de sexo que experimentou, a cabeça zonza e o coração apertado, do tamanho de uma formiga. Eu me escondo embaixo do lençol porque não quero encontrar seus olhos novamente. A penumbra está menor, devido ao dia claro do lado de fora da janela, e não quero vê-lo curioso com meu pranto. Affe! Essa também não sou eu. Em quê nos transformamos? De companheiros de viagem, nos tornamos amigos, depois amantes e, por fim, voltamos a ser amigos, mas... em um deslize que nem sei direito como foi que aconteceu, cometemos o grande erro de nos envolvermos sexualmente de novo. Eu nunca devia ter transado com Joseph, muito menos me apaixonar por ele. Quem foi que disse que amor é uma dádiva e todo aquele blá-blá-blá sem nexo? Amar é uma merda bem grande, daquelas fedorentas, que dá uma dor de barriga dos infernos e impregnam o ar por horas. Eu

me sinto na merda, literalmente. Mas que droga! A culpa não é minha, meu, não vou carregar esse peso nos meus ombros. Culpo aquele vinho maldito e o fato de Belle ser gostosa pra cacete. Como é que eu ia resistir àquela esfregação toda se estava na secura do deserto do Saara? Caramba, a culpa é toda de Joseph! Que raiva! Ai, minha cabeça está latejando. Esse dia vai ser horrível, já começou péssimo! Por mim, a gente nem fazia passeio nenhum, talvez nunca mais! Trem... Argh! A porcaria da palavra me lembra do sotaque dele e como eu gosto... gostava de ouvi-lo. Por que ele tinha que ser tão especial e dificultar tanto meu autocontrole desse jeito? Pudera, Pauline, se ele fosse um escroto, você não desejaria a companhia dele nem fodendo! Com certeza, nem foder eu ia querer! Rá-rá-rá! Tenho vontade de gargalhar sozinha, naquela reação estranha e exagerada que me assalta toda vez que eu fico fora de mim. Mas, agora, é de um modo negativo, não da forma natural que é minha característica. Eu me sinto estranha, de todas as formas possíveis, e não consigo me trazer de volta. Estou tão infeliz que a própria tristeza me irrita,

porque eu não devia estar assim. Nunca. Jamais. Em hipótese alguma. A menos que alguém morresse... É isso, eu morri! A antiga e alegre Pauline de Freitas Dias jaz sob um túmulo de lamúrias e desesperança. Suspiro ruidosamente, de saco cheio de mim mesma e desse amor que cresce na mesma proporção que tento sufocá-lo. E eu aqui, achando que era só uma paixão passageira, que duraria somente essa viagem, mas a certeza de que não amarei outro como eu amo Joseph martela na minha cabeça, me dizendo, insistentemente, que perdê-lo será minha ruína total. Com ou sem Joseph, eis a questão de minha existência a partir de agora. Fico na cama até não suportar mais o tédio. Confiro a hora no celular e vejo que já é meio-dia. Hora de almoçar! Só vou descer para o restaurante porque não aguento mais esse quarto e o perfume de Joseph impregnado no meu nariz. As lembranças quentes da noite que tivemos com Arthur e Cibelle passam por minha memória como um filme viciado, infinitamente no repeat. A voz... dele — a maneira como agiu, nem corou ao andar pelado pelo apartamento —, as ordens, os rosnados...

Santo Cristo! Vou molhar a calcinha que não estou vestindo! Tudo bem, eu admito, gosto muito de sexo e me excito muito fácil, mas, e daí? Então me crucifique, porra, se ele também não curtiu. Merda! Ele curtiu tanto que me deixou naquele banheiro sozinha para comer a Belle. Ainda estou inconformada com isso. Achei que ao menos ele se preocupasse comigo, mas... não... No fim, não havia nada de especial entre a gente. Joseph é educado demais para deixar qualquer um na mão, faz parte de seu jeito apaixonante de ser. Cara, como é difícil esse lance de amar sem ser correspondida. Não sei o que faço por mim mesma, quem dirá por ele! Visto qualquer coisa menos cara de pijama e deixo nosso quarto sem olhar para trás. Nunca as duas camas foram tão apropriadas. Fiquei longe de seu calor o tempo todo, apesar do frio glacial que fez morada em mim. Saudades de me divertir sem neuras! Transar em grupo nunca foi tão... estranho. As notificações das minhas redes sociais começam a apitar no meu celular e me distraio, verificando-as. Perco o ar dos pulmões quando vejo que Cibelle me marcou em um post. Toco a tela para

ler sua empolgação quanto à noite que passamos juntos — sem os detalhes sórdidos, claro! — e me lembro que tiramos uma foto antes da merda toda acontecer. Curto e comento, agradecendo pela hospitalidade e posto a nossa foto nos comentários. Belle visualiza na hora, deve estar online também, grata por poder “roubatilhar” nossa imagem. Aproveito o ensejo para publicá-la no Instagram, com a legenda: amizade sincera é coisa rara, mas não impossível. A verdade é que não consigo ficar chateada com o casal. Arthur e a esposa não têm culpa de meu desentendimento com Joseph. Quando o garçom me estende o cardápio, sei exatamente o que vou pedir: água com limão e gelo para acalmar meu estômago. Que ressaca brava! Estou usando óculos escuros, que sempre carrego na minha bolsa, para proteger os olhos da claridade insuportável. Tomo uma garrafa de meio litro antes que Joseph apareça, com a cara amarrada, todo lindinho e descabelado. Gente, como eu consigo achar tudo isso estando tão brava com ele? Fico com o coração disparado quando nossos olhares se cruzam e percebo que está tão irritado quanto eu. Pode

vir, anjo, estou pronta para a guerra! Meu olhar o desafia a continuar ou desviar o seu, mas ele me encara, sem ruborizar — nem acredito nisso! — enquanto se aproxima. Arrasta a cadeira à minha frente, com raiva comedida, e se senta. Um minuto inteiro se passa antes que qualquer um dos dois faça algo além de olhar para o outro. — Bom dia — me cumprimenta azedo, igual o limão no meu copo. — Boa tarde — corrijo-o, sorrindo ironicamente, à espera de uma reação enfurecida, daquele jeito excitante e enlouquecedor. Sua resposta é um grunhido. Vencido, pega o cardápio e pede um prato da comida italiana, que parece saboroso, sua inseparável água com gás e suco de fruta. Ele se entretém com sua refeição cheirosa e eu com a fama. É minha única alegria no momento. Estou cansada ou me cansando fácil, não sei explicar, mas está complicado ficar aqui sentada de frente para ele. Agora evito seu olhar a todo custo, ainda que os óculos me protejam e eu possa simplesmente fingir que estou

presa no smartphone, quando na verdade estou olhando para ele sem que perceba. Por que tão lindo? Mesmo bravinho, fez questão de me cumprimentar. Eu nem quis acordá-lo. O que eu faria? Daria um cutucão nele e diria: ei, Joseph, não vai almoçar antes de sairmos para o pior passeio dessa merda de viagem? Affe, ficar presos em um trem, durante duas horas, vai ser, no mínimo, uma tortura para mim. Mas quem sabe eu encontre outros fãs? Por favor, sem orgia dessa vez, não estou a fim. O pensamento me assusta de novo. O que esse tal de amor fez comigo? Eu, Pauline de Freitas Dias, recusando sexo liberal e descompromissado? Tudo bem, eu me entendo. Por que transaria com outras pessoas apenas pelo prazer, quando quero me prender de vez a Joseph, o primeiro virgem que eu tive e a única pessoa que foi capaz de fazer brotar um sentimento tão poderoso no meu coração? Sexo sem ele não tem graça, tive a prova ontem, durante sua ausência. E esse buraco continua vazio e dolorido dentro de mim para eu sequer cogitar um novo momento de puro tesão com alguém — ou alguéns — que não seja ele. Mesmo dolorida, acabada e com o pior mau

humor da minha vida, ainda teria forças para morrer em seus braços, se ele me quisesse. Sem paciência para esses pensamentos depressivos que não me deixam, me levanto de supetão, fingindo uma pressa que, na verdade, eu tenho. Mas paraliso ao me dar conta de que não adianta fugir, esse sentimento vai comigo aonde quer que eu vá. Engulo-o a seco, sentindo minha garganta arder, e digo alguma coisa, já que Joseph largou o prato quase intocado e me observa, surpreso e confuso. — Eu... hã... vou trocar de roupa para pegarmos o trem. Pode comer sossegado, ainda temos tempo. Alívio e vazio me acompanham até o quarto. A presença de Joseph não devia me incomodar se sinto tanto a sua falta, mas sei que a culpa não é dele. Reajo com tanta intensidade quando estou perto dele que me aborreço comigo mesma. Deve ser por isso que está estranho comigo, já leu na minha testa o quanto a boba está apaixonadinha e ele fica furioso por eu estar confundindo as coisas, quando só queria minha amizade. Faço tudo errado, como ontem... Eu o levei para a cama de Belle. A culpa é minha se estou nessa situação agora. Nunca vou

me tornar uma mulher boa o bastante para Joseph, por mais que eu queira desesperadamente. Estou com vontade de sumir e só dar as caras de novo quando essa... coisa passar. Cuido das minhas roupas com tanto esmero, como se eu tivesse que fazer uma mala imensa para deixar Bento Gonçalves. Joseph não demora a aparecer e aquele clima pesado e silencioso nos acompanha em todos os gestos e esbarrões sem querer. Saímos na hora certa rumo à estação de trem da cidade. Ele se senta em uma ponta no banco de trás do táxi e eu na outra. Na hora de pagar, a gente se encara, enfurecidos, porque ambos estendemos o braço com o cartão ao mesmo tempo, mas desço logo desse veículo claustrofóbico e deixo que ele seja o cavalheiro que deseja ser. A Maria-Fumaça, antiga, colorida e engraçada, está parada na estação, pronta para o embarque. Fico imediatamente ansiosa, nem sei por quê. Espero Joseph emparelhar comigo e sigo o fluxo até o guichê, a fim de comprar nossas passagens especiais. — Boa tarde, gostaria de duas entradas para o passeio de trem pela serra gaúcha — cumprimento a

atendente do outro lado do vidro. — Boa tarde, senhora, para que data? — Não pode ser para hoje? — questiono, surpresa. — Infelizmente, estão esgotadas. As entradas devem ser garantidas com antecedência. — O quê? Eu... não sabia disso. — A senhora pode comprar agora para daqui uma semana. — Uma semana? — Joseph e eu gritamos ao mesmo tempo. Daqui sete dias estaremos muito distantes de Bento Gonçalves. — O que você acha? — pergunto para meu companheiro de viagem, mesmo que a contragosto. — Agora quer saber minha opinião? — desabafa, furioso. — Você estava controlando o itinerário o tempo todo, devia ter previsto isso! — Eu devia, é? — rebato, puta da vida. Como ele ousa falar comigo nesse tom? — Por que você não fica quieto, se não pretende me ajudar? — Argh! Pauline! — lamenta, se afastando alguns

passos. Volto para a funcionária e lhe apresento meu cartão de crédito. Ele sempre me dá uma saída. — Querida, você viu o estado em que ficou meu amigo, que tal fazer uma forcinha e me ajudar a melhorar o humor dele? Viajar com uma pessoa assim é chato pra burro! — Sinto muito, senhora, não há vagas — insiste, visivelmente irritada comigo. Chego mais perto para que mais ninguém me ouça. — Você não sabe quem sou, não é? — Senhora, não impor... — Claro que importa! Eu sou a ganhadora da HiperSena, querida, e posso comprar essa cidade inteira se eu quiser. Agora, por favor, me venda dois ingressos. A mulher se vira para trás e chama a gerência. Puta que pariu! Hoje estou sem sorte. Além de ter que aguentar a cara de bosta do Joseph, tenho que enfrentar a do gerente, que me olha muito bravo. — Senhora, estou ciente do seu problema — enfatiza a palavra, desdenhando —, mas se continuar insistindo

com esse absurdo, serei obrigado a chamar a segurança e forçá-la a se retirar. A senhora vai ou não comprar os ingressos e liberar a fila? Ergo o dedo em riste, frustrada por segurar meu grito por tanto tempo. — Escute aqui o senhor! — berro, chamando a atenção de todos que estão na estação. — Eu tenho milhares de fãs na Internet e se não me vender as porcarias das entradas para hoje, vou falar mal dessa cidadezinha de merda para o mundo inteiro! — Pauline! — me chama Joseph, naquele tom de voz pouco usual. — Guardas! — ao mesmo tempo, o gerente convoca a segurança do lugar. Vixi, fodeu! Bater em retirada, bater em retirada! Trombo em Joseph ao me virar, na tentativa de correr. — O que está fazendo, ficou louca? — indignado, Joseph me segura em seus braços. — Me solta! — escapo dele e desvio de seu corpo maravilhoso. — Se quiser ficar aí, tudo bem pra mim. — Uai, como assim? — ele corre atrás mim.

— Esquece, Joseph. — Paro, de repente, fazendo-o tropeçar em mim e quase me levar ao chão. — Não, melhor, me esquece! Esquece que eu existo, quem sabe assim você fica mais feliz! — Para com isso, sô, volte lá e se desculpe com essas pessoas por sua grosseria! Você nunca foi assim, o que está acontecendo? — Está me tratando como criança, por acaso? Joseph esfrega as palmas nos cabelos, bagunçando e respirando pesadamente. — Pauline, tudo bem se estiver brava comigo. Mesmo sem saber por que, talvez eu mereça, mas não desconte nessas pessoas, ainda mais desse jeito tão feio! Caio na gargalhada, aquela que é mais minha cara, apesar de estar fervendo de ódio por dentro. — Eu, brava contigo? E por que estaria? Você é todo certinho, Joseph! Falo na maior ironia do mundo, sem receio algum. Meu corpo treme de raiva e rancor, em uma mistura para lá de insana. Ele talvez mereça? Mas é claro que merece, poxa vida! Posso ter admitido mentalmente que fiz merda

ao colocá-lo na orgia ontem, mas ele não devia ter aceitado. Na verdade, eu esperava que ele jamais participasse. Não faço ideia do que aconteceria se ele quisesse ir embora. Provavelmente, eu largaria o casal para partir com ele. — Nuss, pra que tanto veneno? — rebate sério e furioso. — O que foi que eu te fiz, me diga de uma vez por todas! Esse silêncio está me matando! — Você não fez nada, Joseph! — grito, brava, querendo correr sem parar, como se estivesse em uma maratona. Ele não fez nada e esse é exatamente o problema. Ele não fez nada para me impedir de transar com Belle e Arthur. Ele não fez nada para evitar a orgia e ainda aceitou o convide deles para um ménage sem mim. Ele não fez nada para me tirar da seca, nem desse mau humor infernal. Nada de nada! — Você costumava ser um livro aberto, Pauline — diz em uma voz baixa, fazendo meu coração errar uma batida. — Antes eu conseguia te enxergar por dentro, agora não te reconheço mais. — Engulo o choro. Não vou

chorar, não vou chorar, não vou chorar. — Você mudou, e pra pior, infelizmente. — Sua mágoa se torna a minha. Puta merda! — Se você quiser, é só pedir; eu pego o próximo voo de volta para Minas e não precisará suportar minha presença por mais nenhum segundo. Seus olhos marejam e eu perco o fôlego, travada no lugar feito uma raiz antiga. O que estou fazendo, meu Deus? Eu não quero que ele vá embora de novo, meu coração não vai aguentar. Mas o que me espanta mesmo é vê-lo quase aos prantos diante de mim. Fui tão estúpida que o magoei sem querer, então percebo que não estou agindo como minha mãe me aconselhou. Fecho os olhos com força, respiro fundo, fazendo meu peito encher de ar novamente, decidindo o que é melhor para ele. Talvez seja melhor que vá mesmo e se livre de mim, a louca que não sabe amar. Meu coração parte ao meio com a ideia de terminar essa viagem sem ele. Quando reabro meus olhos, Joseph ainda me encara, tristonho, a dois passos de distância... Distante demais para meu gosto. — Fica, por favor — imploro tão baixo que não sei

se ele me escuta. Só percebo que estou chorando quando ele vence o espaço entre nós, enxugando meu rosto com beijos. Meu coração palpita feliz e feroz como nunca, e solto risadas frenéticas em meio às lágrimas. Meu anjo é tão lindo! Seus dedos param nos meus lábios, em uma carícia maravilhosa, e a seriedade toma conta de seu rosto. Seus olhos capturam os movimentos de minha boca e fico sem respirar por vários segundos, esperando o tão almejado beijo. — Beijem logo! — alguém grita, chamando nossa atenção. Quando nos viramos para direção de onde a voz veio, ainda nos braços um do outro, vemos uma multidão nos olhando, igual em filmes de comédia romântica. Fico passada e sinto Joseph corar sob meu toque quando sua pele esquenta de repente. Câmeras de celulares estão viradas para nós e muitos sorrisos também. Puta merda! Gravaram a briga toda! Vamos para o YouTube como os babacas do século! Que vexame! Joseph se separa de mim, no impulso de sua timidez,

mas não fica muito longe. Ainda bem! Limpo a garganta e aproveito a oportunidade para me redimir por meu mal feito. — Turistas e população local, peço perdão, humildemente, pelos meus maus modos. Eu não sou assim, como meu amigo disse e vocês devem ter ouvido. De todo meu coração, estou muito arrependida e envergonhada por ter agido desse jeito. — Rio, entrando no clima da zoeira, é o que me resta depois de aprontar mais uma vez. Pelo menos estou tendo a maturidade de consertar. Quem sabe Joseph tenha orgulho de mim de novo? — Deve ser a TPM! — gargalho insanamente, colocando a culpa de novo nos hormônios. — Adorei conhecer Bento Gonçalves, a cidade é linda! Até fizemos amigos aqui, portanto, é claro que voltaremos para realizar o passeio pela serra em outra oportunidade. Sou aplaudida entre assovios e gritos entusiasmados. Mais fãs ou curiosos? Espero que publiquem tudo e não editem nada do que eu disse. Não quero me tornar um hit do mal. Joseph se aproxima, pega minha mão e se inclina para cochichar em meu ouvido.

— Essa é a Pauline que eu conheço e admiro. Bemvinda de volta, linda menina. — Obrigada, anjo, eu estaria perdida sem você. — Pisco um olho. Não existe verdade mais verdadeira do que a resposta que lhe dou. Joseph me puxa para o guichê, onde compramos passagens para daqui a um mês, concordando em voltar bem mais para frente, provavelmente quando o itinerário tiver acabado. Pensar que Bento Gonçalves foi palco de uma das cenas mais tórridas, da briga mais intensa e do mico mais sensacional que vivemos juntos me faz querer rir e chorar. Aqui a gente descobriu que queríamos prosseguir até o final, não importam as circunstâncias. No táxi, fazemos o caminho inverso para o aeroporto mais próximo. Quando estamos no ônibus, lado a lado de novo — Joseph sempre perto da janela, olhando sem parar a serra que se desenha no horizonte —, ele quebra o silêncio confortável, dessa vez. Foram emoções das mais doidas nas últimas doze horas. — Pauline, e se a gente fosse pra Curitiba? Quero

conhecer a capital do Paraná e visitar o famoso Jardim Botânico. — É claro, Joseph! Vamos aonde você quiser! Uso o celular para pesquisar os voos e descubro que somente de Porto Alegre poderemos embarcar ainda hoje. Têm ônibus direto para a capital partindo de Caxias do Sul, para onde estamos indo, então explico para Joseph que teremos que viajar mais uma hora e meia até lá se quisermos chegar esta noite em Curitiba. — Tudo bem, poderemos apreciar a vista da janela. Você sabe que prefiro a estrada mesmo. Rio de seu medo de voar. Chegamos a Caxias do Sul, compramos passagens para Porto Alegre e nos acomodamos lado a lado. Deixo que ele permaneça na janela. Sorte a nossa que um dos ônibus estava quase saindo, tem carros a cada meia hora para a capital. O sacolejo constante me amolece e dá até vontade de dormir. Só que Joseph resolve falar e fico intimamente feliz por ele não se sentir mais estranho comigo. — Pauline, está dormindo? — Não, Joseph, pode falar.

— Queria te propor um jogo novo. Eu me ajeito na poltrona e olho para ele. — Jogo? Que tipo de jogo? — Verdadeiro ou falso. Fico em silêncio por um tempo, absorvendo sua proposta. Joseph quer me fazer falar, mas não sei se estou pronta para me abrir completamente e lhe dizer que estou tão apaixonada que me atrapalho toda com esse sentimento novo e intenso que só aumenta dentro de mim. — Que tipo de jogo é esse? — questiono, morrendo de medo. — É muito simples — explica-se, com seu sotaque lindinho e fazendo os óculos ajeitarem em seu rosto bonito. — Eu faço uma afirmação, dizendo o que estou pensando, e você me fala se estou certo ou errado, apenas com as palavras “verdadeiro ou falso”. É um jogo recíproco, então você também vai poder me dizer o que pensa a meu respeito. — Lambe os lábios, um pouco inseguro. — Pelo menos é uma honestidade controlada, sem gritos. Prendo o ar instintivamente. Além de querer que eu

fale, ele vai jogar na minha cara tudo que pensa a meu respeito? É isso, produção? Fico apavorada só de imaginar a gente se metendo em outra briga, mas assinto, por fim, com mais receio ainda de recusar e ele decidir partir de uma vez. — Então, eu começo! — fala um pouco mais empolgado. — Pauline, você ainda me considera seu amigo, por isso me pediu pra ficar. Essa é fácil demais, talvez ele esteja me amaciando, vai saber? — Verdadeiro. Joseph solta um silvo de alívio. Eu sorrio diante de sua tensão, até parece que está nervoso como eu. — Sua vez, diga algo sobre mim — incentiva. — Eu prometo me abrir pra você. Penso em mil coisas que eu podia dizer, inclusive recriminatórias, mas me contenho. Não quero magoá-lo novamente. — Você está chateado comigo, Joseph, por eu ter mudado tanto nos últimos dias. — Verdadeiro. — Nem pensa na resposta antes de

soltá-la. Olho para ele, torcendo os lábios em uma careta. Puta merda! Mesmo me dando palpitações, essa vai ser a conversa mais honesta da minha vida. Cara, eu sempre fui espontaneamente franca, mas pirei ultimamente. Não posso continuar assim, não quero decepcioná-lo, seria como decepcionar a mim mesma. O que Joseph sente, eu sinto em dobro. — Mesmo me considerando, eu te encho o saco de vez em quando, com meu jeito tímido e retraído — diz, com toda a sinceridade do mundo. Solto uma gargalhada estridente, que chama a atenção de todo mundo dentro do busão. — Falso, muito falso! — Gargalho mais um pouco antes de completar. — Gosto de você do jeitinho que é, acho que já te falei isso, não? Joseph fica todo vermelho, me deixando ainda mais feliz por vê-lo tão ele. Lindo! — E você, anjo, me acha tão doida que a curiosidade o venceu quando fiz o convite para viajar comigo. — Rio descontroladamente.

— Meio verdadeiro, meio falso. — Paro de rir para encará-lo novamente, sem entender. — No começo, eu te achava doida, sim, mas uma louca do bem, quase como alguém que eu desejava ser capaz de imitar. — Prendo a respiração com tamanha coincidência. — Depois, percebi que seu jeito livre de ser te faz feliz e, de alguma forma, me faz bem... até certo ponto — acrescenta com uma careta estranha. — Como assim? — fico tremendamente curiosa para entender o que quer dizer. — Bem, tem certas coisas que eu não tenho vontade de fazer de novo, mas valeu a experiência. Pelo menos agora posso dizer com propriedade o que quero. Fico totalmente no vácuo, mas ele não entra em mais detalhes. — Você gostou do vinho e tomaria outra vez — começo a vasculhar sua mente. — Não, senhorita, agora é a minha vez. Depois você fala. — Ah!!! — exclamo, chateada. Joseph sorri, brincalhão, e me arranca um sorriso de

volta à força. Não tem como não corresponder quando ele fica soltinho assim. É um momento especial, com a capacidade mágica de parar o tempo pela eternidade de seu riso. — Você não quer deixar sua vida liberal — continua o jogo —, por isso aproveitou minha ausência em Brasília e foi àquela boate. Sou pega totalmente desprevenida com sua afirmação. Nunca vi Joseph tão direto. — Falso — digo, simplesmente, com medo de continuar. Não quero confessar o verdadeiro motivo. — Falso? Por quê? Puts, ele não pretende facilitar para o meu lado. Também nunca fui tão pressionada antes, por ninguém. Respiro fundo e digo de uma vez. — Eu estava triste porque você tinha me deixado sozinha, Joseph, e me joguei na noite, achando que pudesse me alegrar, mas nada funcionou. Eu nem tive vontade de ficar com ninguém naquela boate. — Não? — espanta-se de novo. — Não. Sabe, ao contrário do que você pensa, eu não

sou movida a sexo. Joseph ri, fazendo seu corpo todo chacoalhar ao ritmo da risada deliciosa. — Verdadeiro, eu admito que pensei isso, sim! — afirma, erguendo as mãos. — Culpado! — Ei, espera aí, essa afirmação não fazia parte do jogo. Não vale. Você roubou minha vez! Eu me atiro em cima dele, fazendo seu corpo retesar. No entanto, Joseph me agarra, laçando minha cintura com um braço e afastando uma mexa da minha face com a mão livre. Meu corpo esquenta de um jeito suave, gostoso, não é só tesão, é carinho também. Que saudades de seu abraço. Estico os dedos e toco seu rosto, sentindo seus lábios com as pontas. Estou sedenta por um beijo, mas não devo ir adiante, por isso volto para meu lugar, procurando fazê-lo devagar. Não como se estivesse fugindo, apenas dando fim ao ataque. Cruzo os braços no peito, fingindo estar brava, estreito até os olhos. — Quero que responda sobre o vinho — intimo. Seu sorriso encantador continua com força total, me derretendo toda.

— Verdadeiro, linda menina. — Até que enfim! — digo, as mãos para o ar. — Descobri que você realmente curtiu algo em nossa viagem. Joseph me olha, confuso. — Que ideia, sô, eu gosto de praticamente tudo, de onde você tirou que não? Dou de ombros, desviando o olhar. Sinto aquele calorzinho no rosto que me garante que eu ruborizei, como ele faz. — Sei lá, você anda tão bravo esses dias que não sei mais de nada, Joseph. Ele puxa meu rosto para si, me forçando a virar o rosto de volta em sua direção. — Pauline, eu gosto de sua companhia, dos lugares que visitamos, das aventuras que nos permitimos. Eu... simplesmente, gosto de estar com você. Meu coração palpita forte no peito. — Verdadeiro ou falso? — insisto para que reafirme suas palavras. Não pode ser verdade. — Verdadeiro. — Ele lambe os lábios antes de

continuar. — Eu fico chateado com seu afastamento, linda menina. Você é tão alegre, esse seu baixo astral me deixa deprimido. Sinto que não estou sendo um bom companheiro de viagem. — Falso! Falso! Falso! — brado ensandecida, incapaz de conter a emoção que suas palavras causam em mim. — Sua presença não me deixa triste, Joseph, pelo contrário, é como se já estivesse sentindo sua falta antes de nossa despedida, entende? — Entendo... Mais do que você imagina. A gente está tão perto que basta um pequeno gesto para eu acabar de vez com essa vontade de beijá-lo. Mas como fazer isso antes de concluir essa conversa com todas as certezas substituindo as dúvidas infindáveis? — Você... Joseph... Curtiu a experiência de ontem à noite. A afirmação sai meio como uma pergunta, já que a solto na maior insegurança do mundo, tendo a certeza de que vou receber um “verdadeiro” enorme e empolgado, mas estou morrendo de medo de saber. — Falso — diz de uma vez, com uma seriedade que

nada tem a ver com a minha expectativa. Puta que pariu! Aí está o Joseph que me surpreende. Abro a boca para fazer um milhão de perguntas, mas ele continua falando. — Eu tentei curtir, Pauline, porque percebi que você queria, mas esse trem de relações liberais não faz meu estilo. Fazer sexo contigo passou a ser natural pra mim. Com outras pessoas foi muito, muito esquisito. Fiquei o tempo todo dividido entre o mal estar e o tesão louco. — Fa-falso... — digo, gaguejando, naquele ataque que às vezes me dá. Limpo a garganta e resolvo ser honesta como ele está sendo comigo. Tantos desentendimentos porque a gente não teve coragem de ser franco um com o outro. Não vou deixar isso continuar assim. — Quer dizer, eu não queria tanto assim. Se você tivesse dito “não”, eu não teria ido em frente. — Dou de ombros de novo. — Para mim, estamos juntos na beira do poço, como no Maranhão, lembra? — Joseph balança furiosamente a cabeça, confirmando que se recorda. — Se você pular, eu pulo, e espero que a recíproca seja verdadeira. — Verdadeiro! — afirma depressa, para meu total

alívio. — Eu ficaria contigo de novo, em qualquer lugar e de qualquer jeito, se você também quisesse. Mas só com você. — Joseph... — Engulo as lágrimas que brotam nos meus olhos e me engasgam. Limpo a garganta antes de responder, chacoalhando a cabeça e apertando as pálpebras para espantar a choradeira. Chega! Só quero sorrisos, eternos sorrisos. — Verdadeiríssimo! Eu sempre te quero. E não é porque eu seja viciada em sexo, não, é simplesmente por ser... você. Ele arregala tanto os olhos que acho engraçado, o que espanta um pouco a emoção que fez morada em mim diante de minha confissão tão intensa. Só faltou eu dizer que o amo com todas as letras, porque esse sentimento está implícito em cada palavra que despejei sobre ele nesse jogo novo, tão nosso. — Uai... Mas eu sou só um virgem inexperiente, você não pode querer... — Larga de idiotice, Joseph. — Pego seu rosto entre as mãos, fazendo-o olhar em meus olhos para que veja toda a verdade neles. — Você é perfeito na cama.

— Sou? Sorrio abertamente, satisfeita demais por poder expressar como me sinto quando a gente transa. — Belle chegou a dizer, como você pôde ignorar? — Eu conheci Belle ontem, Pauline, não confio totalmente no julgamento dela. — Então, confie em mim! — digo intensamente. — Você segue seus instintos, Joseph, foi essa chama sedenta por viver que eu vi no dia em que te conheci, e ela me atraiu de tal modo que eu quis te dar todas as oportunidades para saciá-la. Joseph sorri de volta, devagar, como se o sorriso se aquecesse ao sabor desse seu fogo interno, que me consome as entranhas toda vez que penso nele. — Eu só aceitei porque era você que estava me convidando, Pauline. Uma mulher tão sincera, tão autêntica, tão livre! Você é como um pássaro, tem coragem de se atirar de uma montanha, conhecendo a força que a motiva a voar acima do mundo. — Não estou acima de ninguém, Joseph — digo, ainda sentindo seu hálito no meu rosto. — Muito menos de

você, que é um anjo e também sabe voar. Seu sorriso chega aos olhos, me fazendo suspirar com sua beleza. — Então, estamos em pé de igualdade. Passo os braços em volta de seu pescoço, esgotando o espaço que separa nossos corpos de uma vez. Chega de distanciamento entre a gente. — Assim fica bem melhor — admito, com a voz embargada de emoção das mais diversas. — Continuemos lado a lado, sempre juntos. — Eu sempre vou te acompanhar, linda menina. Sem que nem um dos dois hesite, vacile ou ache estranho, nos inclinamos, saboreando novamente o gosto de nosso beijo. Um beijo somente nosso, sem que ninguém precise participar para ser especial. Joseph me basta, e saber que eu também lhe basto é o suficiente para me deixar feliz pela eternidade que durar esse amor no meu peito. Tenho certeza absoluta de que cada segundo com ele valerá a pena.

Capítulo 33

Joseph

Curitiba, Paraná A felicidade é tanta que mal cabe no meu peito. Estou sorrindo à toa, me sentindo o homem mais bobo do mundo e, por incrível que pareça, nunca estive tão bem. Estamos no avião rumo ao Paraná. Como sempre, não consigo dormir durante o voo, portanto só me resta observar a linda menina que desmaiou em meus braços. A nossa conversa no ônibus foi a melhor coisa que nos aconteceu depois de tantos imprevistos, brigas e desentendimentos. Ainda não consigo entender direito o porquê de tanta confusão da parte dela, mas pouco importa. Não vou buscar explicações, pois já sei tudo o que preciso para ter certeza de que Pauline gosta da minha companhia e,

principalmente, dos nossos momentos intensos juntos. Ela quer continuar me beijando sem pedir licença e transando comigo sempre que nossos corpos exigirem. Isso é o que eu quero também. Apesar de estar loucamente apaixonado, não sou forte o bastante para me refrear a ponto de me negar esses momentos só para não me machucar depois. Quer saber? Ela me ensinou a viver o agora, a me permitir sempre que puder, e é exatamente isso o que vou fazer. Não tenho medo de tomá-la em meus braços e aprofundar os meus sentimentos. Se no futuro ela precisar ir embora, tudo bem. Jamais a impedirei de ter a liberdade que lhe é tão natural. Vai doer? Muito. Cada segundo sem ela será repleto da mais pura tortura, porém eu sei que será pior se eu não fizer tudo o que estiver ao meu alcance para senti-la, para conhecê-la ainda mais, para fazer o que um homem apaixonado faz pela mulher que ama. Eu pensava que Pauline odiava os meus beijos e o meu toque, mas agora que sei que não, posso começar a minha árdua luta rumo à conquista. Não quero forçar a barra, obrigá-la ou enganá-la, também não faço ideia se

vou conseguir, mas enquanto eu respirar, vou tentar fazê-la entender o quanto a quero para mim. Não preciso de palavras vazias ou confissões eloquentes, Pauline vai perceber cada fibra do meu sentimento através de gestos. Quero que o meu amor a alcance e a traga para a minha vida de uma vez por todas. Eu já tenho o “não”, com coragem, lutarei pelo “sim”. A minha nova decisão me deixa satisfeito comigo mesmo. Chega de me sentir um bosta e de me fazer de vítima, temendo que ela me ache um imbecil por ter me apaixonado. Pauline não é desse jeito. Além do mais, nunca fui o cara que chora com o rosto no travesseiro. Na minha vida toda sempre corri atrás do que quero, por mais difícil que pareça. Sou protagonista das minhas próprias atitudes e, enquanto elas estiverem de acordo com o que acredito, continuarei me sentindo o velho Joseph, um homem que nunca desistiu dos seus sonhos. Eu nunca vou desistir de Pauline. Além de ser a força que está me fazendo respirar forte neste momento, ela é a minha melhor amiga e a mulher mais incrível que já conheci. O meu desejo de ter uma família continua de pé, firme e

forte como a minha vontade de incluir Pauline nela. Eu me sinto de volta ao meu corpo, só que desta vez mais experiente e maduro. Viajar, me permitir e me apaixonar fez com que eu crescesse muito e em pouco tempo. Faço uma oração longa, agradecendo e pedindo a Deus para que guie o novo caminho que tomei. Beijo a testa de Pauline e gesticulo um “eu te amo” com os lábios. Meu objetivo não é assustá-la. Um dia eu lhe direi com todas as letras, mas será no momento certo, quando já for tão óbvio para ela que as palavras servirão apenas de complemento. Chegamos ao Aeroporto Internacional Afonso Pena, na Grande Curitiba, no meio da noite. Pauline está meio sonolenta, mas não me larga nem para desembarcar. Saímos abraçados até pegarmos um táxi. Sua atitude é o extremo oposto de como se comportou mais cedo, parece que não consegue deixar de me tocar. Eu, obviamente, acho ótimo, e correspondo quando ela me beija com suavidade durante o percurso até o hotel que escolheu para pernoitarmos. Tomo a frente e seleciono um quarto de casal, o mais

confortável e caro do estabelecimento. Pauline não se opõe ao meu desejo desenfreado de dormir ao seu lado esta noite. Nós nos beijamos no elevador e quase não conseguimos nos separar ao cruzarmos o pequeno corredor até o quarto indicado pela chave eletrônica. Ela mal espera que eu abra a porta e me ataca, pulando em meu colo e me dando um beijo louco, com sabor de saudade. Mas eu não quero que pense que liberdade para transar é o principal motivo da nossa reconciliação. Nossos corpos estão cansados da noite anterior, tenho certeza de que Pauline está tão dolorida quanto eu. Não precisamos de sexo agora, só de carinho, por mais que senti-la tão perto seja perfeito e me encha de excitação. — Você precisa comer — aviso com cuidado, afastando-a só um pouco. Deposito-a sentada em um dos móveis compridos do quarto amplo e bem equipado, ideal para nós dois. — Deve estar com fome. Vamos jantar em algum lugar especial? — Lugar especial? — Ela me encara com uma expressão que divide confusão e divertimento. — Do tipo... para um encontro?

Sorrio. — Exatamente desse tipo. Vista aquele vestido novo que comprou e ainda não usou. Quero ver como você o deixa lindo. — Não seria o contrário, anjo? — Gargalha alto, toda animada. — Não, não, sô. Falei certo. Eu a largo e me sento em um dos sofás sem conferir sua reação. Tenho que fazer de cada momento assim, uma coisa espontânea até que se acostume. Sou romântico, sempre fui. Quero dizer, pelo menos eu era com Laurene. Tenho vontade de rir, porque pensei que demoraria muito para fazer isso de novo. Costumava levar minha ex para passear, jantar fora, ao cinema, enfim. Nunca deixei de ser presente durante todo o relacionamento, ao contrário dela, que passou por fases esquisitas em que mal queria me ver. Acho que porque eu sempre lhe neguei o que tanto queria de mim. Fico me perguntando se ainda estaria com ela se, no passado, nós tivéssemos transado. Eu não quero pensar em Laurene, mas é inevitável supor que eu não teria conhecido Pauline se não tivesse me guardado por tantos

anos. Valeu a pena ter esperado. Neste instante, todas as minhas dúvidas se esvaem. Eu estava confuso com relação à Laurene há uns dias, e agora tudo mudou. Meu mundo deu uma cambalhota louca e me colocou diante de uma única certeza: vou conquistar essa mulher que se troca na minha frente, toda provocante, custe o que custar. Eu me levanto porque Pauline claramente está me chamando ao se virar de costas e permitir que eu tenha o vislumbre de sua silhueta desenhada em um vestido longo e azul, com o zíper aberto até o fim da coluna. Toco seus braços lentamente, sentindo a pele macia arder e arrepiar sob minha carícia. Alcanço-lhe os ombros e brinco com as duas alças finas que estão meio fora do lugar porque o vestido está aberto. Com a ponta dos dedos, faço um trajeto de sua nuca até o topo de seu traseiro empinado para mim. Ouço-a arquejar baixo, então me curvo um pouco para juntar meus lábios ao seu ombro direito. Fecho o zíper sem pressa, atento ao ruído característico da peça se fechando. Envolvo minhas mãos ao redor da sua cintura quando termino o serviço designado a mim.

Afundo boca e nariz em seu pescoço até senti-la derreter em meus braços. — Joseph... — Adoro quando ela sussurra o meu nome. Eu me sinto pertencente a um conjunto especial, único e insubstituível. Acho que crio uma ilusão muito profunda, mas quero me acostumar a viver dentro dela, do contrário, só sobra dor para mim. — Pauline... — respondo com o mesmo tom suave que usou. — Eu já te disse o quanto te acho linda? — Meu rosto enrubesce com toda certeza, posso sentir. Meu coração está muito acelerado, de forma que a minha autoconfiança diminui drasticamente. Meu Deus, não sei se vou fazer isso direito. Eu nunca precisei conquistar alguém antes, já que Laurene foi quem tomou iniciativa e praticamente me empurrou para sua vida. — Você nunca me disse, anjo. — Sei que ela sorri sem que eu precise olhá-la. — Que mentira, sô! Eu te chamo de linda menina o tempo todo — sussurro em seu ouvido, depois passo minha língua nos contornos. Pauline arfa mais uma vez. — Mas é diferente, parece um apelido carinhoso,

nada sensual. — Quase não consegue falar de tão embargada que está a sua voz. Viro-a de frente para mim em um movimento rápido e a agarro pelas nádegas. Faço nossos corpos se unirem até onde dá. — Você quer um apelido sensual? — Não, seu bobo! — Pauline está meio aérea, amolecida. — Só quero que diga que sou linda. — Você é linda — falo imediatamente, sem rodeios. Estou corado, eu sei, mas ela disse que gosta de mim assim, então tento ficar tranquilo. Claro que não consigo, não totalmente. — E é gostosa. E deliciosa — Ops, acho que exagerei, pois ela me olha maliciosamente. — Eu nunca falei essas coisas a respeito de uma mulher antes. — Nunca disse que Laurene é linda? — Não, uai, nunca falei sobre ser gostosa. — Mas ela é gostosa. — Pauline me solta de repente, com o olhar totalmente modificado. Ela está chateada? O que eu fiz? — Não é? — Por que estamos falando sobre ela? — questiono, largando-a de vez porque parece não querer mais que eu a

toque. — É ou não é? — Sei lá, Pauline. O que deu em você, caramba? — Eu... — Ela para e se vira, passando as mãos pelos cabelos. — Nada, anjo, eu... Desculpa. Você veio todo doce e... Porra, me desculpa! Dou de ombros, fico sem saber onde pôr as mãos e só deixo a cabeça em cima do pescoço porque ela está grudada, do contrário, eu a teria perdido em algum lugar desconhecido. Pauline está me confundindo demais com essas reações exageradas. Alguma coisa anda errada, eu sei disso, mas não consigo identificar ao certo. Por mais que a gente esteja bem agora, ainda tenho dúvidas sobre quanto tempo durará esta trégua até que briguemos de novo. Não quero brigar com ela nunca mais, e estou com medo de que aconteça sem que eu consiga compreender por quê. — Tudo bem. Eu... vou me trocar pra gente ir jantar. Pego roupas limpas dentro da mochila e me tranco no banheiro porque perdi o clima, não vou conseguir me trocar na frente dela. Saio já pronto, disposto a tentar mais

uma vez, porém vejo Pauline reflexiva, olhando através da vidraça comprida que dá para uma varanda. Só então percebo que começou a chover lá fora. Não importa, ainda quero lhe dar uma noite boa, tranquila, sem atropelos, embora um sentimento ruim esteja fazendo minha boca amargar. — Foi em um dia chuvoso que a gente se conheceu — ela fala calmamente, sem desviar o rosto da vidraça. Eu me aproximo e a abraço forte, porque lembro que a chuva a trouxe para mim. Só espero que tenha trazido de vez. — Desculpa, Joseph. — Vamos, linda menina — me limito a responder. Eu mesmo procuro na Internet do meu celular um restaurante legal para jantar com Pauline. Faço toda a banca de cavalheiro, abrindo a porta do carro, arrastando a cadeira para que se sente, propondo um brinde com nossas taças de vinho — acho que me viciei nessa bebida, toda vez que tomo, é como se fosse a primeira, mesmo que da última tenha me deixado com uma ressaca infernal — e exagero na pompa. Os olhos dela estão brilhando enquanto mastiga a comida que pedimos. Nossos olhares

se cruzam o tempo todo, e Pauline sorri toda vez que acontece. Espero os pratos ficarem vazios e a garrafa secar para finalmente fazer a pergunta que não para de me tirar o juízo: — Por que ficou irritada comigo quando eu te encontrei no chuveiro do apartamento de Belle e Arthur? — solto de uma vez, morrendo de medo da resposta. O seu humor ficou horrível exatamente a partir do momento em que voltei para o banheiro. Pauline, no entanto, só olha para baixo sem me responder. — Por que, Pauline? Por que me ignorou? — Eu... — Arqueja forte, ainda sem me encarar. — Não sei. — Está mentindo pra mim? — Não quero falar sobre isso, Joseph, ainda não percebeu? — ela diz de um jeito irritado. — Já estamos numa boa, por que insiste? — Só quero entender por que brigamos, uai, assim posso evitar outra briga. — Se não quer brigar outra vez, pare agora de falar

sobre este assunto! — Ela finalmente me encara, mas com uma expressão emburrada. Fico chateado também, no mesmo instante. Há um trem esquisito entalado na minha garganta. — Achei que a gente pudesse falar sobre qualquer coisa. — Tudo bem, vamos falar sobre como você, um cara certinho “recém-ex-virgem”, topou comer a mulher dos outros sem nem corar. — Pauline cruza os braços para frente e sorri, mas percebo que é um sorriso irônico, sem a menor graça. — E sobre como você sequer perguntou se eu queria que um cara comesse o meu rabo. Meu cérebro dá um nó terrível diante de suas palavras. — Eu... não sabia que... você não queria... — gaguejo debilmente. Nunca me passou pela minha cabeça que alguém como Pauline fosse se sentir ofendida diante da situação, já que ela mesma me confessou um dia que praticou e adora esse tipo de sexo. — É isso aí, Joseph, eu não queria. Sei lá, não sabia que você se importa tão pouco comigo a ponto de me

dividir como se eu fosse mercadoria. — Espera um pouco, eu... — Seguro meus cabelos com força, totalmente estarrecido. — Foi assim que me senti! Como uma mercadoria barata, facilmente descartada, já que depois os dois pauzudos me largaram e foram comer outro tipo de carne. — Os olhos dela começam a marejar e, no segundo que se passa sem que eu nada consiga falar, suas lágrimas finalmente caem. — Eu não queria que você fodesse ninguém sem mim! — Pauline... — Levanto-me da cadeira e circulo a mesa para puxá-la e abraçá-la. Ela se deixa levar e chora em meu peito. — Me perdoa, pelo amor de Deus! Eu não fazia ideia! — Você gritou o nome dela... — continua aos prantos, ampliando a minha culpa e espalhando caos dentro do meu peito. — Por que gritou o nome dela da mesma forma como grita o meu? — Eu não queria, Pauline, era em você que eu estava pensando... Eu juro! — digo desesperadamente, todo trêmulo. Minha Nossa Senhora, acho que atingi o limite da

culpa e do arrependimento. Que vergonha de mim mesmo pelo que fiz! — Em mim? — Ela para e me olha, parecendo chocada com minha confissão. — Em mim, Joseph? — Em você! — Agarro seu rosto com as duas mãos. — Eu não queria que ninguém te comesse, nunca quis uma coisa dessas, que droga! Eu sei que você é livre, a gente não tem nada, mas... Ela me agarra e junta nossas bocas com urgência. Fico incapaz de pensar em outra coisa a não ser levá-la de volta ao hotel, onde possamos estar um no outro mais uma vez. Nem dá para acreditar que a última mulher com quem transei não foi ela. Isso me deixa arrasado, destroçado por dentro. Meu corpo lhe pertence tanto quanto o meu coração, por isso é muito mais coerente nos amarmos esta noite. Preciso tirar as marcas de outras pessoas em mim até que só sobre Pauline. Quero que ela seja o meu passado, meu presente e meu futuro, e que todo o resto seja devidamente esquecido. Pago a conta sem nem saber o valor. Levo Pauline pela mão e, ao pegarmos outro táxi, começamos a nos

beijar loucamente. Ela enfia a mão na minha calça na maior cara de pau e eu permito, mesmo podendo ser pego pelo taxista. Não penso em nada, não quero saber se o mundo inteiro puder nos assistir, como em Bento Gonçalves. Só preciso saciar o meu desejo por esta mulher incrível, dona dos meus sonhos e culpada pelas maiores loucuras que já cometi na vida. Acho que nem ela se importa com a exposição — e isso não me admira nada —, pois não descansa até me deixar completamente duro. Percebo-a desabotoando a minha calça e olho para frente, a fim de conferir se estamos mesmo passando despercebidos. O taxista está observando a pista, parecendo alheio aos nossos movimentos ousados. Meu membro é posto para fora e Pauline se curva, como a louca que é, para abocanhá-lo. Prendo os lábios e mordo a língua para abafar um gemido. Minha respiração falha diversas vezes e me controlo, porém o silêncio dentro do veículo acaba sendo rompido pelo ruído da boca dela em mim. O taxista olha pelo retrovisor, estarrecido. Droga! Puta que pariu, que loucura é essa? Tento fazer cara de

paisagem, disfarçando ao máximo, e o homem desvia o rosto e continua dirigindo tranquilamente. Eu quero gemer, gritar, ofegar, qualquer coisa, mas não posso e o acúmulo de excitação dentro de mim só me deixa ainda mais louco. Pauline me chupa ferozmente, acho que nem tenta disfarçar. Agarro seus cabelos e tento fazê-la ir mais devagar, só que ela não liga, continua me fodendo com a boca até quase me fazer gozar. Quando passo a tremelicar com violência, ela simplesmente me larga e volta a me beijar. Meu Deus, estou prestes a ter um trem! Ela guarda o meu sexo latejante e melado na calça, que mal o suporta sem me incomodar terrivelmente. Faço com que se sente de lado em meu colo, prosseguindo com o amasso fervoroso. Ela está com um vestido longo demais para me dar acesso, por isso me concentro apenas em seus seios arrebitados pela ausência do sutiã. Eu os sugo por cima do vestido e os aperto até dobrar o tamanho de seus bicos intumescidos. O veículo para e demoro demais a compreender que chegamos ao hotel. — Pronto, agora vocês podem fazer isso lá dentro — o taxista fala e ri ao mesmo tempo. Sinto meu rosto inteiro

esquentar de vergonha. No fim das contas, ele percebeu. — Obrigada, moço! — Pauline paga porque estou desnorteado demais para me lembrar onde enfiei a minha carteira. — Boa noite para vocês! — Vamos ter uma ótima noite sim, pode deixar. Para o senhor também! — Pauline me obriga a sair do táxi, já que quase criei raízes dentro dele. Passamos depressa pela recepção e esperamos o elevador, impacientes. Ela tampa a minha ereção com seu corpo delicado. Por causa da hora elevada, o movimento no hotel está quase nulo. Não sei se é isso que me deixa seguro para puxar Pauline pelas pernas e fazer o vestido longo subir até sua cintura quando ficamos sozinhos dentro do elevador. Eu a encosto na parede espelhada e levo uma mão ousada para o meio de suas pernas. Está tão molhada que meus dedos se lambuzam. — Eu sabia que estava sem calcinha! — grunho alto, como um animal selvagem, e me contorço todo para colocar o meu membro para fora de novo. Ela ri do meu comportamento maluco. Volto a agarrá-la pelas pernas

enquanto sinto o elevador subindo e subindo, quase chegando ao nosso andar. Se ele parar agora, ferrou tudo, não teremos tempo de consertar nada. — Vou começar aqui mesmo, Pauline. Forço meu quadril e a penetro duramente, de uma só vez. Ela grita e se contorce, acostumando-se com minha invasão repentina. Seus músculos amolecem ao meu redor, recebendo-me, abrindo espaço. Retrocedo uma vez e a penetro de novo, soltando um rosnado. Como é bom lhe pertencer de novo! Estou alucinado, fora de mim, mais uma vez, por sua causa. Acho que essa é a diferença entre o Joseph de antes e o de agora: esse cara apaixonado faz qualquer loucura por esta mulher, isso inclui sexo oral dentro de um táxi e penetração violenta em um elevador. Não minto quando digo que a quero em qualquer lugar e a qualquer hora. Meus quadris não param, continuam se chocando contra seu corpo até fazê-la gemer cada vez mais alto. Ouvimos o apito do elevador e nos sobressaltamos. Nervoso, quase derrubo a coitada no chão. As portas se abrem antes que eu possa cobrir meu sexo de novo, porém

suspiramos aliviados ao perceber que chegamos ao nosso andar e não há ninguém por perto. Nós nos encaramos e começamos a rir. — Não tem graça você me deixar maluco desse jeito, sô — falo aos risos e a puxo para fora. Encosto-a em uma parede coberta por uma tapeçaria luxuosa. — Não vamos entrar no quarto? — pergunta ainda rindo, envolvendo os braços ao redor do meu pescoço e puxando a gola da minha camisa. — Não — rosno, tirando o botão da calça e abaixando o zíper mais uma vez. Chacoalho o meu membro e viro Pauline de costas para mim. — Não vamos — murmuro em seu ouvido, puxando o vestido para cima sem o menor cuidado. — Por que não? — questiona com a voz sofrida, fina, como se fizesse o maior esforço para falar. Finalmente consigo deixar seu traseiro despido para mim. Passo meu membro entre suas nádegas, espalhando nossos líquidos lubrificantes. Eu vou tirar qualquer vestígio daquele cara de dentro da minha mulher. — Porque eu nunca experimentei essa coisa de

“perigoso é mais gostoso” — respondo com o coração agitado, antevendo o meu próximo gesto. Quando percebo que estamos lubrificados o suficiente, penetro-a por trás, em sua segunda entrada, abrindo mais um espaço só para mim. Não quero ninguém aqui de novo. Só eu tenho esse direito agora, e nem a minha consciência pode negar isso neste momento. Pauline abafa um gemido ao morder as próprias mãos, que a apoiam. — Quero sentir isso, Pauline... Quero ter medo de ser pego te comendo bem aqui. Ela se contorce e se empina mais na minha direção. Nossos corpos passam a se chocar com força depois que acelero o movimento. Uso as duas mãos para abrir suas nádegas e facilitar o meu acesso, enquanto ela não para de tentar gemer baixo para não chamar a atenção dos outros hóspedes. Minhas calças caem no chão, mas deixam a cueca me atrapalhando um pouquinho. Daqui a pouco vou ter que andar como Pauline, sem peças íntimas. O pensamento me faz rir maliciosamente, e ela, mesmo sem saber por que, começa a rir também. Ergo uma de suas pernas para o lado e Pauline se

inclina, levando um dedo ao seu sexo a fim de estimulá-lo. Os ruídos dos choques ecoam pelo corredor, e até então ninguém aparece para dizer qualquer coisa. Talvez estejamos sendo filmados. Procuro uma câmera escondida, mas não encontro nada. Contudo, um hotel deste porte certamente tem câmeras escondidas, não é possível. A possibilidade de estar sendo observado não me faz parar, apesar de sentir um pouco de vergonha e medo. Sem dúvida, o que mais sinto agora é tesão, e ele só cresce a cada estocada. — Joseph! — ela grita de repente, tremendo tanto as pernas que é difícil continuar segurando. — Argh! — Sei que está gozando maravilhosamente. Deixa a perna cair, trêmula, voltando a ficar toda empinada. Continuo com as estocadas até sentir meu próprio gozo chegando. Vou preencher essa abertura inteira para que Pauline não se esqueça de que cada orifício de seu corpo será devidamente reclamado por mim. Agarro sua cintura com força e me movimento com constância, atiçando-me, buscando meu próprio alívio. Ela está tão apertada que o movimento me causa um prazer extremoso.

— Pauline! — grito e sinto meu membro convulsionando, liberando meu gozo. Ela responde com um arquejo sem sentido para nós dois. Eu a faço se encostar ao meu peito, abraçando-a por trás sem nos desencaixar. — Agora, podemos entrar. Minha linda menina gargalha ensandecida, do jeito que só ela faz. Eu levanto minhas calças, mas não a fecho de novo. Não precisa. Seu vestido escorre para o chão conforme ela fica ereta. Guio-a até o nosso quarto e não deixo que se separe de mim, como acho que pensou em fazer ao caminhar para o banheiro. — Ei, espere... — Puxo sua mão e a trago de volta para perto. — Não terminei contigo. — Como não, Joseph? — Sua expressão é tão confusa que ela ri. Observa meu membro amolecido e melecado de gozo, acho que se perguntando se vai subir de novo. Eu, particularmente, acho que não. Minhas bolas estão doloridas desde ontem. Só que não significa que devemos parar. Antes de lhe dar qualquer resposta, seguro-a em meus braços, sob suas risadas, e a levo até a cama enorme

de casal que nos espera. É lá que a deixo completamente nua em meio a beijos e carícias quentes, suaves, diferente do jeito agressivo como a tratei no corredor. Ela também me despe, jogando cada peça de minhas roupas em um lado diferente do quarto, mas guardando meus óculos no criado-mudo. Nós nos beijamos intensamente, com os corpos unidos sem nada separando. Faço questão de ficar por cima porque quero cobri-la inteira com o meu amor. Beijo seu rosto e depois faço uma trilha de beijinhos curtos até o meio de suas pernas. É aqui que quero tirar qualquer gosto da minha língua para deixar apenas o dela. Pauline está receptiva, com as pernas abertas e esperando ansiosamente pela minha boca. Eu paro para olhá-la um pouco, admirando sua beleza e o tamanho do sentimento que mal cabe em mim. — No que está pensando, anjo? — pergunta em um murmúrio. Reflito antes de responder, pois a verdade é que estou pensando no quanto a amo. — Que eu vou te fazer gozar muito agora — falo, desistindo do desabafo fora de hora. Pauline ri, mas para

quando eu caio de boca em seu sexo melado. Chupo-a do jeito que aprendi a fazer com ela. Eu não sei fazer diferente, embora tente e redescubra novos movimentos mediante seus gemidos aumentam ou diminuem. Tenho muito tempo para testar tudo. Pauline goza uma, duas, três vezes na minha língua, porém não estou a fim de parar até que diga que não aguenta outro orgasmo. Eu nunca mais quero ficar sem fazer sexo com ela porque me acho ruim nisso. Vivi o pior pesadelo por fazer suposições errôneas, portanto, vou me esbaldar em seu gozo sem cansar, até me faltar ar e minhas bochechas arderem. — Joseph... — ela arqueja e se contorce após o quarto êxtase. Ergo a cabeça e a observo, curioso. — Quando você vai parar? — Está ruim? — Ergo uma sobrancelha. — De modo algum! Só estou curiosa. — Somente quando você se cansar, uai. — Lambo os lábios. Ela segura meus cabelos com as duas mãos, ainda com as pernas abertas diante de mim. — Eu estava esperando que você se cansasse! —

Começa a rir sozinha. — Meu Deus, não acredito! Não aguento mais gozar! Começo a rir também. Ofereço-lhe um último beijo no ponto mais sensível e me esgueiro ao seu lado, fazendo-a terminar com a cabeça em meu peito. Cruzamos nossas pernas e assim permanecemos até cairmos no sono. Eu me sinto meio sujo, todo suado, mas não estou a fim de tirar seu cheiro de mim nem tão cedo, por isso me deixo ficar na cama até o amanhecer, que descobri ser mais lindo quando estou ao seu lado. Nosso passeio, logo pela manhã, é no famoso jardim botânico de Curitiba. O trecho estava no itinerário de Pauline, mas ela tinha deixado para o fim da viagem. Achei por bem irmos logo, já que estamos no sul, por isso que fiz a sugestão. Nós dois ficamos encantados com a imensa estufa de vidro e ferro, com três abóbadas gloriosas, que se apresenta em um dos extremos. Tiramos muitas fotos em todas as partes do jardim: os chafarizes, as árvores magníficas e os inúmeros exemplares vegetais distribuídos em alamedas. Pauline faz um monte de postagens em suas redes

sociais, empolgada e com os olhos brilhando. Estou tão maravilhado que tiro muitas fotos também, usando o meu próprio celular. Quero guardar de lembrança esse cenário maravilhoso. Além disso, quero sempre me lembrar deste dia como o primeiro em que estou nesta viagem sabendo exatamente quem sou, o que quero e o que pretendo fazer da minha vida. — Uhuuuuul! — Pauline, do nada, saltita no caminho aberto entre flores e arbustos. Aproveito para tirar várias fotos de sua animação, sobretudo de seu sorriso amplo. Também quero guardá-la para sempre em minha memória, tanto física quanto digital. — É lindo demais aqui! Sinto uma gota de água cair bem na minha cabeça. Desvio os olhos do meu celular, que ainda está apontado para ela, e olho para o céu. Está cheio de nuvens escuras, indicando que a chuva está próxima. Observo Pauline ao longe. — Vai chover! — grito, guardando o aparelho no meu bolso para não molhar. Pauline para de saltitar e observa o céu também. Sinto mais uma gota cair, desta vez nas minhas costas.

Uma brisa fria passa por mim na maior velocidade, e então mais pingos começam a cair do céu. Não vai ser uma chuvinha besta qualquer, de jeito nenhum. De repente, uma ideia me assalta, deixando-me animado e agradecido por tamanha sorte. O Destino só pode estar ao meu favor, não é possível! — Vem, Pauline! — chamo, mas ao mesmo tempo corro até ela. Minha linda menina saltita, fazendo o percurso inverso. Mais gotas caem sem parar, agora começou a chover de verdade e, se não sairmos daqui logo, vamos ficar ensopados. Eu a alcanço e a abraço forte, ainda sem acreditar na oportunidade bem diante de mim. Agarro seu rosto com as duas mãos e a olho fixamente, arfando. A chuva se intensifica a tal ponto que os pingos doem ao se chocarem em nossos corpos. — Vamos tomar um banho de chuva! — ela grita alto. — Adoro! — Então, vamos ficar bem aqui! — berro de volta. Ela gargalha, feliz, jogando a cabeça para trás e recebendo as gotas no rosto. Nunca vi nada mais lindo em

toda a minha vida, apesar de estar com os óculos bem embaçados. — Você ficou maluco, Joseph! — continua rindo deliciosamente, mas não me larga e nem tenta escapar da tempestade. — E se pegar uma gripe? — Eu apenas a encaro, sorrindo, deslumbrado e plantado no chão. A chuva não nos espera e nos molhamos cada vez mais. Perfeito! Quero fazer isso totalmente ensopado. Vejo que as roupas dela estão molhadas o bastante para colarem em seu corpo curvilíneo e sedutor. É tentação demais para eu continuar a mantendo em meus braços sem fazer nada. Finalmente, sigo adiante. Puxo seu braço e a inclino para o lado, afundando minha boca na sua sem demora. Pauline pestaneja um pouco, mas logo passa a me beijar ardentemente, enrolando os braços em meu pescoço. A água abençoa o nosso beijo sem culpa, e eu me regozijo com a ideia de que ela nunca tinha beijado alguém na chuva antes de mim. É bom demais poder marcá-la como a tatuagem que fizemos. Quero deixar meus rastros em sua vida até que Pauline entenda que eu não posso mais sair

dela.

Capítulo 34

Pauline

“O Rio de Janeiro continua lindo” Eu queria poder eternizar esse momento em uma foto, em um filme, em um microchip, sei lá, e reproduzi-lo infinitas vezes depois, sem nunca cansar de revivê-lo. Mas nem um deles seria suficiente para armazenar a quantidade de sensações que meu primeiro beijo na chuva causa dentro de mim. Joseph, meu anjo, que caiu do céu na minha frente em um dia como esse, preenche todos os pequenos buracos em minha vida, que foram deixados abertos ao longo de meus quase trinta anos, calafetando-os com sua bondade despretensiosa. Cada gesto dele para mim, ou para os outros, só me torna mais apaixonada por ele, mesmo que eu saiba que

Joseph não tenha intenção de me conquistar. Apenas seu sorriso de menino já é capaz de descompassar meu coração, como não me render completamente à tamanha gentileza, oferecida de maneira natural e com o coração puro? Fico dividida entre a pressa que esse amor tem de viver o momento intensamente, engolindo de uma vez até a última gota, e a minha racionalidade, que me lembra a todo instante que preciso ir mais devagar. Eu não quero que o tempo que tenho com Joseph acabe logo, por isso, fico tentada a prolongar nossa estadia em Curitiba, na cama do hotel onde estamos hospedados, e na qual transamos até o sol raiar. Vê-lo nascer da janela enorme do quarto, aquecendo preguiçosamente nossas peles nuas e enroscadas, redefine a palavra perfeição. — Ainda está acordada, linda menina? — Joseph sussurra, com aquele sotaque mineirinho delicioso de escutar. — Estou, anjo, fiquei vendo o amanhecer. Ele me aperta mais em seus braços, respirando fundo o perfume de meus cabelos.

— Eu estou preocupado com a fortuna que vamos gastar para tirar o conversível do pátio da polícia. Entre tantas coisas que Joseph podia me dizer nesse instante mágico, ele simplesmente escolhe a única capaz de quebrar todo o encanto. Eu realmente não ligo para o dinheiro, mesmo que cada centavo gasto depois seja revertido em doações, como acordamos. Consumir despreocupadamente é até uma coisa boa, nesse caso. O que me dói mesmo é meu lindo Porsche estar apreendido e eu não poder mais pilotá-lo por causa de uma burrada sem tamanho que cometi. Então, para quê tirá-lo de lá? Só para me deixar com vontade? Fico chateada e com gana de mandá-lo calar a boca e dormir de uma vez, mas não o faço. Meu anjo é um cara certinho e, entre tantas qualidades que ele possui, essa é uma que eu admiro e respeito. — Vou resolver isso assim que eu acordar — digo por dizer, desanimada. — Eu te ajudo. Acho que antes de irmos para o próximo destino, é melhor voltarmos à Brasília e colocarmos tudo em ordem pessoalmente.

— Está bem, Joseph. — Fecho os olhos e decido dormir. O silêncio dura somente o tempo do meu suspiro. — Uai, o que foi, linda? — Ele já me conhece tanto assim que percebeu a mudança em meu humor? — Nada — respondo sem abrir os olhos. Sua palma quente aquece meu braço em uma carícia aconchegante. — Prometemos sermos francos um com o outro, não foi? — Foi. — Respiro fundo de novo. — Desculpe, eu só me lembrei daquela noite. A noite em que descobri que estava apaixonada pelo cara errado, ou seria o certo? — Vamos mudar o roteiro, Pauline! — propõe em uma empolgação que parece a minha antiga eu. Joseph me faz virar de frente para ele. — Para onde você quer ir agora? Sua tentativa de me alegrar funciona. Eu penso nos vários destinos da lista e me decido por um lugar fabuloso, pelo qual eu já passei, mas não desbravei tudo o

que podia. — Rio de Janeiro! — respondo, contagiada por sua animação. — Ainda não fui a um baile funk na favela. Seu sorriso murcha e o Joseph sério e compenetrado retorna para me fazer recordar do início dessa viagem. — Não sei se eu quero ir a um trem desses. Percebo mais medo do que receio por ser um tipo de festa que ele não frequentaria antes de me conhecer, em hipótese alguma. Pessoas de cidade pequena têm pavor da violência das grandes metrópoles, mas eu estou acostumada e vou levá-lo, sim. — Ah! Você vai, Joseph, porque visitar a cidade e não subir em um morro é o mesmo que não ir ao Rio! — exclamo, gargalhando de seu terror. Sua expressão é uma careta bem engraçada, me fazendo rolar de rir sobre o colchão. — Você tem cada ideia, sô, não sei por que ainda me surpreendo. — Que bom! Adoro surpreender e ser surpreendida — confesso, laçando seu pescoço com as mãos e seu quadril com as pernas.

Seu sorriso volta com força total e seus braços envolvem minha cintura em uma carícia que liga todas as terminações nervosas do meu corpo. — Bom saber — retruca de maneira maliciosa e me beija, daquele jeito sublime que me tira da realidade e me joga na ilusão de ser correspondida. Não me importo de sonhar, mesmo que acordar desse sonho, um dia, possa me fazer sofrer. Vou resumir nossa passagem por Brasília porque estou ansiosa demais para chegar ao Rio de Janeiro. É a maior chatice. Pagamos as diárias no pátio da polícia e Joseph guia meu lindo conversível até a nossa casa, com a capota baixada para me agradar. A casa está cheirosa e arrumada, muito diferente de como a deixamos. Passamos a noite nela e bagunçamos tudo de novo. Dessa vez, a gente se refestela no sofá, assistindo a filmes, comendo pipoca e transando, claro! A sala de estar era o único cômodo onde ainda não tínhamos feito sexo. Pela manhã, trocamos as roupas sujas nas mochilas por limpas e pegamos um voo direto para a Cidade Maravilhosa. Da janela, enquanto o avião faz a curva para pousar

no Aeroporto Santos Dumont, já temos uma privilegiada vista aérea da Baía de Guanabara, da famosa Ponte RioNiterói e do morro do Pão de Açúcar. Do outro lado da imensa baía, o Corcovado se perde entre as nuvens do tempo nublado, que deve ter subido de Curitiba para cá, por isso não dá pra ver o Cristo Redentor. Que droga! Sol, seu lindo, volta pra gente poder fazer esse passeio! Em Brasília não estava chovendo. Não vou deixar nada atrapalhar essa aventura, por isso, desembarco saltitando pelo saguão atrás de um táxi, falando sem parar de todos os lugares que temos que visitar. — Tem que dar tempo de vermos tudo, Joseph, nem que a gente estenda a estadia aqui! Uhuuulllll! O medroso quase teve um treco quando o avião freou com tudo para não bater nas instalações do aeroporto. A pista de pouso é muito curta. — Nuss, você queria mesmo vir pra cá! — O Rio é um dos meus destinos mais desejados do itinerário. — Por que adiou tanto, então? Dou de ombros.

— Não sei, acho que me deslumbrei com os lugares inóspitos que eu ainda não conhecia. — Joseph ri ao meu lado, sei lá de quê. — O que é tão engraçado? — pergunto sem entender bulhufas. — Esse trem de “inóspitos”. Nunca vi ninguém falar assim além de você! Ele se curva, rindo de mim, e eu ficaria brava se não fosse o ineditismo desse momento. Joseph gargalhando é uma das sete maravilhas do mundo! — Vou te dar outra palavra, anjo: inverossímil! — Ponho as mãos nos quadris e me finjo de chateada. — Não acredito que você está tirando onda com a minha cara porque eu sou fã de clássicos da literatura nacional e, por isso, tenho um vocabulário rebuscado. — Rebuscado? — gargalha mais, tentando se erguer, apoiando-se em meu ombro. — Pauline, me desculpe, mas você é inacreditável! — Nem vem que eu usei o significado dessa palavra primeiro, senhor certinho. Agora faz o favor de parar com a palhaçada e chamar logo um táxi. Estamos perdendo tempo precioso. Quero me jogar nos braços de Cristo!

Piada infame contra piada infame. Pronto! Joseph para de rir. A gente se encara por um minuto inteiro, um desafiando o outro a desviar os olhos ou a dizer alguma coisa. Nada acontece. Minha mente está em branco e eu sinto que peguei pesado. Bem, era brincadeira, ainda que eu tenha ficado um pouquinho brava, sim. Engulo em seco e decido tomar uma atitude. — Desculpe, anjo, foi uma coisa idiota de dizer. — Faço uma careta esquisita e olho em torno, procurando por um taxista disponível. Joseph silva, atraindo minha atenção. Passa as mãos pelos cabelos daquela maneira que bagunça tudo, e me olha profundamente, ainda que muito aborrecido. — A culpa é minha, eu ri de você primeiro. Sinto muito, linda menina. Estreito o espaço entre nós, abraçando sua cintura. — Prometo não fazer mais isso, lindo. Sua mão espalma minha cabeça, em uma carícia lenta e aconchegante. — Eu também, sô. Mais um aprendizado nesse relacionamento torto que

a gente tem. Dou um selinho em seus lábios, me esticando na ponta dos pés. — Estou perdoada? Seu sorriso de canto é tão discreto quanto ele. — Só se eu também estiver. — Então, vamos ficar bem! — enfatizo, puxando-o para o primeiro táxi que avisto, finalmente. O taxista pergunta o destino e escolho o mais próximo que não será prejudicado pela garoa. — Para praia do Botafogo, moço! Ele ri e segue para o lugar. Pegamos certo trânsito porque estamos na região central da cidade e está bem movimentado a essa hora da manhã, mas não ligamos. A gente olha, fascinados, pela janela. Em vez de cada um estar na sua, Joseph me espreme contra a porta, do meu lado, para poder enxergar por trás de mim. Dou risada, adorando o contato de seu corpo às minhas costas. E em uma brincadeira ousada, ele me põe sentada em seu colo, para poder grudar a cara no vidro, me abraçando de maneira protetora e carinhosa. O carro faz o percurso em um ritmo lento por causa do engarrafamento, nos dando tempo para ver tudo à distância.

— Fascinante! — Joseph declara, momentaneamente emudecido pela beleza do lugar, ainda mais porque o sol resolve despontar entre as nuvens devagarzinho, refletindo alguns raios no mar, e uma brisa sopra, talvez para levar consigo a chuva. — É muito lindo, não é? — Demais! — E você estava com medo de vir. — Solto uma risadinha. — Não era medo, eu só estava um pouquinho preocupado. O taxista aproveita a deixa para puxar assunto. Uma coisa que não posso reclamar do povo carioca: eles são animados e bons anfitriões. Gostam muito de uma prosa, assim como eu. Ele se transforma em nosso guia turístico e aproveito para informá-lo de minha lista de lugares a conhecer. O cara, que não é besta, se prontifica a nos levar a todos, mas nos aconselha a deixar o Cristo e o bondinho do Pão de Açúcar para depois do almoço, vai que o tempo abre? Por causa das tatuagens, a gente não pode entrar no

mar, por risco de contaminar o “machucado” em processo de cura, mas nós vamos pisar na areia. Assim que o veículo para, tiro os sapatos, abro a porta e puxo Joseph pela mão até que saltamos na água rasa. Na baía, centena de iates, do clube da cidade, criam pontos brancos na água azul. Joseph me pega nos braços e me gira, nos derrubando sobre a areia. Olha intensamente para mim, rindo um pouco, mas logo seus olhos encontram minha boca e ele me beija, de maneira tão profunda como seu olhar me alcança. Sem fôlego, encosta nossas testas e sua voz sai em tom de confissão. — Eu nunca — enfatiza a palavra, que se tornou proibida desde que tatuamos “eu sempre” na pele, para nos recordarmos de nos permitir — me senti tão livre quanto ao seu lado, Pauline, aqui e agora. Eu podia dizer exatamente o contrário, que nunca me senti tão presa a alguém, em um sorriso, nele... Porém, decido que a única resposta viável é um sorriso amplo e sincero. Afinal, aos pouquinhos, estou dando uma parte muito importante de mim para esse homem e ele está feliz em recebê-la.

Cheios de areia, voltamos ao táxi, onde nosso motorista sorri de nossa diversão desmedida. A caminho da Barra da Tijuca, um dos bairros nobres do Rio, passamos pelo Estádio do Maracanã e fico só na vontade de tirar muitas selfies no Museu do Futebol e na Calçada da Fama. A orla da Barra é a coisa mais linda que já vi. Não vamos à praia dessa vez. Percebo que a Pedra da Gávea desponta entre as nuvens que estão cada vez mais esparsas e sugiro que a gente almoce em um dos muitos shoppings do bairro. O taxista fica um pouco desapontado por ter que nos deixar. Paciência, meu filho, a fila tem que andar. Joseph e eu comemos bastante, bem diferente dos dias anteriores que nem um dos dois parecia muito interessado. A fim de fazer a digestão, a gente caminha, de mãos dadas, até o New York City Center, que fica dentro do complexo do shopping, e tiramos fotos da réplica da estátua da liberdade na fachada do prédio. Entramos só para dar uma olhada nas lojas, mas logo saímos e percebemos o sol de rachar o coco que saiu enquanto andávamos à toa. Pegamos outro táxi, animados pelo

passeio mais importante do dia. O Cristo Redentor fica sobre o morro do Corcovado, no Parque Nacional da Tijuca, e foi eleito uma das sete maravilhas do mundo. Compramos os ingressos na hora, pegamos uma pequena van até o topo do morro e partimos para as escadas rolantes. Eu me divirto horrores! Joseph está ansioso demais, colado em mim de um jeito delicioso. Quando finalmente chegamos à estátua, ele se solta, faz o sinal da cruz e fica silencioso, tentando olhar para o rosto do Cristo lá em cimão. Fico assistindo o encontro de meu anjo e seu Deus, em silêncio absoluto. Não existe nada que me chame mais atenção nesse momento do que a devoção de Joseph diante do Redentor. Sinto um arrepio na pele, uma brisa fresca me toca como um carinho de Deus. Eu me sinto grata, abençoada e agradecida por receber tantas bênçãos, inclusive esse mineirinho maravilhoso que Ele colocou no meu caminho. Faço uma prece também, agradecendo por Ele estar cuidando de nós, mesmo quando eu não mereço e apronto todas.

Joseph se junta a mim depois de um tempo, meio sem graça, talvez por ter se deixado levar por suas crenças, mas eu realmente não me importo e o recebo com um sorriso imenso de admiração e respeito. A gente encosta no muro de proteção e faz a famosa pose de braços abertos para registrarmos em fotos esse momento glorioso, que vão para as redes sociais, evidentemente! Em meio ao engarrafamento da metrópole, voltamos às imediações da Baía de Guanabara, no bairro da Urca, somente no fim da tarde. Pagamos a entrada e subimos no bondinho, na estação inicial que nos leva ao morro da Urca em apenas três minutos, mas a vista vale muito a pena. No entanto, a segunda linha nos deixa no almejado pico do Pão de Açúcar, que nos coloca bem no centro da baía, onde podemos ver Rio e Niterói inteirinhos. Uau! Joseph aperta minha mão toda vez que o teleférico antigo, com quase cem anos de uso, balança ou estala, em seu eterno medo de altura, mas não reclama, nem diz nada. Ele está tão embasbacado quanto eu com o cartão postal ao vivo e a cores que estamos registrando em nossa memória. O sol se põe atrás da cidade, que abraça a baía como

uma mãe aninhando um filho para dormir. Temos uma vista espetacular da luz amarelando o Corcovado, e a iluminação colorida do Cristo se torna cada vez mais forte, conforme a noite cai sobre nós. Aos poucos, as luzes da civilização também se misturam ao cenário, criando veios e formas na escuridão que chega depressa. Perco o fôlego de novo, deixando-me aquecer no calor do corpo de Joseph. Sem ele aqui, esse momento não seria tão perfeito. Quando o laranja finalmente dá lugar ao azulescuro, ele suspira atrás de mim e eu me viro para olhar seu rosto, protegida pelo arco de seus braços. — Cansado? — Maravilhado! Você me proporciona os momentos mais inesquecíveis, Pauline. — Então não se esqueça disso também — sorrio, feliz da vida, e lhe beijo a boca de maneira faminta e apaixonada. Eu queria poder dizer o que sinto em palavras, mas demonstro em gestos. Alguém bem que podia nos fotografar ou filmar agora e depois nos espalhar pelas redes sociais só para eu poder ver depois. Na verdade,

gostaria que todo mundo pudesse saber, inclusive Joseph, que eu o amo. Tenho vontade de gritar seu nome para que ele dure para sempre e para que todos saibam do meu amor. Depois do passeio no Pão de Açúcar, a gente vai para o Copacabana Palace, porque sim! Rá-rá-rá! A gente entra como dois mochileiros sem grana, suados, cansados e de jeans e camiseta, porém somos reconhecidos no saguão do hotel lotado e superbem atendidos. O concierg nos guia a uma das melhores suítes presidenciais, com uma vista fabulosa para a cidade, daqueles balcões de onde cansei de ver celebridades acenarem. Eu me dirijo até a varanda e encaro o mundo, segurando a vontade de gritar meu jargão que viralizou na rede. — Uhuuuullllll! — berro sem conseguir me conter. — Gente, eu estou no Copacabana Palaaaaaaaaaaaaaaaceeeeeeeeeeeeee! — Pauline! — alguém grita lá embaixo. Paro de me deliciar com a vista e confiro uma turminha jovem confabulando na calçada larga em frente ao hotel.

— Chupa, mundo! — outro berra, gargalhando. Eu rio. Céus! Fãs aqui no Rio também? Eu estou bem na fita! — A gente não pode tirar uma selfie com você? — pede uma garota. — É claro, vou descer já! — grito de volta. Aviso ao Joseph o que vou fazer e ele apenas sorri, se recusando a me acompanhar. Não ligo porque sei que ele evita exposição, mas eu estou achando esse lance um máximo! Tiro muitas selfies em grupo e individuais, que eles postam na hora e me marcam. Pedem para eu autografar as camisetas deles e eu escrevo “hashtag chupa, mundo” antes de assinar. Uma das meninas pergunta por que Joseph não desceu e, antes que eu possa dizer alguma coisa, ela o chama aos berros, na maior intimidade, me deixando desorientada. Puta merda! Quem essa garota pensa que é para falar com meu homem? Para meu desespero, as outras iniciam um coro, até que o inocente resolve aparecer na janela, espiando com receio. As meninas vão à loucura, chamando-o de gostoso e tesudo. Meu Deus!

Sem graça e vermelho feito uma pimenta, Joseph desaparece de vista. Affe! Tenha santa paciência! Essas adolescentes e seus hormônios, tsc, tsc, tsc. Deixo passar batido, porque espancar menor de idade dá cadeia. Satisfeitos de me bajular, eles me deixam, gratos e felizes, e eu fico muito mais pela fama que veio a mim sem querer. É tanto amor que eu recebo de gente estranha que é impossível achar isso tudo algo ruim. Joseph é preocupado demais! Ao retornar à suíte, meu anjo me surpreende ao solicitar que preparassem um jantar reservado, que será trazido para a suíte, onde poderemos curtir nossa privacidade e o luxo do quarto que nosso rico dinheirinho pode pagar. Eu me sinto aconchegada, cada vez mais próxima desse cara, que faz de tudo para me ver bem. Como não amá-lo? Enquanto aguardamos a comida ficar pronta, curtimos um banho de banheira, cheio de afagos, regado ao melhor champanhe do hotel. Sou tratada como uma princesa, sendo cuidada, amada e protegida. Facilmente, Joseph escorrega para dentro de mim imerso na água da enorme

banheira, ocupando um espaço no meu corpo que já lhe pertence e intensificando o momento. Nosso jantar é à luz de velas e o cardápio, digno de um rei. Ele não economizou em nada. A música ambiente torna tudo mais do que perfeito. Ao final, embolados no meio da sala, dançamos agarradinhos. Eu me sinto tão energizada e acesa que tenho vontade de sair pela rua, pulando e requebrando. — O baile funk! — exclamo, consciente, de repente, de que a noite carioca é nossa! — Pauline! — Joseph reclama quando desencosto de seu peito e começo a saltitar pelo amplo espaço, inquieta. — Volte aqui. — Vista uma bermuda, anjo, a gente vai pra Rocinha! Imediatamente, fico pilhada, correndo pela suíte atrás das minhas coisas, como se elas estivessem espalhadas ou eu nem soubesse onde estão. Tiro a roupa simples e boto um vestido de noite sexy, curto e decotado, do jeitinho que eu gosto de usar de vez em quando. Não sei qual o nipe do lugar, mas um pretinho básico nunca erra. A contragosto, Joseph me atende, percebo que não concorda por seu

silêncio, mas eu já havia dito que a gente ia. Saio do hotel agarrada ao smartphone, à procura de um baile. Não importa o dia da semana, sempre tem um rolando no Rio de Janeiro. Encontro um grupo de funkeiros da maior favela do Rio no Facebook, enquanto oriento o taxista a nos levar, primeiro, a um caixa eletrônico. Melhor estamos com dinheiro vivo por lá. Faço uma pesquisa e descubro o local onde a festa já está rolando. Entre um comentário e outro de pessoas muito simpáticas, consigo orientação de como chegar em segurança. Joseph saca a grana e eu converso com o taxista, tentando explicar nosso destino diante das informações que colhi. Para minha sorte, o motorista diz que conhece porque já levou muita gente pra lá, mas faz uns seis meses que não pega esse trajeto. Fico receosa, mas ele garante que ainda se lembra. Quando meu anjo volta, rumamos para São Conrado, que fica muito perto de Copa, só precisamos passar por Leblon. Da avenida dá pra ver a impressionante aglomeração de casinhas coloridas no morro — na verdade, se vê à

distância a quantidade infinita de luzes —, mas assim, de baixo, é mais impactante. O táxi embica numa entrada quase invisível e Joseph e eu grudamos na janela para não perder o cenário louco que se recebe ao adentrar em uma comunidade como essa. A rua única é asfaltada e faz muitas curvas durante a subida. O trânsito está tranquilo, mas volta e meia aparece outro veículo, seja atrás, na frente, ou em direção oposta. O que mais se nota são as motos. Andamos pelo que parece a Rocinha inteira até que o automóvel finalmente para diante de um lugar com som alto, mas, por fora, parece só um barraco maior que os outros. Pagamos a corrida e saltamos. Joseph anota o celular do homem e combina a volta com ele. Não há ninguém na entrada, quero dizer, para controlar quem entra ou sai, então a gente ultrapassa o portão aberto. Descemos uma escada e seguimos a música, porque está bastante escuro. Há luzes coloridas giratórias que pouco iluminam, mas nos levam a uma pista de dança, onde a galera já se esfrega e desce até o chão ao som do MC. Que loucura! Essa balada promete ficar na história das baladas que

fervem! Começo a me mexer igual às minas ao meu redor. Eu enlouqueço e me empolgo, emparelhando com elas e quicando, agachada, segurando a barra do vestido nas mãos para não mostrar mais do que devo. Elas movem os quadris de um jeito muito doido! Para dentro e para fora, para dentro e para fora, essa sou eu tentando imitá-las. No palco, as dançarinas se insinuam, arrebitam e tremelicam o popozão — ou a dita cuja! — na cara dos manos que ficam embaixo, babando. Meu Deus, vou endoidar com isso aqui! Puro tesão intoxica o ar. Estou precisando me esfregar no pauzão do Joseph! Eu o encontro emburrado em um canto, bem distante do esfrega-esfrega. Tento me aproximar, mas ele gira o corpo, me afastando. O barulho é tão alto que não vai rolar uma conversa, muito menos uma briga, porque se ele não melhorar essa cara, eu juro que começo uma fácil. Affe! Tudo bem, eu fiz merda! Jogo as mãos para o alto para que veja minha frustração. Não devia tê-lo deixado para dançar com estranhos, mas ele nem dança! Os passinhos que a gente

deu na sala foram fofos, mas nem chegou perto de dançar de verdade. Está bem, vou resolver isso. Respiro fundo e me aproximo de novo, para falar ao seu ouvido: — Joseph, desculpa, mas eu pirei com isso aqui, é tudo novidade pra mim. Não justifica, mas você também não precisa ficar desse jeito. Eu estou aqui agora e não quero desgrudar de você, então, faz o favor de engolir esse bico?! Eu o encaro de perto e ele respira forte depois de lamber os lábios de maneira sedutora. — Tudo bem, Pauline, mas me promete que não vamos ficar muito tempo nesse... trem. Caio na gargalhada, deixando meu lado espirituoso brincar e rir da tensão que dele emana. — Não é um trem, é um baile funk, o primeiro, e pelo jeito o último, da sua vida. — Eu me aproximo tanto que nossas bocas quase se encostam. — Aproveita, Joseph, por favor! Ele concorda com a cabeça e eu avisto o bar, para onde o arrasto. Não largo sua mão por nada nesse mundo. Pego nossas bebidas, só tem cerveja e refrigerante, e

Joseph aceita a Coca-Cola. Rio dele, dançando à sua volta e me esfregando, porque esse sempre foi meu intuito, meu bem. Meu anjo fica parado, mas com os olhos vidrados em mim. Assim como eu, não para de me tocar, nem que seja de leve. Eu me sinto bem, como se ele me reivindicasse diante do baile todo. Então, o Destino resolve me ajudar de novo, e “Na Batida”, da minha diva Anitta, começa a tocar. EU SEI A COREOGRAFIA TODA! AH!!! Essa é a minha música e mais perfeita para o momento não existe! Eu me posiciono bem na frente do meu gato, a um braço de distância para não acertá-lo, mantendo meu olhar safadinho fixo no dele. Receoso, mas curioso, Joseph apenas me olha de volta, esperando. Rebolo, jogando a perna para o lado, e a saia dá uma erguida. Canto junto e bem alto, principalmente o refrão, para que ele entenda a mensagem direta. Eu quero me divertir, mas ele tem que fazer isso comigo. — Se pensou que ia desistir, não precisa se iludir, não sou daquelas que pedem pra parar, pra parar — canto fazendo sinal para ele. Fico de ladinho, deixando que Joseph veja meu perfil

requebrando de um lado, depois do outro, conforme o ritmo da música cresce. Então viro de costas e agito meu bumbum em sua direção, apoiando as mãos no joelho, feito uma funkeira. — Na batida é que eu fico sem pensar, tá na pista, fica aqui o meu lugar. Na batida nem adianta tentar, aqui é o meu lugar, aqui é o meu lugar. — Essa é minha parte favorita! Eu deslizo até Joseph, no passo da música, e ficamos cara a cara, mas seus olhos se prendem no meu corpo quando começo a me mexer de um jeito louco, descendo e subindo, empinando a bunda e esfregando-me nele “sem querer”. Mas, quando ele se estica para me agarrar, eu esnobo, segundo o passo da coreografia, e volto a ficar a um braço de distância, casando certinho com o final do refrão, que toca duas vezes antes de começar a repetir do começo. — E depois que começar não se arrepende e depois que me atiçar não adianta mais, quando me atiçar não adianta mais. Quando me mexer, vai ver quem vai perder. Joseph está boquiaberto, os olhos vidrados em mim,

e me sinto de novo sob minha pele, seduzindo: o que faço de melhor. Será que tem alguma chance de eu conseguir ganhar o coração deste homem? Sei que sexo não basta e, enquanto requebro feito a Anitta, simplesmente me questiono o que eu poderia fazer para tê-lo só para mim. É nesse momento que me lembro de tudo o que ele tem feito por mim desde o jogo do “Eu Nunca”. Eu havia me prometido dar a ele todas as suas primeiras vezes, mas, em algum momento, me perdi em meus próprios sentimentos e me esqueci do nosso primeiro jogo revelador. Está na hora de retornar. Peço para que me espere e dou uma andada até encontrar alguém vendendo o que quero. Conheço os tipos só de olhar na cara. O mano tem de tudo, mas decido por algo leve, afinal, meu objetivo é só fazer Joseph provar uma vez na vida, por isso compro maconha suficiente para dois baseados. É claro que vou fumar um beque também, com moderação e responsabilidade desta vez. Nada de exageros. Volto para perto de Joseph e o chamo para uma área menos movimentada e aberta. Ele fica sem entender até me ver enrolar, com cuspe, a maconha no papel.

— O que é isso? Onde foi que você arrumou esse trem? — diz, tentando tomar a erva da minha mão. Consigo salvá-la, desviando-me. — Não é trem, eu já falei, é ma... — Eu sei o que é, Pauline! — rebate quase sem sotaque, para meu total espanto. — Uai, sô! — solto de maneira automática, surpresa com seu jeito. — É só para você provar, lembra que... — Aqui? — Sua voz sobe alguns decibéis na última sílaba. Dou de ombros. — Onde mais? Quer levar pro hotel? — Se for pra provar essa coisa, melhor que seja escondido e em um lugar seguro. Uma luz esquisita, azulada, sobe a rua e fico tentando entender o que é. Joseph fica assustado, será que acredita ser a bandidagem? Mas a comunidade foi pacificada há alguns anos! No desespero, ele agarra meu pulso com uma mão e rouba a droga com a outra, escondendo dentro do bolso da bermuda. — Joseph, o que deu em você?

Então eu reconheço a sirene da polícia e a algazarra começa. É gente querendo correr para todo lado. Meu anjo não sabe o que fazer, só me tira do caminho para não sermos pisoteados na correria. Contudo, a polícia fecha o cerco pelo outro lado assim que mais uma viatura chega. Não tem como fugir, estamos cercados. Respiro fundo e relaxo. Não vai acontecer nada, não estou dirigindo, portanto, não infringi nenhuma lei. Beber ainda não é crime. Somos revistados, um por um, por isso demora pacas. Estou tranquila, mas Joseph é uma pilha de nervos do meu lado, sacudindo as mãos suadas para secá-las e trocando a posição dos pés o tempo todo. Fora a mania doentia de empurrar a armação dos óculos, mesmo quando ele não está com eles, porque resolveu usar as lentes de contato esta noite. A nossa vez finalmente chega para me tirar do tédio. Agora só quero ir para o hotel, fumar aquela maconha e transar com Joseph na suíte luxuosa. Ô, vida de rainha que eu pedi pra Deus! O policial não me apalpa muito, por questão de respeito e porque não tem uma policial

feminina por perto, então me libera logo. Fico esperando meu anjo, me lembrando que o número do taxista está no celular dele, por isso nem consigo adiantar o processo de sair deste morro. Ouço as conversas paralelas e descubro que a festa era ilegal, proibida pela prefeitura nas favelas há seis meses. Isso explica a batida inesperada. — Olha o que temos aqui! — diz o policial que revista o Joseph, chamando minha atenção. O que ele poderia estar guardando nos bolsos para fazer a polícia se interessar? — Você não sabia que porte de drogas para consumo é crime, rapá? Puta merda! Os baseados! Joseph devia ter jogado fora, merda, caralho, cacete, porra! O que foi que eu fiz? — Vamos bater um lero lá no DP, estou louco para ouvir a história que tem para me contar, figurão. Não! O cara mais certinho do universo vai ter ficha suja por minha causa? Eu tenho que fazer alguma coisa! Joseph nem retruca, apenas me lança um olhar como se me dissesse: fica calma que vai ficar tudo bem. Mas de que jeito vou ficar calma? — Seu policial — chego por trás, tocando-o —, ele

não tem culpa, a maconha é minha, fui eu que comprei. — Pauline, não precisa mentir por mim, não! — Meu anjo grita comigo na frente de todo mundo, no modo mandão que me atiça a libido, mas não agora. Quero esganá-lo. O que ele está fazendo? — Tá bem na fita, hein, garanhão? Uma cúmplice? — Não, ela não tem nada com isso, policial, pode me levar! Fico parada por um minuto inteiro, vendo-o ser algemado e levado para a viatura. Só quando o carro arranca que me dou conta de que continuo paralisada, assistindo a cena mais inacreditável da minha vida. Tiro os saltos, pergunto para alguém onde fica a maldição da delegacia e corro descalça atrás de Joseph, ignorando as pedrinhas que perfuram meus pés. Preciso salvá-lo.

Capítulo 35

Joseph

Rumo ao xilindró Sou jogado em uma viatura junto com um monte de homens suspeitos e mal-encarados, que me observam sem pausas, talvez se perguntando o que estou fazendo aqui, já que obviamente não faço parte da comunidade. Dois policiais nos ameaçam constantemente, soltando piadinhas sobre como vamos mofar na cadeia, se depender deles. O percurso até a delegacia não é tão longo assim, mas, em minha concepção, demora uma eternidade. Ainda não acredito que me meti nessa confusão toda e não tenho a mínima ideia do que fazer para me livrar disso. Eu nunca pensei que um dia fosse parar na cadeia, ainda mais por causa de drogas. Mas que grande porcaria! Minha mãe vai

me matar! Sou puxado do veículo, sem o menor cuidado, assim que estacionamos. As algemas estão muito apertadas, quase ferindo meus pulsos, mas prendo os lábios e tento suportar a dor. Estou morrendo de medo até da minha sombra, e a coisa só piora quando vejo alguns repórteres por perto. É claro que a mídia não perderia a oportunidade de cobrir o acontecimento. Para o meu maior azar, sou reconhecido por uma jornalista e muitas câmeras se viram na minha direção. Prova de que o que já é ruim pode piorar ainda mais. Os policiais, que não sabiam quem eu era, ficam surpresos e o foco passa a ser eu em questão de minutos. A outra viatura chega e mais suspeitos surgem de dentro dela. A delegacia fica confusa, repleta de gritos de ordens e ameaças. O delegado começa a fazer perguntas a todos os suspeitos, dando voz de prisão para a maioria. Parece que conseguiram prender alguns traficantes que eram procurados há algum tempo. Espero a minha vez calado, quieto, ignorando uma câmera e as perguntas que um jornalista, acho que o único autorizado a entrar na

delegacia, faz sem parar. Ele busca informações sobre a minha presença na Rocinha e o fato de eu ser um usuário de drogas. O problema é que eu não posso dizer que não sou um usuário. Do contrário, o que a polícia acharia que eu estava fazendo com aquela droga? Eu seria julgado e condenado como um traficante, o que seria bem pior. — Essa droga era sua, Joseph? O que estava fazendo aqui na Rocinha? É a sua primeira vez no Rio de Janeiro? Esperava ser pego consumindo maconha? Você é consumidor há muito tempo? O que acha que seus fãs vão achar disso? Onde está Pauline Dias? — Olho para o jornalista, me sentindo um pouco tonto por causa das inúmeras perguntas sem resposta. — Eu não sei... — murmuro fraco, finalmente respondendo a uma delas. Não saber onde Pauline está me enche de angústia. Meu Deus, deixei-a sozinha naquele lugar horrível, cheio de gente esquisita que não parava de nos encarar. Eu sabia que ir a um baile funk com Pauline não podia dar em outra coisa senão em merda. O modo como

os caras a secavam deixara óbvio para mim que em algum momento haveria confusão. Estive perto de socar as fuças de mais de uma pessoa. Mas aí a louca tinha que aparecer com aquela maconha e piorar tudo. Pauline é muito inconsequente. Poderia ser ela aqui, no meu lugar, perdendo toda a liberdade que lhe resta. Cerro os punhos, indignado, de repente me enchendo de raiva. O jornalista continua tagarelando sozinho, ajudando a deixar os meus neurônios em ebulição. Tenho vontade de socar alguém com muita força, então olho para ele com cara de poucos amigos. O homem para de fazer perguntas e entende que não vou contribuir com sua reportagem, passando a entrevistar um dos policiais. Minha careta deve estar mesmo muito horrenda. O meu ódio só aumenta a cada minuto que o delegado leva para identificar os suspeitos. Depois de meia hora de pura espera, ouço uma voz se sobressaindo de todas as outras: — Joseph! — alguém grita na entrada da delegacia. É Pauline, toda assanhada e segurando os sapatos nas mãos. — Joseph! — Corre até mim depressa e se ajoelha aos

meus pés, ofegante. — Joseph, me desculpa, eu... Ah, não! Ela não vai se incriminar aqui, agora, depois do maior esforço que fiz para assumir os riscos sozinho e preservá-la. — Cala a boca, Pauline! — grito alto, estridente, mesclando ódio e medo de vê-la se dando mal nessa história. Ela arregala os olhos e abre a boca, estupefata. — Saia daqui! — Mas... Joseph, eu... — Saia da minha frente — resmungo. — Espere lá fora. — Eu não qu... — AGORA, Pauline! — Encaro-a com seriedade e o coração batendo rápido, como um tambor. Ainda não compreendi direito porque estou tão ensandecido, acho que a adrenalina elevada e o pavor iminente me fazem perder qualquer estribeira. — Não quero você aqui. SAIA! O que eu temia acontece e a câmera é voltada para ela, bem como a atenção do maldito jornalista. Para o meu alívio, Pauline ignora as perguntas apressadas e só me

observa com os olhos marejados e uma expressão infeliz. O buraco que se forma em meu peito só por vê-la desse jeito é tão grande que apenas um milagre seria capaz de reparar esse estrago. Pauline se levanta devagar, dá as costas e sai, meio cambaleante, quase derrubando os sapatos no chão. O jornalista vai atrás dela, afinal, ela sozinha dá uma matéria muito mais interessante. Só então me dou conta que a joguei no meio dos abutres. Está cheio de câmeras e repórteres lá fora. Puta que pariu! Não dá para acreditar em como fui tão imbecil. No entanto, não tenho muito tempo para me arrepender, a minha vez de ter uma conversinha com o delegado finalmente chega. A primeira coisa que ele diz, depois de ver que minha ficha está limpa, é tão óbvia que quase respondo com grosseria: — Tu não é daqui. — Não, sou de Minas Gerais. — Prendo os lábios com força. — Tu é muito engomadinho pra tá num lugar como este. O que tá fazendo aqui?

— Minha amiga queria dançar funk — respondo seriamente, mas ele abre um sorriso e escuto um dos policiais rindo. — Tá querendo tirar uma com a minha cara? Encontraram maconha nos teus colhões, rapá. Nunca te vi por essas bandas, tu não é traficante, não. — Não, sô. Só estava experimentando. Escuto mais risadas. Sinto meu rosto se esquentar inteiro, mas desta vez é de raiva mesmo. — Experimentando? — O delegado continua, usando sotaque carioca, com ar divertido. — Maconha não serve pra nada, é o mesmo que bosta. Tu acha legal comer merda, mermão? — Não. — Tirem esse maluco da minha frente. Não vou perder meu tempo com ele. — Aponta para um policial, que logo se põe atrás de mim e me livra das algemas. — Quero que tu volte pra Minas e se lembre de nunca fazer uma merda dessa de novo, senão vai dar ruim pro teu lado, cara, entendeu direitinho? Se eu te ver por essas bandas outra vez, se considere um filho da puta fodido,

beleza? Tua sorte é que tenho peixe grandão pra fisgar hoje. — Delegado Prudêncio, mas e a mídia? — pergunta um dos policiais, parecendo preocupado. Percebo que não tem jornalistas ou câmeras por perto neste momento. — O maluco aí é daqueles famosinhos da Internet. — Dá nada não, amigo. O que ele tinha no bolso mal dá pra um traguinho. Vai ficar com faminha de maconheiro agora, só isso. — Olha-me como se eu o divertisse profundamente. — Tirem ele da minha delegacia. Sou praticamente enxotado do lugar, mas nem ligo, o importante é que me livrei da enrascada da forma menos complicada possível. Encontro Pauline encolhida, sentada em um banco perto da delegacia, sendo protegida por um policial que não deixa os repórteres alvoroçados se aproximarem dela. A bagunça é inevitável e um monte de flashes quase me deixa cego assim que reencontro a liberdade. Puxo Pauline bruscamente e abro caminho até um ponto de táxi próximo da entrada da comunidade. Enfio-nos dentro do veículo, pedindo para o motorista nos deixar no Copacabana Palace.

Penso em abraçá-la e amparar seu choro, mas me mantenho quieto e distante. Só então percebo que a raiva ainda não passou. Estou puto com Pauline e não acho certo mimá-la tão cedo, por mais que o meu coração esteja destroçado. Não quero que sofra, porém quero que entenda a gravidade das consequências de suas escolhas. Ela parece uma menina ingênua às vezes, fazendo besteira e achando tudo muito divertido. A vida é mais séria do que isso. Não é porque temos dinheiro na conta que vamos achar que estamos acima dos riscos. O que fizemos hoje foi nos colocar em perigo, e ela precisa entender, de uma vez por todas, que não pode continuar agindo como se fosse inatingível. Chegamos à suíte presidencial e me tranco no banheiro porque não sei o nível da briga que teremos se eu continuar sentindo essa raiva toda. Preciso esfriar a cabeça, por isso me coloco debaixo do chuveiro e espero que a água fria me faça relaxar. No entanto, tudo que penso é em como as coisas podiam ser piores. Nós demos a maior sorte, pois nada impediria se o delegado decidisse me prender, então eu veria o sol nascer

quadrado amanhã por uma coisa que não foi culpa minha. Eu nem queria ir a um baile funk, sequer sei dançar. E se fosse Pauline no meu lugar, maluca, tagarela e bêbada? Quantas merdas ela precisa fazer para entender que ser presa não é nada agradável? Enrolo-me em uma toalha, saio do banheiro e vejo Pauline sentada em um dos sofás, olhando fixamente para uma das paredes. Há lágrimas escorrendo em bicas de seus olhos. Contenho a vontade de abraçá-la e dizer que tudo vai ficar bem. Já chega! Se eu a amo, preciso fazer o que é certo. É por este motivo que visto uma bermuda — na frente dela mesmo, pois não quero que pense que voltamos a ser dois estranhos — e me deito na cama larga e confortável. Eu me cubro e apenas espero. Passo tanto tempo parado que o cansaço simplesmente me vence. Acabo dormindo sem ter uma conversa franca com ela e, quando acordo, já pela manhã, não tem ninguém ao meu lado. — Pauline? — chamo com a voz rouca, meio trôpega pelo sono. Não faço ideia de que horas são, mas acho que dormi demais. Meus olhos incomodam porque, sem

querer, dormi usando as lentes de contato e elas ressecaram um pouco. — Pauline? Ninguém me responde. Eu me levanto e confiro se ela está no banheiro, mas não está. Reviro o quarto, a sala e a varanda para constatar que estou sozinho. Meu estômago logo se revira, sinto-me enjoado de tanta angústia que me invade de repente. Fico meio perdido, observando o nada por alguns segundos, até que percebo que as coisas dela não estão em parte alguma da suíte. — Não, Pauline... — murmuro sofregamente, já sentindo minha visão embaçar. Abro o guarda-roupa, reviro gavetas e cômodas, mas não há sinal algum de que Pauline esteve aqui comigo. Só me resta aceitar que o pior, de fato, aconteceu: ela foi embora. Deixo meu corpo cair no chão, apoiado por uma parede que se materializa atrás de mim. Eu me sento com os joelhos dobrados, ainda sem acreditar no que aconteceu. Ela não pode ter me deixado aqui, sozinho. Para onde foi? Será que seguiu para o norte, conforme o itinerário? Observo a suíte ficar menor, pequena demais para

caber o meu desespero. Eu não posso tirar conclusões precipitadas. Ela pode ter ido dar uma volta e daqui a pouco retorna. Eu me levanto, esperançoso, e procuro meu celular a fim ligar para o seu número. Rezo para que me atenda logo e desfaça esse mal entendido terrível. Contudo, assim que localizo o aparelho, em cima de um dos criados-mudo, vejo um pedaço de papel rabiscado bem ao lado. Faço uma careta, meio sem entender, só depois leio o que está escrito: “Não vou te pedir desculpas mais uma vez. Não quero que me perdoe, eu não mereço. Preciso parar de exigir perdão se continuo sendo a mesma maluca que te põe em apuros. Eu sei, faço tudo errado. Só quero que saiba que a minha intenção nunca foi te machucar. Engraçado... Eu sempre te machuco sem querer. Não quero que isso se repita, por isso decidi ir embora. Falando sério, você é um cara muito melhor sem mim. Eu só te atrapalho, te enfureço, te deixo envergonhado, constrangido e tiro de você a bondade que me fez te adorar desde o início. Não vou te causar mais

problemas. Por favor, esqueça as coisas ruins que te fiz e só se lembre dos bons momentos. Espero que a sua vida seja linda, como você. Que a boa sorte sempre te acompanhe. Eu nunca vou te esquecer, Joseph. Beijos, Pauline.” Amasso o papel entre os meus dedos com força, na tentativa vã de deixar a raiva tomar conta do vazio que essas palavras deixaram em mim. Mas a verdade é que nem o planeta Terra preencheria um espaço tão gigantesco. Simplesmente transbordo em lágrimas, porque nada mais me resta além de lamentar a maior perda da minha vida. A dor é tão grande que me engasgo. Volto alguns anos na minha linha do tempo para chorar como uma criança. Mas é desse jeito exagerado que a dor acaba doendo menos, por isso continuo aos prantos, sem qualquer controle. Eu me jogo na cama e passo horas recordando de cada momento que passamos juntos. Tenho certeza de que nunca me senti vivo e verdadeiramente feliz antes de Pauline. Observo minha tatuagem durante um bom tempo,

aliviado por ter deixado uma marca eterna que me faz nunca esquecer o quanto ela foi e é importante pra mim, e ao mesmo tempo desesperado pelo mesmo motivo. A verdade é que, sem Pauline, nada mais faz sentido, nada tem graça ou valor. Tudo se torna cinza, sem brilho, sem vida. Só de pensar que eu nunca mais a verei de novo, e que não tive sequer a chance de me despedir, sinto-me adoecendo. Depois de duas horas me contorcendo na cama, sem ter coragem de me levantar ou de respirar, escuto o barulho estridente do meu celular tocando. Eu me ergo no sobressalto, pois há a chance de ser Pauline me ligando. Preciso falar com ela urgentemente, convencê-la de que ir embora é uma loucura e de que, não, não sou um cara melhor sem ela, de jeito nenhum. Esse pedaço de nada ambulante que me torno em sua ausência é deprimente. Ela me faz ser quem sou, mesmo que seja um homem diferente do que era. Talvez antes eu não estivesse sendo eu. — Alô? — atendo empolgado, mesmo depois de conferir o número e perceber que não é o dela. A esperança é a última que morre.

— Joseph? Tudo bem, querido? — Reconheço a voz feminina que responde do outro lado da linha, no entanto, não consigo associá-la a alguém. Ainda bem que ela se apresenta antes que eu faça qualquer questionamento: — Sou eu, Aline, mãe de Pauline. — Ah! — Arfo, tentando conter a angústia inutilmente. Será que aconteceu alguma coisa com a minha linda menina? — Eu... Onde... Uai... O que... — Não consigo formular nenhuma frase coerente. — Pauline está aqui em casa, chegou bem cedo e só conseguiu dormir agora — Dona Aline avisa, parece não estar nada feliz. Puta merda! Pauline foi para São Paulo! — Ela não sabe que estou te ligando, mas achei que eu precisava fazer isso. Não acho certo ela ter te deixado apenas um bilhete. Você chegou a ler? — Si-Sim. E-Eu... — Mais lágrimas rolam pelo meu rosto. A coitada voltou para casa. Deve estar se sentindo péssima. Foi buscar o colo dos pais. Conheço Pauline, ela nunca se daria esse mimo se não fosse extremamente necessário. — Como ela está? — Não muito bem, meu filho. Ela me contou o que

aconteceu. Bom, eu só queria que soubesse que ela está aqui em casa, sã e salva. — Tudo bem... — murmuro, aéreo. — Não demore muito — diz, e fico sem entender nada. — O quê? — Não demore muito, meu querido. Pauline é um mistério, não sei o que vai inventar de fazer quando acordar. Jamais a proibi de fazer qualquer coisa, mas não vou deixá-la sair daqui sem você. Prendo os meus lábios com força, mas nada adianta: começo a chorar ruidosamente. Acho que Dona Aline percebe, mas não comenta nada, talvez para não me constranger. Esse apoio todo me comove muito. Não imaginei que a mãe de Pauline me considerasse tanto a ponto de fazer isso por mim. — Estou chegando. Obrigado por me avisar, Dona Aline — falo com a voz embargada. — Não foi nada, Joseph. Venha logo. Até breve! — Até... Desligo e reúno minhas coisas, não tenho tempo a

perder. Preciso estar em São Paulo o mais depressa possível. Vou resgatar minha linda menina de qualquer jeito, nem que tenha que ser arrastada. Faço check-out no hotel, pego um táxi até o aeroporto e compro uma passagem para a tal de ponte aérea Rio-São Paulo que Pauline tanto já comentou; uma maneira rápida e prática de chegar ao meu destino. O voo é curto, mas turbulento, e não paro de pensar em milhões de coisas distintas. Minha pressa em chegar é tanta que quase me levanto para exigir que o comandante acelere a porra do avião de uma vez por todas. Finalmente, desço em Congonhas e pego o segundo táxi do dia rumo à casa dos pais de Pauline. Só de pensar que vou vê-la em breve, meu coração sofre espasmos malucos e meu cérebro meio que trava. Falo ao taxista que vou pagar o dobro da corrida se ele for mais depressa. O homem pisa fundo, desviando dos carros na maior velocidade, evitando avenidas com tráfego muito intenso, enfim, fazendo o que pode para que eu veja Pauline mais cedo. Desço em frente à casa bonita, de classe média alta,

pertencente à família de Freitas Dias. Paro antes de tocar a campainha porque simplesmente não sei como agir de agora em diante. Não estou pronto para ter uma conversa difícil com Pauline, nem mesmo para encarar os pais dela e explicar tudo o que houve. Quero esquecer o dia de ontem e partir para o norte hoje mesmo. Já desisti há muito tempo de fazer Pauline entender qualquer coisa, agora só quero beijar sua boca e... Bom. Uma nova vontade me acomete e decido tocar a campainha. Dona Aline abre o portão e me abraça forte. — Ai, Joseph, que bom que veio! — Ela não me solta por nada neste mundo. Retribuo o abraço, contendo o choro e me mantendo concentrado no meu objetivo. — É claro que vim, Dona Aline. Ela já acordou? — Ainda não. — Faz um biquinho em um muxoxo engraçado. — Venha, venha, entre. Você deve estar cansado e com fome! — Estou bem, obrigado. Ela me arrasta para dentro da casa na maior cordialidade. — Paulo está no trabalho, infelizmente não vai poder

sair mais cedo. — Tudo bem, não quero incomodá-los. — Não é incômodo nenhum, querido! — Aponta para uma cadeira e me sento, mesmo contra a minha vontade. — Quer um café? Chá? — Não... — Olho para todos os lados, meio desnorteado. Estou atento a qualquer ruído, ansioso porque minha linda menina está perto. Quero vê-la outra vez. Preciso olhar em seus olhos, é uma necessidade urgente. — Ela está no quarto. — Dona Aline percebe que estou procurando pela Pauline, mesmo sabendo que ela não vai se materializar na sala, do nada. — Quer acordála? — Não, eu... — Ah, Joseph, sem frescura! — Ri animadamente. — Vá logo, fique à vontade! Eu me levanto tão rápido que quase derrubo a cadeira. Aline ri do meu desconcerto, fica me observando daquele jeito suave que é tão comum à sua filha. Ofereçolhe um agradecimento silencioso. Sigo pelo pequeno

corredor e, sem bater ou pedir licença, abro a porta do antigo quarto de Pauline. Para minha surpresa, ela não está dormindo. Embora esteja deitada e muito quieta, os olhos estão bem abertos e se arregalam quando me veem. Ela se senta muito depressa, espantada. — Joseph? O que faz aqui? — Eu vim te buscar, uai — falo, aproximando-me calmamente. Nossos olhares estão conectados, fixos um no outro. Ela andou chorando e não foi pouco. Travo por alguns segundos. — Como... Paro ao lado da cama. — Que merda de bilhete foi aquele? — rosno furiosamente. — Eu... — Seus olhos lacrimejam e ela dá de ombros, mas não permito que continue. Não quero conversas difíceis. Isso vai ser do meu jeito e ela não vai me impedir. Puxo-a pelas pernas e seu corpo é arrastado pelos lençóis na maior facilidade. Só me satisfaço quando a tenho entregue perto da beirada da cama, com as pernas

abertas e o olhar espantado me encarando de um jeito ardente. Ela não veste nada mais que uma camisola de algodão aparentemente confortável, que a descobriu com o meu puxão. É claro que está sem calcinha. Retiro o meu cinto sem nada falar, fazendo o som da fivela ecoar pelo quarto de tão silencioso que ele fica. Livro-me do botão e abaixo o zíper, deixando escapar apenas o meu membro já ereto, pronto para possuí-la. Tenho tanto tesão guardado pra essa mulher que nem preciso de nada mais que um olhar para ficar totalmente louco para estar dentro dela. — Você nunca mais vai me deixar sem avisar, sô — falo em um rosnado baixo, um timbre esquisito e sofrido, mas ao mesmo tempo cheio de excitação. — Você foi inconsequente e maluca, mas eu nunca esperei que fosse diferente. Está me ouvindo, Pauline? Massageio minha ereção pulsante, depois ergo totalmente sua camisola só para ver melhor seu sexo despido diante de mim. Pauline ainda está com lágrimas nos olhos, mas abre um sorriso capaz de preencher o tal buraco que ela mesma deixou em mim. É assim que funciona. Só ela abre, só ela fecha. Tudo aqui dentro do

meu peito é comandado por sua vontade, e não chamo isso de dependência ou de submissão. Eu chamo de amor. Inclino o meu corpo de forma que nossos sexos se encostam. Busco apoio no colchão ao seu redor. Não deixo de olhar no fundo de seus olhos. Apesar de avermelhados, eles agora brilham com a chama que é inerente a ela. Conheço Pauline e sei que sempre está a fim de fazer o que pretendo agora, por isso não me sinto nem um pouco mal ao penetrá-la devagar, tomando para mim o que considero meu, mesmo que não seja de verdade. Pauline arqueja e se contorce, recebendo-me sem pestanejar. — Eu queria não ser tão louca... — murmura em um gemido, depois encontra a barra da minha camisa e me tira de dentro dela. Estoco uma vez, forte e brutal, do jeito que meus instintos querem agir agora. — Joseph! — geme alto o meu nome. Coloco suas pernas em meus ombros, de modo a deixá-la mais aberta possível para o meu livre acesso. Inclino-me mais, quase encostando nossos lábios, e começo a me movimentar decididamente para dentro e

para fora dela. Pauline fica molhada aos poucos, até que o choque se torna mais suave e fácil. Agarro seus cabelos, obrigando seu rosto a virar em um gesto não tão cortês assim. Minha boca é colocada em seu ouvido. — Eu quero que continue sendo louca, Pauline — falo muito baixo, sem parar o ritmo do vai e vem. Estou morrendo de tanta excitação, prestes a explodir dentro dela, mas não suportaria se acabasse tão cedo, por isso me mantenho imbatível. — Só não quero que corra perigo. Você é tão inconsequente. — Desculpa... — Arfa alto, e sinto suas unhas arranhando minhas costas. — Eu... não queria... — Sem drogas, sem polícia, sem confusão — rosno, taxativo. — Sem porra de bilhete de adeus. — Sem adeus — completa de maneira alucinada, e sinto que está prestes a liberar um orgasmo. Acelero o ritmo só para ter o prazer de vê-la gritando, explodindo em um êxtase delicioso de acompanhar. Eu amo essa mulher de todas as formas, mas desse jeito, em especial, tão entregue e espontânea, é o meu favorito.

— Sem adeus — defino. Afasto-me um pouco só para conseguir me livrar da calça jeans, da cueca e do tênis. Tento ser rápido, não quero nada me atrapalhando. Ergo Pauline em meus braços, segurando-a por baixo das pernas, e ela vem fácil, sem nos desencaixar. Puxo seu corpo ao meu encontro e me movimento, em pé mesmo, reiniciando os choques acelerados que me levam direto ao paraíso. Ela prende as mãos em minha nuca e me ajuda, rebolando e se contorcendo sem pausas. Quase não acredito quando ela se curva para trás e se deixa amolecer mais uma vez, soltando gemidos tão maravilhosos quanto escandalosos, entregando-me mais um clímax que, pelo visto, é bem intenso. Jogo-a na cama outra vez, pois me sinto enfraquecer e não consigo mais segurá-la como no início. No entanto, guio-a para o centro no colchão e é lá que eu torno a me colocar por sobre ela. — Vamos para o norte — aviso e a penetro novamente. Está tão escorregadia, devido aos orgasmos, que minha invasão é bem natural, como se, o tempo todo, meu membro fosse apenas uma extensão de seu próprio

corpo. — Para o norte, meu anjo — repete. Pauline me olha, segurando meu rosto com as duas mãos e sorri. Estou ficando suado por causa da entrega acelerada, mas não ligo. É tão delicioso. — Você veio me salvar mais uma vez. Sorrio de volta e me deixo levar pelas melhores sensações do mundo. Começo a preenchê-la, pois não consigo mais me segurar. Solto grunhidos abafados e, por alguns instantes, só as nossas respirações ofegantes podem ser ouvidas. É assim que a minha vida faz mais sentido. Um sorriso dela era tudo de que eu precisava. Pauline enrosca as pernas em mim, com força, não deixando que eu me afaste. Tudo bem, não pretendia mesmo. Afundo minha cabeça entre seus seios, cobertos pela camisola que nem tive tempo de tirar, e ela passa a alisar meus cabelos. — Já falei que eu sempre vou te salvar, linda menina. — Ela solta um suspiro prolongado que me deixa meio confuso. Senti um ar apaixonado em seu gesto, mas deve ser só impressão minha. Droga, essa grande ilusão que

nunca me larga... Inspiro seu cheiro bom. Esse odor magnífico me deixa com a sensação de estar em casa, de ter encontrado o lar perfeito pra mim. Ainda estou muito assustado pelo que aconteceu. Perdê-la é a pior coisa do mundo, e eu não quero passar por isso outra vez. Deus permita que nunca mais volte a acontecer essa tragédia.

Capítulo 36

Pauline

Caribe Amazônico, Alter do Chão, Pará Ninguém nunca gritou comigo. Meus pais não me educaram desse modo, e todos que tentaram levantar a voz para mim ouviram merda e se calaram. Joseph é o único cara que impõe respeito. Acho excitante quando ele fica todo irritado, dá calor, vontade de ficar nua, de abrir as pernas e deixá-lo meter com força, até a raiva passar. Mas na delegacia foi diferente. Ele estava furioso de um jeito tão inédito que eu perdi o chão. Eu havia feito tudo errado de novo, sem perceber, distraída com as loucuras do funk carioca. Só que, desta vez, quem saiu algemado foi ele. Seu berro para eu sair de lá ficou pulsando na minha cabeça como um soco. Depois seu silêncio abriu tanto

espaço entre a gente que tive certeza de que Joseph não suportava mais minhas doideiras, quiçá minha presença ao seu lado. Não queria que sua amizade por mim se transformasse em rancor. Então, antes que eu fizesse algo muito pior, decidi ir embora, assim Joseph ainda podia guardar boas lembranças e algumas maluquices para dar risada sozinho quando se lembrasse do tempo que passou comigo. Se é que ele ia pensar em mim de novo depois de nossa passagem pelo Rio, que era para ser linda, mas se transformou em uma tragédia. Voltei para o único lugar onde eu sempre sou aceita, nunca questionada e muito menos repreendida. Chorei e desabafei com minha mãe, confidenciando a ela todos os detalhes de nosso passeio pela Cidade Maravilhosa. Como sempre, Aline só me deu carinho. Era o que eu precisava para continuar sem Joseph dali para frente. Foi a noite mais longa e triste da minha vida. O dia havia nascido, mas dentro de mim estava escuro, frio, sem vida. Eu não conseguia encontrar maneiras de sair daquele breu, então a porta do meu quarto se abriu e meu sol

particular o adentrou para iluminar minha existência vazia. Como um girassol, eu me virei em sua direção e sorri em meio às lágrimas. O Joseph que vinha me buscar era aquele homem decidido, que só com os olhos me tomava para si como se eu já lhe pertencesse. Se ele me queria, com tanta intensidade e desejo, mesmo eu sendo uma louca incorrigível, eu iria com ele até o fim do mundo, ainda que de lá eu tivesse que voltar sozinha e partida em algum momento. Já experimentei deixá-lo e dói tanto que eu tenho certeza de que não cheguei inteira a São Paulo. Mas com ele aqui, em meus braços, agora estou completa outra vez. Ainda enroscados — sou incapaz de desgrudar dele neste momento e, por alguma razão que desconheço, Joseph parece se sentir do mesmo modo que eu — a gente toma a decisão de partir em um jatinho particular depois de uma pesquisa na Internet sobre horários de voos para a região norte do país. Estamos com pressa de continuar nossa aventura juntos. Chega de pausas, de brigas, de contratempos. Temos dinheiro e podemos contornar

qualquer um que surgir. E, definitivamente, não vou fazer Joseph cruzar o Brasil em um voo comercial que dura cerca de dez horas de viagem e tem duas conexões. Ele dá de ombros para minha proposta de poupá-lo. — O que são horas intermináveis em um avião, se eu tenho você ao meu lado? — diz rindo, fazendo seu corpo deslizar no meu. — Sei — brinco também, aproveitando o clima bom. — Eu te deixo puto, excitado, te faço rir... Mas entediado, ah, isso não! Seus braços me apertam com mais força. — Você é a melhor companheira de viagem que eu poderia ter. Joseph é mesmo um ser humano sensacional, só consegue ter bons sentimentos mesmo depois de ficar louco de raiva por minha causa. Minha mãe fica mais feliz do que eu imaginava quando contamos, assim que saímos do quarto, que estamos de partida. Ela nem tenta nos convencer a comer um boi antes da viagem. As nove horas de voo são reduzidas a quase cinco. Mudo o itinerário de última hora. Já que estou pagando, vou aproveitar para

abusar do piloto. Por isso, temos muito tempo para conversar com calma, sem o estresse da noite passada e nem a choradeira dessa manhã. Eu sabia que Joseph não ia me livrar de uma fenomenal bronca, que eu mereço, é claro. — Você tem ideia do estado em que me deixa? — começa, com seu sotaque mineiro encantador. Quando ele fica nervoso, os erres se acentuam e algumas letras definitivamente somem. Sim, eu tenho, então me mantenho em silêncio, balançando a cabeça em concordância. Eu vi o jeito possesso como ele ficou quando foi algemado injustamente. — Você podia estar presa agora, Pauline! Sua vida estaria acabada! — O quê? — exclamo, estarrecida. — Eu fiquei tão preocupado quando vi a polícia e você não estava nem aí! Como uma mulher inteligente e perspicaz, linda menina, eu esperava que você fosse um pouco mais maliciosa fora da cama também. Rio, sem graça. Finalmente entendo sua reação exacerbada e me sinto ainda mais tola do que antes. — Você pegou as drogas para que eu não tivesse uma

nova acusação na minha ficha criminal! — constato o óbvio, chocada. — É claro, Pauline, você teria perdido tudo se aquela droga fosse encontrada em suas mãos. — Eu sou uma boba, Joseph! — Saio andando pela aeronave, dando voltas e mais voltas, sem ter aonde ir. — Naquele momento, eu realmente não estava prestando muita atenção ao redor, mas não faz parte de minha índole julgar ninguém. Não me preocupei nem um pouco com aquelas pessoas. Para mim, elas estavam lá para se divertir tanto quanto eu. Quando conheço alguém, eu lhe dou a chance de me mostrar para que veio, não olho para ela através de estereótipos. Joseph solta um pequeno bufo, rindo de um jeito reflexivo. — Você é mesmo incrível, Pauline, eu ganhei na loteria duas vezes: uma quando te conheci e outra quando fui anunciado como ganhador. Quem me dera ter sua pureza. Fui educado pela minha mãe para desconfiar de tudo e de todos, mas sempre tentei ver o melhor nas pessoas.

Eu me reaproximo, tomando seu rosto nas mãos. Adoro ficar assim, pertinho dele. Tão lindo, meu Deus! — Você é maravilhoso, Joseph. Esse seu bom coração vai te levar exatamente para o lugar que merece estar. É um momento tão especial encontrar uma pessoa que, mesmo sendo tão diferente de você, ainda se mostra compatível de alguma forma. Joseph e eu somos opostos que tentam trilhar um caminho semelhante e isso já basta para nos fazer seguir juntos, sem nos importarmos com as gritantes divergências. No fim, compreendo por que ele voltou para me pegar. As coisas boas que vivemos juntos compensam todas as burradas que cometo ou ainda cometerei, porque, se ele me pediu para continuar sendo eu mesma, sem me controlar, pode ter certeza de que vou aprontar outras até o fim dessa viagem. Pousamos no Aeroporto Internacional Presidente Médici após a hora do almoço. Puxo Joseph para pisar em terra firme, apressada. Sei que ele está doido para botar os pés no chão, apesar de não ter tremelicado durante o voo, nem ficado tenso. Pelo contrário, ele parecia à

vontade e alegre, com sua atenção voltada para mim e para nosso papo, ora cabeça, ora louco, nem compensa comentar. Ele se diverte muito ao meu lado e eu sou imensamente feliz por fazê-lo sorrir muito mais do que ele já o fez em sua vida. — Pauline, me explica direito por que estamos aqui — fala rindo e correndo atrás de mim enquanto avançamos pelo supermoderno aeroporto. Poxa vida, não imaginava que fosse encontrar uma instalação tão bonita por essas bandas esquecidas do país. — Eu queria saber se o Acre existe mesmo. Joseph gargalha alto, de uma maneira bem atípica. — É claro que existe, sô, só não estava no nosso roteiro. — Isso eu estou vendo, anjo, mas o que nós sabemos sobre este estado do Brasil? Ele fica em silêncio quando entende aonde quero chegar. O piloto disse que nos esperaria o tempo que fosse necessário, então, decido que quero conhecer mais sobre a capital acreana. Pegamos um táxi na saída do aeroporto e peço informações para o taxista, afinal, não

sabemos nada sobre Rio Branco. O homem nos conta curiosidades interessantes. A cidade é dividida em duas pelo rio Acre e a margem direita sofre alagamentos na época de cheia por ser mais baixa. Ele explica que o auge é em janeiro, mais do que nos outros meses, mas que aqui sempre chove, é quente e úmido. Imagina um lugar que não faz frio nunca, mesmo no inverno! Meu Deus! Que louco! Enquanto fala, o taxista nos mostra, com orgulho, a cidade e os grandes monumentos. Diz que Rio Branco é denominada “Cidade Verde” ou “Cidade da Natureza”, e nos leva ao parque da Maternidade, que faz uma linda analogia ao fato de estarmos na Amazônia, a floresta equatorial brasileira considerada o pulmão do mundo. Meu coração dispara ao me deparar com a “Mãe” de todos nós. Joseph olha para mim tão fascinado quanto eu com a beleza selvagem do lugar. A última informação que o acreano nos dá é que existem dezesseis etnias indígenas no Acre. Puta merda! É muito índio! Eu adoraria visitar uma aldeia e ver como são seus costumes, mas fico

receosa de propor isso a Joseph. Não sei como ele vai reagir e, depois do Rio, aprendi uma grande lição sobre perguntar primeiro e agir depois. Por fim, decido deixar para lá. Nossa passagem por aqui vai ser rapidinha demais para isso. Descemos do táxi na margem direita do rio, onde há um calçadão enorme e contemporâneo, a agitação do comércio da capital acreana e a sede do governo. Uau! Rio Branco é uma capital pequena perto de São Paulo, tem mais de trezentos e sessenta mil habitantes, mas um ar de... Rio Branco! Não há como defini-la de outra maneira. É única! Essa mistura de atualidade com natureza selvagem para todo lado que se olha é diferente do que se vê no Rio de Janeiro, por exemplo. Só visitando para entender. A gente encontra um estabelecimento para almoçar tardiamente, quase um lanche da tarde, e fico curiosa para experimentar as iguarias típicas do Acre. Sinto uma pequena decepção quando descubro pelo cardápio que a comida daqui não é diferente do que se come no nordeste e no sul. Falo com um garçom sobre meu desejo de provar

algo da terra e ele nos oferece o fruto do tucumã, a palmeira amazônica. Dou uma mordida sem medo depois de descascá-lo. A polpa amarela é grudenta, fibrosa, oleosa e calórica. Hum... Eu gosto! O sabor lembra o damasco. Joseph também aprova e o dono do bar explica que se faz muita coisa com essa frutinha por aqui, inclusive uma espécie de vinho. Fico curiosa e meu amigo viciado na bebida pede uma garrafa pra gente degustar. Adoramos, é docinho e delicioso. Levamos outra garrafa para o avião e bebemos enquanto o piloto nos leva ao verdadeiro destino do nosso itinerário, o Pará. Desembarcamos em Santarém, a Pérola do Tapajós, cidade que se situa na afluência dos rios Tapajós e Amazonas e, por causa disso, possui mais de cem quilômetros de praias que se parecem com o mar. Mas nosso destino fica em um vilarejo, há trinta quilômetros de distância, conhecido mundialmente como o Caribe Amazônico, onde existe a praia de água doce mais bonita do mundo, segundo um jornal inglês. Estou louquinha para ver ao vivo, a cores e sentir os cheiros e as texturas.

Pegamos um táxi até a vila de pescadores Alter do Chão, e somos deixados em um hotel em frente ao rio Tapajós, que tem uma varanda com vista privilegiada para as belezas selvagens do balneário. A gente deixa as coisas no quarto, veste roupa de banho e corre para a praia da Ilha do Amor antes que o sol se ponha. Fico fascinada porque fomos informados pelo taxista, no percurso até aqui, que nessa época do ano o nível do rio baixa, aumentando os bancos de areia branquinha que formam a praia comprida e exótica. Se fosse outro período, precisaríamos fazer o trajeto de três minutos de barco, mas agora, pisamos com pés descalços em terra seca. O pedacinho de chão branco que a vegetação amazônica não toma conta está coberta de gente. Nossa, que lotação! Ao seu redor, a água doce e azul lembra o mar do Caribe, o que justifica seu apelido. Há quiosques, barcos, mesinhas à beira d’água, bananas, jet skis, lembra muito uma praia oceânica. Joseph para, de repente, ricocheteando meu braço, já que andamos de mãos dadas. — Pauline, vamos aproveitar que ainda tem luz do sol para andar de jet ski?

Espera aí, meu anjo me pedindo uma aventura? — Só se for agora! — digo, puxando-o para o local que aluga as motos aquáticas. Os olhinhos dele brilham quando saca o dinheiro do bolso para pagar por alguns minutos de uso e para que o cara libere as motonautas mesmo que a gente não tenha licença para pilotá-las. Gente, que coisa linda é essa que estou vendo! Alugamos dois, porque estou doida para aproveitar a chance de dirigir um veículo, mesmo que seja aquático. Nossa! Quanto tempo eu não ando em uma moto! Saio acelerando do ancoradouro, deixando Joseph para trás. Faço uma curva longa, contornando a praia, e retorno. Vejo meu anjo a toda velocidade, dando uma volta comprida em direção oposta à minha. Seus cabelos, sempre bagunçados, balançam ao vento, e a barriga do jet ski bate com força contra a água plácida e clarinha do rio, respigando gotas em seu corpo dourado. Joseph pegou uma cor maravilhosa graças aos nossos passeios. Ai, meu Destino, por que ele tem que ser tão lindo? Meu coração bate com força contra meu peito, ao ritmo do amor que sinto por ele. Deus, como eu amo esse menino!

Dá vontade de gritar à distância o pedido mais louco que nunca fiz, mas, para ele, eu faria: Joseph, casa comigo! Gargalho sozinha da minha própria loucura. Gente, é claro que não vou fazer uma coisa dessas, até porque não estou nem um pouco a fim de tomar um toco histórico. Joseph, o certinho, casando com alguém como eu? Hilário! Meu peito aperta de um jeito esquisito diante do pensamento. Eu realmente desejo me prender a ele de maneira tradicional. Já que não tenho mais vontade de ficar com outros, faria isso para realizar seu sonho de formar uma família. Nem acredito no quanto mudei nessas semanas ao lado dele, mesmo não perdendo minha essência insana. Sabia que conviver com Joseph seria um aprendizado e tanto, e não fui decepcionada por minha grande sorte. A alegria desse pensamento se une à certeza de que nosso adeus será muito em breve, e resolvo espantar a sensação mista com brincadeiras. Quando a gente se cruza, consigo ver o sorriso enorme do meu anjo lindo. Uau! Que tesouro! Dou um tranco com a moto aquática, e a máquina quica na água

azul, espirrando um esguicho forte na cara dele. Caio na risada quando seu sorriso pueril morre. Seu jet passa voando, sumindo às minhas costas. Acelero sem olhar para trás, ganhando distância. Ouço o ronco do motor atrás de mim e espio por sobre o ombro para ver Joseph com uma ameaça velada nos olhos, enquanto me persegue pelo rio. Rindo, fujo dele o mais rápido que consigo, girando ao máximo o punho no acelerador. A moto empina e tomba de lado, me jogando para fora do banco. Grito, soltando-a, e caio na água com força. O motor morre por causa da trava de segurança e o jet boia ao meu lado. Eu me escoro nele, gargalhando loucamente. Meu anjo para ao meu lado, com um olhar muito preocupado. — Você se machucou, linda menina? Ainda bem que ele não surta e não me acusa de ser inconsequente. — Eu estou ótima, mas vou precisar de uma mãozinha para virar o jet ski. Joseph estende a mão para me puxar. No entanto, uso o impulso das pernas contra o fundo do rio e o faço voar

sobre mim. Ele mergulha de cabeça na água, fazendo seu jet morrer também. Emerge bem ao meu lado, cuspindo e balançando o cabelo na minha cara. Filho de uma mãe! Quando acaba, olha para mim maliciosamente e não consigo parar de rir de nossa brincadeira. — Isso foi pelo banho que você me deu — ruge, se fingindo de bravo. Ele se aproxima perigosamente, me prensando contra a moto. O nível está muito baixo, dá para gente ficar de pé, com a água pela cintura, no meio do rio. A água é tão transparente que consigo ver meus pés no fundo. Joseph laça minha cintura, segura minha cabeça pelo queixo e acrescenta, olhando fixamente para minha boca: — E isso é por ficar ainda mais linda rindo desse jeito. Seus lábios tomam os meus para si, daquele jeito apaixonante que Joseph sabe beijar desde a primeira vez que o fez. Morro aos poucos em seus braços, derretendo, arrepiando, me apaixonando mais profundamente a cada toque que lhe permito. Eu me esqueço do paraíso à nossa volta porque tenho o calor de seu corpo, meu sol particular, ao redor do meu. O que eu não daria para que

esses momentos com ele não tivessem fim. Sei exatamente o que eu trocaria: minha liberdade. E o faria sem pestanejar. — Ei, vocês dois aí! — Alguém grita e ignoramos, não sabemos se é com a gente, afinal. — O tempo dos jet skis acabou e o sol já se pôs! Mas, já? Nós nos largamos, sorrindo, mas com uma pontinha de frustração. — Amanhã a gente aluga outra vez, anjo — consolo Joseph. — Eu adoraria pilotar mais — diz, levantando, sozinho, minha moto caída. — Não sabia desse seu gosto por motos. Ele dá de ombros antes de subir no seu jet. — Se eu pudesse escolher entre o conversível e uma moto, escolheria a moto sem pensar duas vezes, linda menina. A sensação de liberdade é bem maior, toca o corpo todo. Abro a boca, espantadíssima. — Como assim só fiquei sabendo disso agora? Joseph sorri para mim, me incentivando a segui-lo

até o ancoradouro, devagar, para continuarmos a bater papo. — Sei lá, uai, acho não tive oportunidade de te contar. Eu rio sem acreditar que podia ter feito mais do que lhe comprar drogas. Por que isso não entrou no jogo do “Eu Nunca”? Fico feliz por ter descoberto antes de essa viagem terminar. — Você ainda está se escondendo de mim, senhor Joseph — acuso, parando a moto e a entregando ao cara responsável pelo aluguel. — De jeito nenhum, sô, foi esquecimento mesmo. Caminhamos até a areia e eu estico uma canga bem grande para assistirmos a noite. A lua já tomou conta do céu aberto e estrelado do Pará. O tempo quente e sem mosquitos — graças a Deus! — logo leva consigo o frescor que a água cristalina deixou em minha pele, e a umidade do ar a salpica de gotas salgadas de suor. O silêncio pacífico e de cumplicidade entre a gente me agrada. Não ouso quebrá-lo com uma conversa superficial como a que estávamos tendo. Depois de um

tempo, estendo minha mão, suspirando, e seguro firme a dele, usando a confiança conquistada de demonstrar meus sentimentos sem jamais deixá-los extravasar em palavras. A dama da noite está cheia, sua luz prateada lança vida à escuridão adiante, que meus olhos mal alcançam. Ela se move no seu reino, majestosa sobre nós. O barulho em volta diminui e percebo que ficaremos sozinhos em breve, mas não estou a fim de sair daqui agora e Joseph também não se mexe. Eu me inclino sobre a canga, deitando-me, e ele me imita, ainda de mãos dadas, olhando fixamente para o céu vivo e brilhante. Uma comichão doida me acomete. Não vou conseguir ficar quieta por mais tempo, preciso saber o que minha alma mais teme ouvir, mas não sossegarei se não perguntar. A dúvida está me sufocando mais do que a verdade. — Anjo, o que pretende fazer depois que nossa passagem pelo norte terminar? Não consigo dizer de outro modo, afinal, essa é a última região do Brasil. Eu queria ter o poder de multiplicar o país em milhares para que a gente ficasse nessa aventura a vida inteira. Uma vida ainda parece

pouco demais. — Não sei, Pauline, só tenho certeza de uma coisa: não vou voltar para Itaú. Um fio de esperança se forma e eu a sinto se enrolar no meu pescoço, a ponto de cortar minha respiração. Haveria alguma chance... Ai, meu Deus, será que...? Não... Sim... Nem meus pensamentos estão coerentes, então eu solto a bomba de uma vez, o que tem mais a ver com a antiga Pauline, tomando uma decisão impulsivamente: — Eu também não me decidi ainda, mas acho que vou ficar na casa em Brasília. Pelo menos até o aluguel vencer... — Para onde mais eu iria? Minas... nem pensar! Só fui para lá por causa do emprego e como não preciso mais dele, não quero voltar, ainda mais porque Joseph não vai estar lá. Não há motivo algum que me convença a dar as caras em Itaú novamente. — Você pode ficar comigo. Não digo isso com empolgação, contenho-me como se estivesse fazendo um convite banal, mas meu coração se aperta e bate descompassado, fazendo uma veia na minha cabeça pulsar violentamente. Eu quero tanto que ele

aceite, tanto, tanto... Mas não consigo forçar a barra como fiz quando o convenci a vir comigo nessa louca viagem. Quero que ele queira estar comigo. Sonho meu! — Acho melhor não, Pauline. Não seria adequado... Para você, quero dizer — responde de maneira enigmática, mas não peço explicações. Joseph está sendo muito claro. Ele não quer ficar comigo para não confundir as coisas. A gente é só amigo. Quando essa viagem acabar, ele vai para outro lugar, conhecer pessoas novas, provavelmente se casar com a mulher da sua vida, com quem vai ter muitos Josephinhos lindos, igual a ele. Ai, meu coração! — Você ainda quer formar uma família, não é? — questiono, aproveitando o gancho das minhas ideias malucas e dolorosas. — Sim. Sua resposta curta gela minha alma. Quase que um grito se esvai de mim: me escolhe, Joseph, eu te amo e posso te fazer feliz! Consigo fazê-lo sorrir, não é mesmo? Mas então a verdade terrível preenche meu cérebro. Eu o faço sorrir na mesma proporção em que o enlouqueço.

Não, não acho que ele suportaria anos a fio comigo. Talvez as diferenças se tornem defeitos horrendos e acabe com o pouco de admiração que sente por mim. — Você vai encontrar alguém especial quando essa aventura acabar, Joseph, tenho certeza, você merece ter uma mulher que te ame e te respeite... — Como eu, acrescento mentalmente, calando-me antes que as palavras me escapem. Ele olha para mim e me viro para ele automaticamente, como o girassol que sou perto dele. Sua expressão é tão confusa que não consigo descrever. — Pauline, eu... — Lambe os lábios sofregamente, como se fizesse um grande esforço para falar. — Na verdade, eu... — Não precisa se explicar, Joseph, eu sei quem você é e sempre soube o que queria quando o chamei para viajar. Eu só perguntei por curiosidade mesmo, as pessoas mudam, não é o que dizem? Dou de ombros, demonstrando uma indiferença que não tem nada a ver com o turbilhão de emoções que se revolve dentro de mim. Estou prestes a explodir de tanta

tensão que meus nervos estão suportando com essa maldita conversa que iniciei, mas agora eu preciso ir até o fim. Saber tudo é melhor do que me iludir. — Você mudou, Pauline? — ouço a pergunta com um frenezi maluco tomando conta do meu sangue. — Eu... — engasgo. Merda, eu mudei pra caralho! Respiro fundo e jogo de uma vez os fatos, de maneira editada, sem apresentar os motivos, claro. — Acredito que não tem como se pensar da mesma maneira que antes depois de novas experiências e convivência com outras pessoas, ainda mais quando são tão diferentes como nós dois. — Danço meu dedo indicador entre a gente, agitada. — Então, sim, eu mudei. Como dizia Raul Seixas, “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Eu canto a música, lhe arrancando um sorriso da face linda. — Eu também... — confessa, fazendo meu coração voltar ao compasso normal. — Nossa viagem nem acabou ainda e eu já vejo o mundo de outra forma. Sorrio de volta para ele, cantarolando outro trecho.

— “É chato chegar a um objetivo num instante”... Embalo nossa quietude, que se instala novamente,com as notas da canção, olhando para as estrelas brilhando lá longe. Seu dedo polegar desenha círculos deliciosos no dorso da minha mão, até que Raul nos deixa sozinhos. — Pauline — Joseph sussurra como se sua voz pudesse incomodar meus pensamentos. Fico dividida entre o medo do que vai me dizer e a vontade de que ele continue falando. — Por que isso tudo parece uma despedida? Respiro fundo e ruidosamente, em busca de ar que, de repente, falta em meus pulmões. Engulo em seco, empurrando o bolo que se forma na minha garganta e abro bem os olhos, na vã esperança de não deixar nenhuma lágrima cair. — Ainda não é, anjo, mas faremos isso quando o momento chegar. Dói tanto dizer essas tão temíveis palavras em voz alta que preciso tragar um soluço antes que fuja por minha boca. Joseph toca meu rosto, forçando-me a me virar para

ele. Não sei em que estado ele encontra minha face, porque a emoção ganha força dentro de mim. Seus olhos estão sérios e compenetrados, parecem me ler até o âmago, traduzindo minha angústia na verdade que eu não disse, mas deve estar estampada em cada célula do meu corpo. — Eu não... — começa, mas para. Fico na curiosidade. O que ele ia falar, meu Deus? — Vou te beijar agora, Pauline — diz apressadamente e se curva, sem esperar minha autorização. Nem imagino por que Joseph anunciou, já que sempre fez tudo o que quis comigo sem pedir licença e eu adoro sua espontaneidade. Isso é uma das coisas que se transformou nele e que é visível para mim. Atitude é uma coisa que toda mulher gosta, não sou diferente de nenhuma nesse quesito. Só que Joseph não fica apenas no beijo ardoroso que envolve minha boca, que exige minha língua e me suga o ar. Seu corpo rola para cima do meu, encontrando o encaixe perfeito entra minhas pernas e meus braços. Meus batimentos cardíacos aceleram e o pulso rápido e ininterrupto parece dizer: Jo-se-ph me pos-su-a.

É engraçado como meu organismo simplesmente entende a necessidade física que tenho de mantê-lo perto, dentro, parte de mim. Minhas unhas se enfiam nas suas costas e seus dedos fincam na minha carne, em uma urgência opressora. Eu não quero me despedir dele e nem que esse sexo tenha sabor de adeus. Desejo apenas ter satisfação plena e saber que ele ainda está aqui, ao meu lado. Seu quadril escorrega contra o meu, friccionando nossos sexos e me leva à loucura da excitação. O perigo de sermos pegos novamente faz eu me lembrar da nossa primeira vez, tranquila, naquele barquinho. Eu sorrio feito uma besta apaixonada por ter descoberto esse homem intenso e pecaminoso naquele fim de tarde. Joseph desliza a boca e a língua por meu rosto, saboreando o sal do meu suor. Mordisca o lóbulo da minha orelha, enfiando a ponta úmida de sua língua dentro do meu ouvido e me arrancando gemidinhos baixos e controlados. Agarro seu bumbum, enchendo minha mão com seus músculos deliciosos. Ele grunhe na minha orelha, causando-me fulgor. Uma de suas mãos vai parar

nos meus cabelos, puxando-os com certa rudeza a fim de alcançar a curva do meu pescoço. Senhor, que tesão dos infernos ele me dá! Seus beijos me degustam com fome. Não consigo fazer mais nada além de permitir que me tenha do jeito que sentir vontade. Se for para ser passageiro, que ao menos seja eterno pelo tempo que durar. Sua língua contorna minha clavícula saliente como se adorasse essa partezinha de mim. Doçura e paixão se misturam em cada toque que me oferece como prova de seu desejo. Pena que esse desejo não vá além da carne, mas meu amor é grande demais para recusar qualquer coisa que Joseph queira de mim. Eu lhe daria até a última gota de vida se me pedisse. Ele puxa o biquíni para o lado e expõe um seio. Ciente do que o gesto significa, meus mamilos arrepiam e intumescem imediatamente. Seus braços se encaixam embaixo do meu tronco e, ao mesmo tempo em que se inclina na minha direção, ele me puxa para si até que sua boca encontra minha pele sensibilizada. Preciso me apoiar nos cotovelos para não cair de

volta na canga, e jogo a cabeça para trás, soltando o ar com força pela boca. A cabeça de Joseph se perde no meu colo e uso o suporte dos meus braços para rebolar meu quadril contra o dele, mantendo o contato que nos atiça. Gemendo, ensandecido, ele larga um seio, afasta o outro tecido que ainda me cobre e abocanha, furiosamente, o mamilo que pede por atenção. Mal consigo fazer a respiração funcionar. Agarro sua nuca, infiltrando meus dedos em seus cabelos e forçando sua cabeça a ficar ali até que eu não aguente mais o estímulo. Meus grunhidos ecoam na natureza silenciosa, que assiste ao nosso amor. Ele larga o mamilo de uma vez, de forma tão barulhenta, que me causa delírio. Abro a boca em busca de mais ar, mas a dele a cobre novamente, em um beijo insano, me empurrando contra a areia fina e fofa que é nossa cama. Seus dedos apertam a mama sensível, enquanto outros invadem a peça debaixo do meu biquíni. Eu me contorço, abrindo-me e facilitando seu acesso, enquanto sua língua me envolve a boca. Faço o mesmo que ele. Não tem pra que permanecer inativa nessa transa. Eu quero e vou participar muito. Trago seu monumento de

pau para fora da sunga e o massageio inteiro, lhe arrancando gemidos que engulo junto com os meus. Com brutalidade, soca os dedos dentro de mim, instigado por minha punheta. Fico fora de mim, largando sua boca para respirar, mas sem parar de bater para ele. — Goza na minha mão, Pauline — pede, sem fôlego. A fúria de seus dedos me leva a acelerar os movimentos nele também. — Joseph, por favor, não para! — imploro feito uma maluca. — De jeito nenhum, menina veneno, eu quero beber você. Fica ensopada pra mim, fica. Seus olhos capturam os meus enquanto sinto a pressão começar por baixo e crescer em meu corpo até atingir minha cabeça, onde explode. O orgasmo vem, escandaloso, porque não consigo evitar. Sem esperar mais nem um segundo, atende meu chamado por ele como um pedido para fazer o que prometeu e mergulha a cara entre as minhas pernas, para lamber a lubrificação que derramei durante o gozo. Eu me sinto toda melada, mas convulsiono quando sua língua encosta na minha pele escorregadia.

Joseph me come como se eu fosse o melhor prato de uma refeição. Ele para antes de me deixar limpa, voltando a atacar minha boca e fazendo seu pênis macio, e ao mesmo tempo duro, deslizar para dentro de mim em um segundo. Seu corpo se movimenta em estocadas curtas e intensas, deixando seu pau chegar fundo vez após outra. Rapidamente, meu corpo se permite dominar, cedendo às curvas e movimentos do dele, que me leva ao segundo clímax. Eu não quero que termine tão cedo. De repente, fazer sexo com Joseph nesse lugar paradisíaco parece o fechamento de um ciclo e eu perco as estribeiras, em busca de calar a angústia que me consome a razão. Seguro seu pescoço, fazendo-o se afastar de mim. — Quero ficar por cima, anjo — digo quando libera meus lábios. Usando sua força deliciosamente excitante e máscula, Joseph nos gira. Eu me apoio nas palmas das mãos para remexer meu quadril em círculos longos e torturantes, enquanto o vejo morder o lábio e depois lambê-lo, parecendo bastante sedento. Meus seios balançam na sua

cara e ele os aperta, esticando ainda mais os mamilos com as pontas dos dedos, mas suas mãos estão sujas de areia e acabam me sujando também. Remexo meus quadris para trás e para frente com força e profundidade. Nossos corpos batem um no outro, fazendo barulho e me estimulando fora do normal. Eu quero tanto esse homem que não vou conseguir me segurar mais. Puxo seus cabelos, fazendo-o entortar o pescoço para acompanhar meu gesto brutal. — Eu te desejo tanto, Joseph. Está sentindo como minha boceta mela com seu pauzão? — Sim... — responde, firmando as solas dos pés na maciez sob nós para impulsionar seu quadril contra o meu com força. Puta merda! — Eu te dei minha virgindade e agora meu pau só pensa em ficar dentro de você... Não acredito que Joseph falou “pau”! Eu gargalho, ensandecida, adorando o fato de ele ter entrado no clima erótico junto comigo. Volto a grudar nossas bocas, porque transar beijando é bom demais da conta e meus peitos raspam em seu peitoral toda vez que meu corpo se movimenta contrário ao dele. Joseph agarra a minha

bunda, me abrindo mais, se apossando de cada centímetro de mim. Suas mãos me empurram, determinando o ritmo mais acelerado que o tire da tensão pré-clímax. Eu nunca o vi tão a fim de gozar logo, e essa outra novidade me tira o juízo de vez. Solto sua boca e me sento, cavalgando-o o mais rápido que eu posso. Ele vem comigo, ajudando-me a mexer, enlouquecidamente. — Deixa sua porra em mim, Joseph! Um sorriso sacana transfigura seu rosto, me levando à loucura. Gente, esse homem não existe! — Com todo o prazer... — responde resfolegando, mas em vez de se entregar para mim, estimula com o polegar o meu clitóris. — Mas só depois de você. Sempre o cavalheiro sexy que permite que a mulher alcance muitos orgasmos no pau dele antes de ser levado pelo próprio prazer. Eu me concentro na sensação que me carrega a mais um êxtase, que chega depressa, possuindo meu corpo em chamas. Minhas pernas tremem enquanto grito seu nome, pela terceira vez, para as árvores distantes, esperando que a vila toda saiba que estamos dando sentido à Ilha do Amor.

Joseph grunhe, largando meu clitóris pulsante, agarra minha cintura e me faz deitar sobre a canga em um movimento bruto e certeiro. Sai de cima e de dentro de mim, movendo a mão com força em toda extensão longa e grossa de sua ereção. Fico olhando fascinada, aguardando para beber dele como ele bebeu de mim, mas seu gozo espirra pelas minhas pernas, depois na barriga e para todo lugar que ele mira. Fico coberta de porra. — Anjo, você é tesudo pra caralho, meu! — exclamo, rindo e me deleitando com seu atrevimento. Sua atitude me provoca alegria e fascinação. Ele se inclina, melecando-se com seu próprio sêmen. Que delícia, meu Deus! Seu rosto paira a milímetros do meu. Seu olhar é tão intenso que me engole como a noite que apenas se adensou enquanto a gente se amava de maneira selvagem, uma versão moderna e louca de “A Lagoa Azul”. — Se me pede, você ganha. — Sua voz sai baixa, como um rosnado, mas também tem a suavidade de seu jeitinho certinho e doce. — É isso que você causa em mim, menina veneno. SÓ VO-CÊ! — enfatiza cada sílaba.

A ilusão, traiçoeira, se instala dentro de mim. E se Joseph estiver tão apaixonado quanto eu, mas ainda não souber disso? Ai, meu Deus! Será?

Capítulo 37

Joseph

Ponta do Cururu e Ilha de Marajó, Pará Olho o céu paraense, da varanda do hotel em que nos hospedamos, e sinto o gosto amargo da solidão preenchendo todos os meus sentidos. É certo que não estou só de fato, Pauline dorme profundamente na cama de casal que me espera, mas não deixo de me considerar um grande solitário em busca de um sonho impossível. A conversa que tivemos na beira do rio foi muito clara para mim. O tom de despedida se tornou evidente. Pauline não mudou seus ideais de liberdade, embora me queira por perto, talvez, porque gosta do nosso sexo. Seu convite para ficar com ela em Brasília, depois da conclusão da viagem, me pareceu tão indiferente que

acabei falando o que realmente acho. É inapropriado morarmos juntos sem um compromisso, sem uma definição clara para a relação que temos. Talvez Pauline queira uma espécie de relacionamento aberto comigo, igual ao que teve com o tal ex-marido. Sinceramente? Estou desesperado, mas não consigo viver assim. Aceitar essa condição me parece crueldade com meus próprios sentimentos. Não posso ficar com ela, embaixo do mesmo teto, sabendo que não me pertence, alimentando uma ilusão que depois vai me destruir. Não é justo com nem um de nós dois. A melancolia se abate sobre mim de tal forma que passo horas na varanda, pensando e repensando a minha vida e o que vou fazer para esquecer Pauline de vez. Ainda temos um tempo juntos, talvez algumas semanas, já que vamos fazer um tour pela Amazônia e, por último, a trilha rumo ao Monte Roraima, nosso último destino do itinerário. Falta muito pouco para o fim da viagem. Penso em realizar novas pesquisas na Internet e tentar infiltrar mais destinos, afinal, o Brasil é enorme e deixamos de passar por muitos lugares igualmente interessantes, mas

para quê adiar o inadiável? Se é para nos separarmos, talvez seja melhor que aconteça depressa. Não que vá doer menos, é só que terei mais tempo para me conformar e me acostumar com sua ausência. Já pensei em confessar meus sentimentos de todas as maneiras possíveis, quando oportunidades surgiram. Venho tentando conquistá-la, proporcionando jantares, demonstrando todo carinho e atenção, buscando aprimorar meu desempenho sexual, enfim, acho que não tem mais nada a ser feito. Ainda bem que ela não compreendeu que eu a amo e que não quero me despedir nunca. Ou talvez tenha entendido e resolvido fingir que não, para não me desconcertar ou não ter que me dar um pé na bunda. Percebendo que está quase amanhecendo, volto para dentro do quarto e ouço a respiração longa e ritmada de Pauline. Abro um sorriso amplo porque o simples fato de vê-la dormindo, tão vulnerável e serena, me enche de um sentimento gostoso de ser sentido, o qual eu não consigo definir direito. Enrosco meu corpo por trás dela e a faço girar, aconchegando-a em meu peito. Pauline vem fácil, soltando alguns balbucios, e logo volta a respirar forte.

— Eu só vou dizer isso em voz alta uma vez — falo, meio apreensivo. Ela continua imóvel, dormindo calmamente. Beijo-lhe a testa. — Preciso dizer, Pauline. Mesmo que não possa me escutar, eu nunca vou ficar em paz se não desabafar. Pauline grunhe e eu fico tenso. Será que ela está ouvindo? Acho que não. Eu me movo um pouco e ela vem junto, o corpo todo mole, desacordado. Suspiro, julgandome um covarde, mas agora não posso voltar atrás. Tenho que ir até o fim. — Sabe aquele dia em que nos encontramos na lotérica? — prossigo, e meus olhos, do nada, começam a marejar. Nosso primeiro encontro parece ter acontecido há meio século. — A verdade é que foi naquele instante que eu ganhei o maior tesouro que alguém podia sonhar em ter um dia. Encaro-a, prendendo os lábios para não me comportar como uma criança chorona. Sinto o meu peito se aliviar só de poder articular esse jogo de palavras que estavam guardados por tanto tempo dentro de mim. Solto mais um longo suspiro.

— Eu não quero te perder, Pauline... — murmuro sofregamente, engolindo um soluço. — Não faço ideia do que vou fazer sem te ter aqui comigo. Sou apaixonado pelo seu jeito doidinho de ser... — Fecho os olhos com força, mal suportando a carga emocional que é liberada tão depressa. — Amo os seus olhos, o seu sorriso e a maneira brava como me olha quando tento te desacelerar. Eu te amei do nascer ao pôr do sol. Pauline continua imóvel. A primeira lágrima simplesmente sai e rola pelo meu rosto, não consigo contê-la, mesmo que eu faça o maior esforço. — Eu te amei do sul ao norte do país — prossigo com a voz embargada. — Amei cada loucura, cada inconsequência, cada gargalhada. Só você ri desse modo despretensioso, livre. — Sorrio. — Eu te amo tanto que não ouso tentar mudar nada que existe em você. — Pauline se remexe e meu coração saltita de pavor e angústia. No entanto, ela solta um pequeno ronco e ergue uma perna sobre as minhas. Aliso sua bochecha, suavemente. — É como a tatuagem que fizemos, meu amor. Você está marcada em meu coração. Eu sempre vou

te amar, linda menina. Todas as coisas ruins que senti nos últimos dias finalmente vão embora e eu me sinto mais leve. Sei que nada mudou de verdade depois do meu monólogo, mas só o fato de poder extravasar esse turbilhão de sentimentos, faz com que eu me sinta bem melhor. Tenho um sono irrequieto que não me deixa relaxar nada, composto por alguns pesadelos que me perturbam. Pauline acorda toda animada e, apesar de estar me sentindo um caco, faço o maior esforço do mundo para não estragar o nosso passeio. É por isso que tomo um banho de cabeça e bebo bastante café antes de sairmos para a próxima aventura. Pegamos um barco a motor, desses bem simples que parece que vai afundar a qualquer instante, aqui na vila de pescadores. O barqueiro nos guia pelas águas límpidas e cristalinas do rio Tapajós, mostrando-nos um pouco mais a fundo a natureza do lugar. Ficamos encantados. O Caribe Amazônico é mesmo impressionante, e Pauline aproveita a oportunidade para tirar muitas fotos em seu celular. Repentinamente, vemos uma movimentação diferente na água.

— O que é aquilo, moço? — Pauline pergunta, apontando. — São os botos. Por essas bandas tem muito tucuxis! — Tucuxis? — questiono, tentando visualizar melhor. — São os botos cinzas, chamamos de tucuxis. — Do nada, um dos bichos resolve saltar adiante. — Olha! Ai, meu Deus do céu, que lindo! — Pauline grita e liga o celular no modo câmera, para tentar gravar algumas imagens. — Aqui também tem o boto cor-derosa? — Tem, sim, senhora. Estamos chegando à Ponta do Cururu, talvez dê pra gente ver por lá. — Ai, meu Deus! — Pauline se empolga um bocado, mas infelizmente não consegue filmar outro boto saltando. Aquela apresentação foi única, um momento que não se repete, mas que fica em nossas memórias. Depois de um tempão, chegamos à tão famosa Ponta do Cururu. Segundo Pauline me contou, é uma praia praticamente deserta, onde a água é extremamente limpa. O barqueiro fica nos esperando, conforme exigido pela minha companheira, enquanto fazemos uma verdadeira

vistoria no lugar. É muito bonito, parece que somos náufragos perdidos em uma ilha inabitada. Essa conexão com a natureza sempre me traz ótimas sensações, de forma que meu humor se modifica. Não há sinal da melancolia da madrugada, nem de tristeza ou solidão. Quem se sente só deveria tentar, uma vez na vida, fazer uma viagem como essa. É impossível não me sentir parte de tudo o que me cerca, como se minha alma ganhasse um propósito, bem como o meu corpo. Caminhamos de mãos dadas pela areia, na beirinha do rio, em silêncio. Não tem nenhum turista por perto, creio que devido à baixa estação. O barqueiro ficou totalmente para trás, de forma que mal conseguimos vê-lo. Estamos sozinhos em um pedacinho deste país rico e maravilhoso. Acabo tendo uma ideia abrupta, que me assalta tão depressa que estaco antes de conseguir raciocinar sobre ela. Pauline para também e me olha, meio confusa. — O que foi, anjo? Antes que eu possa me arrepender ou me considerar louco demais, tiro minha camiseta, jogando-a na areia,

depois arranco a bermuda junto com a sunga. Fico completamente nu na frente dela, e só depois percebo a vergonha que estou sentindo. Tenho consciência de que estou corado, mas não me visto, nem falo nada. Pauline fica surpresa, observando-me com um olhar divertido, mas logo me acompanha e tira todas as peças de roupa que a cobrem. Tomo sua mão e a puxo em direção à água. Corremos livremente e a ouço gargalhar alto. Ter alguém ao seu lado que sempre topa tudo pode ser uma experiência e tanto. Com ela, aprendi a ser livre. Pauline me mostrou a verdadeira essência do que significa liberdade. Nosso mergulho não tem nenhuma conotação sexual. Estamos apenas gozando de nossa liberdade, sem restrições, ligados à natureza e usando nossos corpos para sentir toda a energia que vem dela. Mergulhamos bastante, brincamos de achar pedrinhas no fundo do rio e somos agraciados com a presença de muitos peixes, alguns até bem grandes — que deixam Pauline assustada, embora ela não admita. Nós nos distraímos tanto que mal percebemos o tempo passar. Só nos damos conta disso quando a fome

faz nossos estômagos roncarem alto. Vestimos nossas roupas e encontramos o barqueiro, com cara de quem não estávamos fazendo nada. É hora de voltar e provar alguns pratos feitos com os peixes trazidos pelos pescadores. Paramos em um restaurante humilde, mas de ótimas recomendações, e nos fartamos com um almoço caseiro delicioso. Comemos tanto que voltamos para o hotel nos sentindo meio sonolentos, exaustos do passeio que quase esgotou nossas energias e depois da reposição exagerada que fizemos. Pauline resolve tirar um cochilo e eu aproveito a chance para acompanhá-la, já que não descansei durante a madrugada. Depois que acordamos, como prometido, Pauline me leva ao local onde alugamos, mais uma vez, os jet skis. A nova aventura nessas águas dura meia hora, o bastante para fazê-la inesquecível para mim. Nossa visita a Alter do Chão termina assim que retornamos do passeio e pegamos um translado para o Aeroporto Internacional de Santarém. Nosso próximo destino nos espera: vamos conhecer a tão famosa Ilha de Marajó. Fico surpreso porque não fazia ideia de que a ilha

era tão grande. O fato de ter um aeroporto dentro dela já me deixou impressionado, ainda que não haja voos comerciais para lá — sempre imaginei que Marajó fosse um lugar bem pequeno, mas o que percebo é que estou completamente enganado. Comento com Pauline quando desembarcamos do nosso jatinho fretado, numa cidade chamada Soure. — Você não sabia que Marajó é a maior ilha do Brasil e a maior ilha fluviomarítima do mundo? — ela comenta, com os olhos brilhando. — Sério? — A minha surpresa cresce. — Não sabia, não, sô! — Esse lugar é encantado, tenho certeza! Você vai gostar. Pena que já anoiteceu, mas amanhã vamos nos divertir muito aqui! Pegamos uma van rumo à pousada que Pauline escolheu de última hora. Percebo, assim que chegamos, que o lugar onde nos hospedaremos é realmente bastante humilde, diferente de todos por onde já passamos. O estabelecimento é bem rústico, todo organizado e limpo, com cheiro de lar. Gosto muito do que vejo, mas tenho

uma dúvida: o que fez Pauline escolher uma pousada tão simples em vez de um hotel grande? Engulo a pergunta nem sei por qual motivo, mas quando adentramos o quarto pequeno, composto por mobília antiga, ela mesma me responde: — Espero que goste daqui, anjo — fala e corre para a varanda ampla, com várias redes coloridas montadas e uma vista maravilhosa da vegetação local à frente. — Eu me apaixonei pelas fotos dessas redes. Tive tanta vontade de deitar em uma delas e deixar o tempo passar! Só Pauline mesmo para escolher um lugar por causa das redes. — Estou surpreso. — Eu me aproximo por trás dela. — É impressão minha ou Pauline de Freitas Dias está desacelerando? Ela se vira para me encarar de perto. Está toda confusa e engraçada, por isso apenas sorrio. — Como assim? — A Pauline que eu conheci preferia fazer alguma coisa mais movimentada e louca do que simplesmente se deitar e deixar as horas passarem. — Ela ergue uma

sobrancelha. — Nunca pensei que fosse te ver louca para não fazer nada. — Eu... — Abre a boca e se interrompe. Fico apenas esperando, curioso por uma explicação. De repente, Pauline me olha com intensidade e se deixa permanecer em silêncio. Toco a lateral de seu rosto, envolvido pela oportunidade que tenho de vê-la tão séria. — Acho que você me desacelerou um pouquinho. — Eu? — Sim. Você me ensinou que não preciso correr o tempo todo para sentir a vida circulando em minhas veias. Existe liberdade na quietude e no silêncio também. Não é? — Ela ri e eu fico simplesmente maravilhado. — Eu achei que mudar para Minas fosse me acalmar, mas a verdade é que só você conseguiu esse feito! — É, sim, linda menina. A gente se deita na rede, juntinhos, porque simplesmente não suporto a ideia de usar outra rede e passar tantas horas longe dela. Não lhe falo isso, obviamente, apenas a puxo para se deitar e ela vem sem fazer perguntas. Conversamos sobre muitas coisas. Acho

que, durante toda a viagem, esta é a vez em que mais conversamos. Ela me conta fatos e curiosidades sobre o seu passado, e eu acabo fazendo o mesmo. Acredito que jamais tive uma conversa tão aberta e franca, despreocupada, banal, mas ao mesmo tempo importante. A gente acaba se conhecendo ainda mais, afinal, o passado de uma pessoa diz muito sobre ela. O clima está tão agradável que não conseguimos ter coragem para sair do lugar. Adormecemos assim mesmo, sobre o leve balançar da rede. Durante a madrugada, acordo um pouco incomodado e meio quebrado, por isso saio e decido carregar Pauline para a cama rústica do quartinho. A madeira geme por causa do nosso peso, provocando um barulhão. Fico imaginando que a pousada inteira acordaria se resolvêssemos transar a esta hora. O pensamento me diverte, mas o sono me consome e me enlaço ao corpo de Pauline para continuar dormindo. Eu acordo ouvindo xingamentos baixos e palavrões aleatórios. Pulo em um sobressalto, de repente sem saber onde estou, até que vejo Pauline andando de um lado para

o outro no quarto, parecendo superchateada. — O que aconteceu? — pergunto, temeroso, já me afastando dos lençóis. — Affe! — Dá um soco leve na própria testa e bufa, irritada. — Eu menstruei. Que grande bosta! Fico um tempão a olhando, meio desnorteado. A única coisa em que penso ao ouvir que Pauline menstruou de novo é no fato de estarmos na estrada há um mês. Ao mesmo tempo em que não acredito que já faça tanto tempo, também fico estarrecido porque me parece muito mais que isso. Só um mês? Não brinca. Ninguém ama tanto alguém em um mês. Como posso estar tão absurdamente louco por ela em tão pouco tempo? Só pode ser brincadeira! — Puta que pariu, viu? Ser mulher às vezes é um cocô! Argh! Odeio menstruar, mas que porra! — Pauline continua com seus xingamentos enquanto eu ainda a observo. Ela para e me olha de um jeito irritado. — Diz alguma coisa, Joseph! — Uai... — Coço a minha nuca, meio desconcertado. — Quer que eu compre alguma coisa pra você? Deve ter

uma farmácia por perto. Ela para e abre um leve sorriso. — Não, obrigada. Estou preparada desta vez. — Senta-se ao meu lado na cama e me encara com olhar de frustração. — Desculpa, Joseph. — Desculpar... pelo quê? — Ainda estou meio sonolento e sem meus óculos, por isso tenho dificuldade de enxergá-la direito. — Eu queria transar em cima de um búfalo. — Entorta a boca. Começo a gargalhar. Não dá para acreditar nesta mulher. — Em cima de um búfalo? Ficou maluca, Pauline? Ela começa a rir também, creio que contagiada pela gargalhada que não consigo conter. A crise de riso é tão forte que começo a chorar de tanto rir. Ela fica meio ofendida e começa a me dar travesseiradas, que me fazem rir ainda mais. As coisas só pioram porque não consigo parar de imaginar a cena de nós dois em cima de um búfalo. Que bizarro que deve ser! Depois de um café da manhã reforçado, compramos

ingressos para fazer um passeio por boa parte da ilha em uma embarcação grande, que abriga vários turistas. Deste modo, tenho uma ideia do tamanho de Marajó. É mesmo enorme e muito bonita, em todos os sentidos. A parte mais louca do dia é quando chegamos perto, mas não tanto, porque é perigoso, de um dos pontos onde o Rio Amazonas se choca com o Oceano Atlântico. Este encontro tem um nome bem engraçado: pororoca. Conseguimos ver até algumas equipes de surfistas se arriscando nas ondas mais distantes. Incrível! De volta a Soure, o grupo que estava na embarcação se espalha. Decidimos fazer um passeio de jipe, passando por algumas praias até alcançar uma das tantas propriedades privadas que oferecem passeios de búfalo. Eu nunca tinha visto um em toda a minha vida, mas Marajó é tomada por eles. Até a polícia, em vez de cavalos, usa os búfalos para se locomover. Perguntei para Pauline por que na ilha tem tantos búfalos, e ela me disse que reza a lenda que um navio carregado desses animais naufragou perto de Marajó, e foi aqui que eles encontraram abrigo, reproduzindo-se e criando raízes. Cada detalhe que

descubro sobre este lugar me deixa ainda mais admirado. A fazenda que visitamos é enorme e toda arborizada. Percebemos que não somos os únicos turistas quando vemos certa movimentação em uma humilde loja de suvenir localizada dentro da propriedade. Há búfalos soltos, espalhados por toda parte, mas tem aqueles que estão selados, selecionados para os passeios em grupo. Eu não fico muito empolgado em subir no bicho. Ele é maior e mais gordo do que pensei, vendo tão de perto. Mas Pauline está destemida e parece absurdo que ela suba em um desses e eu não. Sendo assim, tomo coragem e encaro a trilha que o bicho segue quase mecanicamente para dentro de uma espécie de mata. Passo meia hora tendo minhas bolas esmagadas pela sela desconfortável, mas a paisagem é bonita e vale a pena ser vista. — Este é um lugar para onde eu voltaria! — exclama Pauline enquanto observamos um dos funcionários da fazenda ordenhando uma búfala. Há um monte de turistas esperando sua vez para beber o leite. — Eu também — falo, e me inclino para lhe dizer baixo em seu ouvido: — Mas não tem como fazer sexo em

cima daquele trem, não, sô. Pauline gargalha, levando a cabeça para trás. — Claro que tem! Veja... — Aponta para um búfalo enorme, que está deitado calmamente debaixo de uma árvore. — Vem, vem comigo! Saímos da pequena fila do leite e nos aproximamos do animal. Pauline se chega tão perto que me dá agonia. Ela não vai tocar no bicho, vai? Para minha surpresa, começa a alisar o pelo áspero e escuro, toda animada. Acho que o búfalo gosta de seu afago, mas eu não gosto nada do que Pauline está fazendo. — Veja como ele é comprido. — Mostra, ainda acarinhando o búfalo como se fosse um gatinho manso. — É só você montar, depois eu monto de frente para você, com as pernas abertas, igual transar em cima de uma moto. — Me parece uma péssima ideia! — Se eu não estivesse menstruada, pagaria alguém pra nos ajudar com isso. — Ela solta o bicho e se levanta bruscamente, causando um susto tanto em mim quanto nele. O animal solta um ruído esquisito e se levanta também, mostrando toda sua imponência. Pauline se afasta

um pouco, segurando minha mão, mas ainda encarando a fera. — Acho... Acho que ele ficou meio bravo. O búfalo solta ar pelas ventas e faz cara de quem não está satisfeito. Chacoalha uma perna dianteira e encolhe o pescoço. Dou vários passos para trás, trazendo Pauline comigo. — Será que é melhor correr ou ficar? — ela pergunta, a voz saindo trêmula. — Eu não... sei. Tomamos uma decisão quando o búfalo resmunga e se agita na nossa direção, iniciando uma carreira que só não nos pega porque começamos a correr antes, na maior velocidade, antecipando sua ação. Escuto uma gritaria atrás de nós, mas também ouço as patas do bicho trotando no chão e sei que ainda está nos perseguindo. Pauline corre bem, graças a Deus, e eu a mantenho sempre na minha frente como modo de protegê-la. Vejo uma árvore adiante e grito alto: — Sobe na árvore, Pauline, vamos! Rápido! — Não ouso olhar para trás enquanto acompanho a minha amiga de viagem tomando impulso para alcançar o primeiro

galho. Eu paro para ajudá-la e, assim que ela sobe, continuo correndo. Sei que não vai dar tempo de subir também. Corro rápido e agilmente, dando tudo de mim para não desacelerar. — Joseph! — Pauline grita. — Joseph, pare! Está tudo bem! Olho para trás, ainda correndo, percebendo que nada mais me segue. Um funcionário conseguiu laçar e capturar o búfalo desgovernado. Deixo meu corpo cair sentado no chão. Estou colocando todos os bofes para fora, de tão agitado que está o meu coração e, por consequência, minha respiração. Que susto! Vejo Pauline descer da árvore e vir depressa até mim. — Você está bem? — ofega, igualmente assustada, oferecendo-me uma mão para ajudar a me levantar. Aceito a oferta. — Acho melhor transar em cima de uma coisa que não se mexa sozinha. Ela ri e me puxa. Agradecemos ao funcionário que nos salvou da loucura que foi tentar escapar da fúria de um búfalo desembestado e voltamos para o curral.

Experimentamos o leite quente e fresco, que nos ajuda a ficar calmos. Bom demais da conta! Voltamos de jipe para a pousada, a fim de almoçarmos e continuar o nosso passeio, que desta vez não passa de uma caminhada na beira da praia. A jornada foi tão prazerosa quanto cansativa, por isso, quando chegamos à pousada de novo e tomamos um banho, caímos novamente na rede da varanda. O cheiro de café que vem da cozinha me agrada, mas a preguiça é tanta que ficamos só na vontade. — Partiremos para Manaus amanhã — Pauline comenta, parecendo bem satisfeita. — Vamos conhecer a Floresta Amazônica! — E depois? — Depois, partiremos para o nosso último destino: o Monte Roraima. Fico em silêncio. A palavra “último” dói o meu coração. Caramba, ainda tem tantas coisas para conhecermos! Por que ela não colocou mais itens no itinerário? Nem visitamos todos os estados ainda! Não importa o que a gente faça, a droga do clima de despedida

sempre ressurge para me assombrar. Pauline fica muito introspectiva também, até que resolve fazer uma pergunta: — Já sabe o que vai gritar de cima do monte? Penso um pouco. Eu quero gritar tantas coisas! Mas acho que nada do que penso será apropriado. — Ainda não. E você? — Vou descobrir só na hora. — Ainda temos um tempo até lá — falo, colocando mexas de seu cabelo por trás da orelha. Pauline se vira e deposita a cabeça em meu peito, abraçando-me com força pela cintura. Fica tanto tempo parada que penso que dormiu, até que se remexe e ergue a cabeça para me olhar. — Eu gosto tanto de você, Joseph. Só queria que soubesse disso — murmura, piscando os olhos mais do que o normal. Afago seus cabelos e caio na porcaria da ilusão mais uma vez. Meu Deus... Será que há uma chance, afinal? Será que posso conseguir o que tanto quero? — Eu também gosto muito de você — respondo e a beijo com todo o meu amor. Pauline faz nossos corpos se enlaçarem com mais exatidão, e eu aproveito a chance para intensificar a dança

de nossos lábios. Eu não acho possível que ela não tenha percebido o quanto estou apaixonado. Será que falou que gosta de mim só para não me deixar tomado pela frustração? Essas dúvidas me enlouquecem, mas tento me concentrar em nosso beijo. Não ganho nada martelando incertezas. Nossos corpos unidos é a coisa mais real e palpável em que posso me apegar agora.

Capítulo 38

Pauline

Rumo à maior aventura radical da minha vida Quando despertamos pela manhã, estou agitada e um pouco para baixo. Desde ontem estou pedindo uma inspiração divina para desacelerar o fim. Nem acredito que estamos indo para o nosso penúltimo destino, por mais que vejamos maravilhas exuberantes da floresta Amazônica, o que pode levar um tempo. Affe, tenho vontade de dispensar o jatinho e ir de barco, só para demorar muito mais para chegarmos a Manaus, a capital do Amazonas. O desespero chega a tal ponto que decido parar de esperar por um milagre e agir. Eu vou gritar que amo Joseph naquele monte em Roraima. Será minha última

chance de declarar o que sinto por ele. Preciso ao menos tentar, mesmo que ele não corresponda aos meus sentimentos. Sou ou não sou uma mulher bem-resolvida que não tem medo de se arriscar? Eu vou fazer tudo do jeito dele, com direito a pedido de namoro. Mais tradicional que isso impossível! Quero tanto esse garoto que vou pedir uma oportunidade pra gente. Não deve ser tão ruim assim para ele. Joseph gosta da minha companhia e das minhas doideiras. Nós temos química na cama, acho que só falta um relacionamento sério. Não tenho pressa e quero muito fazê-lo se apaixonar por mim também. Da janela do quarto onde estamos hospedados, vejo uma galera navegando em seus jet skis no rio Amazonas e eu me lembro que Joseph ama motos. Fico animada quando tenho a melhor ideia de todas. Obrigada, Deus! Faço uma rápida pesquisa na rede e percebo que dará certo. Teremos uns quatro dias juntos pela frente até Manaus. Uhul! Horas que eu usarei para viver este amor em plenitude. E se for só o que me resta? Melhor aproveitar ao máximo esse tempo a mais. Juntamos nossas coisas, fazemos check-out na pousada e rumamos para o

aeroporto de Soure em um táxi. Joseph parece se contagiar com minha animação ao acompanhar meu ritmo acelerado. Nossas conversas estão se tornando mais profundas e reveladoras, mas de um jeito natural, como se a gente não se conhecesse há apenas um mês. Como passou depressa, ao mesmo tempo em que parece uma eternidade! O contato físico constante também não o assusta mais e eu fico maravilhada ao perceber o quanto mudamos. Nem consigo mais ficar chateada em só dormir de conchinha com ele por estar menstruada de novo. Também não me espanto pelo fato de eu ter me apaixonado tão depressa por Joseph. Meu anjo é a pessoa mais sensacional que já vi desde sempre e eu diria até que, sendo eu Pauline de Freitas Dias, demorei a me envolver emocionalmente com ele. Ou tenha acontecido de cara, sei lá, assim que o olhei naquela casa lotérica. Acho que faz mais sentido, não é, Destino, seu perverso, brincando com meu coraçãozinho virgem?! No aeroporto, Joseph se propõe a guardar nossa parca bagagem, todo cavalheiro, e aproveito para

conversar em particular com o piloto do nosso jatinho. O cara está bronzeado pacas, andou se esbaldando nas praias paradisíacas da Ilha de Marajó, espertinho! Mudo o itinerário de novo, porque sou dessas e eu posso. O piloto não reclama. Meu, se ele resmungasse, eu ia mandá-lo à merda. Não estou pagando uma fortuna à toa, não. Quando meu companheiro se aproxima, faço um sinal cúmplice ao homem para manter o segredo entre nós. Quando embarcamos e o piloto anuncia que vai levantar voo em alguns minutos, fico chateada por termos tomado todo aquele vinho de tucumã durante o percurso do Acre ao Pará. Quero deixar Joseph distraído e alegre. Dou de ombros e uso outro artifício, afinal sou conhecida por minha tagarelice. Pergunto a ele o que achou de Soure e dos búfalos, acrescentando que é uma pena não concretizarmos minha fantasia de transar sobre um dos bichos, eles se mostraram mais bravos do que eu imaginava. Ia ser perigoso e excitante em um nível muito doido. Ele ri tanto disso que eu fico o olhando, olhando, olhando... Xonadinha da Silva e Silva. Sobrevoamos a baía de Marajó, onde o rio Amazonas

se encontra com o Tocantins, no chamado Delta do Amazonas, e deságua no Oceano Atlântico. Joseph não percebe onde estamos até que pousamos em Belém do Pará, a capital do estado. O percurso é tão rápido que lhe chama a atenção para a janela. O cenário deslumbra, como sempre. É muita água e muita mata! A gente não vê tanto isso no sul. Joseph se vira para mim para perguntar onde estamos, mas falo na frente, dizendo que é uma surpresa que ele vai amar. Desembarcamos no incrível e enorme Aeroporto Internacional Júlio Cezar Ribeiro, que foi o primeiro do Brasil. Eu o puxo pela mão, em uma pressa desmedida. Aceno um tchauzinho ao piloto e enfio Joseph em um táxi, na saída do aeroporto. Passo o endereço, que encontrei na Internet, do lugar para onde quero levá-lo, ansiosa demais em chegar lá. Faço uma rota pelo GPS do celular e vejo que não fica muito longe. Rio enquanto meu amigo me olha de soslaio, curioso e temeroso, porque se ele não estivesse desse jeito não seria ele. O trajeto não nos permite ver muito das atrações turísticas naturais, mas grudamos no vidro, daquele jeito

louco que já nos acostumamos a fazer, para ver a imponência dos prédios modernos que se erguem ao lado dos históricos e narram os quatrocentos anos de existência da “Cidade Morena”. O carro para, eu pago a corrida e empurro Joseph para fora. — Uai, você vai comprar outro carro, Pauline? — pergunta, parado em frente à concessionária, me olhando repreensivo. — Claro que não, né? Nem posso dirigir. — Bufo ao me recordar disso, mas logo afasto a tristeza e volto a vestir meu melhor sorriso. — Desfaça essa careta que eu vou te dar um presente que você vai amar e, de quebra, te propor uma aventura dentro de nossa viagem. — Cruzo os braços no peito, despretensiosamente, atiçando sua curiosidade latente. — Quer saber ou não? — É claro que quero, sô! — rebate, ainda sério, me pegando pela mão e me guiando para dentro do lugar. Somos recebidos por vários consultores, que nos reconheceram quando ainda estávamos na calçada. Nossa, minha fama por essas bandas está alta, hein?! — Obrigada pelo carinho, pessoal — agradeço

depois de tirar muitas selfies, com Joseph ao meu lado. Mesmo morrendo de vergonha, ele não se nega a participar. Que fofo! Talvez ele só tenha feito isso por não ter para onde fugir, mas gosto de imaginar que foi por mim. Muito feliz, digo a que viemos quando nos perguntam em que podem nos ajudar. — Eu quero dar um presentinho para meu amigo aqui — respondo, tocando-o carinhosamente. — Joseph ama motos, não é, querido? Desconcertado diante de tanta atenção voltada para si, ele apenas sorri amarelo e balança a cabeça, concordando comigo. Passa as mãos na nuca, bagunçando os cabelos, em um tique de nervosismo, depois empurra o aro dos óculos no rosto, confirmando para mim seu total desconforto. Ignoro tudo isso porque ele não vai poder dizer não para um presente. Seria falta de educação e Joseph pode ser tímido, mas não é mal-educado. Eu o levo pela mão para perto das supermáquinas que os vendedores mostram. Já tenho um modelo em mente, por isso decidi por essa concessionária, mas quero lhe dar a chance de escolha. Joseph não me decepciona ao ser atraído como uma

mosca até a K 1300 GT. A motocicleta Sport Touring hipnotiza com sua grandeza e beleza impressionantes. O design arrojado e aerodinâmico inspira luxo e conforto, o que não é normal na maioria das motos. O guidão é alto e largo, com para-brisa. Os bancos são baixos, permitindo uma posição de pilotagem ereta. Essa belezinha alcança mais de duzentos quilômetros por hora. Como sei que ele ama velocidade, tinha que ser um desses monstros para agradá-lo. Ela é perfeita para viagens longas, tem suporte para encaixe de malas e porta-objeto traseiro. Como Joseph me parece bastante indeciso, eu me manifesto por ele. — A gente pode fazer um test-drive? — pergunto, empolgada, e somos autorizados a sair da concessionária pilotando essa BMW esportiva turística. Os olhinhos de Joseph brilham por trás das lentes, como a lataria prateada da motocicleta que monta sem questionar. Ele recebe orientação de como ajustar o banco e mexer no painel da máquina. O ronco do motor, ao ser ligado, é suave, mas feroz como um leão que sabe que é o rei da floresta e não precisa de muito para mostrar quem

manda. Ele me estende a mão em um convite para acompanhá-lo e subo na garupa feliz da vida porque vou ficar agarradinha em seu corpo maravilhoso. Joseph acelera o monstrengo, que pesa mais de duzentos quilos, testando os comandos. Ergue o pesinho, solta a embreagem devagar e ganhamos as ruas de Belém. O impacto do vento é mínimo porque tenho meu anjo como escudo, mas para ele não deve ser muito também por causa do para-brisa. Estamos usando capacetes emprestados da loja, o que nos atrapalham a conversar, então apenas sentimos a máquina rugindo entre nossas pernas e a brisa que a velocidade proporciona. Joseph precisa reduzir a marcha para fazer a curva e, com uma confiança espetacular, inclina a moto para dentro, deitando o próprio corpo e me levando consigo. Viramos a esquina com tanta suavidade que nem parece que estamos em cima de uma mil cilindradas. Joseph não abusa da boa vontade da concessionária e volta logo para o endereço. Salta da motocicleta, depois de desligá-la, tirando o capacete, sorrindo feito um menino feliz e sem fôlego.

— Nuss, isso foi incrível, Pauline! — Ele me abraça apertado, me erguendo do chão. — Obrigado! Rio alto de sua empolgação. — Ora, Joseph, se você curtiu tanto, fique com ela. É meu presente pra você. Ele me põe no chão e entorta a boca, pensativo. — Mas como é que a gente vai levá-la para Manaus? Olha a preocupação do menino! Ele não sabe que existem aviões de carga? Mas tenho outros planos para essa BMW. — Que tal colocarmos essa máquina na estrada de uma vez? Afinal, está zero bala, pronta para ganhar velocidade e comer poeira! Uhul! — grito, e os consultores e clientes ao nosso redor dão risadas. — Vamos para Manaus de moto, em uma aventura radical pela Amazônia — emendo, anunciando a ideia que tive para usufruirmos de sua novíssima aquisição. — Imagina, cruzarmos a floresta selvagem em cima da motocicleta? Não vai ter pra ninguém, anjo! — Aqui na loja tem tudo o que vocês vão precisar para a viagem, como itens de segurança e acessórios —

diz um dos vendedores, em total apoio à minha aventura. Estou bem na fita, meu! — Eu não sei — retruca Joseph, mas percebo a vontade lutando contra sua mania de negar a tudo. — A gente nem conhece as condições da estrada. — São cerca de três mil quilômetros até Manaus, se forem pela Transamazônica. Mesmo sendo uma rodovia praticamente de terra, cheia de pontes de madeira e sem sinalização, se vocês procuram uma aventura radical, esse é o melhor caminho — se mete um senhor bonito, na casa dos quarenta anos, que parece cliente. — O senhor conhece bem? — pergunto, esperançosa. Quem sabe, com uma boa orientação, Joseph não é convencido a se arriscar nessa jornada insana? — Sim, fiz essa viagem com meu filho quando ele completou vinte anos. Nossa! Esse senhor tem um filho de vinte anos? Caraca! Fico espantada, ele parece jovem. — Então, Joseph, o que me diz? — insisto, olhando para meu amigo. — Ele pode nos ajudar com o roteiro e eu fico de co-piloto, com GPS, mapa impresso,

controlando comida e água, o que você quiser para aceitar. — Faço aquela cara de pidona. Ele nunca resiste a ela. — Por favor, Joseph, diz que sim, por favor, por favor, por favor. Mal sabe meu anjo que eu imploro com e por todo o amor que sinto. Também sei que ele quer, posso ver seus olhos cheios de ansiedade de cair na estrada. — Tudo bem, mas se for muito caro, posso escolher outro modelo... — Ah! — Eu o interrompo e pulo em seu pescoço, grudando e beijando sua boca com um selinho. — Desencana, eu que vou pagar! Você não sabe o que significa “presente”, seu bobinho? — Mas você está gastando demais e eu posso comprar, já que amo motos e... Boto um dedo sobre seus lábios, calando-o. — Shh! Eu quero te dar, Joseph. Não me faça ter que implorar por isso também. — Afasto-me, sorrindo, andando até uma mesa para fechar o negócio. — Só vou precisar de seus documentos, porque é claro que a moto vai ficar no seu nome. Enquanto eu cuido da burocracia,

troca uma ideia com esse moço muito gentil que pode nos dar informações importantes para a viagem. Os consultores são superatenciosos e tentam fazer tudo o mais rápido possível para podermos começar nossa viagem logo. Estou ansiosa! Pago por tudo — a moto não custa nem cem mil reais, uma pechincha! —, inclusive pelos assessórios esportivos que precisaremos, como roupas de motoqueiros, capacetes e cases de transporte. Joseph parece preocupado quando me entrega seus documentos para liberação da motocicleta. — O que foi, anjo? — questiono, cabreira. Só faltava ele arranjar uma desculpa para dar pra trás agora. A gente estava indo muito bem nas doideiras. Até a droga, que quase o levou pra cadeia, ele ia experimentar! — Viajar, assim, sem planejamento, sem conhecer essas bandas e sem suporte algum, é muita loucura, Pauline. O camarada ali falou que levaremos dias para chegar. Ótimo!, penso. — E é por isso que vamos fazer, oras! — rebato, firmemente. — Ou você quer que nossa aventura pelo

Brasil acabe logo? — Fico imediatamente com receio de que ele esteja cansado de tudo isso e só queira paz e tranquilidade, em algum canto que possa chamar de lar. — Tudo bem, se você está com pressa de chegar a Manaus, eu ligo pro piloto e peço para ele preparar tudo. Daqui para Manaus não são nem duas horas de voo. — Não, não! — ele se apressa em dizer. — Não é nada disso, uai. Eu só estou pensando em nossa segurança e conforto. — Conforto em uma aventura radical? — estranho, rindo. — Joseph, você não... — Não estou preocupado comigo, mas com você. Meu coração dispara de um jeito insano. Suas palavras ecoam como um mantra. — Anjo, eu... — Minha voz falha. Eu aqui, preocupada em agradá-lo, e ele em me agradar. Será que estamos caminhando um em direção ao outro o tempo todo e só agora que eu me toquei disso? — Se eu estiver contigo, ficarei bem, não importa se em um quartinho sem móveis ou na garupa de uma moto, engolindo terra e ficando com a bunda quadrada.

Ele ri, acariciando minha bochecha com delicadeza. — Eu já disse que você é doida, mas que eu gosto de você mesmo assim? — Já — respondo, rindo, feliz da vida. — Então, vamos criar um roteiro para começar logo essa aventura. — Iupe! — grito, enlaçando-lhe pelo pescoço outra vez e lhe tascando um beijão na boca, que desencadeia “vivas” e palmas à nossa volta. Saímos da concessionária pouco antes do almoço, e o senhor nos oferece a refeição e sua companhia para ajudar a montar o bendito roteiro. Fico muito grata e nos sentamos em um restaurante maravilhoso à beira-mar — quer dizer, à beira-rio, nesse caso. Comemos peixes típicos da Amazônia, como Surubim, Tambaqui e Tucunaré. Sou alertada que teremos que levantar bem cedo todas as manhãs, se quisermos que a viagem renda e para aproveitarmos a luz do dia. Viajar à noite é perigoso, principalmente devido aos buracos e aos bichos, que podem cruzar nosso caminho e causar um acidente. No fim da refeição, o roteiro fica definido, então, vamos atrás de

provisões para levar. Com mochila pronta, contendo roupas limpas e guardada no baú central com chave atrás do carona, as bolsas laterais repletas de comida não perecível, Gatorade, água e um galão de quinze litros reserva de combustível — calculamos que teremos que reabastecer a cada quatrocentos quilômetros percorridos —, nos ensacamos com as roupas de segurança. Dou um último selinho em Joseph, piscando um olho, animada, e colocamos os capacetes. Programamos o GPS do painel da possante com nosso destino do dia. Ele monta na moto, ligando o motor e fazendo-o rugir feito o leão que nele habita, chamando atenção de uma galera que passa. Eu aceno para eles quando somos fotografados — ou filmados, vai saber? Subo atrás, abraçando meu piloto maravilhoso, e ele arranca, devagar, deixando que todo mundo acompanhe a máquina que ronca sob nós. Ouço gritos de “boa viagem” e sorrio por trás da viseira. A região metropolitana de Belém é muito parecida com qualquer outra cidade grande do Brasil, ainda assim,

tem um toque próprio da região, com a exuberância do verde inconfundível do norte do país. Observo tudo enquanto saímos da capital do Pará e Joseph dirige, atento e compenetrado como sempre. Criamos um código para quando precisarmos falar e outro para pararmos. A estrada está movimentada a essa hora da tarde, mas com a moto, a gente consegue encontrar passagem entre os carros, até que o trânsito fica para trás. Sinto meu corpo dar um tranco para frente quando Joseph faz o motor ganhar ainda mais vida e o barulho do vento contra o capacete aumenta consideravelmente. Meu anjo começa a gargalhar forte, sinto as vibrações de suas costas grudadas no meu peito e, sem poder me conter, rio com ele, nem sei de quê. Acho que é só felicidade. Joseph está experimentando um nível de liberdade que lhe faz bem. Todo mundo tem o direito de ter tudo o que quiser, dentro dos tais limites que minha mãe me explicou. — Estamos voando, Pauline! — Sinto, mais do que escuto, Joseph berrar. Como ele está contra o vento forte, o som das letras acaba chegando aos meus ouvidos e fazem algum sentido. Tenho vontade de abrir os braços,

igual ao filme “Titanic”, no entanto, como sou muito magrela, tenho medo de “voar” de verdade. Prefiro ficar no figurativo mesmo. — CHUUUPAAA, MUNDOOO! Espanto-me quando Joseph prolonga as vogais, como se lutasse contra o barulho ensurdecedor em seu próprio ouvido. Ai, meu Deus! Caio na risada, me esfregando contra ele. Não acredito que gritou o jargão que me tornou famosa! A gente ri até que a risada morra. Em algum momento, ele solta o guidão e aperta minha mão, que repousa em seu peito. Não sei exatamente o que quer me dizer com o gesto, então traduzo como um agradecimento pelo presente que lhe dei. A emoção é tanta, dentro de mim, que lágrimas chegam a queimar minha retina. Essa sensibilidade exacerbada ainda vai entregar o que sinto, antes que eu possa lhe dizer. Joseph é um bom piloto, enfrentando, com maturidade, as curvas e as subidas da rodovia de mão simples. Seu cuidado garante que desvie de qualquer obstáculo ou depressões no asfalto mal cuidado, e sua direção defensiva nos poupa de sustos devido a alguma mão cortada que surge. Há muitos caminhões, longos e

pesados, carregando toras gigantescas de madeira e, em alguns trechos, eles atrapalham completamente o fluxo. Como nem um de nós dois pede para parar, conseguimos seguir adiante até a primeira parada obrigatória a fim de abastecer, fazer um lanchinho, tomar uma água e usar o banheiro. Minhas pernas precisavam esticar, mas falta pouco para o destino do dia. A mata ao redor da pista é alta, como uma floresta sem fim. A distância entre uma cidade e outra é enorme. Passamos um tempão sem ver civilização à beira da estrada. Está anoitecendo quando chegamos à represa de Tucuruí, onde existem algumas cidades ribeirinhas. As luzes da hidrelétrica, que nunca para, se destacam na semiescuridão de um lado da estrada e, do outro, seguimos às margens do grande lago. Cruzamos o rio Tocantins por cima de uma extensa ponte, que nos leva para dentro de uma vila de pescadores. Então, voltamos para a rodovia e percorremos os últimos quilômetros até Novo Repartimento. Já é noite densa quando paramos em frente ao hotel simples. Estamos cobertos de poeira, cansados e com

fome, por isso pedimos comida no quarto e, enquanto aguardamos, tomamos um banho quente... juntos. Joseph insiste, sem malícia alguma. Ele me diz tantos “obrigados” que me faz rir pela vida inteira. Que lindinho, meu anjo! Salpica meu corpo todo de beijos inocentes, como se me adorasse com sua boca. Eu me sinto tonta de tanta alegria. Não devia dar corda para tamanha ilusão, mas não é errado apreciar quando alguém gosta de você, não é mesmo? Sinto um nó na garganta e o bendito “eu te amo, Joseph, namora comigo?” quase sai. — Eu já falei que você é a melhor companheira de viagem? — diz, cortando meus pensamentos românticos. — Já! — respondo, rindo de montão. Seus beijos se intensificam, mas Joseph não avança o sinal, respeitando a minha condição. Ele começa a me lavar e eu o imito. Quando percebemos, estamos tão envolvidos e sedentos um do outro que simplesmente nos limpamos e nos beijamos ao mesmo tempo. Joseph sorri para mim, silenciosamente, enquanto o ensaboo. Eu fico de olhos fechados na minha vez, curtindo, com a preguicinha que o cansaço das longas horas de estrada me

deram. Terminamos o banho aos beijos. Nus — eu uso absorvente interno —, limpos e frescos, nos enroscamos na cama e dormimos de conchinha rapidamente. Deixamos a “Princesinha da Transamazônica” pouco depois do amanhecer, alimentados e reabastecidos de provisões para a longa viagem do segundo dia. Essa promete ser um pouco mais tediosa. A BR-230 começa exatamente na saída de Novo Repartimento, mudando nossa direção para a divisa com o Amazonas. Há algumas cidades à beira da estrada e paramos em algumas no decorrer da manhã, para esticarmos as pernas, comermos alguma coisa e irmos ao banheiro. O grande momento é quando chegamos à balsa sobre o rio Xingú, onde existe outra hidrelétrica. Tem várias cidadezinhas nessa região por causa das águas que as banham, por isso avançamos bem providos, alimentados e saciados de todas as necessidades fisiológicas. Para minha total surpresa, cruzamos com um cenário tão perfeitamente selvagem que a feiúra da estrada, aberta no meio dessa maravilhosa obra de Deus, parece uma cicatriz. O verde é muito vivo, multicolorido em semitons

de si mesmo. Perco o fôlego e acabo fazendo sinal para que Joseph pare. Tiramos várias selfies, imundos mesmo, para dar veracidade à aventura. Ao tentar postar, me dou conta de que não tem sinal, mas vou fazê-lo à noite, do hotel em Itaituba. Prosseguimos, e eu rio quando passamos por uma cidade chamada Divinópolis, e me lembro que existe uma em Minas também. Cutuco o piloto e aponto para a placa. Ele acena com a cabeça, faz um joia com os dedos protegidos nas luvas grossas e segue em frente. Pensar em Minas Gerais me faz recordar a terrinha natal de Joseph, de onde eu o arranquei quase à força, se não fosse a própria vontade dele de fazer alguma coisa diferente. A decisão de pedir para que tenha um compromisso comigo só se firma. Ele não quer voltar para lá e eu também não quero que ele volte. Brasília é o centro, literal, do Brasil. Acredito que seja um campo neutro para nós dois vivermos uma vida nova após essa viagem. Como eu posso retornar para uma existência vazia no sul do país, se encontrei meu lugar ao lado dele? Onde ele não estiver não haverá motivo para eu estar, nem

mesmo no Distrito Federal. Mas lá ainda será melhor do que São Paulo ou Itaú de Minas. Pelo menos me restarão a nossa casa, as lembranças ali vividas e seu perfume impregnado em tudo. Uma placa surge e eu consigo ler por causa da iluminação dos potentes faróis da motocicleta. Rio Tapajós. Olha ele aqui de novo! Mesmo sendo noite, fico ansiosa para ver como vai ser por aqui. Temos que cruzar outra cidadezinha para alcançar uma ponte de madeira comprida. No entanto, como eu já vi a exuberância do Tapajós na região conhecida como Caribe Amazônico, me decepciono com o que vislumbro. Neste trecho, o imenso rio não tem a mesma majestade que em Alter do Chão, onde nadei com Joseph. A ponte geme sob o peso da BMW. O medo faz a adrenalina subir de montão. Cara, essa moto é pesada! A madeira tremelica toda, assim como meus batimentos cardíacos. Começo a rir assim que voltamos ao chão de terra vermelha e batida, que levanta uma poeira que só vendo. Ainda bem que Joseph só é alérgico a mofo. Na entrada da cidade, descubro que Itaituba tem até

shopping. Fico tentada a parar por puro hábito, mas desisto devido ao cansaço. Por mais delicioso que seja ficar na garupa de Joseph, sobre essa moto relativamente confortável, ainda me sinto exausta. A rotina de comer e dormir, quase imediatamente que a gente chega, se estabelece rápido. Eu desmaio com tanta rapidez que me esqueço completamente do celular, em um bolso da mochila. Acordamos antes do amanhecer e partimos para o terceiro e mais extenso dia de viagem, muito mais carregados do que no primeiro, porque estamos repondo um estoque que não utilizamos todo, mas como ainda cabe coisa, não faz mal irmos lotados. Melhor do que faltar algo no fim do percurso. Seguimos o Tapajós por uns bons quilômetros, parando nas vilazinhas quando há necessidade. Em Roque, descobrimos que estamos na divisa dos estados. Continuamos adiante, entrando definitivamente no Amazonas, e não percebo diferença nenhuma, até que o rio Tapajós começa a se distanciar em uma longa curva à esquerda, e uma placa anuncia que faltam poucos

quilômetros até o Parque Nacional do Jurucena. De repente, um matagal fechado lança sombras longas sobre a estrada de terra, que possui trechos melhores. O clima, enquanto cruzamos a reserva, muda drasticamente, fica até mais fresco, o ar mais puro, o verde mais vivo e menos sentido com a ousadia do homem em destruir a floresta somente para poder passar, como se fosse o dono do mundo. Tudo bem que, se não fossem as estradas e as ferrovias, o transporte fluvial e aéreo não seriam o bastante para levar desenvolvimento para essa região do Brasil. Mas que dá um dó, dá! Observo as belezas naturais, que parecem nos abraçar, mesmo que não mereçamos, lutando bravamente para permanecerem vivas e intactas. Meus olhos marejam e, dessa vez, não consigo conter uma lágrima, que simplesmente desliza por meu rosto sob o capacete, como se fosse milagrosa e pudesse curar essa terra que sofre desmatamento desmedido. Destruir a natureza é como apunhalar a própria mãe, que nos alimenta com seu seio para que nós possamos crescer fortes e saudáveis.

É com essa sensação de aperto no meu coração que sigo o restante da viagem deste dia, depois da travessia pelo parque. Como Joseph quer percorrer os mil quilômetros até Humaitá, paramos o estritamente necessário e com rapidez. Meu peito se aquece de encontro ao calor de seu corpo, mas a tristeza aumenta porque eu me lembro que até esse aconchego vou perder em breve. Eu me aperto mais contra ele, tentando fazê-lo se fundir a mim para eu não ter que me separar dele nunca. Essa palavra já se tornou cansativa na minha vida, principalmente depois que conheci Joseph. Eu sou a garota do sempre. Opa! Então minha ficha cai e descubro que não era, não. Por mais que topasse tudo, eu nunca fui a mulher que ficava, que permanecia, que criava raízes em algum lugar ou com alguém. Como eu posso esperar que meu anjo, o cara que nunca saiu de Minas antes de me conhecer e ganhar na Hiper-Sena, poderia querer ficar comigo se eu não der certezas a ele? Meu objetivo de fazer o tão almejado pedido no monte Roraima apenas se confirma. Eu preciso fazer isso! É questão de vida ou morte!

Não, não é estranho eu me apaixonar pelo belo, novo e diferente. O esquisito é sentir saudade antes mesmo de perder. Cara, eu nunca senti saudade de nada nem de ninguém. Falta, sim, mas saudades... Dessas que espremem o coração da gente toda vez que uma lembrança salta da memória e que dá uma vontade doida de chorar, não, eu nunca senti. Amo meus pais, mas eles estão ao meu alcance. Toda vez que precisar deles, é só correr e me atirar em seus braços e serei recebida com carinho. Outro parque se anuncia, mas a gente não passa pelo meio dele. A placa indicativa aponta para a esquerda: Parque Nacional dos Campos Amazônicos. Nome pomposo! Na cidadezinha pela qual passamos depois da primeira reserva e antes dessa, perguntaram se a gente tinha visto onça. Eu me benzi. Sério! Deus me livre! Acho que o Joseph está virando uma influência forte nos meus modos. Até senti vontade de soltar um “sô” no fim da frase. Só quando anoitece chegamos à margem do rio Madeira. Embarcamos na balsa e desmontamos da moto para esticar as pernas. Arranco o capacete e me alongo

toda, ouvindo algumas juntas estalarem. Minha cara não está das melhores, como sinto, e Joseph acaba percebendo. — Você está bem, linda menina, ou só cansada? Faço uma careta, porque estou mexida igual ovo frito. — Exausta, para falar a verdade, mas bem. E você? Quero que ele desvie o foco de mim. — Muito cansado também. Acredita que meus braços doem um pouco por causa do peso da moto? Caio na gargalhada. Eu imagino que não seja fácil erguê-la do pesinho, mesmo que a inclinação seja tão pequena. Faça isso umas oito vezes por dia para você ver. Fora que ele acaba tensionando os músculos das costas e dos braços por passar tanto tempo na mesma posição, com as mãos sobre o guidão. — No hotel, vou fazer uma massagem para aliviar sua tensão, anjo. Seu olhar sobre mim é quente e afasta qualquer pensamento triste que eu tive durante o dia. Seus óculos escorregam até a ponta do nariz, provavelmente pelo suor impregnado em sua pele, e ele continua me encarando por

sobre o aro, no maior estilo “raio-x do Superman”. — Eu aceito apenas se puder retribuir seu gesto. O sorriso que me lança é capaz de derreter as geleiras do polo norte. Benzadeus! Fico ansiosa para sair da merda dessa balsa e me meter entre quatro paredes com meu anjo no modo safado, tudo de bom ponto com. De volta sobre duas rodas, continuamos na rodovia Transamazônica que atravessa Humaitá ao meio e paramos na região central, no primeiro hotel que avistamos. O lugar é bonzinho, mas não me interessa muito. Levamos as mochilas para o quarto, tomamos banho aos beijos e amassos, como sempre, mas também com muito carinho, já que sexo não é o propósito, por mais safadinhos que estejamos. Vamos para a cama nus, de novo, e pego meu creme de corpo com óleos de amêndoa para hidratar e escorregar bem as palmas das mãos. Mando Joseph deitar na cama de barriga para baixo. Começo a massagem pelos ombros, que relaxam conforme vou alisando sua pele, depois desço ao longo da coluna e termino nos braços. Uma hora ele para de gemer e dizer que está “bom demais

da conta”, e acho que dormiu. Eu me inclino e beijo seu rosto. — Boa noite, anjo — sussurro para não acordá-lo. — Por quê, já vai dormir, linda menina? Levo um susto tão grande que dou um salto da cama e quase caio no chão. Puta merda! Seus olhos incríveis se abrem para mim, assim como seu lindo sorriso e, quando se vira de frente, vejo seu pau meia bomba. Caramba, meu toque inocente o deixou excitado? Engulo em seco, porém fico na vontade de engolir porra. — Joseph, não faz isso! Você ainda vai me matar do coração, menino! Ele pula sobre mim, fazendo eu me esparramar na cama de casal. Seu corpo me cobre e seu pênis ereto cresce e me cutuca. — Não fuja que agora é minha vez de tocar em você. Fico de bruços e suas mãos mágicas me levam a um estado de dormência plena. Os movimentos são suaves e deliciosos. Ele me alisa inteirinha. Minha mente divaga tanto que penso estar sonhando quando o ouço dizer, com uma voz carregada de sensualidade:

— Nuss... A cada dia você fica mais linda, menina veneno. Como não tenho certeza de nada, simplesmente desmaio e só desperto ao som do despertador, no outro dia. Joseph sai do quarto me acelerando, a ponto de eu esquecer de novo do meu celular. Deixo para lá minhas redes sociais — três dias off e as notificações serão impossíveis de verificar! —, assim que eu me lembro disso alguns quilômetros à frente, quando a Transamazônica acaba e entramos na BR-319, conhecida como rodovia fantasma. Essa estrada também é uma mistura de terra, asfalto esburacado e uma porção de pontes de madeiras que tremem quando a BMW ronca sobre elas. O destaque do último dia de viagem vai para a ausência de qualquer civilização em praticamente todo o trajeto. Matas virgens, rios caudalosos, aves silvestres são a exuberância da rodovia decadente, mas população, definitivamente, não é o forte desse pedaço de Brasil no Amazonas. Algumas antenas e fios de eletricidade denunciam que há gente em algum lugar onde nossos olhos

não alcançam. Pela primeira vez, temos que usar o tanque reserva para abastecer a motocicleta. Mas, após pegarmos mais uma balsa, entre Igapu e Açu, encontramos uma pousadinha modesta, que também é restaurante, e comemos bem. Nos últimos trezentos quilômetros até Manaus somos agraciados por um pôr do sol tão incrível que faz eu me lembrar do início dessa viagem, em Veadeiros. Tanta coisa aconteceu em tão pouco tempo, mas eu me sinto revigorada com cada metro que percorremos em busca das maravilhas do Brasil. A minha sorte foi descobrir o cara incrível que Joseph é e poder partilhar esses momentos inesquecíveis com ele. Meu abraço tem gostinho de quero mais quando o aperto contra mim, sorrindo, como devia ter feito ontem. Margeamos o Parque Estadual Matupiri antes de chegarmos a Careiro, onde precisamos atravessar de balsa novamente. Para minha felicidade, cruzamos o rio Solimões e depois o Negro, exatamente no ponto no qual eles se encontram para formar o imenso Amazonas. Que momento perfeito! Só pode ter sido orquestrado pelo

Divino. Agarro o braço de Joseph e sacudo com força. — Você está vendo isso, Joseph? — Estou, Pauline, e nem acredito! — Nem eu, nem eu! As águas escuras do Rio Negro simplesmente não se misturam com as barrentas do Solimões. Como pode, meu Deus? Como? Eles simplesmente seguem, lado a lado, coexistindo pacificamente. Que coisa mais linda! Pego meu celular e registro muitas fotinhas e selfies, porque em Manaus eu juro que vou postar tudinho! É noite alta quando, finalmente, avistamos as luzes da cidade. Até que enfim! A rodovia fantasma morre em uma rotatória. O GPS nos manda seguir em frente até o centro urbano e diz, em sua voz mecânica e engraçada: — Você chegou ao seu destino. Mas eu acho que ele deveria ter dito: “você chegou ao fim de sua aventura radical!”. E ainda ter gritado um “uhul” no fim, como eu estou fazendo agora.

Capítulo 39

Joseph

Manaus, Amazonas Cada curva, cada ponte, cada minuto em que estive com os braços de Pauline me envolvendo, cada quilômetro rodado valeu a pena. Era de se esperar que, no fim dessa aventura, eu nunca mais quisesse pilotar uma moto na vida, mas não é este o meu sentimento. Estou satisfeito, empolgado e extremamente realizado. O cansaço está impregnado em mim, bem como as dores na coluna e nos braços, mas não estou ligando para isso neste momento. Percorro as ruas de Manaus, uma cidade enorme no coração da maior floresta tropical do mundo, a Amazônia. Tenho tanto orgulho de cada pedacinho desse país que essa admiração quase não cabe no meu peito.

— Preciso de uma semana estirado em uma cama! — berro para Pauline enquanto dirijo até um hotel luxuoso que ela escolheu para nós. Precisamos de descanso e conforto depois de quatro dias de loucura. Escuto seu riso despretensioso e me animo consideravelmente. Passar uma semana em cima de uma cama não seria nada mal, claro, se ela estiver comigo. Além de prolongarmos a viagem, ainda terei tempo suficiente para mimá-la, acarinhá-la e, quem sabe, convencê-la de que eu posso ser muito mais que um simples amigo. A estrada me fez pensar muito no assunto. Para ser sincero, pensei de tudo um pouco, porém nada consegue tomar a minha mente mais do que essa mulher. Depois de passar a vida toda sem ter coragem para nada, sinto que preciso tomar uma atitude. Mas, qual? Não posso dizer adeus a Pauline sem confessar, de verdade, tudo o que sinto. É loucura fingir que nada está acontecendo só porque não acho que ela queira se prender a mim, ou a qualquer pessoa. Morro de medo de levar um “não” estrondoso, mas foi ela que me ensinou a ter coragem para enfrentar os obstáculos da

vida. Preciso dessa força para fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Quero que seja um instante perfeito e que, independente de sua resposta, ela se sinta amada e acolhida. Não posso arriscar perder sua amizade, portanto precisa ser um momento muito claro, sem espaço para desentendimentos. Difícil vai ser não gaguejar e me fazer ser entendido. Pauline é tão intensa que é capaz de não me deixar terminar de falar. Estaciono a moto em um local apropriado, localizado na entrada do hotel, e realizamos nossa reserva. Antes de qualquer coisa, tomamos mais um banho juntos, no amplo banheiro da suíte. Deixamos todas as impurezas de nossos corpos se esvaírem pelo ralo, bem como parte do cansaço, enquanto nos beijamos suavemente, sem pressa nem afobação. Beijo tanto a pele macia de Pauline que sinto a minha boca meio dormente, mas não me canso. A paixão pulsa dentro de mim de forma que é impossível me conter. Eu me pergunto se ela sente, ou se vê em meus olhos vidrados, todo esse amor que só faz crescer. As raízes desse sentimento se aprofundam a cada segundo e me

fazem ter certeza de que estou seguindo um caminho sem volta. Não me importo, continuarei seguindo sem olhar para trás. Afinal, não conheço ninguém que mereça tanto amor quanto Pauline. Eu vou lhe dar tudo o que puder oferecer, até alcançar o meu limite, para depois ultrapassá-lo. E, quando alguém me perguntar se eu a amo, vou poder responder: com todas as minhas forças, até o meu último suspiro. Pauline tem a ideia de pedir ao serviço de lavanderia do hotel que dê um jeito nas nossas roupas sujas, incluindo as especiais para motociclismo. Estão todas cheias de barro e com um cheiro suspeito. A moto também está em péssimas condições, por isso a levarei a um lavajato quando acordar. Por hora, só penso em comer alguma coisa e ir dormir. Pauline também está bem cansada, então pedimos o jantar no quarto mesmo. Enquanto ele não chega, como as balas de doce de leite e cupuaçu que estão sobre um móvel. Eu me considero viciado nelas, já me preparando para pedir a reposição do estoque. Deve ter um mercado por perto que venda essa iguaria. Vou leválas comigo quando deixarmos o norte, com certeza. O que

é bom tem que ser experimentado de novo, e de novo. Por falar no que é bom, quase não me aguento de vontade de fazer amor com Pauline mais uma vez. Sei que ela não se sente confortável em transar menstruada, e por este motivo a respeitei profundamente, mas confesso que é muito difícil controlar a excitação. É até engraçado pensar nisso, pois passei vinte e seis anos me controlando e não senti nem metade do desespero que sinto agora. Tudo bem que antes eu não fazia ideia do que estava perdendo. Ainda assim, não deixa de ser engraçado e um pouco espantoso. — O que é isso que você pediu? — pergunto quando nos sentamos ao redor da pequena mesa e abrimos as bandejas contendo o jantar que acabou de ser trazido. O cheiro está ótimo, mas não consigo descobrir do que se trata. — Moqueca de tucunaré, arroz, farofa... — Pauline aponta para cada item no prato, toda animada. — Molho vinagrete, banana à milanesa e... — Indica uma sobremesa bonita, montada em duas taças charmosas. — Mousse de cupuaçu com calda de açaí.

— Isso parece ser bom demais da conta! — Isso é bom demais da conta, sô, pode apostar! — Ela brinca com o meu sotaque e pega os talheres, mal podendo esperar para começar a apreciar essas delícias. — Estamos em Manaus, os sabores daqui são marcantes e diferentes de tudo o que já vimos! Imagina só o que a influência da Amazônia pode oferecer ao paladar? — Tem razão, deve ter coisas que nem sabemos o que é e com nomes estranhos. — Resolvo não me demorar e encho o meu garfo com um pouco de tudo. O alimento derrete na minha boca e eu me contorço. — Que delícia! — Muito gostoso! — Pauline exalta, depois me olha com malícia. — Só não é mais gostoso que você, anjo. Eu sorrio, me sentindo corar um pouquinho. Que droga, depois de tantas coisas, essa mulher ainda consegue me deixar envergonhado desse jeito? Definitivamente, não sei qual é o meu problema. Jamais fui tão íntimo a alguém como sou a Pauline, em todos os sentidos. Não quero que esse meu jeito a afaste de mim, por isso faço o maior esforço para entrar na onda: — Vem experimentar, então. — Acabo corando ainda

mais. — Joseph Ayres, você está me fazendo propostas indecentes? — Bem indecentes — murmuro, lambendo os lábios. Ela me observa fixamente e eu decido acabar logo com isso. — Estou brincando, linda menina, vamos comer. — Ela continua me olhando do mesmo jeito, mas eu tento ignorar e volto a saborear o jantar. Acho que Pauline desiste também, pois começa a comer com a mesma empolgação que eu. Minha barriga fica cheia e pesada, principalmente depois da deliciosa sobremesa. Eu me deito na cama e Pauline vem junto, parecendo uma gata de tanto que se esfrega em mim. Fico excitadíssimo com sua proximidade, mas tento me controlar e, principalmente, fazê-la não perceber que estou tão maluco de tesão. Mas é claro que não consigo, por isso ela passa a me massagear entre as pernas, atiçando-me. — Pauline, acabei de comer pra caramba. Se eu for usar isso aí agora, vou ter um ataque cardíaco — aviso, em tom de brincadeira, e ela gargalha do jeito lindo como

sempre faz. Eu a impeço de continuar me tocando, envolvendo meus braços ao redor de seu corpo. Aconchego-nos entre os lençóis e adormeço antes que ela invente de pagar para ver se meu coração aguenta ou não. No entanto, sinto uma coisa esquisita subindo pelo meu ventre e acordo de repente. O quarto ainda está meio escuro, embora deva estar perto de amanhecer, como constato ao olhar para a janela coberta por uma cortina esvoaçante. Identifico o que acontece ao abaixar os meus olhos e ver Pauline alisando minha mais recente ereção, que tive enquanto dormia. Procuro pelo seu olhar e o encontro brilhando, vidrado em mim. — O que está fazendo, maluca? — murmuro baixo, com a voz meio rouca pelo sono. Meu membro vibra com um novo movimento e me contorço um pouquinho. Estou muito excitado, porém sei que posso crescer mais que isso. Pauline deve saber também, porque não para de me tocar com precisão. — Pauline? — Acordei para fazer xixi e percebi que a porcaria da menstruação foi embora — finalmente me responde. —

Voltei e vi o seu pau duro. Não resisti. Com o quê estava sonhando, anjo? — Com a sua boceta — falo sem querer, no impulso, creio que tomado pelo sono. A vergonha me acomete enquanto Pauline solta um risinho delicioso. Acho que nunca falei essa palavra em voz alta em toda a minha vida. — Você falou “boceta”. Que lindo! — Ela me larga e prostra seu corpo nu sobre o meu, abrindo as pernas ao meu redor. Agarro seus seios e os massageio. — Fala mais coisas desse tipo, vai... — Usa uma voz sensual que me faz estremecer. Minha vergonha se intensifica. Fico sem saber o que dizer. — Hum... Eu... — Vai, Joseph... — Pauline rebola sobre mim e eu prendo os lábios. — Eu acho que... não sei fazer isso direito. — Fale o que quer fazer com minha boceta. Vamos... Fale com toda sinceridade do mundo. — Ela me dá a dica, sem parar de rebolar. Tenho o vislumbre do seu corpo inteiro ao meu dispor, e me sinto sem ar.

— Eu quero... Quero foder a sua boceta — falo timidamente. — E o quê mais? — Ela se inclina e me lambe os lábios. Depois, passa a me lamber inteiro, a curva do pescoço, a orelha e meus peitos. Eu me deixo levar pelas sensações loucas que me invadem. — Quero afundar meu pau na sua boceta e te fazer gritar bem alto... — murmuro, sem acreditar que estou falando isso. — Quero te sentir... bem molhada, gozando no meu pau. — Continue, anjo... — Ela se contorce e prossegue com o banho de língua, toda afoita. — Eu quero chupar sua boceta, sentir seu gosto e beber seu gozo, Pauline. Quero que grite o meu nome enquanto goza — falo, sentindo o meu coração preso e o estômago em frangalhos. Estou envergonhado, é verdade, mas muito louco de tesão também com minha próprias palavras. Elas abrem portas enormes para minha imaginação. — Quero meter fundo em você... Em todos os lugares. Na sua boca, na sua boceta e no seu rabo. — Que delícia, meu anjo... — Pauline se ergue e

revira os olhos, exagerando na lentidão de sua rebolada. Vai descendo aos poucos, como se escorresse entre meus dedos, e só para quando seu rosto está na altura da minha ereção. — Quer foder a minha boca, quer? Ela ainda pergunta? Resolvo lhe responder prendendo seus cabelos em uma mão, como se fosse uma rédea. Seguro o talo do meu membro e me empurro para dentro de sua boca. Ela não pestaneja e me abocanha de uma só vez, fazendo-me sentir uma das melhores sensações que existem neste mundo. Eu grunho e gemo, contorcendo-me diante de seu desempenho. Ela me suga e lambe, tomando-me como um sorvete de um sabor que parece lhe agradar muito. Balanço meus quadris devagar, depois acelero, nervoso e angustiado, literalmente fodendo a sua boca. — Quero sentir sua garganta na cabeça do meu pau! — rosno, e ela se aprofunda até seus lábios quase alcançarem o talo. Sinto-a profundamente e tenho um espasmo poderoso, que só não me leva a um êxtase porque a afasto depressa. Com a respiração ofegante, eu me levanto e a

empurro para a cama, fazendo-a cair deitada com a barriga para baixo. A cena é tão linda que não deixo que se vire. Eu me inclino e agarro suas nádegas com força, depois simplesmente enfio o meu rosto entre elas. Pauline solta um gemido alto, desesperado, demonstrando um prazer insuportável. Faço-a se ajoelhar diante de mim, para facilitar o meu acesso, e continuo a chupando sem pausas, explorando as duas aberturas que, neste momento, considero minhas, somente minhas. Pauline expele tanto líquido que eu fico todo lambuzado em segundos. Acho que até na minha testa tem seu lubrificante natural, no entanto, não paro, disposto a lhe dar um orgasmo assim mesmo. Enfio a ponta de um dedo em seu traseiro e aperto, fazendo-a gritar mais uma vez. Minha língua encontra seu ponto mais sensível e lá permanece. Travo seus espasmos como posso, sem permitir que saia da posição ou que ela me afaste. Pauline geme tanto e tão alto que tenho quase certeza de que os outros clientes do hotel podem ouvi-la. Seu clímax vem de repente, em uma explosão louca que a faz tremelicar absurdamente.

Eu não dou tempo para pausas, estou agitado, mais acordado do que nunca, a fim de tudo. Fico de joelhos e me enfio entre suas pernas. Meu membro escorrega fácil em seu sexo úmido, recém-lubrificado pelo orgasmo intenso. Seguro seus quadris com força e me agito. Essa posição pouco foi explorada por nós, por isso me aproveito dela ao máximo. Tenho uma visão privilegiada do meu membro entrando e saindo de sua vagina, somando visão ao tato e aumentando consideravelmente meu nível de excitação. Nossos corpos se chocam com tanta força que provocam um barulho ens